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Tempo, esse velho de barbas brancas

O Tempo está muito cansado, visto que ele cura tudo. Nem imaginam como são tantas as dores de cabeça que um mundo inteiro de gente com problemas por resolver coloca em cima do Tempo! Este mar de gente está portanto a contar com o Tempo para que ele mesmo resolva. Talvez por isso, ele agora tem uma única cor: branco. Ele é branco nas barbas, no cabelo, e até as brancas que se lhe aparecem sobre as memórias são em branco. 

Vive num sótão onde mais espaço para ele se mover, não há. O Tempo é colecionador de dores, certo também que tem alegrias pelo sótão. Coleciona memórias de todo o tipo, mas o espaço, começa a escassear e  por ser tão acumulador as memórias encaixam-se umas em cima das outras causando alguns apagões, o pior é que com tanto caos o Tempo já se arrasta, não lhe é possível processar os dados com a mesma rapidez, o espaço é curto e a memória disponível também. 

Sendo que o Tempo, gosta de tomar conta de tantos, ele fica então sem mãos a medir. Por vezes acontece que encontra cacos ao seu redor e com muita calma e paciência junta caco a caco para voltar a fazer o vaso. Ainda assim o vaso nunca mais é como dantes, o Tempo fica triste e essa tristeza faz-se sentir nas suas barbas que sendo brancas, sem ponta de cor pelo meio, acabam por crescer. Então o Tempo agora é um velho de barbas e cabelos brancos, extremamente gigantes. 

A dado momento o Tempo tropeçou num molhe de cartas de amor, dois jovens de 15 anos eram as figuras das cartas, por estranho que pareça, ele só tinha um remetente e um recetor, cartas de uma só via. O Tempo perguntou-se: “Porque é que seria que a um molhe cheio de cartas de amor não se lhe apresentava resposta alguma?”. Possivelmente as respostas estariam perdidas naquele sótão pejado de feridas à espera de ser curadas. Visivelmente estas cartas de amor tinham muito por onde querer sarar. Entre encontros marcados e não acontecidos, até vergonhas alheias a impedir manifestações de amor e claro a típica timidez do primeiro amor.

A última carta surgia também ela incompleta:

Querido Jorge:

Hoje, não consigo falar porque as palavras ficaram presas na poça de lágrimas que surgiu na festa de finalistas. Estava feliz, disso eu lembro, até ler as palavras que me escreveste, com elas não vejo o futuro…

Esta última carta fica-se por aqui e o Tempo ficou desesperado porque não via mais cartas. Foi à procura delas no sótão, por todo o lado, remexeu até em factos menos distantes, porém, nada de encontrar o fio à carta. O Tempo não sabia o que lhe fazer, também não sabia como ajudar nesta situação. Com tanto trabalho para fazer, curas para apresentar, outras memórias e factos para arrumar naquele imenso sótão, o Tempo ficou sem movimentos pela carta de amor de Maria para Jorge, dois amados de primeira viagem. 

Entre uma carta e outra o Tempo resolveu brincar ao tempo e acabou por baralhar datas, baralhou-as de tal forma que o encontro marcado para 2000-10-03 acabou por ficar marcado para 20-01-30. Este acontecimento foi ao acaso, contudo, aconteceu. Foi então que finalizado este deslize temporal que ao olhar para o seu lado o Tempo encontrou uma carta que não existia até então. Era Jorge que a escreveu a Maria, o que dizia nessa carta, o Tempo não me revelou, disse porém: “Mais uma que o Tempo curou.”.    

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As aulas de natação de Narciso

Narciso sobreviveu. Após o susto, que apanhou quando caiu no rio, viu-se obrigado a ter aulas de natação, pois não iria deixar de ver o seu belo rosto refletido nas águas que quase o engoliram. 

Revelou-se, desde início, um péssimo aluno, e nadador. A começar pela recusa diária do uso de touca e óculos de natação, dizia que lhe desfiguravam a face, que não se reconhecia quando olhava para o seu reflexo. 

 Nos balneários, exigiu o cacifo mais próximo dos lavatórios com espelho para se ver enquanto trocava de roupa, ou se secava. E o mesmo com os chuveiros, esquecia de se lavar pois ficava a olhar para a sua cara no ralo do duche. E não vamos falar do tempo que ele despendia na casa de banho, pois distrai-se com a sua face na água da sanita. 

Narciso mostrava ser capaz de nadar. Estava rodeado daquilo que o distraía e que quase o matou. Recusava-se até a fazer os exercícios, como os que envolviam nadar debaixo de água, pois deixava de ver o reflexo da sua cara na piscina, e era essa a sua única motivação. 

O pior, principalmente para a equipa, eram quando treinavam mergulho a partir da prancha, Narciso ficava simplesmente a olhar-se, de um muito melhor ângulo do que quando estava na água. 

Narciso desistiu da natação. Aprendeu apenas o suficiente para sobreviver futuros afogamentos. E levou consigo uma boia. 

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São lonjuras, Senhores


São lonjuras, Srs. 

Sentia saudades de tudo, o que a deixava descansada, significando que ainda tinha memória, embora começasse a ser frequente esquecer-se de coisas tão simples como chegar à cozinha sem saber por quê. Não se preocupava com esses pequenos sinais do início precoce de uma demência senil. Cada vez tinha mais saudades e por curiosidade consultou a sua definição.

1. Lembrança grata de pessoa ausente, de um momento passado, ou de alguma coisa de que alguém se vê privado.

2. Pesar, mágoa que essa privação causa.

(também existem mais pontos que a definem como plantas).

A primeira definição encaixava na perfeição – gratidão e privação – que nalguns casos levava ao ponto dois, a mágoa.

Era grata pela quantidade de memórias que tinha amealhado: da sua mãe, com os dentes da frente separados “dentes de malandra” com ela dizia – que deixaram de ser (até nisso a sua mãe contrariava a natureza, em vez de se abrirem, fechavam); das viagens realizadas com a mãe ao longo de tantos anos no lancia Delta preto onde ouviam a TSF e depois Joan Baez ou Paul Simon. O mesmo carro que albergava qualquer pessoa que a mãe visse a andar a pé em esforço; das vésperas de Natal e do cheiro a pinhões; do pão quente com queijo fresco que a mãe fazia questão de comprar todos os dias; das festas que organizava sozinha, quando parecia que mais de cem pessoas o estavam a fazer; das mãos delicadas da mãe, com os dedos tão finos que usava para fazer broas e cujo cheiro invadia toda a rua; dos enfeites que criava para todas as ocasiões que considerava especiais; e das meiguices que recebia das mãos da mãe. 

Estas saudades, gratas, matava sempre que visitava os pais e seguramente originariam muitas mais. Djavan relembrava-a com a sua música, “…é doce morrer nesse mar de lembrar e nunca esquecer…. Isso sim, pra mim é viver “, a importância destas saudades.

Já as saudades de privação agonizavam-na a ponto de não saber se era melhor lembrar ou esquecer, quando sabia ser impossível apagar parte da sua vida. 

Escrevia cartas, mesmo que em vão, numa tentativa de obter respostas que nunca chegavam. Gostava de escrever desde que se lembrava de ser gente e ainda guardava numa grande caixa cartas trocadas com metade da sua vida. Essa caixa, bem como a sua memória olfativa, ajudavam-na construir o passado. Podia viajar para qualquer sítio que quisesse e a partir daí reconstruir uma história – por exemplo o cheiro a eucalipto, que a levava para grandes campos cheios de arvores verdes, onde andava a cavalo com o seu irmão, ou o cheiro a madeira que remontava para a casa onde nasceu.

Conhecia também o odor de cada pessoa que amava e se, acaso fora de alguém que já não estava na sua vida, largava-se em lágrimas e recordava Denison Mendes (dizem que atribuído erroneamente a Caio F. Abreu) com a sua frase:

“O médico perguntou: — O que sentes? E eu respondi: — Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias”.

Hoje sentia-se muito doente, padecia de lonjuras, sofria de distâncias.

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A televisão comeu a minha avó

Não sabemos bem como aconteceu, foi certamente enquanto ninguém estava na sala. Ninguém viu. Desconfiamos que não foi numa dentada só, mas antes aos poucos. Lenta e sorrateiramente, para não percebermos de imediato aquilo que a televisão se preparava para lhe fazer. Aliás, para nos fazer, porque a avó é nossa. Quando digo nossa, digo do nosso coração. Ser mesmo, ela é lá dela e só dela. Deus nos livre de questionar de quem é. Se há senhora de si, é a avó.

A avó foi-se entretendo. A televisão era uma companhia quase dispensável, depois começou a preencher o silêncio e o vazio que o avô deixou. O avô foi comido pelo próprio coração. Até hoje fazemos contas de cabeça como raio coube todo, inteirinho, dentro do próprio coração, que estava ali arrumado num canto – canto bonito, é certo, mas com as naturais limitações físicas e espaciais da caixa de arrumos onde tinha lugar, que calha ser a caixa toráxica. Depois de alguns anos a desenvolver e testar hipóteses, concluo que o coração seria certamente muito maior do que a ciência nos permite calcular. Se coube, havia espaço e se havia espaço para tanto avô, então era uma coração maior ainda que a sua barriga. E sabemos que barriga de avô cresce para guardar mais amor.

A da avó também. Foi crescendo à frente da televisão, sobre o sofá e entre mantas. Parece que a cada vez que a avó carrega num botão do comando a barriga cresce um pouco e televisão rouba-lhe mais um pedaço. E a avó carrega muitas vezes em muitos botões. Quando se engana no comando, vira uma verdadeira teclista. Acho que a televisão percebeu que essa seria uma boa forma de a engolir sem darmos conta. Cria confusão, a avó responde atacando os botões todos onde as mãos chegam e a televisão vai levando mais e mais dela. Percebo a tentação porque a avó é pequenina, dá vontade de agarrar e embrulhar num abracinho e continua a minguar aos poucos, o que aguça a vontade. Os médicos dizem que é natural com a idade, mas eu sei que a televisão não é inocente. 

As duas foram ficando mais amigas. A televisão começou por roubar a atenção da avó, depois os acenos e beijinhos também. Juro. Ficou amiga da televisão e das pessoas dentro dela. Diz mesmo que a vêm, mas não nos deixa olhar para ela. Ou não nos vê olhar para ela. 

Se antes se sentava a ouvir televisão enquanto fazia crochet, palavras cruzadas ou mil e uma outras atividades que exigiam paciência, não demorou a largar tudo para se dedicar inteiramente à nova amizade. Tal como fez com a atenção, a televisão começou a comer também a paciência que a avó tinha para tudo o que havia fora daquela moldura brilhante e barulhenta. Podemos afirmar, com certeza, que a televisão planeou isto com muito mais detalhe do que acharíamos possível.

Julgamento de intenções à parte, o que é certo é que a televisão trabalhou muito nesta sua missão. Acorda com a minha avó e só dorme depois de ela se deitar. A televisão começou a dominá-la e agora, as duas juntas, dominam a casa onde estiverem. 

Começámos a desconfiar das intenções do quadrado-mágico-trágico quando a avó deu os primeiros sinais de mergulho. Podemos estar mesmo ao lado dela mas, estando uma televisão ligada, entramos num duelo pela sua atenção. E perdemos cada vez com mais frequência. Os beijinhos deixaram de aterrar nas nossas bochechas e passaram a voar em direção ao ecrã. O mesmo com acenos, a atenção e a paciência. 

Demos a atenção e paciência como desaparecidas. As buscas deixaram-nos descobrir para onde foram, mas não estamos a ser capazes de negociar o resgate. A avó continua a minguar. Só a barriga e o cabelo escapam a esta tendência. O mais notório minguar, cuja responsabilidade podemos atribuir diretamente à televisão, é o dos olhos. Os olhos da avó estão cada vez mais pequeninos e escondidos. Como a televisão se reflete nas lentes gastas dos óculos que insiste em não mudar, fica ainda mais difícil ver os olhos da avó. Antes de os vermos, vemos a televisão. E mesmo quando parece olhar para nós, não são raras as vezes em que o raio da televisão está lá pelo meio.

O frio que a avó sente não vem da rua, vem das temperaturas que vê anunciar na televisão, das tempestades batizadas com nomes humanos que encharcam os ecrãs. O sol que a queima não lhe pousa em cima, entra-lhe pelos olhos e aquece-lhe o medo e a paciência. O frio que a televisão lhe conta arrefece-lhe a coragem e enterra-a no sofá. A avó, que passou tanto tempo sob chuva, sol, granizo, neve – o que fosse – a trabalhar, hoje tem tanto medo do calor como do frio e tanto medo do dia como da noite. Tem medo do tempo que já nem quer sentir.

Não se enganem, a avó tem mais saúde do que a televisão lhe diz, mas não a vê. Para ela, a idade não é só um número. É mais a cada número, é pior a cada número. Tem de ser sinónimo de velhice e a velhice, por sua vez, tem de ser sinal de doença e proximidade do fim. Mesmo que todas as análises, medições e exames lhe gritem que está bem. Ouve mais os médicos da televisão do que os que lhe abrem a porta do consultório.

Já não quer ir à casa dela. A senhora mais dona de si, já não tem saudades da sua casa. Imagino que de alguma forma a televisão se tenha feito casa. Qualquer televisão, menos a dela. Acreditam que mandou tirar a televisão de casa? Podíamos assumir que é por não lhe dar assim tanta importância, mas é precisamente por sabermos que a televisão a engoliu que entendemos que isto é parte da estratégia que as duas montaram para ela não voltar a casa. A decisão de não voltar foi tomada tirando de lá a televisão. Foi a confirmação e assim não há dúvida, porque onde não há televisão, não pode haver avó. 

Ainda faz da janela uma televisão, mas depressa se aborrece, porque não pode mudar de canal. Passeia sentada no sofá, vê pessoas e interage, tudo sem sair do lugar. A avó tem medo até da comida, do mal que lhe pode fazer. Já pouco se importa com o bem que lhe sabe. É sempre o medo. Priva-se de tanto por medo. O medo, o medo, o medo. 

A avó tem medo de morrer, mas está constantemente a encontrar morte na televisão. Mal ela se apercebe que antes de a morte a roubar de nós, já a televisão a está a levar. Pergunto-me se nos ouviria melhor se lhe falássemos de dentro da televisão. A avó tem tanto medo de morrer que não vive.

A televisão comeu a minha avó. Com medo de um caixão, prendeu-se dentro de uma caixa. 

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Mudanças

Quando tinha quinze anos, ponderei pela primeira vez se teria um futuro feliz. Dei-me conta que não estava no caminho certo para me tornar uma estrela rock internacional, e procurei alento na minha avó que, por muito que nunca tenha alcançado o estrelato que tanto protagonizava os meus sonhos, tinha passado metade da sua vida a cantar. A outra metade dividiu-se entre ouvir trautear o meu pai e tio e, mais tarde, ouvir-me a mim evocar Variações na cave da sua moradia gigante. Mas adiante. Naquela conversa, ensinou-me que os quinze anos eram a idade mais fértil para os sonhos – que cresciam como ervas daninhas nos cantos mais recônditos das nossas cabeças. Notar que nem todas as ervas daninhas são feias ou dispensáveis, muitas delas até são úteis para aparar as quedas no alcatrão. A minha avó também me avisou das quedas e disse-me que, a partir dos quinze anos, deixavam de deixar feridas nos joelhos e cotovelos e começavam a chegar a sítios mais escondidos. Contudo, fez notar que aquela era a melhor altura para admirar a vida e para colher dela os melhores instrumentos para imaginar.  “A vida consegue ser tão linda”, disse-me.

~

Hoje – dez anos depois – sujei as mãos, arranhei a garganta e enfraqueci as costas a tentar fazer caber essa vida linda em caixas de cartão. Esvaziei o sótão, limpei o pó e deixei espaço para quem quiser vir vaguear para este lote, uma vez que estou de saída. Encaixotei a música e as primeiras notas que cantei, junto com os poemas e os textos em que me perguntava onde ia. Houve espaço para as minhas viagens à boleia pelos céus – os meus sonhos de Kerouac, de dias em que fazia as malas, prometia não voltar e desfazia de seguida. Empacotei a varanda onde fumava às escondidas, a ver a serra de Sintra, na procura de abrandar uma adolescência em foguetão. Até consegui encolher as paredes deste quarto, os cantos húmidos, os momentos em que foram as minhas únicas amigas – houve espaço para todos os nossos segredos. Quanta barulheira ficaria dentro daquelas caixas quando as fechasse, perguntava-me. Talvez se ouvissem as tuas palavras avó, pois encontrei um postal de aniversário escrito por ti, com conselhos e votos de um próspero futuro – pôs-me a pensar o que tenho de próspero agora, e onde estarás tu.

“A vida consegue ser tão linda”, dizia no cartão. Talvez seja, avó. Com tanta música, poemas, textos, sonhos, viagens para lado nenhum, malas feitas e desfeitas que não saem do quarto, não há como não o ser. Eu talvez tenha demorado o meu tempo a ver isso – ainda não precisava de óculos na altura em que te pedia conselhos. Agora não tenho quem me ouça quando canto sozinho na cave e nem mesmo com este meu novo par de lentes te consigo ver a espreitar, na curiosidade de saber que canção cantarei a seguir. 

Arranjei várias formas de me sentir menos só, mas nenhuma me impediu de encher a casa de tralha. É irónico, porque é agora que está vazia que me sinto mais acompanhado e concretizado. Afinal de contas, não tinhas razão numa coisa – eu continuo a sonhar como se tivesse quinze anos. Mas noutra coisa estavas certa – a vida consegue ser tão linda. Pensava que a podia guardar em caixas e sótãos, mas ela está por aí. Tu estás por aí, avó. 

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Depois da ressaca

Desculpem o atraso,
queria ter chegado a tempo mas entretanto fui dar uma volta e cruzei-me com a vida
fomos nesta viagem incrível sobre existirmos e deixarmos de existir,
fez-me experienciar muitas coisas
e quando dei por mim já tinha passado muito tempo e tempo nenhum.
Isto não é uma forma de me justificar
Isto não é arranjar desculpas para a minha falta de qualquer coisa que não sei bem o quê
Isto não é uma carta
Ou um texto para o blog.
Isto sou eu depois de noites mal dormidas,
pessoas a partir,
beijos inesperados,
reencontros inevitáveis,
sobre ter calma, sobre não hesitar
sobre parar para pensar, sobre não pensar
sobre respirar fundo
e sobre nada
(ou isso queria eu).

Desculpem o atraso,
perdi-me com a vida e sei que ela esteve sempre aqui e eu é que fui para longe
e entretanto dei-me conta de que passou um ano desde a última vez quando eu diria que passou uma vida
Passou-me uma vida.
Passou-me um céu estrelado com brilhos a cair-me em cima
E uma lufada de ar fresco no peito.

Bebo um copo de tinto e brindo a nós
Porque somos sempre nós no momento do brinde
(no som do copo a bater, nos olhares que se cruzam com o brilho de quem brinda com a vida)
Desculpem o atraso mas,
estive de ressaca.

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Narciso Injustiçado

Não soube o que dizer quando me chamaste narcisita e me viraste as costas. Pensei belas costas, pensei não acho que seja narcisista, pensei que nem sabia bem se ser narcisista era o que eu pensava que era e pensei que te queria responder alguma coisa sobre isso mas já não estavas ali. Eu tinha perdido a oportunidade de impedir que fosses passear as tuas belas costas para outro lado. Nessa noite fiquei acordado como fico muitas vezes. Acho que é porque preciso de sentir a solidão. Pensei em Narciso, claramente das figuras mitológicas mais injustiçadas de que há memória. Pensei nesta afirmação e pensei logo em Ícaro, na sua sede de conhecimento visto como soberba e nalguns outros que por uma razão ou outra foram sendo erradamente reintepretados como maus exemplos para impingir a moralidade da humildade exacerbada anti-sabedoria.
Pensei que a maior lição que narciso nos dá nada tem que ver com as consequências do egoísmo, da vaidade ou do desprezo pelo próximo. Não é culpado dos defeitos da humanidade nem da situação em que foi colocado pelo oráculo que lhe destina a morte no momento em que vê o seu próprio reflexo na água e acaba por definhar, perdido na sua beleza e no amor-próprio, essa noção moderna que impingimos uns aos outros como forma de desculparmos a nossa imperfeição e encontrarmos a felicidade tranquila que nos torna mansos, desinteressados, desinteressantes, incapazes de pensamento crítico e de revolta. A verdade das histórias reside na boca de quem as conta e reconta e no recontar deturpou-se e perdeu-se a essência dessa verdade. E a verdade é que narciso é o herói da luta contra os brandos costumes, contra a aceitação da homogeneidade da espécie humana. Ele recusa o amor não correspondido e apenas deseja partilhar aquilo que no seu íntimo aceita como profundamente real. Não há nada falso em narciso, nada escondido, nada politicamente correto. Acredita na sua esplendorosa beleza e maravilha-se com a possibilidade de ser diferente, de ser único, de ser especial. Essa é a dádiva que nos deixa, a consciência da individualidade que se torna plena quando, contrariando o que lhe era imposto sob pena de tropeçar pela espiral dos dramas humanos, vislumbra o seu próprio reflexo. É por isso que narciso é o herói da história. Sacrifica a sua vida para que tenhamos consciência de nós próprios como seres diferentes de todos os outros, ao mesmo tempo que nos alerta para os perigos da salvação: Em terra de cegos quem tem olho é linchado, crucificado, apedrejado, ridicularizado e morto.
Penso, leio observo, discuto, ponho em causa e questiono, aceito a minha individualidade mas sempre com a consciência de que o conhecimento e a inteligência não trazem felicidade. Trazem consciência e sabedoria. Para cada um de nós valerá ou não o sacrifício.
Pensei que nada disto tem que ver contigo nem com as tuas belas costas mas pensei também que gostava de ter tido esta conversa contigo. Mas não podia. Já não estavas ali.

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Elefante

Pela minha janela entram os primeiros raios de sol. Gosto dessas horas em que ainda não é dia nem noite. A Noa hoje não dormiu comigo. Estranho… Ainda não abri os olhos. As drogas continuam o seu efeito quotidiano e eu tento dormir mais um bocado. Sinto um toque na pele e… um toque?! Estou sozinha. Abro os olhos naquele estilo drogado e dou um salto, ou melhor dizendo, mando-me da cama abaixo. O elefante dourado que costuma estar em cima da mesa mãe está deitado ao meu lado a desenhar-me o infinito na pele.

 – Que raio estás tu aí a fazer?! ­– Ainda não percebi se acreditei ou não no que estou a ouvir. Dou uma estalada em mim própria para garantir que não é efeito das drogas. Afinal, já tive Sir Anthony Hopkins de kilt na minha sala. Nop, é um elefante! Sim, estou de olhos abertos. Consigo ver as paredes rosa onde ele está encostado, o édredon de flores em tons frios, a bicicleta estática ao fundo, o guarda-fatos mel com baixos relevos de flores. Sim, estou acordada.

 Repeti para me convencer que ele estava ali – Que raio estás tu aí a fazer?!

-Vim te fazer uma visita, não posso?!

-É assim, filho! Se tens ideias de vir espalhar fertilidade, temos pena, já trouxeste um Siddhartha ao mundo, e eu não tenho vocação para criar o próximo Guru da Humanidade!

Num misto de curiosidade e incredulidade, comecei a admirar-lhe as decorações espalhadas pelo corpo, um lótus na testa, uma mandala no dorso, uma miríade de cores realçadas com o ouro. O bichinho era bonito.

 -Explica-me lá que vieste cá fazer?! Não queres fazer yoga, pois não? E podes contar que já tenho os chacras alinhados. Trazes sorte?! Dava jeito!

-Não…ouvi dizer que precisavas de memória. Posso-ta oferecer.

– Mas por que raio é que me haverias de oferecer memória, se me podes dar prosperidade, sucesso, sabedoria, proteção… se já te vi debaixo dum globo a suportar o mundo, se segundo os hindus até tinhas asas e brincavas nas nuvens? Não estou a perceber!

– Já ouviste a expressão “memória de elefante”? É verdade! Lembro-me de tudo e mais alguma coisa, desde o dia em que nasci até agora. Não gostavas de te lembrar da tua irmã, dos primeiros passos, de como estava o mar no dia em que te levaram para casa, do olhar da tua avó todas as vezes que te viu?

-Gostar até gostava! E como propões que faça isso? Injeção, comprimido, inalação?! Já levei de tudo!

-Fecha os olhos!

 Contrariada fechei os olhos, senti o som leve duns sinos, um pó que aposto seria dourado a cair levemente na minha pele e, numa fração de segundos, vi vários instantes da minha vida. As conversas com a minha irmã ainda na barriga da mãe, roubarem-na de mim, as tardes na esplanada com a avó, o gesso até ao pescoço, voltar a andar outra vez…todas as dores e alegrias da minha vida até este momento vieram até mim.

  Abri os olhos, não estava diferente, não me lembrava de tudo, só do Amor. O Elefante tinha razão. Ele já tinha desaparecido, mas eu não duvidei, nem por um momento, ele tinha-me dado o melhor presente de sempre.

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Catarina, por quem sois?

Esta pergunta perseguiu-me toda a semana antes de te conhecer. A amiga que nos apresentou avisou-me com alguma antecedência que iria conhecer uma Catarina. Ela conhecia as minhas experiências passadas e tentou acalmar-me dizendo-me o teu nome. Há muito tempo que não convivia com uma Catarina e por isso tinha muitos receios do que poderia esperar. Não que as Catarinas que conheci antes fossem problemáticas ou que me tivessem dado má impressão, mas digamos antes que as credenciais que me deixaram não eram muito positivas. 

Não acreditas? 

Vejamos, a última Catarina com quem convivi a sério era possuída por uma depressão cada noite que estávamos juntos. E não, por uma vez não era eu que a punha naquele estado. Era ela Ofélia e eu o espírito do rei condenado a vaguear pelas muralhas frias de Helsingør. Em desespero, ela subia a uma árvore de onde mergulhava para a sua morte no leito do rio. Noite após noite tive de carregá-la para o Outro Lado para apaziguar a sua alma e deixar a água correr. Sim, era num palco e sim, era a fingir. Não ajudou.

A outra Catarina, era muito mais poderosa e de outra categoria. Categoria 5 disseram-me. Tinha o poder de arrancar árvores pela raiz e de levantar casas inteiras deixando um rasto de desespero e destruição à sua passagem. Assustava tanto de longe como de perto. Esta Catarina, ou Katrina como ficou conhecida, deu-me um baile nos céus da costa florida. Atirou-me em todas as direções e pôs-me a voar de pernas para o ar. Foi única, mas também não contribuiu para a minha experiência com Catarinas. 

Lembrei-me ainda de outra Catarina, cuja história só conheci recentemente que, com o seu charme ensinou todo um império a parar às cinco da tarde para saborear folhas secas diluídas em água fervida.

Serias tu alguma destas? 

A dúvida angustiou-me até ao dia do nosso primeiro encontro. Chovia a cântaros. Cheguei cedo na esperança de te ver pela janela. Estavas sentada no final da sala do Café com um livro aberto no teu colo. Percebi que teria de atravessar toda a sala para chegar ao teu lado. Entre a porta da rua e a tua mesa não havia obstáculos. Ainda assim imaginei que era um soldado prestes a atravessar um campo minado na esperança de chegar a terra livre. Num campo minado o perigo está no caminho, não no destino. 

Abri a porta e entrei. 

O vento que entrou atrás de mim fez bater a porta com estrondo e levou a que todos olhassem para mim por um momento. Para mim, que pingava por todos os lados enquanto abria o casaco. Confrontei-os, olhos nos olhos, um a um. Arrisquei um passo, mas reparei que não te tinhas virado. Temi que te fosse indiferente. E que tu fosses indiferente à minha entrada. Ou que o livro que lias te levava toda a atenção. Sobraria alguma para mim? 

Dei meia volta, voltei a fechar o casaco e preparei-me para sair e diluir-me na chuva de fora quando senti uma mão que me toca no ombro. 

Eras tu. 

Atravessaste o campo minado para vir ter comigo. Disseste: “Estava à tua espera!”. E os meus receios desapareceram no teu sorriso.    

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Ensaio

Ensaio sobre o Ensaio

Quando veio,

Mostrou-me as mãos vazias,

As mãos como os meus dias,

Tão leves e banais.

Pedro Abrunhosa

Vamos falar aqui de coisas banais, outras não tão banais, vamos falar de coisas que pareciam tão banais e que agora são preciosas. Sobretudo vamos, hoje, falar de uma: ensaio.

Nunca fui muito fã de dias específicos para festejar coisas como a poesia, o livro, o teatro e outros, porém nos dias que correm estou cada vez com mais vontade de festejar, porque me trazem um sabor acre e doce. Doce porque amo cada uma destas coisas que se festeja: a poesia, o livro, o teatro e cada vez que pratico e mergulho neles sinto-me viva. O mês de março é recheado de festejos, e o de abril tem outros tantos, mas os dias parecem iguais. Vazios. Vazios porque apesar de ser possível ler, já leio como forma de viver o que não é possível viver, já escrevo sobre dias iguais e ensaios parecem miragens. Mesmo que se possa ensaiar com cuidados e tal, fazemos sempre com aquela sensação que a data de apresentação acontece se acontecer, ou acontece se for possível agendar, ou mesmo se o que ficou por fazer for escoado. Com isto, percebo que estou a ensaiar sobre a possibilidade de um dia voltar a ensaiar e com o sentimento acre de quem vê o dia do teatro como um momento para festejar o passado em vez do presente e do futuro. 

Venham mais dias banais, como os dias de antes e menos dos dias banais de hoje. Venham mais ensaios ao vivo para que eu possa deixar de ensaiar sobre o ensaio, ou até ensaiar sobre agendar um ensaio. Menos dias vazios, mais dias recheados de experiências, jogos, brincadeiras, reflexões e descobertas dramáticas. Menos drama diário, mais dele no palco, menos criatividade virtual, mais dela ao vivo e a cores. Menos disto e mais daquilo. E como diria a minha filha mais nova: “Mãe, paga o ballet, porque eu quero ir para a sala, não quero estar nesta sala, a nossa.”. Ela não sabe que não é por falta de dinheiro, mas começa, pelo visto, a entender que tanto, neste mundo que vivemos, é por e sobre dinheiro. Isto faz-me perguntar, será também dinheiro que nos impede de ensaiar e me coloca neste ensaio? E com esta pergunta abro questões que gostaria de manter privadas, portanto, não me respondam ao vivo, nem por mensagem, nada de comentários na caixa, nada de emails também. Estou apenas a fazer um ensaio e como um bom ensaio que se preze, ele é cheio de experiências, perguntas, desabafos (até), mas não é para o público. Este ensaio não é publico, mesmo que o publique, não é público. 

Assim, daqui saio com mãos não tão vazias, ainda que vazias, onde os dias são, o que são, não sei se leves e banais. Sei apenas, que chegou ao fim, este ensaio.