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Ócio

Ócio.
Oh, se o odeio.

Meu velho amigo,
És bonito no mês de Agosto –
Serias bonito em qualquer altura,
Se não tivesse de vestir estes ossos.

Ócio.
Oh-sim-o meu amigo,
Deita a cabeça no meu colo
Dá-me carne para vestir os ossos –
Ósseo.

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Ensaio

Ensaio sobre ti

Vou tratar-te como um ensaio, porque neste momento não te sei tratar de outra forma. 

Queria tratar-te pelo nome, mas não me é conveniente, e por isso, apenas por isso vou sempre dirigir-me a ti (quando assim for necessário) na segunda pessoa. 

Se tivesse uma lista, um livro com listas de pessoas onde te encaixarias tu? Possivelmente na lista dos cobardes, ou na dos mentirosos, quem sabe ainda a dos instáveis teria o teu nome. Vou decidir colocar-te na dos mentirosos. Por enquanto é lá que te vou encontrar, se assim o quiser. 

Afinal, que custa assumir a tua decisão? A tua posição? A tua vontade? Hoje, surgiu-me, inclusive uma palavra que não costumo proferir, enquanto conduzia, pensava em ti e no quanto literalmente abusaste de mim. 

Esquece, não falo das vezes em que permiti, deliberadamente, que passasses as linhas traçadas pelas posições devidas. Falo das outras em que me querias convencer da tua posição como certa. E sabes? Eu não mordo, a não ser que me seja pedido e que eu queira, portanto, poderias ter sido leal e falar o que dizia o teu coração. Mesmo que eu não gostasse de ouvir. Afinal, foi tudo o que te pedi: que fosses leal. Falasses a verdade. O que te ia no coração. Mesmo que eu não gostasse de ouvir. Isso servia. 

Pergunto-me, agora, que já virei a página. Serias diferente, mais leal, verdadeiro, se as linhas estivessem bem marcadas? Possivelmente, fui eu quem te permitiu abusares de mim. 

Vamos por momentos reescrever os factos e retirar-te da lista dos mentirosos. Passar-te para a lista dos verdadeiros. E assim ouço: 

“Amava fazer parte da tua vida. Mas por enquanto tenho outro caminho a traçar. Que o futuro nos cruze novamente, é o que desejo.”

Ouço, agora, o que gostaria de ter ouvido. E dir-te-ia: no meu livro estás na lista dos que sempre terão a porta aberta. 

Entretanto a porta fechou, terás de perceber se está trancada, encostada, e como poderás voltar a abrir. Se assim o desejares. Porém aviso: há chave mestra e não sei onde anda ela. 

Ensaio meu sobre ti. 

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Ode aos Pés

Acordar e levar comigo,

Acordar, mais um dia 

Eu comigo

A levar comigo

Os meus pés, sempre comigo.

Levantar e pôr-me de pé

Embora, sou eu e eu

O dia todo

Vamos, estou cansada

Deitar.

Calça os meus sapatos,

Agora

Anda com eles

Não têm salto

Calço os teus sapatos

Agora

Ando com eles

Não têm salto

Magoam.

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Apetecia-me um poema

Ainda não me tinha sentado à mesa, já a senhora me estendia o menu. Agarrei-o enquanto me ajeitava na cadeira. Pressionada, apressei-me.

Pode ser um prego, por favor.
Bem passado, mal passado?
Assim assim.
E uma sopinha, para aconchegar?
Obrigada, mas não me traz grande aconchego. Gosto pouco de legumes.
E uma canjinha, não vai?

Hesitei.

Que massa usam na canja?

A senhora ficou confusa. Justifiquei-me:

Gosto de comer letras.

A mulher retirou-me o menu da mão, desconfiada.

Comer letras?
Na canja, por exemplo. A minha massa preferida é a de letras.

A senhora pareceu aliviada.

Ah, essas letras!
E outras. Letras, de um modo geral. Gosto muito de ESSES. Não nego aquelas bolachas que parecem ÓÓÓÓÓÓÓÓS…
Ah, pena. Usam cuscus.
Que chatice.
É só o preguinho, então?

Encolhi os ombros. A conversa abriu-me o apetite para letras. Estava capaz de comer palavras inteiras e digeri-las até serem algo maior. Perante o meu desânimo, a senhora tentou remediar:

Quer espreitar novamente o menu?

Anuí. O menu tinha letras, podia enganar a vontade, mas li, reli e continuei augada.

Não tem nada mais palavroso que me possa servir?
Quer um jornal?

Hesitei. 

Apetecia-me um poema.

A senhora pareceu enrascada. 

Bem passado, mal passado?
Que me faça passar bem.

A senhora assumiu a missão, abeirou-se da cozinha e gritou por um poema. O cozinheiro não demorou a chegar à minha mesa. De peito firme e mãos guardadas atrás das costas, fechou os olhos como se me fosse cantar um fado e recitou-me Saramago:

Não era hoje um dia de palavras,
Intenções de poemas ou discursos,
Nem qualquer dos caminhos era nosso.
A definir-nos bastava um acto só,
E já que nas palavras me não salvo, 
Diz tu por mim, silêncio, o que não posso.

Depois de servido o poema, o cozinheiro fez uma vénia tímida e saiu para dar lugar à senhora, que entretanto me trazia o prego. 

Era o poema que me apetecia e fiquei cheia. Pode embrulhar, por favor? 

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Microconto Homoheróico

Um homem foi atirado da janela do sexto andar. Foi um reboliço no bairro quando o homem se levantou e foi à sua vida com um sorriso na cara e um arco-íris no bolso. É que ninguém fazia ideia que era homossexual e teria ainda seis vidas para disfrutar.

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Finisterra

Olá, como estás? Há já algum tempo que que não falamos e por isso pensei que seria uma boa altura para trocarmos dois dedos de conversa. Eu bem sei, o tempo passa e tu não dás por ele, mas na verdade eu sinto o tempo a passar cada momento, hora, mês e ano e vejo o que andas a fazer com o teu tempo e, para ser sincera, não estou impressionada.

Quer dizer, tenho-te dado tudo, literalmente tudo para que possas ter uma vida plena, mas o que tens para mim são só abusos e uma tal violência que me pergunto se realmente tens alguma consideração por mim. Podes não ter notado mas por mais forte que possa parecer, na verdade eu sou bastante frágil. 

Sabes o quão complexo é o meu corpo e por isso não gosto de o expor. Ele é a tua área de prazer e dele retiras tudo o que precisas para sobreviver. Mas tu abusas constante e conscientemente. Esqueces-te que a minha pele, tal como a tua, sente e vive tudo o que lhe andas a fazer. Ela absorve tudo: os golpes, os cortes e as queimaduras sem razão. O tempo tudo sara, mas os teus abusos são regulares e a cada agressão a regeneração é cada vez mais difícil. Ainda assim, ela guarda os meus segredos e separa o que lhe acontece à superfície do que está no seu interior. Ultimamente andas fã da exploração profunda, procurando arrebentar-me das entranhas, como se isso te desse um prazer supremo. Esqueces-te que a minha pele, como a tua, sangra com cortes profundos. A minha pele, como a tua demora a sarar e enquanto não sara, o meu sangue verte sobre a minha pele até que a crosta seque. Mas ainda assim o meu sangue alimenta e traz vida à minha pele. 

Noto que a minha pele descansa mais onde tu não estás. Ou quando há menos de ti. Lá ela segue o seu curso, descansa, cria, sara e segue em paz. Na verdade, o que realmente me desequilibra és tu. Tu, que não encontras um motivo para apreciar o que tenho e deixo para ti. Tu e essa sede insaciável. 

Pergunto-me se esta pele fosse tua, terias o mesmo descuido por ela? 

Por isso da minha parte, já chega. Alguém tem de mudar e tomar uma atitude e como não vais ser tu, serei eu a dar o passo. Não é a primeira vez que tenho de me separar de alguém para me poder curar e ficar melhor. Dei-te as pistas todas e nunca compreendeste o que para aí vinha. Agora vou começar a fazer aquilo que é melhor para mim.    

Fim, A Terra