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A mãe não teme

Nasceu perfeita. Parto fácil, hora curta e uma mãe forte o suficiente para fazer crescer no ventre tantos mais filhos quantos vierem. Contaram-lhe os dedos das mãos e dos pés: um dedo, dois dedos, mais um dedo e outro dedo e outro e outro e conta certa. Os três cabelos que irrompiam do topo da cabeça prometiam uma cabeleira forte e lustrosa. Parecia tão bonita. O rosto avermelhado visto num ápice parecia resolver-se com o primeiro banho, mas não era sangue, era barro. 

Nasceu perfeita, com um rosto de barro. A pele não era pele. Os ossos ainda moles do rosto – e, quem sabe, a carne – cobriam-se de terra alaranjada e quente, incandescente ou em brasa, como a que se vê nos postais de lugares longínquos, abafados e pintados a cores que parecem nem existir. 

A mãe acolheu-a nos braços com o mesmo orgulho com que qualquer oleiro ergue as obras que lhe saem das mãos. Fê-la de barro sem intenção, mas fê-la tão bonita. A mãe era a mais calma da sala que, em chamas, lhe gritava todos os inconvenientes:

O banho desfez a expressão da recém nascida. 

A mãe não teme, molda de novo com o coração na ponta dos dedos.

A criança não chorou enquanto nascia. 

A mãe não teme, compreende que não chora porque o choro desfaz. E quando chorar, pode esculpir-se tal como era de novo. A expressão pode dispensar a lágrima, a menina pode cravá-la no rosto sem a chorar, pode crescer capaz de chorar para dentro sem corroer a carne que se cobre de barro. 

Alguém grita E A CHUVA?

A mãe não teme, promete ser abrigo enquanto viver – e depois. Ser mãe é ser abrigo e será mãe para sempre. 

Mas a água ameaça o barro mais sólido.

A mãe não teme, o que a água molha o calor enxuga e o sol endurece o barro. À falta de abrigo ou calor, há verniz que repele a água. Pode ser o que quiser, até casco de barco, se encher o peito de ar.

Vai viver com medo.

A mãe não teme, não conhece quem viva sem ele.

A menina temeu a água como quem teme a morte, com medo que a pele que não o era se deixasse desfazer até ruir ossos abaixo. A mãe não temeu. A menina aprendeu a moldar-se de novo depois do chuveiro e da chuva. Perdeu o medo de se esquecer como era antes. Deixou-se molhar com e sem intenção, soube envernizar-se quando o vento fintou o abrigo, soube moldar-se de novo sempre que se deixou desfazer e aprendeu a esculpir apenas as rugas que a desenham também por dentro. Todas contam uma história e é ela quem as escreve. 

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IPERA

Atenção este texto contém spoilers! 

Faço uma declaração de interesses: um dos meus albúns preferidos de sempre é sem dúvida o “1° de Agosto Ao Vivo no RRV (Rock Rendez-Vous)” dos Xutos & Pontapés. Sejam vocês ouvintes da altura ou recém-chegados ao culto dos Xutos este é um album incontornável. O som leva-nos àquela noite de 1984 onde uma banda, já com 6 anos de estrada, registou um concerto que marcou um momento a caminho da consagração que chegaria mais tarde com os discos “Circo de Feras” e “88”. O álbum RRV contém aquela energia crua, eletrizante e bruta das músicas feitas para serem ouvidas com o som bem alto ou com auscultadores com redução de ruído que faz a música sobressair ainda mais. Canções incontornáveis como “O Homem do Leme”, “Se Me Amas”, “Conta-me Histórias” ou “Barcos Gregos” apareceram no RRV pela primeira vez, ainda antes de serem editadas num disco LP.

Ainda que este seja o meu disco preferido dos Xutos, há outras canções do seu repertório que me movem pelas mais diversas razões. Por exemplo não acredito que alguém consiga ouvir o “Dá um mergulho no mar” ou o “Ai se ele cai” sem que uma força sobre-humana o faça começar a saltar compulsivamente. A mesma homenagem pode ser feita à longa introdução do “N’América” onde o baixo, a guitarra elétrica e o saxofone discutem durante largos minutos sobre quem irá arriscar dar a palavra ao Tim; ou ainda ao incontornável “Para Ti Maria” que mediu o pulso ao desenvolvimento das estradas: se em 1988 demorávamos 9 horas para ir de Lisboa a Bragança, hoje em dia a mesma viagem faz-se em 4 horas e 45 minutos de carro (segundo o Google Maps) ou em menos de 1 hora de avião. E já que falamos em Marias, posso culminar com o “Avé Maria” que me era sempre dedicada em voz alta pelos colegas do Basquetebol que implicavam comigo por chegar atrasado aos treinos de Domingo porque vinha da catequese. 

Antes que me perca demasiado, queria apenas ressalvar que do reportório dos Xutos há uma música em particular que me sempre me intrigou. E isto vem de alguém que se intriga com coisas como o nome das ruas. Um pequeno parêntesis: desde cedo que me pergunto o que é que temos de fazer para dar o nome a uma rua. A primeira razão, está claro, é que já falecemos. A segunda é ter feito algo de absolutamente notável. Por essa razão, e muito antes do Wikipedia, costumava apontar os nomes das ruas e ia depois à biblioteca investigar quem eram aquelas pessoas.   

Mas voltando aos Xutos e à sua canção intrigante. Estou a falar de “As Torres da Cinciberlândia” que aparece no álbum “88”. Esta canção leva-me a um lugar místico e etéreo. Vivendo na margem sul a “Cinciberlândia” sempre me pareceu um lugar real ainda que distante. Eu, tal como narra a canção, passei largos anos à procura das ditas torres. Para mim eram torres que só poderiam servir um fim dúbio: comunicar com outros planetas (sim, a minha mente vai logo para ali). Afinal porque razão existiria um sítio tão secreto e avançado que não tivesse esse propósito? Torres que apenas brilham? As minhas suspeitas seria confirmadas alguns anos mais tarde quando apareceu a série “Ficheiros Secretos”. Se isto era possível nos EUA porque não em Portugal? Tudo bem que quando os extraterrestres visitam o nosso planeta passam primeiro pelos EUA (e isto está documentado de forma exaustiva), mas tendo Portugal ganho tantos Óscares de turismo, uma vista a este retângulo até que vale a pena! E claro está, não ajudou nada ver aquele documentário da RTP que falava dos “ficheiros secretos portugueses” e cujas amostras, que estavam guardadas no Museu Nacional de História Natural e de Ciência, desapareceram num incêndio de origem duvidosa. No fundo a minha imaginação levou-me a acreditar que as torres funcionavam como um portal para outro propósito que não a comunicação. 

Anos depois consegui enfim encontrar a Cinciberlândia, numa altura em que já tinham retirado as famosas torres que, afinal não eram mais do que antenas de comunicação. E sim, a Cinciberlândia servia outro fim que não a comunicação (Spoiler Alert): neste caso era a defesa atlântica uma vez que era um posto de comando da NATO de nome CINCIBERLANT. Hoje em dia tem outro nome: NCIA. Imagino que há uma série policial prestes a sair que relata as aventuras dos agentes secretos a trabalhar em Oeiras e a descansar entre a praia da Torre e o forte de S. Julião da Barra (fica aqui a sugestão: NCIA: Oeiras). Tudo isto para vos dizer que com esta descoberta perdi um pouco da ilusão que acompanhava a canção. Afinal o portal com que eu contava não era exatamente o esperado.

Mais tarde, a vida reservou-me o contato com um portal transdimensional. E com este sim, tive a possibilidade de o utilizar de forma frequente e fiquei a conhecer o seu nome: IPERA. Este portal está literalmente no ar (é um ponto GPS de navegação aérea) e serve tanto de entrada como de saída. Imaginem uma escadaria que nos levam a uma porta, só que a porta está a 10km de altura. Para quem viaja de avião entre a Europa e Cabo Verde este portal marca o início da descida e os 30 minutos que faltam para chegar. 

A minha primeira passagem por esse portal foi a medo. Afinal não sabia o que me esperava lá em baixo. Quando estamos no ar tudo é relativo e ao viajar deixamos tudo (incluindo os problemas) para trás. Ainda assim assustava-me ser o desconhecido e só ter como referência as histórias de quem já lá tinha estado e não me parecia possível serem todas coincidentes e positivas. Ao escutar o som dos reatores a retrairem e sentir o avião iniciar a sua descida entrei em modo “passageiro concentrado” e a pensar nos passos seguintes: haverá muita fila para o controle de passaporte, a bagagem vai chegar ou se o táxi vai demorar muito tempo. Estava eu a tentar organizar os meus pensamentos quando a senhora que está ao meu lado entrega-me o seu recém-nascido para os braços e diz-me para o segurar pois quer aproveitar o tempo que falta para ir à casa de banho. Foi aí que me dei conta: gente que confia os seus primogénitos a estranhos em aviões só podem ser seres humanos de coração aberto. 

O avião aterrou e durante os quatro anos seguintes pude comprovar que as histórias que tinha ouvido na verdade não faziam jus ao que vivenciei. IPERA tornou-se o meu ponto de chegada e de partida oficial (tecnicamente este ponto marca o inicio do espaço aéreo controlado por Cabo Verde). Nas viagens recorrentes tanto controlava a ansiedade para chegar a IPERA ou o certo aperto quando a deixava na viagem de sentido inverso. A viagem de avião sempre tinha entusiasmo, tanto ao início como ao fim. 

Passados quatro anos chegou a hora da partida definitiva. Esta iniciou-se em terra. Despedi-me no aeroporto com um abraço apertado, terno e adiado. De seguida enfrentei uma subida dolorosa até IPERA. Por alguma razão o avião voa praticamente em linha reta até sair lá em cima, como se fosse o fim de um túnel muito, muito comprido. Foi assim que cruzei o portal pela última vez.   

Como dizia o Tim, “já lá voltei e busquei o lugar” e há pouco tempo, a caminho do Atlântico Sul, passei ao lado do portal mas não desci para as ilhas da Morabeza. Ainda assim acordei uns minutos antes, servi um espumante e brindei à sua passagem.

IPERA: N20°21.91′ W20°41.98′

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O homem que perdeu o riso

Vá-se lá perceber porque já não ri. Ser incapaz de o fazer afoga-lhe os olhos. A miséria do homem que esqueceu como soa a própria gargalhada não se deixa medir. Passa horas ao espelho a ensaiar um riso que as entranhas já não sabem cantar nem deixam nascer. A incapacidade de rir gerou uma especial alergia ao riso alheio. Que asco, que inveja, que revolta. Não se riam sem ele. 

Reivindica as rugas do riso porque a idade já as merece e nunca confiou num rosto velho sem elas. Acredita que a tristeza do homem se mede pelas rugas de riso que não tem. Como se pode confiar em alguém que não ri? Rir é dar-se e quem não se dá nem a si se tem. Sempre ouviu: cuidado com os amargos. E mesmo com cautela, amargou. Deixou secar o riso e parece não sobrar mais nada. Até quem chora de felicidade trabalha as rugas do riso, mas o homem não sabe chorar assim. Rugas só na testa e no nariz, nasceram do esforço de arrancar um riso das vísceras como quem arranca raízes da terra. 

Há arranjos de tanta espécie: esvaziam-se papos, coxas e barrigas, enchem-se rugas, olheiras, lábios, seios e egos, mas não há um médico que implante gargalhadas. 

Procurou o riso por todo o lado. Foi aos espetáculos de comédia mais concorridos, nem uma gargalhada. Só foi capaz de cuspir uma bolha de ar quase engasgado, como um carro que nunca pega à primeira. Que martírio. Ofereceram-lhe “aquilo que faz rir” e até isso o fez chorar.

Nunca soube apreciar massagens por ter cócegas até atrás do joelho. Investiu uma hora no massagista à procura do riso nervoso fruto da cócega acidental. Um suplício. Uma sessão de tortura e aflição sem graça. Tentou aulas de teatro, para aprender a rir mesmo sem vontade, como os atores mais convincentes. Achou tudo aquilo sinistro, um esforço sadomasoquista que doía mais do que aliviava. 

Espalhou cartazes a dar o riso como desaparecido. Tentou descrever como soava a gargalhada numa prosa curta e confusa, juntou uma fotografia sua de quando ainda sabia sorrir, do ano de mil novecentos e risos. Por fim, o número de telefone. “Se o ouvir, LIGUE JÁ.” Ninguém ligou. Faltaria recompensa aliciante? Mesmo que ouvissem algures o riso perdido, como teriam a certeza que era dele? Como poderiam apanhá-lo para o devolver? Como voltaria a guardar-se no corpo do homem? 

Chora o riso que perdeu, exclama um miserável ah ah ah ah ah ah ah ah ah com o entusiasmo de um defunto, com o esforço de quem suga a vida de um ventilador, com a dor de quem perdeu um filho. Morreu-lhe o riso, perdeu-se em parte incerta, sobra o choro para o enterrar. 

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Imortal

Li, um dia , que quando entras na vida de um escritor serás eternizado. Não me perguntes onde li, sei apenas que li. E isto, traz-me aqui. Quero saber em que páginas tuas me encontro. Quero saber onde me desenhas com palavras e se me imortalizas nas tuas páginas. Quero saber o que é importante entre nós que necessite ser imortalizado. O que de tão bom ou bonito te fez pintar-me, e em que materiais me esculpes, ou de que formas me materializas. Se é que o fazes.

Quero portanto saber as tuas prioridades e arrepios sobre nós. Será que aquela noite quente sobre uma lua cheia e luminosa, num banco de jardim, a beber um copo de vinho que trouxemos da casa alugada umas das prioridades? Essa noite onde trocámos, para mim as palavras mais sensuais sem se quer falar em sexo em nenhuma delas, sem que as mesmas fossem reflexo de provocação. E no entanto foram as palavras mais envolventes e provocantes, a intimidade prefeita. Sim porque sexo não é intimidade, é apenas sexo. Minto, sexo, pode ser sim intimidade, porém nem sempre o é. E nós, tivemos momentos quentes, fortes, deliciosos, no entanto, íntimos como aquele, no banco de jardim, nenhum. As nossas almas abraçaram-se e despimo-nos de medos, de vergonhas e de barreiras. Encontrámos um ninho um no outro, um ninho celeste que ninguém mais pode compreender, ninguém, exceto nós que ali estávamos um com o outro, um no outro. Será este o momento que decidiste eternizar?

Ou por outro lado queres-me para sempre a desejar-te, sacando de um preservativo do bolso e um “desculpa” da boca. Boca essa que selaste com um beijo bruto e delicioso, para mais não me explicar ou justificar. Num suspiro abriste o invólucro deixando escapar: “sem desculpas, eu quero”. Desse momento tenho gravados o início e o fim, este início e o final que todos imaginam, eu deitada na cama enrolada em mim mesma, exausta de uma sessão animalesca e desejada,  com o corpo a vibrar do prazer sentido e a sentir. 

Será contudo que guardas um outro momento, aquele em que eu conduzia e chorava sobre uma tristeza que não era tua, era tão minha, onde os olhos deixavam cair as lágrima que por pouco me deixavam o caminho baço. Tu, limpaste as minhas lágrima e quando parei o carro, tu olhaste-me nos olhos e sem palavras fizeste-me conduzir até ao destino. Não me lembro o entretanto, sei apenas que saía do banho e com um olhar do mesmo jeito, daquele no carro, um beijo aconteceu, vindo de um movimento que desconhecia e ainda desconheço, por estranho que pareça. A tolha caiu no chão e a tua roupa quis fazer-se seguir à toalha. 

Algum destes momentos são teus, meus e imortais? Serão outros aqueles que resolveste imortalizar. Quero saber como se me fosse alimentar disso. Podes ainda ter decidido colocar cada momento em cada um dos teus textos, espalhados como uma caça ao tesouro, e teria eu o discernimento de os encontrar, de me encontrar, de nos encontrar? Entre tantos outros de outrem ou de teus pensamentos. Ai, os pensamentos de quem são os teus pensamentos, a quem pertencem eles? Terei eu um pouco desse espaço?

Sei, no entanto que noutro dia, passei por uma livraria e como gosto de ler, não só a ti, mas tantos outros, percorri o dedo pela estante perguntando, a esta mesma estante, que livro seria o meu. O tal que teria uma mensagem para mim, naquele dia. De olhos fechados o dedo parou e assim que abri os olhos a contracapa dizia “Desculpa”, esse é o título. Nome do autor? O teu.   

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Não Chorei Quando Nasci

Não chorei quando nasci. Não é que me lembre, mas é um daqueles factos que ouvimos tantas vezes em reuniões familiares, que os acabamos por carregar connosco como se formassem uma espécie de cognome incrustado à nossa existência.


A minha mãe, apesar das suas vontades em ter um parto natural, cuspiu-me para este mundo num silêncio adormecido, enquanto lhe retiravam o bicho ensanguentado pela fissura aberta do seu ventre. O médico e enfermeiras estavam num estado tão profundo de concentração naquele turno da madrugada, que nem um esgar soltaram no momento solene em que entrei de pé esquerdo nesta realidade. No bloco operatório, até os sons sintomáticos do hospital se pareciam ter feito diminuir numa espera inconcebida pelo choro normal de um nascimento.


O silêncio acompanhou-me, assim, a vida toda. Os meus pais dizem até hoje que era uma maravilha de bebé, chorava tão pouco que se esqueciam que me tinham. Quando comecei a escola, era tão calado que me tentaram diagnosticar mais de dez vezes com diferentes problemas de foro psíquico, nenhum deles acabou por estar certo. Parecia apenas que não tinha palavras trocadas na carteira, e as que tinha, requiriam esforços sobrehumanos para serem puxadas cá para fora.


Aos catorze anos, já tinha andado em quatro psicólogos e dois terapeutas da fala. Contudo, apesar de grandes e longas análises, nunca ninguém soube perceber a razão do meu silêncio e, quando me perguntavam, simplesmente encolhia os ombros, sem nada para dizer. Não o fazia por provocar, simplesmente, não sabia o que dizer. Nunca.

Com a idade, fui percebendo que levava comigo este silêncio denso e pesado. Era como uma massa negra à minha volta, que pesava no ambiente, sem deixar espaço para palavras. Comecei a pensar que, quando me colheram do ventre da minha mãe, colheram também um irmão gémeo esquecido, carregado nas minhas costas que fez calar todo o hospital.


Tentei visualizar várias vezes esta massa negra que me rodeava, talvez se percebesse a sua forma, a conseguisse expulsar. Pensei que fosse um polvo gigante, pousado no alto da minha cabeça oca de palavras, que levava o desconforto nos tentáculos, para tapar a minha boca e a de toda a gente que me abeirasse. Teria a aparência e o destino de um vilão da Disney – invariavelmente determinado a vencer-me, mas condenado a uma eventual derrota sobre o domínio da minha palavra. Contudo, quando os anos começaram a passar sem que levassem consigo os tentáculos, comecei a desacreditar-me do rato Mickey e das histórias de embalar.


Esse foi o momento em que comecei a pensar que talvez esta massa fosse um Anjo da Guarda que me protegia das palavras, guardando-as numa caixinha preciosa, apenas aberta nos momentos oportunos. Queria acreditar que o fazia para me proteger das esquinas afiadas das letras, mas também o meu silêncio me começava a magoar. Quanto mais tempo passava sem saber o que dizer, mais pequeno me tornava, mais me escondia pelos cantos, e mais sozinho fui ficando. Pelo que concluí que, quem me roubava as palavras não seria um anjo da guarda.


Comecei, então, a deixar de procurar causas externas para a atmosfera silenciosa e sufocante que carregava comigo e passei a crer que o silêncio vinha de mim. Eu tinha a massa dentro de mim, densa e corrosiva, a deixar-me a cabeça doente e cansada, atolada só das palavras que me faziam mal. Cambaleavam dentro do meu cérebro por horas, deixando feridas na sua passagem e sem nunca saírem para ver a luz do dia.


Tinha o silêncio na roupa que vestia e na pele que a suportava também. O silêncio estava nas minhas pestanas e unhas, escondido por entre cabelos e dedos, que se entrelaçavam sem ruído. Tinha-o nos lençóis à noite e nas toalhas de manhã. Nos cadernos em que tentava escrever e nos desenhos que falhava em completar. Entendi que o silêncio não só arrombava as portas e janelas do meu bem-estar, como também era ele a casa e as paredes contra as quais cambaleava à procura de equilíbrio.


Quando tive esta realização de que eu era o meu próprio silêncio, chorei como nunca o tinha feito. Chorei pela vez que não chorei ao nascer, e por todas as outras que me mantive demasiado calado para poder exprimir qualquer emoção. Tinha nas minhas lágrimas dor e confusão – toda a minha vida tinha culpado o universo por este meu problema, mas aparentemente, eu era o problema. Foram dias a chorar, inundei a casa e o tejo entrou-me pela sala e quarto sem autorização.
Estou ainda a limpar os estragos deste meu entendimento mas, já que não chorei quando nasci, espero nascer agora que chorei.



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Hotel Morpheu

Mens sana in corpore sano”, ou se preferirem: “Mente sã em corpo são”. Sempre me disseram que a mente e o corpo, quando sintonizados, permitem-nos desfrutar da vida e não há nada que nos detenha. É como não ter obstáculos e ter tudo, verdadeiramente tudo como possível.  

Sempre que a mente comanda sinto que o corpo tem mais hipóteses de sucesso. A mente sabe até onde o meu corpo pode ir, por isso alimenta e avisa-o de quando está a chegar ao limite. Ainda assim, ocasionalmente, o meu corpo consegue surpreender a mente com uma descarga de adrenalina que lhe permite um esforço adicional. 

A mente dá as pistas (vai descansar, já deu, não te esforces mais, etc.) e o corpo geralmente apanha-as todas. Geralmente porque o meu corpo por vezes nada para fora de pé: perde o comboio, age por instinto, fica até acabar a festa, arrisca mais, ousa um beijo ou acredita que certos dias não deveriam ter fim: a tarde passa a noite e da noite nasce a alvorada, resultante das palavras e de copos a mais, e de todos os outros que virão. Os momentos de euforia do corpo são pagos com as consequências do dia seguinte.  

Num dia perfeito tanto o meu corpo como a minha mente vão descansar à mesma hora. Eu desço até à cama ou outro recanto que me esteja destinado, fecho os olhos e durmo. A minha mente, no entanto, espera que eu adormeça para também ter o seu descanso. Porém para descansar parte para o Hotel Morpheu. Pelo nome até aparenta ser um hotel como os outros, mas é o sítio onde as mentes descansam. 

Imagino que quando adormeço a horas ela consegue chegar a tempo de fazer o check-in e escolher um quarto com boas condições. Sabem como funciona, não é? Um quarto a meio do edifício, não muito alto nem muito baixo, para poder escapar em caso de fogo e suficientemente longe do elevador para não ouvir quem chega demasiado tarde. 

Se o check-in é feito cedo ela consegue escolher onde vai ficar e tem o descanso merecido. Entra no quarto, senta-se na escrivaninha e coloca a bagagem que acumulei ao longo do dia no chão. Revê as avarias em que me meti, tenta dar sentido às caras com as quais me cruzei e toma notas para que me lembre do que correu bem (ou mal) para o dia seguinte. No final, e independentemente do balanço, termina com uma nota positiva. A bagagem é lavada, passada e arrumada para memória futura. O que não faz muito sentido é enviado de volta para onde os sonhos acontecem e onde têm uma segunda oportunidade de fazerem sentido. No final tudo é enviado para backup que é quando estou no sono profundo. A partir daqui ela tem o seu tempo: tanto pode tomar um banho relaxante, mimar-se no SPA ou discutir com as outras mentes o que os corpos lhes fazem. Trocam impressões, comparam notas e afinam estratégias. E aí têm o seu merecido descanso.    

Nos dias em que abuso e vou dormir tarde, a pobre dificilmente encontra o quarto que merece. Tem de se contentar com o está disponível, o que nem sempre é agradável. São os quartos que ficam ao lado da copa, das escadas, em frente ao elevador e de espaço reduzido. Como estes quartos são os que ficaram livres há pouco tempo, nem sempre estão limpos o que não proporciona um descanso merecido para o que resta da noite. Desta feita a bagagem do meu dia não é arrumada como deveria. Fica espalhada pelos compartimentos da minha cabeça, suja, sem nexo e à espera de que a mente a possa arrumar quando tiver tempo. Um dia assim ainda passa. Mas quando estes se tornam recorrentes a mente deixa de conseguir gerir. E assim a bagagem continua espalhada pelos recantos da mente sem ser cuidada e com o tempo o desarrumo transforma-se em dor. Infelizmente e apesar do nome, o hotel não fornece morfina, pelo que a mente tem de reduzir a confusão e desenrascar-se sozinha. 

Quero apenas realçar o quão importante é manter a consonância entre a mente e o corpo, na medida do possível. Depois de uma noite reparadora a mente e o corpo despertam simultaneamente. Ou melhor, deveriam.   

Isto tudo porque ontem a minha mente acordou antes do meu corpo (suponho que já devia ter dormido o suficiente). Pode-vos parecer estranho, mas lembro-me perfeitamente de estar a dormir, abrir os olhos e olhar à minha volta. O sol estava escondido e ela ainda dormia ao meu lado. Olhei à volta, vi o candeeiro do quarto e reconheci a minha roupa na cadeira ao longe. Continuei a observar o quarto e a ver como tudo me era familiar. Apenas os meus olhos se moviam. O corpo inerte como se estivesse anestesiado e eu confuso entre sonho e estar acordado. 

Pouco a pouco o meu corpo começou a acordar e a tomar consciência do que se estava a passar. Nesse momento senti o coração a tentar sair do meu peito tal era a força das suas batidas. Não sei como a mente deixou escapar esse momento, mas o coração bombava como louco para se assegurar que recuperava o atraso e que todos os órgãos estavam a trabalhar a 100%. Foi aí que a mente voltou a tomar o comando e baixou o ritmo do coração. Sussurro-lhe baixinho: – “Está tudo bem! Mas agora por favor devagar, senão amanhã não estamos aqui para contar a história…”.    

Ele acalmou e eu ainda aqui estou.

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Memória do Futuro

“Pára. Já percebi a mensagem. Ainda não chegámos aí.” Assim comecei a conversa contigo, memória do futuro. Minha querida e indelicada memória do futuro. Ou deveria mesmo dizer minha tão amada, fugaz, insana e incomoda memória do futuro.

Poucas são as vezes que acontece, mas aconteceu há um ano. Vi-o, encostado à parede branca da sala e soube que estaria hoje no chão de corpos colados. Numa manhã de inverno, entrava um raio de sol pela janela direto a ele, realçando a barba e o cabelo castanho claro. Longe de imaginar que seria abordada por uma memória do futuro, quando de facto fui, aconteceste. Um flash do futuro a dourar um primeiro encontro. Desengane-se quem pensa que fui abordada por um déjà-vu. Nenhum déjà-vu dá concretamente uma imagem de dois corpos fundidos no chão de madeira e um tapete fofo ao lado, de uma casa que desconhecemos, com cheiro a pele fresca e sensação húmida de corpos colados. Nenhum déjà-vu me traz sabor, fogo e definição. Quando me avassalaste, memória do futuro, soube que estaria com ele hoje, aqui, no chão de corpos colados entre ti, memória, e ele. Tinha, há um ano, acabado de chegar à sala, ao trabalho novo, à minha vida. Num sopro do fogo que me inundou o corpo percebi que não poderia escapar a este futuro. E foste tu memória que me traçou o caminho. 

Expliquei-te que não poderia ser. Expliquei-te com vários e diversos pontos, bastante detalhados, que me dei ao trabalho de anotar, escrever, rescrever e corrigir meses a fio num longo documento, quase um contrato entre nós, em como tu serias capaz de sair da minha vida e com isto mudar o futuro, tranquilizando-me. Porém, não assinaste o contrato que hoje, está na minha secretária guardado entre tantos documentos arquivados. E hoje, estou aqui. Arquivaste a minha vontade de mudar o futuro. E colocaste o teu plano em prática quando 6 meses depois de me avassalares tu, ele fez o mesmo colocando-me contra a parede sussurrando ao meu ouvido: “Pena não termos mais momentos destes.”. Vi-te memória. Aqui. E com medo respondi: “Momentos deste como assim? Queres que te passe mais vezes as impressões de (pausa) de, (olhei para os papéis) de assinaturas de presença? Convenhamos que há coisas mais interessantes para fazer.”. E com isto saí. Achando portanto que o tinha desviado da minha vida e te tinha passado uma rasteira.  

Verdade, que tu escreves direito por linhas tortas e por isso, marquei presença numa das folhas dele, desta vez não entre a espada e a parede, mas na apresentação de um dos seus mais recentes projetos. Com medo de ser notada, assinei, sem o último nome, e saí. Claro está, que não me poderias deixar em paz e sei que deves ter arranjado uma forma dele ter reparado que eu estava em fuga e quando chegou até mim sussurrou-me, como outrora o fizera: “Último nome é requerido, contato de email e só para mim contato de telemóvel.”. Perfeito. Estiveste muito bem, devo dizer-te. Fui apanhada desprevenida assinei e segui. Dia seguinte uma mensagem no telemóvel desenrolou o fio que há muito estava enrolado. Uma mensagem puxou a outra e um beijo levou ao outro. 

Posso dizer-te que és demasiado inconveniente, sabias que isto não era possível acontecer sem que eu saísse desta situação sem marcas. Mesmo assim, quiseste manter-te como inalterável levando o futuro ao presente e agora, neste preciso momento, em que mais preciso de ti para me ajudares a levantar deixas-me sem ti, apenas ele e sem palavras para lhe responder. Sendo que ele adianta-se dizendo: “vou aceitar outro trabalho e”  interrompo dizendo: “Pára. Já percebi a mensagem.”. Isto para ele, já para ti: feliz?! Chegámos finalmente aqui. 

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(a)Guarda

Godofredo de Almeida, funcionário postal. Esta é a forma como me apresento ao longo dos anos. O primeiro é o meu nome e o segundo a minha profissão. Sim, carteiro e afins. Sempre fui atraído pela questão logística das coisas, sobretudo seguir o caminho que uma encomenda ou carta faz para ir de A a B em perfeita segurança, sem atrasos e em perfeito estado. Há quem prefira seguir aviões, comboios ou camiões TIR. Eu prefiro as cartas. Gosto de acompanhar o percurso de cada uma, ver por onde passam, onde se demoram e quando passam a fronteira e são livres para chegar ao seu destino. Sabiam que existem estações de fronteira para o correio? Não são aquelas estações de correio perto das fronteiras como em Vilar Formoso ou Elvas, mas estações de correio que recebem e tratam o correio internacional. Imagino que as cartas e as encomendas também têm de passar pelo mesmo que nós.

Cada entrega tem uma história. Eu, que já ando nisto há muito tempo, ainda me lembro de pessoas esperarem por mim à porta de casa a cada manhã e à mesma hora, perguntando se havia correio para elas. Na maior parte do tempo eram só as contas do costume, e esses envelopes, asseguro-vos, ninguém gosta de os receber. Ainda menos os que vinham com aviso de receção devido ao atraso no pagamento. Sempre me assustou ver a velocidade de como um sorriso pode desaparecer do rosto de quem as recebe. Por vezes sentia-me culpado por dar estas notícias, mas, como sempre me disseram a culpa é da mensagem e não de quem a entrega. 

Como podem imaginar o que mais gosto de entregar, ainda que sejam cada vez mais raras, são cartas. De pessoas para pessoas. Cartas que dizem a quem as recebe que alguém pensou nelas, sentou-se, escreveu, colocou num envelope, pôs um selo e despachou-a. Têm tanto de ridículas como de inesperadas. Acabam com a ansiedade de quem as espera e surpreendem quem não tinha ideia de que ainda há cartas que lhes são dirigidas. Estas entregas compensam as outras todas. Seja um vale postal, os folhetos com as ofertas da semana ou os cartões-postal de quem foi a algum lado – confesso que olho rapidamente para as imagens para ver se é um sito que vale a pena visitar. Ultimamente entrego muitas encomendas sorridentes. Penso que a própria embalagem antecipa a reação das pessoas que as recebem.   

Ser carteiro implica também guardar os segredos dos outros. Segredos selados em papel. Segredos que não devem e não podem ser revelados. Por vezes, dependendo de onde as pessoas vivem, também recolho as suas cartas. É uma ajuda para quem mora longe. Pedem sempre para ter cuidado com elas, pois são partes de si que partem para outros. 

Há pouco tempo, no final do Outono, enviaram-me para um sítio novo. Um sítio diferente de todos os outros onde tinha estado. Os outros sítios eram planos e conseguia pedalar o dia todo para fazer as entregas. Aqui não. Cada dia é uma aventura. As ruas são diferentes, com altos e baixos, a calçada é negra e a chamada “baixa” da cidade, na verdade é na parte mais alta, ou seja, é tudo ao contrário. Nesta cidade as pessoas não esperam o correio à porta de suas casas a cada dia. O facto de terem as quatro estações do ano no mesmo dia não convida a longos períodos na rua. O interior torna-se apelativo para se passar a maior parte do tempo. 

Antes de começar a trabalhar estudei o percurso para melhor distribuir o correio e otimizar o meu tempo. Notei que até uma certa hora as ruas estavam desertas, mas assim que as pessoas decidiam sair, saíam todas ao mesmo tempo, como se fosse combinado. Como as entregas não coincidiam com estas horas, nunca via ninguém no meu percurso e isto fazia-me confusão. Comecei então a magicar uma forma de trazer as pessoas para a rua a qualquer hora. Apenas tinha de as convencer a porem o pé um pouco cá fora. Ao final da segunda semana, e quando já estava a tomar o pulso da cidade, eis que me engano num cruzamento e sou colhido por uma carrinha. Nada de grave, mas por momentos perdi os sentidos e até vi fogo de artifício. Disseram-me que a culpa era dos estudantes que ao retirarem o sinal de sentido proibido tinham transformado a rua de sentido único numa rua com duplo sentido… 

Voltando às entregas, comecei de forma suave, aguardando o bom momento: em vez de colocar o correio na caixa, tocava à campainha para me apresentar. As pessoas, vencidas pela sua curiosidade, lá abriam a porta para dizer bom dia. Com o tempo ia perguntando uma ou outra questão: se viviam ali há muito tempo, se iam ao posto dos correios ou se podia deixar as encomendas à porta nos dias em que ninguém atendesse a porta, mas não conseguia ter nenhuma resposta. Pensei que seriam tímidas e sem vontade em falar delas mesmas. Então mudei de estratégia e passei a perguntar pela vizinhança. Usei a desculpa de não conhecer bem as ruas tentado com isso conhecer melhor as pessoas. Também aqui avançava a passo. Porém, pouco a pouco fui notando os hábitos e particularidades de algumas pessoas: o senhor da Rua C coleciona selos; a senhora da Rua M que tem os filhos a estudar em Faro e no Porto e que gosta de receber cartões-postais com vistas do mar ou de sítios exóticos; ou a senhora da Rua H tem uma iguana de estimação, e por isso uma vez por mês recebe uma encomenda com suplementos para o animal (deve ser por isto que a sua casa está sempre bem aquecida, seja de Verão ou Inverno).

Foi assim que me dei conta do que realmente se passava naquela comunidade: apesar de ninguém falar de si mesmo, os seus tiques começaram a sair ao de cima. Tendo isto em conta resolvi pôr um plano em marcha, ajudando cada um a ajudar outra pessoa. Basicamente era dar um empurrãozinho para que as pessoas da comunidade prestassem um pouco mais de atenção aos seus vizinhos.  

Sempre que chegava uma carta com um selo especial, mostrava-o “sem querer” ao senhor da Rua C. Perguntava-lhe se sabia onde morava a destinatária e ele, com um interesse particular, não se mostrava rogado e até me acompanhava à porta para se assegurar que a carta era bem entregue. Durante a entrega tentava mencionar o seu interesse pela filatelia. E a partir daqui estas duas pessoas deixavam de ser meros desconhecidos e passaram a ser vizinhos. 

O mesmo aconteceu para a senhora da Rua M. Cada postal que chegava ficava no cimo do monte das cartas a entregar e com a imagem de fora para se notar que era uma foto e não um envelope. Com o tempo as pessoas aperceberam-se de quem era a destinatária e começaram a enviar postais quando também viajavam. No início não os enviavam diretamente: mandavam para as suas próprias casas e entregavam os cartões ao seu regresso e em mão. Só mais tarde, com a confiança já estabelecida é que enviavam diretamente. 

Quanto à senhora da iguana, passei a palavra que para além dos suplementos que recebia o que o animal também gostava era de talos de brócolos e de couve-flor. No início ela ficou bastante confusa com os vizinhos passarem e deixarem talos de legumes que de outra forma seriam desperdiçados.Foi assim que comecei aqui, aguardando os bons momentos para adaptar o ambiente ao meu redor. Pensava que era o frio que impedia as pessoas de sair à rua, esse mesmo frio que conserva tudo o que é perecível. No entanto, o frio também convida ao convívio, à entreajuda, à introspeção e à criatividade dentro de portas. Nesta cidade o calor que não se encontra no exterior está presente no interior de quem te acolhe e te recebe de braços e coração aberto.

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Expedição ao fim do mundo

Tomaram o navio de assalto. Impermeáveis a qualquer tentativa de negociação, os marujos dissidentes estão determinados a romper o mar-céu-terra-o-que-for para chegarem ao fim do mundo. Com a revolta ao leme, o navio rasga céu e terra como se fossem mar.

Se a terra é esférica ou plana, pouco lhes importa. Os marujos sabem que a terra pode ser uma infinidade de coisas, mas uma será certamente: finita. A obsessão pela finitude vem-lhes de longe e morrerá com eles.

O navio é pequeno e a tripulação é curta, mas está reunida. Sete homens – um para cada mar. O fim da expedição pode muito bem ser o fim dos homens. São poucos e pequenos para tamanha expedição, mas se findarem pelo caminho terão chegado ao destino: o fim. O sucesso parece inevitável, mesmo que seja uma viagem eterna – ou enquanto durarem.

A vontade é imensa como o mar que enfrentam, mas o plano de navegação é tão vago como o destino. Não há mapa que desenhe o fim do mundo. Não sabem se lhe chegam ou se lhes chega. Não sabem se devem contar os dias ou medir a distância. Avançam mar adentro conscientes de que o debate sobre o que é o fim do mundo pode durar até lá chegarem.

Há quem julgue ser um lugar, um sítio onde tudo termina, uma meta que se cruza para findar. Há quem acredite ser um momento ou um evento que se dá para pôr fim a tudo, como o momento em que um coração pára de bater ou a terra se abre e engole os bípedes quase reles de tão finitos. Há ainda quem sugira que o fim do mundo pode ser uma espécie de sentimento, um desespero inato que nasce da efemeridade das coisas. Eventualmente, tudo acaba e dá-se razão ao desespero.

Pode ser um abismo escuro e sem fundo, como um buraco onde se cai. Alguns poderão vê-lo, outros não. Pode ser uma porta que só se abre e fecha uma vez. Quem a abrir terá de a fechar, depois de cruzar a linha da ombreira – ou não fechará. Pode ser a morte de cada um como o fim do mundo para si. Pode ser um evento catastrófico-apocalíptico que faz implodir ou explodir o mundo inteiro de uma vez. O fim para todos, sem retorno.

Há tanta gente a dizer o que não é o fim do mundo, mas ninguém sabe dizer o que é. Ou quem sabe já não pode contar. Na escala do bem e do mal, substituímos o mal pelo fim do mundo e fizemos dele uma bitola que desvirtua angústias mais pequenas.

A viagem dura há duzentos e trinta e dois anos. Os marujos estão velhos e cansados. Já deviam estar mortos, já se sentiram mortos, já se fingiram mortos. Desafiaram o fim e ele foge-lhes. Já viram mais do que podem lembrar. Já julgaram ter chegado ao fim, mas há sempre mais mundo. O mar ardeu, mas o mundo ainda não acabou.

Até ao fim do mundo, nada é o fim do mundo.