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Expedição ao fim do mundo

Tomaram o navio de assalto. Impermeáveis a qualquer tentativa de negociação, os marujos dissidentes estão determinados a romper o mar-céu-terra-o-que-for para chegarem ao fim do mundo. Com a revolta ao leme, o navio rasga céu e terra como se fossem mar.

Se a terra é esférica ou plana, pouco lhes importa. Os marujos sabem que a terra pode ser uma infinidade de coisas, mas uma será certamente: finita. A obsessão pela finitude vem-lhes de longe e morrerá com eles.

O navio é pequeno e a tripulação é curta, mas está reunida. Sete homens – um para cada mar. O fim da expedição pode muito bem ser o fim dos homens. São poucos e pequenos para tamanha expedição, mas se findarem pelo caminho terão chegado ao destino: o fim. O sucesso parece inevitável, mesmo que seja uma viagem eterna – ou enquanto durarem.

A vontade é imensa como o mar que enfrentam, mas o plano de navegação é tão vago como o destino. Não há mapa que desenhe o fim do mundo. Não sabem se lhe chegam ou se lhes chega. Não sabem se devem contar os dias ou medir a distância. Avançam mar adentro conscientes de que o debate sobre o que é o fim do mundo pode durar até lá chegarem.

Há quem julgue ser um lugar, um sítio onde tudo termina, uma meta que se cruza para findar. Há quem acredite ser um momento ou um evento que se dá para pôr fim a tudo, como o momento em que um coração pára de bater ou a terra se abre e engole os bípedes quase reles de tão finitos. Há ainda quem sugira que o fim do mundo pode ser uma espécie de sentimento, um desespero inato que nasce da efemeridade das coisas. Eventualmente, tudo acaba e dá-se razão ao desespero.

Pode ser um abismo escuro e sem fundo, como um buraco onde se cai. Alguns poderão vê-lo, outros não. Pode ser uma porta que só se abre e fecha uma vez. Quem a abrir terá de a fechar, depois de cruzar a linha da ombreira – ou não fechará. Pode ser a morte de cada um como o fim do mundo para si. Pode ser um evento catastrófico-apocalíptico que faz implodir ou explodir o mundo inteiro de uma vez. O fim para todos, sem retorno.

Há tanta gente a dizer o que não é o fim do mundo, mas ninguém sabe dizer o que é. Ou quem sabe já não pode contar. Na escala do bem e do mal, substituímos o mal pelo fim do mundo e fizemos dele uma bitola que desvirtua angústias mais pequenas.

A viagem dura há duzentos e trinta e dois anos. Os marujos estão velhos e cansados. Já deviam estar mortos, já se sentiram mortos, já se fingiram mortos. Desafiaram o fim e ele foge-lhes. Já viram mais do que podem lembrar. Já julgaram ter chegado ao fim, mas há sempre mais mundo. O mar ardeu, mas o mundo ainda não acabou.

Até ao fim do mundo, nada é o fim do mundo.

Por Mariana Godet

Chamo-me Mariana Godet, não me levo a sério o suficiente para escrever sobre mim na terceira pessoa e acho que é cedo para escrever uma biografia. Ou tarde? São só vinte e quatro anos, que continuam a pesar invariavelmente mais à minha mãe do que a mim. E ela é muito magrinha, leve e facilmente transportável. Dado este que vos permite calcular o quão insignificante é, afinal, o peso da minha existência, que a minha mãe assumiu aos seus ombros. Ela diz que foi há uma vida. Mas que vida? Se nela não aconteceu nada digno de especial destaque? Estou a tempo - eu sei, mãe.
Sou irmã da melhor irmã do mundo. Gosto de frio, castanhas, chocolate, chá e café. Gosto de mantas, o que me torna incompatível com o calor. A bondade comove-me e a maldade enjoa-me. Gosto muito de liberdade e pouco de quem a quer levar. Gosto de olhar e ser olhada nos olhos, alturas dizem-me pouco e o respeito não nasce dos ombros - vem de dentro e passeia pelo sangue.
Escrevo por necessidade. Necessidades, para ser mais precisa. Vou descobrindo quais são. Tenho as mãos frias, vou aquecer-me. Espero que encontrem aconchego aqui.

2 comentários a “Expedição ao fim do mundo”

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