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Crónica

Agnosticismo à parte

Fossemos todos este Papa e muito fumo branco iria sair de todas as casas.

O Papa Francisco passou a ser um dos meus grandes heróis. Destemido, corajoso, determinado a lutar contra uma instituição milenar cuja história está marcada pela violação dos direitos humanos, sendo eles homofóbicos, assédio sexual ou pelos direitos das mulheres.

O Papa Francisco tem chamado a atenção para o papel das mulheres na vida eclesial. “As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir totalmente”.

Com o Sumo Pontífice o número de mulheres em cargos de liderança no Vaticano aumentou 70%, no entanto a igreja não confere ordenação sacerdotal às mulheres e o Papa defende esta posição “as mulheres na Igreja têm de ser valorizadas, não clericalizadas “.

Para o Papa Francisco somos todos filhos de Deus, para Maria José, somos todos pessoas com os mesmos direitos. A diferença nas crenças de Maria José e o Papa Francisco é apenas uma, Maria José era agnóstica.

Apesar de ter tido uma educação católica e por esse motivo ter sido batizada, optou por não batizar a filha, deixando para ela essa decisão quando um dia achasse que o devesse ser ou se sentisse um chamamento.

Não sendo católica, não casou nem tinha vontade de o voltar a fazer pela igreja.

A Maria José é casada. Não tendo nenhum papel que o comprove, mas é casada com José Maria. Até os nomes casam. Está tudo certo.

Podiam ter casado há mais de vinte anos, mas quis a vida, ou quiseram os dois ir por desígnios distintos.

O amor, começou com música na inauguração de um festival de cinema. 

Música, cinema, amor e vinte anos de conversa para pôr em dia. 

Chamam-se um ao outro por Zé, mas isto só pode ser feito dentro de casa, uma vez que o Zé tem mais irmãos chamados José Jorge e José Francisco. 

Quando se casaram prometeram muito um ao outro, ambos tinham heranças do passado pesadas, e sabiam que o caminho por vezes iria ser difícil. Queriam os dois amor e ser amados, as diferenças entre os dois à primeira vista eram grandes, mas quem vê como o principezinho “o essencial só se vê bem com o coração”, e o coração deles estava cheio de valores, ideais, romances e muito amor.

Falavam sobre as suas diferenças, e chegavam à conclusão que ainda bem que existiam, assim podiam não só aprender mutuamente, como respeitarem-se e não se aborrecerem.

A Maria José achava que era uma pintura e que o José Maria era o seu quadro, onde quando a pintura queria ser mais do que já era, lá estava a moldura para balizar e deixar assim, bem, como ele achava.

Ao contrário de Maria José, José Maria era católico e a vontade dele era um dia poderem casar pela igreja. Foi durante uma conversa sobre este assunto, que Maria José lhe relembrou as palavravas do Papa Francisco onde defendia a união civil sobre os homossexuais e que apesar dos dois serem heterossexuais, que razão poderia existir para terem um casamento religioso onde há ainda regras para diferenciar o amor.

O amor acontece de maneiras diferentes, mostra-se de maneiras diferentes e comporta-se de maneiras diferentes, como no amor da Zé e do Zé.

Assim, como acontece quando se partilha uma vida, partilham-se ideias diferentes. A diferença é a forma como se partilham as diferenças, os desagradados ou como se resolve um conflito.

A Zé, não tem jeito para confrontos e quando se sente acusada ou desvalorizada, foge.

O Zé, não tem problemas com confrontos e não foge.

A Zé fugiu, a sua cabeça estava tão cheia de dor e o seu coração cheio de amor que achou que o melhor seria fugir.

Passaram-se meses e o único sentimento que se apoderava dela era o desespero. Um desespero que começava em primeiro lugar sobre o amor que tinha por ela, seguido do amor da vida dela. Pensou na herança que carregava ser tão forte que nunca iria conseguir ser feliz. Pensou na herança pesada do Zé e sentia saudades. Saudades dos pormenores que de facto são por maiores. Estava a morrer de amor, e lembrou-se do Papa. Pensou em escrever-lhe uma carta a perguntar se ele algum dia soube o que é sentir que se pode morrer de e por amor? Não o fez, achou que além de dar muito trabalho escrever a sua Santidade e não saber as regras nem a língua em que escrever, o tempo que demoraria em ter uma resposta iria ser em vão. Mas pensou que só o facto de se ter lembrado do Papa poderia ser o tal chamamento. Não o chamamento para a fé cristã, mas para a fé no amor.

Em vez de escrever ao Papa, escreveu a carta ao Zé. No envelope estava escrito “De: Zé Para: Zé”, na carta vários gritos de amor e saudade.

De uma forma célere, tinha a resposta do Zé no mesmo envelope. Na carta, duas frases “Isto poderá ser o que nós quisermos. Amo-te.”

Como em qualquer instituição religiosa, em casa, nas casas, as premissas deveriam ser sempre as mesmas. Respeito, comunicação e amor. Aceitarmo-nos a nós e aceitarmos quem está connosco. Sermos e deixarmos ser. 

Na nossa casa, hoje, sai fumo branco pela chaminé.

Na nossa casa, como dizia o poeta: “ que seja eterno enquanto dure”, e para os Zés que dure eternamente.

Por Isabel Ascenso Pires

Nasceu num pequeno bairro de Lisboa – Bairro da Encarnação- que geometricamente tem a forma de uma borboleta.
Licenciada em ciências farmacêuticas, por vontade do pai e da avó paterna, dedicou dez anos da sua vida a conhecer e a dispensar medicamentos.
Apaixonada por cinema, incomoda-a ver um filme com luz ou ruídos parasitas.
Na música, uma das outras paixões, tem um gosto eclético que vai desde Sex Pistols até Chopin.
Apaixonada por fogueiras, sobretudo as do Strummer.
O seu escritor de eleição é o Bukowski, o músico o Bowie e o realizador de cinema o Kubrik.
Agnóstica na esperança de o deixar de ser.
Não gosta de doces, adora queijo, presunto, pão e vinho. Tinto.
Tem uma filha de 8 anos, que acredita que um dia irá mudar o mundo pois vê nela muita força e bondade.

3 comentários a “Agnosticismo à parte”

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