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Conto

Chamada

“Sou chamada à Terra sempre que o voo vai alto demais.” – disse Clarice num belo dia de sol na esplanada enquanto tomava o seu Gin preferido. 

Importa dizer que ao certo nem me recordo qual o contexto desta citação, lembro apenas dela e das imagens que me surgiram. Para além do óbvio, do Gin fresco no copo grande e largo, das gotas de água a deslizar pelo vidro, sinto gotas na minha testa. Não são os 40 graus que se fazem sentir, é aquele frio na barriga que faz escorregar as gotas na testa. 

Vá-se lá saber porquê, mas Clarice trouxe-me memórias que queria apagar e podem crer, quanto bebi para que acontecesse um apagão geral dentro de mim. Mas o álcool apaga apenas o que deve ficar. Bebi quase até destruir as células que há em mim, e ainda assim, manteve-se o frio que me faz derreter. 

Não tenho motivos para transgredir limites, também prefiro não definir todos os limites, muito menos pormenorizadamente. Quanto mais sei o que fazer, menos quero saber. Mais me floresce a vontade de transgredir e sou chamada à Terra cada vez que perto estou de passar esses limites. Quais? Nem mesmo sei. Sendo que os há, há. Se um dia ao acaso os passar, posso sempre justificar que não sabia. Ou será que terei a mesma resposta que o governo português dá aos seus cidadãos: “Não é permitido alegar desconhecimento da lei.”. Tenho eu o direito de alegar desconhecimento se nunca definir limites, se nunca os colocar num edital? Possivelmente. Para qualquer um dos lados. 

Sou chamada à Terra cada vez que as gotas me escorrem e os movimentos se descontrolam. Sou chamada à Terra quando por perto, por tão perto não ultrapasso o limite. E se bem que me perguntei qual é o limite, terei o cuidado de não o pronunciar, nem aqui nem em lado algum, para que nunca possa ser dito que foi fixado. Caso contrário não poderei declarar desconhecimento. Sou chamada portanto no momento no momento em que Clarice diz que é chamada à Terra sempre o que o voo é alto demais. 

E se por momentos eu até me deixo voar. O telemóvel toca. Como agora. Trimmm.

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Conto Poema

Lisboa

Cidade maior, que Ulisses quis para si, porto de abrigo para quem se espalha na tua costa e para onde o Tejo corre despedindo-se da vida. Tens a luz única dos iluminados.   

Lisboa, 

és mãe, madrasta, viúva e filha. Mãe para quem acolhes, madrasta para quem teve de partir e viúva de quem não mais voltou. És a filha esquecida que se tornou mulher e a quem a idade com ouro cobiça as tuas partes mais desejadas. 

Na pena do MEC, cada avião que te deixa faz birra e vira-te as costas. Na verdade, quem foge prefere não olhar para trás. 

Acolhes quem te procura e te conserta por dentro. Mesmo assim segues obra imperfeita e inacabada.

Deixas que outras línguas te pisem para seres um mero caso, um affair de fim de semana ou o quer que seja enquanto lhes serves tesouros em forma de nata.

És Santa Maria, Maior e de todos os santos que vagueiam pelas tuas sete colinas entre pecados e virtudes. Cada um com a sua agenda, a sua história, a sua verdade. Cada um procurando uma razão para ficar. Uma razão para voltar. 

Tens porta aberta para o Atlântico e daí para o mundo e deste o nome ao Santo que Pádua recusa nomear.

Há mais de seis séculos que recebes cheiros e sabores do mundo, num gesto simples, repetido a cada dia quando temperas com caril, canela e açafrão. 

De Belém a Santa Apolónia, cavalos de ferro atravessam e cruzam a floresta branca levando quem mudou o futuro e deixou alguém a encharcar as calçadas de sal por esperar tantas e tantas vezes. 

Por mais que o Tejo lute contra o mar, por mais que o chão trema, por mais que o Sul esteja à distância de um Cacilheiro, segues segura e serena, caminhando sem cair, navegando sem naufragar.

Lisboa 

és a obra maior que se constrói dia a dia. Podem deixar-te, amar-te, agredir-te, mas ninguém te consegue resistir. 

Segues de braços abertos para cada visita, para cada regresso.

Para cada recomeço.

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Crónica Todas

Fogo de Artifício

Aquele auge no qual não sobra espaço para o vazio. Eu sou esse auge.

Passei anos da minha vida sem atear fogo com medo do incêndio e por isso nunca me dei ao prazer de ver tudo a arder. Anos e anos a evitar o confronto, a prevenir a discussão, a dar uma distância de segurança. Eu era a distância de segurança entre o fogo e o rastilho. 

Cansei.

Os quarenta trouxeram-me a crise que eu nunca achei real. E nem quarenta tenho. Como será quando lá estiver? Nem quero imaginar. Porque o filtro que outrora me era orgânico dissipou e da minha boca foge o fogo que se vê no céu.

Entre um e outro estava eu, acalmando as feras, impedindo rugidos e certamente sem qualquer tipo de disparo. E uns e outros viveram felizes para sempre. Ou até que eu, eu mesma, conseguisse segurar o fogo.

O que nunca, mas mesmo nunca, me apercebi é que “cão que ladra não morde” mas os latidos acabaram sim por morder, mas só a mim, de tanto bater no meu tímpano. E como vozes de burro não chegam ao céu, elas ficaram apenas comigo. A burra mor que nunca, mas mesmo nunca deixou atear fogo. 

E quando a própria virou cinza, esperei que a distância de segurança que eu era, já inexistente virasse explosão. Como o fogo e gasolina. Ao invés virou: Fogo de Artifício.

Como pude eu perder tal espetáculo? 

De hora avante, vou deixar o fogo atear e esperar por espetáculo semelhante! 

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Conto

Kumquat

Há pouco tempo pediram-me ajuda. Quando alguém pede ajuda, não vejo o porquê de a recusar. Seria desrespeitoso e nada gentil. Neste caso específico a minha amiga procurava ajuda para algo em que estava bloqueada há muito tempo e de onde não conseguia sair: encontrar uma nova palavra segura (vulgo safe word). É corrente, e sobretudo dependente do contexto, ter uma palavra que se possa usar de forma a interromper uma ação que possa estar a passar dos limites. De tanto usarmos o positivo/negativo (“Sim, Sim”, “Não, Não”), o ambíguo pára/arranca (“não, pára! Não pares!”) ou de invocarmos o divino: “Ó céus!”, “Meu Deus, meu Deus!” (que também pode passar por elogio) ou o “Jesus não olhes, Jesus não olhes!” que estas palavras e expressões caíram em desuso e já pouco surpreendem.

Mas voltemos ao pedido inicial. Como primeira sugestão de palavra segura disse: “Albatroz”. Essa ave de asas enormes que rareia nas nossas costas certamente que é capaz de chamar a atenção nos momentos em que ela, a atenção, é mais necessária. A sua reação não foi a esperada uma vez que tendo em conta o contexto essa palavra pode levar a uma interpretação de “dar asas” ou de expandir a situação atual. 

A minha segunda sugestão foi “Crisântemo. Uma vez mais a reação foi fria. Apesar de elevar o ambiente para um clima floral que aguça os sentidos da visão e do olfato, a proximidade com a palavra “Cris-to” levaria para outras solenidades invocando uma vez mais o divino para atividades pagãs. 

Pensei em “Unicórnio”, esse ser mitológico alado que deixa um rasto de arco-íris por onde passa, seja no chão ou no ar e que, de acordo com a lenda, apenas pode ser domado por alguém jovem e ainda não tocada pelo pecado original. Mas a esse termo, disse-me ela, falta um pouco de substância…   

Seguiu-se a palavra “Paralelepípedo”. Não sei como esta palavra vos soa ao ouvido, mas o simples facto de mencionar uma forma geométrica transporta-me a aulas de expressão visual e de matemática, coisas que nada têm a ver com o contexto em questão, logo propícias à pausa e reflexão. Também não consegui fazer vingar o meu ponto de vista. A palavra segura, disse-me ela, não se pode referir a algo tão frio e esquemático que não deixe espaço para uma possível continuação se assim for o caso. Essa palavra deve ser um parêntesis fonético que obrigue a uma pausa momentânea. 

Estava prestes a desistir quando dei a minha quinta e última sugestão: “Kumquat”! Ainda que intrigada, a palavra não foi descartada de imediato. É uma palavra inusitada que está fora de todo e qualquer contexto, que surpreende, mas ainda assim deixa água na boca.

Pensem bem nesta palavra: “Kumquat”. Podem repeti-la e sentir a forma como aproxima os lábios, enrola a língua e por fim abre-nos o céu da boca. Sempre pensei que era alguém, a falar depressa e a tentar dizer “como qual”. Mas não, é apenas o nome de um fruto perfumado e cítrico. Uma laranja japonesa. Ou melhor, uma laranja-anã japonesa. 

Das palavras dizemos sempre que o vento as leva. É verdade, mas esquecemo-nos que esse mesmo vento também nos trouxe muitas palavras, quer empurrando velas ou soprando as asas de um avião. O Kumquat foi uma dessas. Chegou e ficou por cá. Quer nos campos quer a decorar varandas arejadas e ensolaradas. Está longe de casa, mas ainda assim acostumou-se a estas costas e por aqui ficou. Como tudo o que é novo há sempre uma desconfiança inicial (normal quando não se conhece) mas o tempo transforma a distância do desconhecido numa proximidade familiar. Hoje podemos encontrá-lo em quase todas as lojas de jardinagem e bricolage e sobretudo nos bares e cocktails da moda, onde o mini está “In”! 

Como fruta de pequeno porte, o Kumquat esconde poucos segredos para além do sumo e das sementes. Perde apenas para o morango – o único fruto que tem as sementes do lado de fora. Se pusermos de lado o seu tamanho, tem quase tudo para passar por uma laranja. Cortando-a ao meio a cor, a casca e o aspeto do gomo são quase os mesmos. Porém, há que ter cuidado para que as aparências não nos enganem. Neste pequeno fruto a doçura está na casca e não nos gomos. Muito pouco se pode tirar do seu interior. Pode ser comido por inteiro (o tom mais alaranjado deixa antever o grau de maturação) uma vez que o suco é mínimo e sorvido rapidamente pelos recantos mais escondidos da boca. A semente, no entanto, tem o mesmo tamanho e gosto amargo que a sua prima maior. A evitar. 

Custa habituar-se ao Kumquat. Quer à palavra, quer ao fruto. Não faz sentido ter uma laranja daquele tamanho, que dá tanto trabalho e que se come por inteiro, só para enfeitar. Sem falar que vindo do Japão não posso descartar que fosse uma pancada do tipo meter um gato dentro de um frasco de vidro para o ver crescer de forma “transparente” ou de plantar um morango a tal ponto perfeito que se pode vender ao preço de um cristal de edição limitada da Swaroski. O Kumquat tem o seu espaço e o seu valor. Prova disso é que hoje encontramo-lo em todo o lado.

Ela escutou a minha longa explicação e vi a sua cara desenhar um sorriso. As virtudes do Kumquat, palavra e fruto, foram reconhecidas.  

Ela agradeceu o exercício, considerou “Paralelepípedo” uma escolha “estranha”, arrumou as suas coisas e, antes de bater com a porta perguntou-me onde era o mercado mais próximo. Para usar a palavra de consciência tranquila é necessário tomar conhecimento (e gosto) de causa.

O Kumquat agradece. 

PS: Para descobrir outras palavras trazidas pelo vento, visite a página do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (disponível em: https://voc.cplp.org/index.php) onde encontram todas as palavras que o vento trouxe para aqui e para o mundo. 

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Poema Todas

Poema

existe um poema 

que não é meu

nem teu

podia ser nosso

existe um poema

que se esqueceu do nome

e não sabe bem onde

esqueceu os seus versos

existe um poema

com tacto e gosto

literalmente meu

vagamente teu

existe esse mesmo poema

de tinta sem cor

de amor preenchido 

com vida nos versos

existe um poema

aquele poema

que aconteceu, existe 

e ninguém o escreveu

existe um poema 

dois corações

emoções mais que muitas

existimos

existe este poema 

um poema

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O Vazio

Ela perdeu um amante e esse era o vazio mais difícil de preencher.

Margarida passou uma década a trabalhar. Não tinha marido, nem filhos e estava feliz com isso. Era sua ambição ter uma carreira. Estava decidida e nada a abalava. 

Não a abalou as vezes que lhe perguntaram porque não tinha filhos, nem mesmo as que lhe disseram “Vais-te arrepender se não os tiveres”. Nada de abalos por ouvir que não era madura o suficiente por não ser mãe, ou mesmo quando as perguntas eram: “E marido? Para quando?”. 

Tudo o que interessava a Margarida era a carreira. Então, de facto, era abalada quando não lhe davam o valor que merecia. Quando a ultrapassavam, ou se por acaso levavam os louros que lhe pertenciam. Aí sim, Margarida virava fera. Não era para menos. Tinha 26 anos, nunca reprovou um ano, fez licenciatura, mestrado, doutoramento, recebeu bolsas de mérito e passou todos os segundos da sua vida dedicados ao laboratório.

Pesquisou para aprender. Defendeu uma tese e uma outra pesquisa, defendeu ainda outra tese e uma nova pesquisa só não se soube defender. 

Durante uma carreira exemplar foi dando o seu trabalho, ideias, suor, lágrimas e até as suas alegrias em prol da ciência. Achava desde de muito nova que seria uma cientista reconhecida. Queria de facto ajudar o mundo com as suas descobertas. Certo, que queria uma carreira, mas também a queria com significado: ajudar o mundo. 

Aos 26 continuou de bolsa em bolsa desta vez por sistema, investigação em investigação. Sentia-se muito sozinha, porém, a certa altura, um colega de trabalho aproximou-se e passaram a partilhar os seus dias.

Dos dias, passaram a partilhar trabalho, ideias e sucessos. Tudo parecia perfeito. Uma dupla infalível, um casamento perfeito: dois cientistas em prol da ciência com carreiras em ascensão. 

A dado momento, e porque não eram só as carreiras que cresciam, também as partilhas aumentaram. Os dias de Margarida e Diogo passaram a ser mais do que trabalho, ainda que Margarida se mantivesse fiel a si mesma: nada de amor/ casamento e muito menos filhos. 

10 anos passaram num abrir e fechar de olhos. E aos 36 Margarida percebeu que Diogo desapareceu de um dia para outro, levando com ele os louros de todo um trabalho. 10 anos dos quais, 8 juntos, voaram com Diogo. 

Ela, com 36 anos, certa das suas decisões, certa de que faria tudo de novo estava num buraco do qual não via fundo. É claro que não faltaram dedos a apontar: tivesses filhos estarias feliz, estás velha para arranjar marido agora, coitada da triste Margarida que escolheu ser infeliz a ter família. 

Enganam-se as más línguas. Margarida estava sim no meio do vazio, porque perdeu 10 anos, trabalho, embora não de conhecimento, um amigo, ou pelo menos assim compreendia e um amante. Sentia-se pior ainda porque era o vazio do amante que mais difícil estava de preencher. 

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Crónica

Nome Próprio

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

Álvaro de Campos 

O meu nome é Cansaço, apenas e só Cansaço. Há quem tenha mais de um nome, porque agregado ao nome próprio segue os de família, da mãe e do pai. No meu caso, sou apenas Cansaço. 

Órfão de pai e mãe, conheço-me por cansaço, não sei portanto as minhas origens. Não posso dizer de quem ou de que derivo, em mim há apenas Cansaço. Como será possível que haja quem vá ao século, sei lá bem qual, por certo um bem lá trás para saber quem é? Como possível será que se precise de justificar o próprio nome com o nome de outrem, ou ações de outrem, como se eu fosse fruto de apenas o que outros fazem, ou fizeram. Mais ainda, quando se trata de ações tão longínquas! 

Há pois quem justifique a sua miséria pela miséria do nome, ou do sangue que lhes corre nas veias, quando se Cansaço há é por uma corrida própria. E está a contar, como num táxi que vai no seu caminho e enquanto não pára segue e soma. Se se cansa ou não depende do gosto. 

Há ainda quem não tendo justificações para apresentar queira encontrá-las, à força, no nome, apelido nem que para isso vá ao fundo do baú e apanhe uns pós que o fazem espirrar ao ponto de um espirro ter outra justificação a do nome comum. 

Há quem prefira inverter a ordem e nunca se quer mencionar o nome próprio, será vergonha? Será falta de identidade ou excesso dela? Será que representa uma personagem tipo? 

Eu, sou do tipo que tem nome, o primeiro e próprio: Cansaço. Sem justificações, nem pretensões, com apenas um custo: a minha própria corrida. 

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Conto

Janela Aberta

O meu quarto foi sempre o meu maior espaço. É o espaço onde tudo me é familiar e onde mais ninguém sabe onde escondemos o que nos é mais valioso. Guardamos segredos no fundo das gavetas, por baixo de livros e cadernos antigos. Guardamos calendários, blocos e memórias de quem nos roubou o olhar. No meu quarto, jogo sempre em casa. 

Apesar de conhecer todos os recantos, a parte que mais me fascinava era a janela: a janela do meu quarto deu-me mundo. Eu sei que dava apenas para o descampado onde jogava à bola ao fim de semana, mas dessa janela eu sentia o pulso do bairro e até do país senão vejamos: conseguia ver quando é que havia fila para o supermercado pois as pessoas estavam à porta para entrar; sabia se era fim de semana pois o vizinho do prédio em frente estava a lavar o carro para depois se esticar e ler o Expresso durante o resto da manhã enquanto ouvia a rádio em alto e bom som e; também sabia se havia vento em Lisboa uma vez que os aviões sobrevoavam a minha casa de e para a pista 17 em vez de alongarem a costa do Espichel até ao Monte da Caparica. 

À minha janela chegavam os sons do primeiro centro comercial que abriu em Portugal. A música que entrava era bastante animada e claro está, decorei letra e ritmo. Quando uma vez a professora da 4ª classe me perguntou quem queria cantar alguma coisa antes de dar a aula por encerrada, cheguei-me à frente. A minha inocente consciência politica dos 9 anos não sabia o que era censura, mas assim que as primeiras notas saíram da minha garganta fiquei a conhecer pois a professora, que também vivia ao lado do dito centro comercial e ouvia a mesma música dia e noite, não era fã como eu e eis que salta da sua cadeira e pega na régua de madeira para me achatar as mãos. 

Virado para a minha janela li e estudei. Estudei, é certo, mas o meu olhar perdia-se para a rua e para o céu. Uma manhã perdi-me nas leituras e não fui ter com os meus amigos que foram à inauguração do hipermercado. Fiquei a ler em frente à janela. Enquanto lia sobre o meio-físico e social, vi as luzes das ambulâncias que foram socorrer quem levou com o telhado que ruíu com a chuva acumulada enquanto estreavam quando comprava pela primeira vez na grande superfície.    

Esta é a janela da qual me recordo mais, pois era minha. Tive outras que me davam vista para o mar, para a serra ou para o museu. Dormir embalado pelo som do Ondas do Mar foi um privilégio, se bem que o som do oceano era frequentemente abafado pelo vento. Ter a vista para a serra permitiu ver o sol a acordar atrás da montanha após largas noites a observar charcos de estrelas e ver como duas vidas podem ser condenadas numa noite. Já da janela para o museu o complicado era manter a concentração devido aos OVNI’s que por ali pairavam. Presságio ou não, anos depois esse mesmo museu foi promovido a ícone por albergar super-heróis.  

Ter um lugar à janela dá-nos uma perspetiva maior ao nosso redor. Seja no avião, autocarro expresso ou comboio, a janela tem qualquer coisa a mais (não é por acaso que um dos hashtags da CP é #Lugarajanela). A janela do comboio está sempre em movimento. Quando se podia abri-la era divertido pôr as cortinas e a cabeça de fora para sentir o vento na cara… tudo muito engraçado até aparecer um comboio em sentido inverso. Para se aproveitar a janela na linha da Beira Baixa ou do Douro há que ser estratégico: com sorte temos uma vista para o rio enquanto a linha serpenteia a água, caso contrário temos um lindo close-up do recorte da pedra. Da janela do avião há um momento muito particular: logo após a descolagem olhamos para fora para ver o que fica para trás. Eu penso que nos dá tempo para um último “até já” ou “adeus” consoante o caso. Do avião (provavelmente a minha janela de um meio de transporte preferida) deixamos de estar em pé de igualdade com a superficie. Temos perpetiva e a dimensão real das coisas. 

Há estas janelas onde somos espetadores passivos e vemos a vida a acontecer. São janelas que nos movem com elas. No entanto há janelas que requerem a nossa ação, são as janelas de oportunidade. Estas, infelizmente, nem sempre são visíveis e muitas vezes só nos apercebemos depois do momento passar. A diferença destas para as outras janelas é que não têm o vidro onde também podemos ver o nosso reflexo. Se passarmos por um um túnel de comboio ou na estrada ou se viajamos de noite de avião, temos a nossa cara a devolver-nos o olhar. Na janela de oportunidade tudo acontece, tudo se decide  e tudo se perde sem filtros. E uma vez fechada esta janela, não há forma de a voltar a abrir. 

Olhando por qualquer destas janelas, retenho a forma de como a paisagem mudou. O meu campo de futebol/basquetebol deu lugar (literalmente) a um parque de estacionamento. As folhas caem para que outras, mais fortes, brotem e cresçam dando continuidade à vida. Sempre me focalizei no que via lá fora, na distância, até que há pouco vi que o reflexo que a janela me devolve mudou e quase não reconheço aquela pessoa que tem os meus olhos. 

Engraçado, nunca tinha notado nisso. 

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Ensaio

És tu, não sou eu

Deixo aqui esclarecido desde o início que és tu. Sim tu e só tu. Em nada esta situação está relacionada comigo. 

Tenho por hábito acarretar todas as responsabilidades sobre todas as situações e assim fiz por anos. Anos e anos a fio. Soube-te bem? Vejo que sim. Vejo que o melhor do mundo foi ver-me a arcar com todas as pontas, todos os pesos, e isto desequilibrou a balança. 

Tenho de admitir que possivelmente o problema de tudo isto foi precisamente a balança. Eu, mais do que ninguém tenho problemas com a balança, fujo dela como quem corre do diabo, se o diabo fosse pessoa e lhe pudéssemos atribuir forma. Fujo porque ela me dita destinos, me aflora medos, grita ao meu ouvido o quanto sou incapaz de me perceber como um ser belo. Belo, onde a balança não dita a beleza. E aqui está: foi o meu medo de balanças que me atirou para o momento em que estou. Este desequilíbrio onde percebo finalmente as coisas como elas são: não fui eu, foste tu. 

Pena que de tanto penar, de tanto te salvar eu tenha impedido-me de perceber que este desequilíbrio da balança facilmente chegaria a outros campos e que depois de penar e te salvar eu penaria um pouco mais por me atirares ao fogo para arder sozinha. Repito sozinha. Porque me incentivaste a atear a fogueira e foste tu quem me disse que lá estarias tu para apagar fogos. Foi então que eu peguei na acendalha e uma chama transformou-se num incêndio que tu decidiste ver de longe. Deixaste arder. Quiseste ver tudo a queimar. E quem sabe regozijar-te com as cinzas que provocaste. Sim, foste tu que fizeste isso, não eu. 

Bonito, não? Tão bonito ver o que sobra de nós. De mim. A ti nem mesmo consigo ver. Afinal tu ficaste de longe a ver, quem sabe a deitar gasolina para o fogo que ardeu como se não houvesse amanhã. 

Agora?! Agora, grito: és tu, não sou eu. Finalmente percebi que és tu e não eu, pena, muita pena que tenha percebido isso tão tarde que infelizmente passei a ser eu e não tu. Fui eu que deixei seres tu e não eu. 

Para finalizar esclareço, por teres sido tu e não eu, fui eu e não tu. Mas só hoje quero gritar bem alto para que me possas ouvir a esta distância: 

És tu, não sou eu. 

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Ensaio

Ensaio sobre o regresso

Nasceu. 

Está connosco, é verdade e oficial. 

Todos os anos ele se apresenta como o mais feliz e nunca teve problemas com as suas formas redondas, incrível! 

Amante do frio, de facto é o único meio onde vive, ainda assim não dispensa um bom cachecol. 

Faz crianças felizes e até os adultos esboçam sorrisos ou desatam às gargalhas, contudo não faz uso de uma única palavra. Apresenta-se perante todos, sempre com estilo e determinação. Não sendo comediante faz rir a pedra da calçada. Se calhar a pedra não, porém do carrancudo ao inerte, ele derrete qualquer um. E sorri. 

Faz do tempo gelado a sua casa e aquece as almas de todos. Faz de seu corpo o contraponto para aqueles que se apresentam perante ele. 

Começa a ganhar forma, muito antes de ter de facto forma. É na entrada do inverno no primeiro floco e nos sonhos de todos que começa a nascer. A fórmula mágica para a sua gestação é o tempo. Não será a de todos? Neste caso, todavia, estamos a referir tempos diferentes, não é o cronológico, ao invés é a meteorologia que falamos. 

É este coração frio, formas redondas, sorriso pontilhado na cara e um nariz, verdadeiro, ainda que grande como o do Pinóquio que faz as alegrias dos pequenos aos graúdos. São as gargalhas de todos que o mantêm vivo. 

Ninguém se quer despedir dele, porque nele está toda a felicidade do mundo. No entanto, chega um dia, em que o sol derrete o seu coração, ele, regressa apenas no próximo floco, este Boneco de Neve.