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O Vazio

Ela perdeu um amante e esse era o vazio mais difícil de preencher.

Margarida passou uma década a trabalhar. Não tinha marido, nem filhos e estava feliz com isso. Era sua ambição ter uma carreira. Estava decidida e nada a abalava. 

Não a abalou as vezes que lhe perguntaram porque não tinha filhos, nem mesmo as que lhe disseram “Vais-te arrepender se não os tiveres”. Nada de abalos por ouvir que não era madura o suficiente por não ser mãe, ou mesmo quando as perguntas eram: “E marido? Para quando?”. 

Tudo o que interessava a Margarida era a carreira. Então, de facto, era abalada quando não lhe davam o valor que merecia. Quando a ultrapassavam, ou se por acaso levavam os louros que lhe pertenciam. Aí sim, Margarida virava fera. Não era para menos. Tinha 26 anos, nunca reprovou um ano, fez licenciatura, mestrado, doutoramento, recebeu bolsas de mérito e passou todos os segundos da sua vida dedicados ao laboratório.

Pesquisou para aprender. Defendeu uma tese e uma outra pesquisa, defendeu ainda outra tese e uma nova pesquisa só não se soube defender. 

Durante uma carreira exemplar foi dando o seu trabalho, ideias, suor, lágrimas e até as suas alegrias em prol da ciência. Achava desde de muito nova que seria uma cientista reconhecida. Queria de facto ajudar o mundo com as suas descobertas. Certo, que queria uma carreira, mas também a queria com significado: ajudar o mundo. 

Aos 26 continuou de bolsa em bolsa desta vez por sistema, investigação em investigação. Sentia-se muito sozinha, porém, a certa altura, um colega de trabalho aproximou-se e passaram a partilhar os seus dias.

Dos dias, passaram a partilhar trabalho, ideias e sucessos. Tudo parecia perfeito. Uma dupla infalível, um casamento perfeito: dois cientistas em prol da ciência com carreiras em ascensão. 

A dado momento, e porque não eram só as carreiras que cresciam, também as partilhas aumentaram. Os dias de Margarida e Diogo passaram a ser mais do que trabalho, ainda que Margarida se mantivesse fiel a si mesma: nada de amor/ casamento e muito menos filhos. 

10 anos passaram num abrir e fechar de olhos. E aos 36 Margarida percebeu que Diogo desapareceu de um dia para outro, levando com ele os louros de todo um trabalho. 10 anos dos quais, 8 juntos, voaram com Diogo. 

Ela, com 36 anos, certa das suas decisões, certa de que faria tudo de novo estava num buraco do qual não via fundo. É claro que não faltaram dedos a apontar: tivesses filhos estarias feliz, estás velha para arranjar marido agora, coitada da triste Margarida que escolheu ser infeliz a ter família. 

Enganam-se as más línguas. Margarida estava sim no meio do vazio, porque perdeu 10 anos, trabalho, embora não de conhecimento, um amigo, ou pelo menos assim compreendia e um amante. Sentia-se pior ainda porque era o vazio do amante que mais difícil estava de preencher. 

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Crónica

Nome Próprio

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

Álvaro de Campos 

O meu nome é Cansaço, apenas e só Cansaço. Há quem tenha mais de um nome, porque agregado ao nome próprio segue os de família, da mãe e do pai. No meu caso, sou apenas Cansaço. 

Órfão de pai e mãe, conheço-me por cansaço, não sei portanto as minhas origens. Não posso dizer de quem ou de que derivo, em mim há apenas Cansaço. Como será possível que haja quem vá ao século, sei lá bem qual, por certo um bem lá trás para saber quem é? Como possível será que se precise de justificar o próprio nome com o nome de outrem, ou ações de outrem, como se eu fosse fruto de apenas o que outros fazem, ou fizeram. Mais ainda, quando se trata de ações tão longínquas! 

Há pois quem justifique a sua miséria pela miséria do nome, ou do sangue que lhes corre nas veias, quando se Cansaço há é por uma corrida própria. E está a contar, como num táxi que vai no seu caminho e enquanto não pára segue e soma. Se se cansa ou não depende do gosto. 

Há ainda quem não tendo justificações para apresentar queira encontrá-las, à força, no nome, apelido nem que para isso vá ao fundo do baú e apanhe uns pós que o fazem espirrar ao ponto de um espirro ter outra justificação a do nome comum. 

Há quem prefira inverter a ordem e nunca se quer mencionar o nome próprio, será vergonha? Será falta de identidade ou excesso dela? Será que representa uma personagem tipo? 

Eu, sou do tipo que tem nome, o primeiro e próprio: Cansaço. Sem justificações, nem pretensões, com apenas um custo: a minha própria corrida. 

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Conto

Janela Aberta

O meu quarto foi sempre o meu maior espaço. É o espaço onde tudo me é familiar e onde mais ninguém sabe onde escondemos o que nos é mais valioso. Guardamos segredos no fundo das gavetas, por baixo de livros e cadernos antigos. Guardamos calendários, blocos e memórias de quem nos roubou o olhar. No meu quarto, jogo sempre em casa. 

Apesar de conhecer todos os recantos, a parte que mais me fascinava era a janela: a janela do meu quarto deu-me mundo. Eu sei que dava apenas para o descampado onde jogava à bola ao fim de semana, mas dessa janela eu sentia o pulso do bairro e até do país senão vejamos: conseguia ver quando é que havia fila para o supermercado pois as pessoas estavam à porta para entrar; sabia se era fim de semana pois o vizinho do prédio em frente estava a lavar o carro para depois se esticar e ler o Expresso durante o resto da manhã enquanto ouvia a rádio em alto e bom som e; também sabia se havia vento em Lisboa uma vez que os aviões sobrevoavam a minha casa de e para a pista 17 em vez de alongarem a costa do Espichel até ao Monte da Caparica. 

À minha janela chegavam os sons do primeiro centro comercial que abriu em Portugal. A música que entrava era bastante animada e claro está, decorei letra e ritmo. Quando uma vez a professora da 4ª classe me perguntou quem queria cantar alguma coisa antes de dar a aula por encerrada, cheguei-me à frente. A minha inocente consciência politica dos 9 anos não sabia o que era censura, mas assim que as primeiras notas saíram da minha garganta fiquei a conhecer pois a professora, que também vivia ao lado do dito centro comercial e ouvia a mesma música dia e noite, não era fã como eu e eis que salta da sua cadeira e pega na régua de madeira para me achatar as mãos. 

Virado para a minha janela li e estudei. Estudei, é certo, mas o meu olhar perdia-se para a rua e para o céu. Uma manhã perdi-me nas leituras e não fui ter com os meus amigos que foram à inauguração do hipermercado. Fiquei a ler em frente à janela. Enquanto lia sobre o meio-físico e social, vi as luzes das ambulâncias que foram socorrer quem levou com o telhado que ruíu com a chuva acumulada enquanto estreavam quando comprava pela primeira vez na grande superfície.    

Esta é a janela da qual me recordo mais, pois era minha. Tive outras que me davam vista para o mar, para a serra ou para o museu. Dormir embalado pelo som do Ondas do Mar foi um privilégio, se bem que o som do oceano era frequentemente abafado pelo vento. Ter a vista para a serra permitiu ver o sol a acordar atrás da montanha após largas noites a observar charcos de estrelas e ver como duas vidas podem ser condenadas numa noite. Já da janela para o museu o complicado era manter a concentração devido aos OVNI’s que por ali pairavam. Presságio ou não, anos depois esse mesmo museu foi promovido a ícone por albergar super-heróis.  

Ter um lugar à janela dá-nos uma perspetiva maior ao nosso redor. Seja no avião, autocarro expresso ou comboio, a janela tem qualquer coisa a mais (não é por acaso que um dos hashtags da CP é #Lugarajanela). A janela do comboio está sempre em movimento. Quando se podia abri-la era divertido pôr as cortinas e a cabeça de fora para sentir o vento na cara… tudo muito engraçado até aparecer um comboio em sentido inverso. Para se aproveitar a janela na linha da Beira Baixa ou do Douro há que ser estratégico: com sorte temos uma vista para o rio enquanto a linha serpenteia a água, caso contrário temos um lindo close-up do recorte da pedra. Da janela do avião há um momento muito particular: logo após a descolagem olhamos para fora para ver o que fica para trás. Eu penso que nos dá tempo para um último “até já” ou “adeus” consoante o caso. Do avião (provavelmente a minha janela de um meio de transporte preferida) deixamos de estar em pé de igualdade com a superficie. Temos perpetiva e a dimensão real das coisas. 

Há estas janelas onde somos espetadores passivos e vemos a vida a acontecer. São janelas que nos movem com elas. No entanto há janelas que requerem a nossa ação, são as janelas de oportunidade. Estas, infelizmente, nem sempre são visíveis e muitas vezes só nos apercebemos depois do momento passar. A diferença destas para as outras janelas é que não têm o vidro onde também podemos ver o nosso reflexo. Se passarmos por um um túnel de comboio ou na estrada ou se viajamos de noite de avião, temos a nossa cara a devolver-nos o olhar. Na janela de oportunidade tudo acontece, tudo se decide  e tudo se perde sem filtros. E uma vez fechada esta janela, não há forma de a voltar a abrir. 

Olhando por qualquer destas janelas, retenho a forma de como a paisagem mudou. O meu campo de futebol/basquetebol deu lugar (literalmente) a um parque de estacionamento. As folhas caem para que outras, mais fortes, brotem e cresçam dando continuidade à vida. Sempre me focalizei no que via lá fora, na distância, até que há pouco vi que o reflexo que a janela me devolve mudou e quase não reconheço aquela pessoa que tem os meus olhos. 

Engraçado, nunca tinha notado nisso. 

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Ensaio

És tu, não sou eu

Deixo aqui esclarecido desde o início que és tu. Sim tu e só tu. Em nada esta situação está relacionada comigo. 

Tenho por hábito acarretar todas as responsabilidades sobre todas as situações e assim fiz por anos. Anos e anos a fio. Soube-te bem? Vejo que sim. Vejo que o melhor do mundo foi ver-me a arcar com todas as pontas, todos os pesos, e isto desequilibrou a balança. 

Tenho de admitir que possivelmente o problema de tudo isto foi precisamente a balança. Eu, mais do que ninguém tenho problemas com a balança, fujo dela como quem corre do diabo, se o diabo fosse pessoa e lhe pudéssemos atribuir forma. Fujo porque ela me dita destinos, me aflora medos, grita ao meu ouvido o quanto sou incapaz de me perceber como um ser belo. Belo, onde a balança não dita a beleza. E aqui está: foi o meu medo de balanças que me atirou para o momento em que estou. Este desequilíbrio onde percebo finalmente as coisas como elas são: não fui eu, foste tu. 

Pena que de tanto penar, de tanto te salvar eu tenha impedido-me de perceber que este desequilíbrio da balança facilmente chegaria a outros campos e que depois de penar e te salvar eu penaria um pouco mais por me atirares ao fogo para arder sozinha. Repito sozinha. Porque me incentivaste a atear a fogueira e foste tu quem me disse que lá estarias tu para apagar fogos. Foi então que eu peguei na acendalha e uma chama transformou-se num incêndio que tu decidiste ver de longe. Deixaste arder. Quiseste ver tudo a queimar. E quem sabe regozijar-te com as cinzas que provocaste. Sim, foste tu que fizeste isso, não eu. 

Bonito, não? Tão bonito ver o que sobra de nós. De mim. A ti nem mesmo consigo ver. Afinal tu ficaste de longe a ver, quem sabe a deitar gasolina para o fogo que ardeu como se não houvesse amanhã. 

Agora?! Agora, grito: és tu, não sou eu. Finalmente percebi que és tu e não eu, pena, muita pena que tenha percebido isso tão tarde que infelizmente passei a ser eu e não tu. Fui que deixei seres tu e não eu. 

Para finalizar esclarece, por teres sido tu e não eu, fui eu e não tu. Mas só hoje que gritar bem alto para que me possas ouvir a esta distância: 

És tu, não sou eu. 

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Ensaio

Ensaio sobre o regresso

Nasceu. 

Está connosco, é verdade e oficial. 

Todos os anos ele se apresenta como o mais feliz e nunca teve problemas com as suas formas redondas, incrível! 

Amante do frio, de facto é o único meio onde vive, ainda assim não dispensa um bom cachecol. 

Faz crianças felizes e até os adultos esboçam sorrisos ou desatam às gargalhas, contudo não faz uso de uma única palavra. Apresenta-se perante todos, sempre com estilo e determinação. Não sendo comediante faz rir a pedra da calçada. Se calhar a pedra não, porém do carrancudo ao inerte, ele derrete qualquer um. E sorri. 

Faz do tempo gelado a sua casa e aquece as almas de todos. Faz de seu corpo o contraponto para aqueles que se apresentam perante ele. 

Começa a ganhar forma, muito antes de ter de facto forma. É na entrada do inverno no primeiro floco e nos sonhos de todos que começa a nascer. A fórmula mágica para a sua gestação é o tempo. Não será a de todos? Neste caso, todavia, estamos a referir tempos diferentes, não é o cronológico, ao invés é a meteorologia que falamos. 

É este coração frio, formas redondas, sorriso pontilhado na cara e um nariz, verdadeiro, ainda que grande como o do Pinóquio que faz as alegrias dos pequenos aos graúdos. São as gargalhas de todos que o mantêm vivo. 

Ninguém se quer despedir dele, porque nele está toda a felicidade do mundo. No entanto, chega um dia, em que o sol derrete o seu coração, ele, regressa apenas no próximo floco, este Boneco de Neve.

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A Fome

Sempre vivi a sair da mesa de prato meio vazio. É uma falta de educação, eu sei, sou um mal educado, na verdade. Mas tenho bom coração, prometo, e tudo isto teve um bom motivo para começar.


Comecei esta mania aos dez anos, quando ainda levava para a escola “tupperwares” de um plástico já bronzeado, numa lancheira azul e pesada que dividia com o meu irmão. Num desses dias, chamaram-me gordo e eu decidi que estava cheio para todo o sempre. Naquela altura, aquecia a comida em microondas comunitários numa sala que cheirava a sopa, onde putos escondiam os macacos que tiravam do nariz debaixo da mesa, e contínuas corriam atrás deles com cordas vocais afiadas e já cansadas. Gritavam porque havia puré de batata na parede e não no estômago de alguma criança; gritavam porque havia uma maçã escondida por baixo do lavatório, já em fase cinco de degradação, gritavam porque os tênis se colavam ao chão, pelas mãos da magia de algum resto de almoço entornado há três dias; e, comigo, gritavam porque não queria comer.


Chamaram-me gordo um dia e eu decidi que queria deixar de ver em tudo uma forma de me encher. Queria deixar de esconder o coração na dispensa, e de partir as jarras de vidro onde guardava as bolachas porque não podia esperar nem mais um segundo para matar aquele animal que tinha dentro. A verdade é que saía caro: se cada jarra custasse dois euros no IKEA, e se eu tivesse um destes ataques duas vezes por dia, eram quatro euros diários que saíam em jarras e uns quantos quilos de gordura que entravam. No fim das contas, o fluxo de caixa não compensava o prejuízo, dado que a carne que acumulava não tinha valor no mercado. De maneira que tirei das bolachas o poder de me encher, e os meus maxilares deixaram de ser músculo do coração.
A minha sorte foi ter sempre um parceiro que comesse aquilo que eu deixava para trás. Em todas as fases da minha vida – na escola, na faculdade ou no trabalho -, encontrei sempre alguém que terminasse a refeição por mim. Assim, quando chegava a meio, começava a fazer o frete e ele já sabia. Era só passar-lhe o termo e o nosso trato estava selado. Levava para casa um tupperware vazio, e em mim deixava um espaço por encher que faria de tudo para que não me voltassem a magoar.


Queria deixar metade da comida no prato, até eu ser metade do que era. E, quando cheguei a esse ponto, quis deixar três quartos. Queria deixar de comer até desaparecer, ficar vazio por dentro para que não tivessem carne para atacar, quando se virassem para mim com palavras pontiagudas.


O que eu não sabia, era que alimentava um monstro maior que aqueles miúdos do refeitório que faziam guerras de esparregado sem dó nem piedade. Por cada prato que deixava com comida, era uma refeição completa com que alimentava o bicho da fome que crescia em mim. Não me apercebia que o fazia, mas foi assim que permiti que tomasse posse de todo o meu tamanho, como uma nova camada interior, que começava a agir em meu nome.


Quando eu falava, era a fome que falava por mim e, quando cantava, era ela a gritar, a pedir que a alimentassem. Fiquei sem saber como a matar. Não podia voltar a comer os cinco croquetes que me enviava a minha mãe, ou a terminar um bife sozinho sem o partilhar. Não tinha em mim a força para encostar o garfo à faca no fim de uma refeição, sem ter partilhado o prato com a solidariedade de algum companheiro. Não, não voltaria a terminar uma refeição, por isso, tudo o que fiz foi ignorar. Acostumei-me aos roncos do meu estômago – passei a falar com eles e, para minha surpresa, não eram má companhia.


Acomodei o vazio dentro de mim e a fome nunca passou. Na verdade, é ela que vos escreve agora. É também ela que me faz escrever.

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A mãe não teme

Nasceu perfeita. Parto fácil, hora curta e uma mãe forte o suficiente para fazer crescer no ventre tantos mais filhos quantos vierem. Contaram-lhe os dedos das mãos e dos pés: um dedo, dois dedos, mais um dedo e outro dedo e outro e outro e conta certa. Os três cabelos que irrompiam do topo da cabeça prometiam uma cabeleira forte e lustrosa. Parecia tão bonita. O rosto avermelhado visto num ápice parecia resolver-se com o primeiro banho, mas não era sangue, era barro. 

Nasceu perfeita, com um rosto de barro. A pele não era pele. Os ossos ainda moles do rosto – e, quem sabe, a carne – cobriam-se de terra alaranjada e quente, incandescente ou em brasa, como a que se vê nos postais de lugares longínquos, abafados e pintados a cores que parecem nem existir. 

A mãe acolheu-a nos braços com o mesmo orgulho com que qualquer oleiro ergue as obras que lhe saem das mãos. Fê-la de barro sem intenção, mas fê-la tão bonita. A mãe era a mais calma da sala que, em chamas, lhe gritava todos os inconvenientes:

O banho desfez a expressão da recém nascida. 

A mãe não teme, molda de novo com o coração na ponta dos dedos.

A criança não chorou enquanto nascia. 

A mãe não teme, compreende que não chora porque o choro desfaz. E quando chorar, pode esculpir-se tal como era de novo. A expressão pode dispensar a lágrima, a menina pode cravá-la no rosto sem a chorar, pode crescer capaz de chorar para dentro sem corroer a carne que se cobre de barro. 

Alguém grita E A CHUVA?

A mãe não teme, promete ser abrigo enquanto viver – e depois. Ser mãe é ser abrigo e será mãe para sempre. 

Mas a água ameaça o barro mais sólido.

A mãe não teme, o que a água molha o calor enxuga e o sol endurece o barro. À falta de abrigo ou calor, há verniz que repele a água. Pode ser o que quiser, até casco de barco, se encher o peito de ar.

Vai viver com medo.

A mãe não teme, não conhece quem viva sem ele.

A menina temeu a água como quem teme a morte, com medo que a pele que não o era se deixasse desfazer até ruir ossos abaixo. A mãe não temeu. A menina aprendeu a moldar-se de novo depois do chuveiro e da chuva. Perdeu o medo de se esquecer como era antes. Deixou-se molhar com e sem intenção, soube envernizar-se quando o vento fintou o abrigo, soube moldar-se de novo sempre que se deixou desfazer e aprendeu a esculpir apenas as rugas que a desenham também por dentro. Todas contam uma história e é ela quem as escreve. 

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IPERA

Atenção este texto contém spoilers! 

Faço uma declaração de interesses: um dos meus albúns preferidos de sempre é sem dúvida o “1° de Agosto Ao Vivo no RRV (Rock Rendez-Vous)” dos Xutos & Pontapés. Sejam vocês ouvintes da altura ou recém-chegados ao culto dos Xutos este é um album incontornável. O som leva-nos àquela noite de 1984 onde uma banda, já com 6 anos de estrada, registou um concerto que marcou um momento a caminho da consagração que chegaria mais tarde com os discos “Circo de Feras” e “88”. O álbum RRV contém aquela energia crua, eletrizante e bruta das músicas feitas para serem ouvidas com o som bem alto ou com auscultadores com redução de ruído que faz a música sobressair ainda mais. Canções incontornáveis como “O Homem do Leme”, “Se Me Amas”, “Conta-me Histórias” ou “Barcos Gregos” apareceram no RRV pela primeira vez, ainda antes de serem editadas num disco LP.

Ainda que este seja o meu disco preferido dos Xutos, há outras canções do seu repertório que me movem pelas mais diversas razões. Por exemplo não acredito que alguém consiga ouvir o “Dá um mergulho no mar” ou o “Ai se ele cai” sem que uma força sobre-humana o faça começar a saltar compulsivamente. A mesma homenagem pode ser feita à longa introdução do “N’América” onde o baixo, a guitarra elétrica e o saxofone discutem durante largos minutos sobre quem irá arriscar dar a palavra ao Tim; ou ainda ao incontornável “Para Ti Maria” que mediu o pulso ao desenvolvimento das estradas: se em 1988 demorávamos 9 horas para ir de Lisboa a Bragança, hoje em dia a mesma viagem faz-se em 4 horas e 45 minutos de carro (segundo o Google Maps) ou em menos de 1 hora de avião. E já que falamos em Marias, posso culminar com o “Avé Maria” que me era sempre dedicada em voz alta pelos colegas do Basquetebol que implicavam comigo por chegar atrasado aos treinos de Domingo porque vinha da catequese. 

Antes que me perca demasiado, queria apenas ressalvar que do reportório dos Xutos há uma música em particular que me sempre me intrigou. E isto vem de alguém que se intriga com coisas como o nome das ruas. Um pequeno parêntesis: desde cedo que me pergunto o que é que temos de fazer para dar o nome a uma rua. A primeira razão, está claro, é que já falecemos. A segunda é ter feito algo de absolutamente notável. Por essa razão, e muito antes do Wikipedia, costumava apontar os nomes das ruas e ia depois à biblioteca investigar quem eram aquelas pessoas.   

Mas voltando aos Xutos e à sua canção intrigante. Estou a falar de “As Torres da Cinciberlândia” que aparece no álbum “88”. Esta canção leva-me a um lugar místico e etéreo. Vivendo na margem sul a “Cinciberlândia” sempre me pareceu um lugar real ainda que distante. Eu, tal como narra a canção, passei largos anos à procura das ditas torres. Para mim eram torres que só poderiam servir um fim dúbio: comunicar com outros planetas (sim, a minha mente vai logo para ali). Afinal porque razão existiria um sítio tão secreto e avançado que não tivesse esse propósito? Torres que apenas brilham? As minhas suspeitas seria confirmadas alguns anos mais tarde quando apareceu a série “Ficheiros Secretos”. Se isto era possível nos EUA porque não em Portugal? Tudo bem que quando os extraterrestres visitam o nosso planeta passam primeiro pelos EUA (e isto está documentado de forma exaustiva), mas tendo Portugal ganho tantos Óscares de turismo, uma vista a este retângulo até que vale a pena! E claro está, não ajudou nada ver aquele documentário da RTP que falava dos “ficheiros secretos portugueses” e cujas amostras, que estavam guardadas no Museu Nacional de História Natural e de Ciência, desapareceram num incêndio de origem duvidosa. No fundo a minha imaginação levou-me a acreditar que as torres funcionavam como um portal para outro propósito que não a comunicação. 

Anos depois consegui enfim encontrar a Cinciberlândia, numa altura em que já tinham retirado as famosas torres que, afinal não eram mais do que antenas de comunicação. E sim, a Cinciberlândia servia outro fim que não a comunicação (Spoiler Alert): neste caso era a defesa atlântica uma vez que era um posto de comando da NATO de nome CINCIBERLANT. Hoje em dia tem outro nome: NCIA. Imagino que há uma série policial prestes a sair que relata as aventuras dos agentes secretos a trabalhar em Oeiras e a descansar entre a praia da Torre e o forte de S. Julião da Barra (fica aqui a sugestão: NCIA: Oeiras). Tudo isto para vos dizer que com esta descoberta perdi um pouco da ilusão que acompanhava a canção. Afinal o portal com que eu contava não era exatamente o esperado.

Mais tarde, a vida reservou-me o contato com um portal transdimensional. E com este sim, tive a possibilidade de o utilizar de forma frequente e fiquei a conhecer o seu nome: IPERA. Este portal está literalmente no ar (é um ponto GPS de navegação aérea) e serve tanto de entrada como de saída. Imaginem uma escadaria que nos levam a uma porta, só que a porta está a 10km de altura. Para quem viaja de avião entre a Europa e Cabo Verde este portal marca o início da descida e os 30 minutos que faltam para chegar. 

A minha primeira passagem por esse portal foi a medo. Afinal não sabia o que me esperava lá em baixo. Quando estamos no ar tudo é relativo e ao viajar deixamos tudo (incluindo os problemas) para trás. Ainda assim assustava-me ser o desconhecido e só ter como referência as histórias de quem já lá tinha estado e não me parecia possível serem todas coincidentes e positivas. Ao escutar o som dos reatores a retrairem e sentir o avião iniciar a sua descida entrei em modo “passageiro concentrado” e a pensar nos passos seguintes: haverá muita fila para o controle de passaporte, a bagagem vai chegar ou se o táxi vai demorar muito tempo. Estava eu a tentar organizar os meus pensamentos quando a senhora que está ao meu lado entrega-me o seu recém-nascido para os braços e diz-me para o segurar pois quer aproveitar o tempo que falta para ir à casa de banho. Foi aí que me dei conta: gente que confia os seus primogénitos a estranhos em aviões só podem ser seres humanos de coração aberto. 

O avião aterrou e durante os quatro anos seguintes pude comprovar que as histórias que tinha ouvido na verdade não faziam jus ao que vivenciei. IPERA tornou-se o meu ponto de chegada e de partida oficial (tecnicamente este ponto marca o inicio do espaço aéreo controlado por Cabo Verde). Nas viagens recorrentes tanto controlava a ansiedade para chegar a IPERA ou o certo aperto quando a deixava na viagem de sentido inverso. A viagem de avião sempre tinha entusiasmo, tanto ao início como ao fim. 

Passados quatro anos chegou a hora da partida definitiva. Esta iniciou-se em terra. Despedi-me no aeroporto com um abraço apertado, terno e adiado. De seguida enfrentei uma subida dolorosa até IPERA. Por alguma razão o avião voa praticamente em linha reta até sair lá em cima, como se fosse o fim de um túnel muito, muito comprido. Foi assim que cruzei o portal pela última vez.   

Como dizia o Tim, “já lá voltei e busquei o lugar” e há pouco tempo, a caminho do Atlântico Sul, passei ao lado do portal mas não desci para as ilhas da Morabeza. Ainda assim acordei uns minutos antes, servi um espumante e brindei à sua passagem.

IPERA: N20°21.91′ W20°41.98′

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O homem que perdeu o riso

Vá-se lá perceber porque já não ri. Ser incapaz de o fazer afoga-lhe os olhos. A miséria do homem que esqueceu como soa a própria gargalhada não se deixa medir. Passa horas ao espelho a ensaiar um riso que as entranhas já não sabem cantar nem deixam nascer. A incapacidade de rir gerou uma especial alergia ao riso alheio. Que asco, que inveja, que revolta. Não se riam sem ele. 

Reivindica as rugas do riso porque a idade já as merece e nunca confiou num rosto velho sem elas. Acredita que a tristeza do homem se mede pelas rugas de riso que não tem. Como se pode confiar em alguém que não ri? Rir é dar-se e quem não se dá nem a si se tem. Sempre ouviu: cuidado com os amargos. E mesmo com cautela, amargou. Deixou secar o riso e parece não sobrar mais nada. Até quem chora de felicidade trabalha as rugas do riso, mas o homem não sabe chorar assim. Rugas só na testa e no nariz, nasceram do esforço de arrancar um riso das vísceras como quem arranca raízes da terra. 

Há arranjos de tanta espécie: esvaziam-se papos, coxas e barrigas, enchem-se rugas, olheiras, lábios, seios e egos, mas não há um médico que implante gargalhadas. 

Procurou o riso por todo o lado. Foi aos espetáculos de comédia mais concorridos, nem uma gargalhada. Só foi capaz de cuspir uma bolha de ar quase engasgado, como um carro que nunca pega à primeira. Que martírio. Ofereceram-lhe “aquilo que faz rir” e até isso o fez chorar.

Nunca soube apreciar massagens por ter cócegas até atrás do joelho. Investiu uma hora no massagista à procura do riso nervoso fruto da cócega acidental. Um suplício. Uma sessão de tortura e aflição sem graça. Tentou aulas de teatro, para aprender a rir mesmo sem vontade, como os atores mais convincentes. Achou tudo aquilo sinistro, um esforço sadomasoquista que doía mais do que aliviava. 

Espalhou cartazes a dar o riso como desaparecido. Tentou descrever como soava a gargalhada numa prosa curta e confusa, juntou uma fotografia sua de quando ainda sabia sorrir, do ano de mil novecentos e risos. Por fim, o número de telefone. “Se o ouvir, LIGUE JÁ.” Ninguém ligou. Faltaria recompensa aliciante? Mesmo que ouvissem algures o riso perdido, como teriam a certeza que era dele? Como poderiam apanhá-lo para o devolver? Como voltaria a guardar-se no corpo do homem? 

Chora o riso que perdeu, exclama um miserável ah ah ah ah ah ah ah ah ah com o entusiasmo de um defunto, com o esforço de quem suga a vida de um ventilador, com a dor de quem perdeu um filho. Morreu-lhe o riso, perdeu-se em parte incerta, sobra o choro para o enterrar. 

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Conto

Imortal

Li, um dia , que quando entras na vida de um escritor serás eternizado. Não me perguntes onde li, sei apenas que li. E isto, traz-me aqui. Quero saber em que páginas tuas me encontro. Quero saber onde me desenhas com palavras e se me imortalizas nas tuas páginas. Quero saber o que é importante entre nós que necessite ser imortalizado. O que de tão bom ou bonito te fez pintar-me, e em que materiais me esculpes, ou de que formas me materializas. Se é que o fazes.

Quero portanto saber as tuas prioridades e arrepios sobre nós. Será que aquela noite quente sobre uma lua cheia e luminosa, num banco de jardim, a beber um copo de vinho que trouxemos da casa alugada umas das prioridades? Essa noite onde trocámos, para mim as palavras mais sensuais sem se quer falar em sexo em nenhuma delas, sem que as mesmas fossem reflexo de provocação. E no entanto foram as palavras mais envolventes e provocantes, a intimidade prefeita. Sim porque sexo não é intimidade, é apenas sexo. Minto, sexo, pode ser sim intimidade, porém nem sempre o é. E nós, tivemos momentos quentes, fortes, deliciosos, no entanto, íntimos como aquele, no banco de jardim, nenhum. As nossas almas abraçaram-se e despimo-nos de medos, de vergonhas e de barreiras. Encontrámos um ninho um no outro, um ninho celeste que ninguém mais pode compreender, ninguém, exceto nós que ali estávamos um com o outro, um no outro. Será este o momento que decidiste eternizar?

Ou por outro lado queres-me para sempre a desejar-te, sacando de um preservativo do bolso e um “desculpa” da boca. Boca essa que selaste com um beijo bruto e delicioso, para mais não me explicar ou justificar. Num suspiro abriste o invólucro deixando escapar: “sem desculpas, eu quero”. Desse momento tenho gravados o início e o fim, este início e o final que todos imaginam, eu deitada na cama enrolada em mim mesma, exausta de uma sessão animalesca e desejada,  com o corpo a vibrar do prazer sentido e a sentir. 

Será contudo que guardas um outro momento, aquele em que eu conduzia e chorava sobre uma tristeza que não era tua, era tão minha, onde os olhos deixavam cair as lágrima que por pouco me deixavam o caminho baço. Tu, limpaste as minhas lágrima e quando parei o carro, tu olhaste-me nos olhos e sem palavras fizeste-me conduzir até ao destino. Não me lembro o entretanto, sei apenas que saía do banho e com um olhar do mesmo jeito, daquele no carro, um beijo aconteceu, vindo de um movimento que desconhecia e ainda desconheço, por estranho que pareça. A tolha caiu no chão e a tua roupa quis fazer-se seguir à toalha. 

Algum destes momentos são teus, meus e imortais? Serão outros aqueles que resolveste imortalizar. Quero saber como se me fosse alimentar disso. Podes ainda ter decidido colocar cada momento em cada um dos teus textos, espalhados como uma caça ao tesouro, e teria eu o discernimento de os encontrar, de me encontrar, de nos encontrar? Entre tantos outros de outrem ou de teus pensamentos. Ai, os pensamentos de quem são os teus pensamentos, a quem pertencem eles? Terei eu um pouco desse espaço?

Sei, no entanto que noutro dia, passei por uma livraria e como gosto de ler, não só a ti, mas tantos outros, percorri o dedo pela estante perguntando, a esta mesma estante, que livro seria o meu. O tal que teria uma mensagem para mim, naquele dia. De olhos fechados o dedo parou e assim que abri os olhos a contracapa dizia “Desculpa”, esse é o título. Nome do autor? O teu.