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Apetecia-me um poema

Ainda não me tinha sentado à mesa, já a senhora me estendia o menu. Agarrei-o enquanto me ajeitava na cadeira. Pressionada, apressei-me.

Pode ser um prego, por favor.
Bem passado, mal passado?
Assim assim.
E uma sopinha, para aconchegar?
Obrigada, mas não me traz grande aconchego. Gosto pouco de legumes.
E uma canjinha, não vai?

Hesitei.

Que massa usam na canja?

A senhora ficou confusa. Justifiquei-me:

Gosto de comer letras.

A mulher retirou-me o menu da mão, desconfiada.

Comer letras?
Na canja, por exemplo. A minha massa preferida é a de letras.

A senhora pareceu aliviada.

Ah, essas letras!
E outras. Letras, de um modo geral. Gosto muito de ESSES. Não nego aquelas bolachas que parecem ÓÓÓÓÓÓÓÓS…
Ah, pena. Usam cuscus.
Que chatice.
É só o preguinho, então?

Encolhi os ombros. A conversa abriu-me o apetite para letras. Estava capaz de comer palavras inteiras e digeri-las até serem algo maior. Perante o meu desânimo, a senhora tentou remediar:

Quer espreitar novamente o menu?

Anuí. O menu tinha letras, podia enganar a vontade, mas li, reli e continuei augada.

Não tem nada mais palavroso que me possa servir?
Quer um jornal?

Hesitei. 

Apetecia-me um poema.

A senhora pareceu enrascada. 

Bem passado, mal passado?
Que me faça passar bem.

A senhora assumiu a missão, abeirou-se da cozinha e gritou por um poema. O cozinheiro não demorou a chegar à minha mesa. De peito firme e mãos guardadas atrás das costas, fechou os olhos como se me fosse cantar um fado e recitou-me Saramago:

Não era hoje um dia de palavras,
Intenções de poemas ou discursos,
Nem qualquer dos caminhos era nosso.
A definir-nos bastava um acto só,
E já que nas palavras me não salvo, 
Diz tu por mim, silêncio, o que não posso.

Depois de servido o poema, o cozinheiro fez uma vénia tímida e saiu para dar lugar à senhora, que entretanto me trazia o prego. 

Era o poema que me apetecia e fiquei cheia. Pode embrulhar, por favor? 

Por Mariana Godet

Chamo-me Mariana Godet, não me levo a sério o suficiente para escrever sobre mim na terceira pessoa e acho que é cedo para escrever uma biografia. Ou tarde? São só vinte e quatro anos, que continuam a pesar invariavelmente mais à minha mãe do que a mim. E ela é muito magrinha, leve e facilmente transportável. Dado este que vos permite calcular o quão insignificante é, afinal, o peso da minha existência, que a minha mãe assumiu aos seus ombros. Ela diz que foi há uma vida. Mas que vida? Se nela não aconteceu nada digno de especial destaque? Estou a tempo - eu sei, mãe.
Sou irmã da melhor irmã do mundo. Gosto de frio, castanhas, chocolate, chá e café. Gosto de mantas, o que me torna incompatível com o calor. A bondade comove-me e a maldade enjoa-me. Gosto muito de liberdade e pouco de quem a quer levar. Gosto de olhar e ser olhada nos olhos, alturas dizem-me pouco e o respeito não nasce dos ombros - vem de dentro e passeia pelo sangue.
Escrevo por necessidade. Necessidades, para ser mais precisa. Vou descobrindo quais são. Tenho as mãos frias, vou aquecer-me. Espero que encontrem aconchego aqui.

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