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Catarina, por quem sois?

Esta pergunta perseguiu-me toda a semana antes de te conhecer. A amiga que nos apresentou avisou-me com alguma antecedência que iria conhecer uma Catarina. Ela conhecia as minhas experiências passadas e tentou acalmar-me dizendo-me o teu nome. Há muito tempo que não convivia com uma Catarina e por isso tinha muitos receios do que poderia esperar. Não que as Catarinas que conheci antes fossem problemáticas ou que me tivessem dado má impressão, mas digamos antes que as credenciais que me deixaram não eram muito positivas. 

Não acreditas? 

Vejamos, a última Catarina com quem convivi a sério era possuída por uma depressão cada noite que estávamos juntos. E não, por uma vez não era eu que a punha naquele estado. Era ela Ofélia e eu o espírito do rei condenado a vaguear pelas muralhas frias de Helsingør. Em desespero, ela subia a uma árvore de onde mergulhava para a sua morte no leito do rio. Noite após noite tive de carregá-la para o Outro Lado para apaziguar a sua alma e deixar a água correr. Sim, era num palco e sim, era a fingir. Não ajudou.

A outra Catarina, era muito mais poderosa e de outra categoria. Categoria 5 disseram-me. Tinha o poder de arrancar árvores pela raiz e de levantar casas inteiras deixando um rasto de desespero e destruição à sua passagem. Assustava tanto de longe como de perto. Esta Catarina, ou Katrina como ficou conhecida, deu-me um baile nos céus da costa florida. Atirou-me em todas as direções e pôs-me a voar de pernas para o ar. Foi única, mas também não contribuiu para a minha experiência com Catarinas. 

Lembrei-me ainda de outra Catarina, cuja história só conheci recentemente que, com o seu charme ensinou todo um império a parar às cinco da tarde para saborear folhas secas diluídas em água fervida.

Serias tu alguma destas? 

A dúvida angustiou-me até ao dia do nosso primeiro encontro. Chovia a cântaros. Cheguei cedo na esperança de te ver pela janela. Estavas sentada no final da sala do Café com um livro aberto no teu colo. Percebi que teria de atravessar toda a sala para chegar ao teu lado. Entre a porta da rua e a tua mesa não havia obstáculos. Ainda assim imaginei que era um soldado prestes a atravessar um campo minado na esperança de chegar a terra livre. Num campo minado o perigo está no caminho, não no destino. 

Abri a porta e entrei. 

O vento que entrou atrás de mim fez bater a porta com estrondo e levou a que todos olhassem para mim por um momento. Para mim, que pingava por todos os lados enquanto abria o casaco. Confrontei-os, olhos nos olhos, um a um. Arrisquei um passo, mas reparei que não te tinhas virado. Temi que te fosse indiferente. E que tu fosses indiferente à minha entrada. Ou que o livro que lias te levava toda a atenção. Sobraria alguma para mim? 

Dei meia volta, voltei a fechar o casaco e preparei-me para sair e diluir-me na chuva de fora quando senti uma mão que me toca no ombro. 

Eras tu. 

Atravessaste o campo minado para vir ter comigo. Disseste: “Estava à tua espera!”. E os meus receios desapareceram no teu sorriso.    

Por Dário Muhamudo

Nasceu em Moçambique e passados 7 meses foi convidado a sair. Chega a Portugal depois de 10 horas de avião, uma experiência que o marcou e desde então vive com os olhos virados para o céu. No Seixal arriscou um pouco de teatro como ator e dramaturgo. 18 anos depois chega à Guarda, onde inicia a sua formação académica. Descobre a essência e a paixão pelas coisas originais e recomeça a escrever como jornalista. Sai de Portugal para continuar os estudos em Inglaterra e combina os seus interesses maiores: comunicação e economia. A vida trocou-lhe as voltas e continuou fora de Portugal. Gosta de viajar (especialmente para Itália), de vulcões, da imensidão do oceano e da Eurovisão. Cumpriu um dos seus maiores sonhos quando tirou o brevet de piloto. É Economista dos Media, tenta ser diplomata e acredita no poder de uma Serenata. Atualmente pode ser encontrado em Genebra, a cidade a que chama de casa.

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