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Ensaio

És tu, não sou eu

Deixo aqui esclarecido desde o início que és tu. Sim tu e só tu. Em nada esta situação está relacionada comigo. 

Tenho por hábito acarretar todas as responsabilidades sobre todas as situações e assim fiz por anos. Anos e anos a fio. Soube-te bem? Vejo que sim. Vejo que o melhor do mundo foi ver-me a arcar com todas as pontas, todos os pesos, e isto desequilibrou a balança. 

Tenho de admitir que possivelmente o problema de tudo isto foi precisamente a balança. Eu, mais do que ninguém tenho problemas com a balança, fujo dela como quem corre do diabo, se o diabo fosse pessoa e lhe pudéssemos atribuir forma. Fujo porque ela me dita destinos, me aflora medos, grita ao meu ouvido o quanto sou incapaz de me perceber como um ser belo. Belo, onde a balança não dita a beleza. E aqui está: foi o meu medo de balanças que me atirou para o momento em que estou. Este desequilíbrio onde percebo finalmente as coisas como elas são: não fui eu, foste tu. 

Pena que de tanto penar, de tanto te salvar eu tenha impedido-me de perceber que este desequilíbrio da balança facilmente chegaria a outros campos e que depois de penar e te salvar eu penaria um pouco mais por me atirares ao fogo para arder sozinha. Repito sozinha. Porque me incentivaste a atear a fogueira e foste tu quem me disse que lá estarias tu para apagar fogos. Foi então que eu peguei na acendalha e uma chama transformou-se num incêndio que tu decidiste ver de longe. Deixaste arder. Quiseste ver tudo a queimar. E quem sabe regozijar-te com as cinzas que provocaste. Sim, foste tu que fizeste isso, não eu. 

Bonito, não? Tão bonito ver o que sobra de nós. De mim. A ti nem mesmo consigo ver. Afinal tu ficaste de longe a ver, quem sabe a deitar gasolina para o fogo que ardeu como se não houvesse amanhã. 

Agora?! Agora, grito: és tu, não sou eu. Finalmente percebi que és tu e não eu, pena, muita pena que tenha percebido isso tão tarde que infelizmente passei a ser eu e não tu. Fui que deixei seres tu e não eu. 

Para finalizar esclarece, por teres sido tu e não eu, fui eu e não tu. Mas só hoje que gritar bem alto para que me possas ouvir a esta distância: 

És tu, não sou eu. 

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Ensaio

Ensaio sobre o regresso

Nasceu. 

Está connosco, é verdade e oficial. 

Todos os anos ele se apresenta como o mais feliz e nunca teve problemas com as suas formas redondas, incrível! 

Amante do frio, de facto é o único meio onde vive, ainda assim não dispensa um bom cachecol. 

Faz crianças felizes e até os adultos esboçam sorrisos ou desatam às gargalhas, contudo não faz uso de uma única palavra. Apresenta-se perante todos, sempre com estilo e determinação. Não sendo comediante faz rir a pedra da calçada. Se calhar a pedra não, porém do carrancudo ao inerte, ele derrete qualquer um. E sorri. 

Faz do tempo gelado a sua casa e aquece as almas de todos. Faz de seu corpo o contraponto para aqueles que se apresentam perante ele. 

Começa a ganhar forma, muito antes de ter de facto forma. É na entrada do inverno no primeiro floco e nos sonhos de todos que começa a nascer. A fórmula mágica para a sua gestação é o tempo. Não será a de todos? Neste caso, todavia, estamos a referir tempos diferentes, não é o cronológico, ao invés é a meteorologia que falamos. 

É este coração frio, formas redondas, sorriso pontilhado na cara e um nariz, verdadeiro, ainda que grande como o do Pinóquio que faz as alegrias dos pequenos aos graúdos. São as gargalhas de todos que o mantêm vivo. 

Ninguém se quer despedir dele, porque nele está toda a felicidade do mundo. No entanto, chega um dia, em que o sol derrete o seu coração, ele, regressa apenas no próximo floco, este Boneco de Neve.

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Conto

Imortal

Li, um dia , que quando entras na vida de um escritor serás eternizado. Não me perguntes onde li, sei apenas que li. E isto, traz-me aqui. Quero saber em que páginas tuas me encontro. Quero saber onde me desenhas com palavras e se me imortalizas nas tuas páginas. Quero saber o que é importante entre nós que necessite ser imortalizado. O que de tão bom ou bonito te fez pintar-me, e em que materiais me esculpes, ou de que formas me materializas. Se é que o fazes.

Quero portanto saber as tuas prioridades e arrepios sobre nós. Será que aquela noite quente sobre uma lua cheia e luminosa, num banco de jardim, a beber um copo de vinho que trouxemos da casa alugada umas das prioridades? Essa noite onde trocámos, para mim as palavras mais sensuais sem se quer falar em sexo em nenhuma delas, sem que as mesmas fossem reflexo de provocação. E no entanto foram as palavras mais envolventes e provocantes, a intimidade prefeita. Sim porque sexo não é intimidade, é apenas sexo. Minto, sexo, pode ser sim intimidade, porém nem sempre o é. E nós, tivemos momentos quentes, fortes, deliciosos, no entanto, íntimos como aquele, no banco de jardim, nenhum. As nossas almas abraçaram-se e despimo-nos de medos, de vergonhas e de barreiras. Encontrámos um ninho um no outro, um ninho celeste que ninguém mais pode compreender, ninguém, exceto nós que ali estávamos um com o outro, um no outro. Será este o momento que decidiste eternizar?

Ou por outro lado queres-me para sempre a desejar-te, sacando de um preservativo do bolso e um “desculpa” da boca. Boca essa que selaste com um beijo bruto e delicioso, para mais não me explicar ou justificar. Num suspiro abriste o invólucro deixando escapar: “sem desculpas, eu quero”. Desse momento tenho gravados o início e o fim, este início e o final que todos imaginam, eu deitada na cama enrolada em mim mesma, exausta de uma sessão animalesca e desejada,  com o corpo a vibrar do prazer sentido e a sentir. 

Será contudo que guardas um outro momento, aquele em que eu conduzia e chorava sobre uma tristeza que não era tua, era tão minha, onde os olhos deixavam cair as lágrima que por pouco me deixavam o caminho baço. Tu, limpaste as minhas lágrima e quando parei o carro, tu olhaste-me nos olhos e sem palavras fizeste-me conduzir até ao destino. Não me lembro o entretanto, sei apenas que saía do banho e com um olhar do mesmo jeito, daquele no carro, um beijo aconteceu, vindo de um movimento que desconhecia e ainda desconheço, por estranho que pareça. A tolha caiu no chão e a tua roupa quis fazer-se seguir à toalha. 

Algum destes momentos são teus, meus e imortais? Serão outros aqueles que resolveste imortalizar. Quero saber como se me fosse alimentar disso. Podes ainda ter decidido colocar cada momento em cada um dos teus textos, espalhados como uma caça ao tesouro, e teria eu o discernimento de os encontrar, de me encontrar, de nos encontrar? Entre tantos outros de outrem ou de teus pensamentos. Ai, os pensamentos de quem são os teus pensamentos, a quem pertencem eles? Terei eu um pouco desse espaço?

Sei, no entanto que noutro dia, passei por uma livraria e como gosto de ler, não só a ti, mas tantos outros, percorri o dedo pela estante perguntando, a esta mesma estante, que livro seria o meu. O tal que teria uma mensagem para mim, naquele dia. De olhos fechados o dedo parou e assim que abri os olhos a contracapa dizia “Desculpa”, esse é o título. Nome do autor? O teu.   

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Conto

Memória do Futuro

“Pára. Já percebi a mensagem. Ainda não chegámos aí.” Assim comecei a conversa contigo, memória do futuro. Minha querida e indelicada memória do futuro. Ou deveria mesmo dizer minha tão amada, fugaz, insana e incomoda memória do futuro.

Poucas são as vezes que acontece, mas aconteceu há um ano. Vi-o, encostado à parede branca da sala e soube que estaria hoje no chão de corpos colados. Numa manhã de inverno, entrava um raio de sol pela janela direto a ele, realçando a barba e o cabelo castanho claro. Longe de imaginar que seria abordada por uma memória do futuro, quando de facto fui, aconteceste. Um flash do futuro a dourar um primeiro encontro. Desengane-se quem pensa que fui abordada por um déjà-vu. Nenhum déjà-vu dá concretamente uma imagem de dois corpos fundidos no chão de madeira e um tapete fofo ao lado, de uma casa que desconhecemos, com cheiro a pele fresca e sensação húmida de corpos colados. Nenhum déjà-vu me traz sabor, fogo e definição. Quando me avassalaste, memória do futuro, soube que estaria com ele hoje, aqui, no chão de corpos colados entre ti, memória, e ele. Tinha, há um ano, acabado de chegar à sala, ao trabalho novo, à minha vida. Num sopro do fogo que me inundou o corpo percebi que não poderia escapar a este futuro. E foste tu memória que me traçou o caminho. 

Expliquei-te que não poderia ser. Expliquei-te com vários e diversos pontos, bastante detalhados, que me dei ao trabalho de anotar, escrever, rescrever e corrigir meses a fio num longo documento, quase um contrato entre nós, em como tu serias capaz de sair da minha vida e com isto mudar o futuro, tranquilizando-me. Porém, não assinaste o contrato que hoje, está na minha secretária guardado entre tantos documentos arquivados. E hoje, estou aqui. Arquivaste a minha vontade de mudar o futuro. E colocaste o teu plano em prática quando 6 meses depois de me avassalares tu, ele fez o mesmo colocando-me contra a parede sussurrando ao meu ouvido: “Pena não termos mais momentos destes.”. Vi-te memória. Aqui. E com medo respondi: “Momentos deste como assim? Queres que te passe mais vezes as impressões de (pausa) de, (olhei para os papéis) de assinaturas de presença? Convenhamos que há coisas mais interessantes para fazer.”. E com isto saí. Achando portanto que o tinha desviado da minha vida e te tinha passado uma rasteira.  

Verdade, que tu escreves direito por linhas tortas e por isso, marquei presença numa das folhas dele, desta vez não entre a espada e a parede, mas na apresentação de um dos seus mais recentes projetos. Com medo de ser notada, assinei, sem o último nome, e saí. Claro está, que não me poderias deixar em paz e sei que deves ter arranjado uma forma dele ter reparado que eu estava em fuga e quando chegou até mim sussurrou-me, como outrora o fizera: “Último nome é requerido, contato de email e só para mim contato de telemóvel.”. Perfeito. Estiveste muito bem, devo dizer-te. Fui apanhada desprevenida assinei e segui. Dia seguinte uma mensagem no telemóvel desenrolou o fio que há muito estava enrolado. Uma mensagem puxou a outra e um beijo levou ao outro. 

Posso dizer-te que és demasiado inconveniente, sabias que isto não era possível acontecer sem que eu saísse desta situação sem marcas. Mesmo assim, quiseste manter-te como inalterável levando o futuro ao presente e agora, neste preciso momento, em que mais preciso de ti para me ajudares a levantar deixas-me sem ti, apenas ele e sem palavras para lhe responder. Sendo que ele adianta-se dizendo: “vou aceitar outro trabalho e”  interrompo dizendo: “Pára. Já percebi a mensagem.”. Isto para ele, já para ti: feliz?! Chegámos finalmente aqui. 

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Poema

dito por ela

ela disse

que disse ela?

ela disse

e disse

ponto

ela disse

voltou a dizer

disse e reforçou

disse ela

o que disse

foi

exatamente

o que ela disse

ela disse

que disse ela?  

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Ensaio

Ensaio sobre ti

Vou tratar-te como um ensaio, porque neste momento não te sei tratar de outra forma. 

Queria tratar-te pelo nome, mas não me é conveniente, e por isso, apenas por isso vou sempre dirigir-me a ti (quando assim for necessário) na segunda pessoa. 

Se tivesse uma lista, um livro com listas de pessoas onde te encaixarias tu? Possivelmente na lista dos cobardes, ou na dos mentirosos, quem sabe ainda a dos instáveis teria o teu nome. Vou decidir colocar-te na dos mentirosos. Por enquanto é lá que te vou encontrar, se assim o quiser. 

Afinal, que custa assumir a tua decisão? A tua posição? A tua vontade? Hoje, surgiu-me, inclusive uma palavra que não costumo proferir, enquanto conduzia, pensava em ti e no quanto literalmente abusaste de mim. 

Esquece, não falo das vezes em que permiti, deliberadamente, que passasses as linhas traçadas pelas posições devidas. Falo das outras em que me querias convencer da tua posição como certa. E sabes? Eu não mordo, a não ser que me seja pedido e que eu queira, portanto, poderias ter sido leal e falar o que dizia o teu coração. Mesmo que eu não gostasse de ouvir. Afinal, foi tudo o que te pedi: que fosses leal. Falasses a verdade. O que te ia no coração. Mesmo que eu não gostasse de ouvir. Isso servia. 

Pergunto-me, agora, que já virei a página. Serias diferente, mais leal, verdadeiro, se as linhas estivessem bem marcadas? Possivelmente, fui eu quem te permitiu abusares de mim. 

Vamos por momentos reescrever os factos e retirar-te da lista dos mentirosos. Passar-te para a lista dos verdadeiros. E assim ouço: 

“Amava fazer parte da tua vida. Mas por enquanto tenho outro caminho a traçar. Que o futuro nos cruze novamente, é o que desejo.”

Ouço, agora, o que gostaria de ter ouvido. E dir-te-ia: no meu livro estás na lista dos que sempre terão a porta aberta. 

Entretanto a porta fechou, terás de perceber se está trancada, encostada, e como poderás voltar a abrir. Se assim o desejares. Porém aviso: há chave mestra e não sei onde anda ela. 

Ensaio meu sobre ti. 

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Poema

Escreve-me


Já bebi o suficiente para dizer que tenho saudades tuas.

Ignora. 

Sobretudo,

se o teu estado for diferente do meu.


Entretanto,

se te afogares na bebida 

e te lembrares de mim, 

escreve-me. 


Mesmo que para me dizer: 

Já bebi o suficiente para dizer que tenho saudades tuas. 

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Conto

Tempo, esse velho de barbas brancas

O Tempo está muito cansado, visto que ele cura tudo. Nem imaginam como são tantas as dores de cabeça que um mundo inteiro de gente com problemas por resolver coloca em cima do Tempo! Este mar de gente está portanto a contar com o Tempo para que ele mesmo resolva. Talvez por isso, ele agora tem uma única cor: branco. Ele é branco nas barbas, no cabelo, e até as brancas que se lhe aparecem sobre as memórias são em branco. 

Vive num sótão onde mais espaço para ele se mover, não há. O Tempo é colecionador de dores, certo também que tem alegrias pelo sótão. Coleciona memórias de todo o tipo, mas o espaço, começa a escassear e  por ser tão acumulador as memórias encaixam-se umas em cima das outras causando alguns apagões, o pior é que com tanto caos o Tempo já se arrasta, não lhe é possível processar os dados com a mesma rapidez, o espaço é curto e a memória disponível também. 

Sendo que o Tempo, gosta de tomar conta de tantos, ele fica então sem mãos a medir. Por vezes acontece que encontra cacos ao seu redor e com muita calma e paciência junta caco a caco para voltar a fazer o vaso. Ainda assim o vaso nunca mais é como dantes, o Tempo fica triste e essa tristeza faz-se sentir nas suas barbas que sendo brancas, sem ponta de cor pelo meio, acabam por crescer. Então o Tempo agora é um velho de barbas e cabelos brancos, extremamente gigantes. 

A dado momento o Tempo tropeçou num molhe de cartas de amor, dois jovens de 15 anos eram as figuras das cartas, por estranho que pareça, ele só tinha um remetente e um recetor, cartas de uma só via. O Tempo perguntou-se: “Porque é que seria que a um molhe cheio de cartas de amor não se lhe apresentava resposta alguma?”. Possivelmente as respostas estariam perdidas naquele sótão pejado de feridas à espera de ser curadas. Visivelmente estas cartas de amor tinham muito por onde querer sarar. Entre encontros marcados e não acontecidos, até vergonhas alheias a impedir manifestações de amor e claro a típica timidez do primeiro amor.

A última carta surgia também ela incompleta:

Querido Jorge:

Hoje, não consigo falar porque as palavras ficaram presas na poça de lágrimas que surgiu na festa de finalistas. Estava feliz, disso eu lembro, até ler as palavras que me escreveste, com elas não vejo o futuro…

Esta última carta fica-se por aqui e o Tempo ficou desesperado porque não via mais cartas. Foi à procura delas no sótão, por todo o lado, remexeu até em factos menos distantes, porém, nada de encontrar o fio à carta. O Tempo não sabia o que lhe fazer, também não sabia como ajudar nesta situação. Com tanto trabalho para fazer, curas para apresentar, outras memórias e factos para arrumar naquele imenso sótão, o Tempo ficou sem movimentos pela carta de amor de Maria para Jorge, dois amados de primeira viagem. 

Entre uma carta e outra o Tempo resolveu brincar ao tempo e acabou por baralhar datas, baralhou-as de tal forma que o encontro marcado para 2000-10-03 acabou por ficar marcado para 20-01-30. Este acontecimento foi ao acaso, contudo, aconteceu. Foi então que finalizado este deslize temporal que ao olhar para o seu lado o Tempo encontrou uma carta que não existia até então. Era Jorge que a escreveu a Maria, o que dizia nessa carta, o Tempo não me revelou, disse porém: “Mais uma que o Tempo curou.”.    

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Ensaio

Ensaio sobre o Ensaio

Quando veio,

Mostrou-me as mãos vazias,

As mãos como os meus dias,

Tão leves e banais.

Pedro Abrunhosa

Vamos falar aqui de coisas banais, outras não tão banais, vamos falar de coisas que pareciam tão banais e que agora são preciosas. Sobretudo vamos, hoje, falar de uma: ensaio.

Nunca fui muito fã de dias específicos para festejar coisas como a poesia, o livro, o teatro e outros, porém nos dias que correm estou cada vez com mais vontade de festejar, porque me trazem um sabor acre e doce. Doce porque amo cada uma destas coisas que se festeja: a poesia, o livro, o teatro e cada vez que pratico e mergulho neles sinto-me viva. O mês de março é recheado de festejos, e o de abril tem outros tantos, mas os dias parecem iguais. Vazios. Vazios porque apesar de ser possível ler, já leio como forma de viver o que não é possível viver, já escrevo sobre dias iguais e ensaios parecem miragens. Mesmo que se possa ensaiar com cuidados e tal, fazemos sempre com aquela sensação que a data de apresentação acontece se acontecer, ou acontece se for possível agendar, ou mesmo se o que ficou por fazer for escoado. Com isto, percebo que estou a ensaiar sobre a possibilidade de um dia voltar a ensaiar e com o sentimento acre de quem vê o dia do teatro como um momento para festejar o passado em vez do presente e do futuro. 

Venham mais dias banais, como os dias de antes e menos dos dias banais de hoje. Venham mais ensaios ao vivo para que eu possa deixar de ensaiar sobre o ensaio, ou até ensaiar sobre agendar um ensaio. Menos dias vazios, mais dias recheados de experiências, jogos, brincadeiras, reflexões e descobertas dramáticas. Menos drama diário, mais dele no palco, menos criatividade virtual, mais dela ao vivo e a cores. Menos disto e mais daquilo. E como diria a minha filha mais nova: “Mãe, paga o ballet, porque eu quero ir para a sala, não quero estar nesta sala, a nossa.”. Ela não sabe que não é por falta de dinheiro, mas começa, pelo visto, a entender que tanto, neste mundo que vivemos, é por e sobre dinheiro. Isto faz-me perguntar, será também dinheiro que nos impede de ensaiar e me coloca neste ensaio? E com esta pergunta abro questões que gostaria de manter privadas, portanto, não me respondam ao vivo, nem por mensagem, nada de comentários na caixa, nada de emails também. Estou apenas a fazer um ensaio e como um bom ensaio que se preze, ele é cheio de experiências, perguntas, desabafos (até), mas não é para o público. Este ensaio não é publico, mesmo que o publique, não é público. 

Assim, daqui saio com mãos não tão vazias, ainda que vazias, onde os dias são, o que são, não sei se leves e banais. Sei apenas, que chegou ao fim, este ensaio. 

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Conto

Papagaio Amarelo

Alice vivia sozinha, mas nem por isso alguma vez se sentiu sozinha. Grande parte deve-se à sua vizinha Papagaio Amarelo, assim a trata Alice, de forma carinhosa, claro. Papagaio Amarelo vive no prédio laranja em frente ao apartamento de Alice, entre elas há um jardim, muito bem arranjado e verde, graças à relva, árvores e arvoredos, com bancos que permite alguns dos habitantes partilhar algumas palavras em momentos de descanso. Muito embora este jardim não seja exclusivo destes habitantes, é um jardim rodeado de prédios e apenas ruas estreitas e com chão em terra ou paralelos bem mal amanhados, por isso normalmente só mesmo os habitantes sabem deste jardim maravilha, no centro de uma cidade agitada. O jardim parece um autêntico paraíso, mais do que isso, é uma mini floresta encantada entre prédios, talvez só tenha sobrevivido sobre os tempos porque aqueles prédios se ergueram ao seu redor. Há uma árvore centenária bem no centro que é o ponto de referência para todos aqueles que conhecem o jardim. Por ser o centro é como o sol dos prédios envoltos. 

Papagaio Amarelo, vive no prédio laranja bem em frente de Alice e gosta de comunicar todos os dias as notícias mais importantes do dia, é como o noticiário, ela gosta também de as repetir 3 vezes, não vá alguém ter apanhado o noticiário a meio. 9h da manhã e Alice pega no café, senta na sua varanda respirando fundo e sentindo na pele os primeiros raios do dia na pele. Papagaio Amarelo: “Aviso Amarelo para os habitantes. Vão sentir-se ventos fortes e chuvas intensas. Repito. Aviso Amarelo.” Quando ela disse repito não estava de facto a repetir, estava só na primeira leva desta notícia. Alice, sentia o sol a brilhar e aquecer a pele, portanto não levou o aviso amarelo feito pelo Papagaio Amarelo muito a sério. Bom, mas ainda não vos contei porque é esta vizinha apelidada de Papagaio Amarelo, já todos percebemos que ela repete as notícias 3 vezes e muito provavelmente ouve-as na rádio ou televisão logo pela manhã, depois a meio do dia e finalmente à noite. Ela tem outro aspeto característico: pinta o cabelo de amarelo, por isso, Alice vê um ponto amarelo, ao fundo, de uma varanda alta que espalha as notícias. 

Desta feita, era o aviso amarelo, mas Alice até quase se engasgava com o café de tanto rir sobre este tal aviso amarelo. Alice acabou por limpar o café que verteu e foi para o computador, onde está o dia todo, ela passava o dia inteiro no computador a trabalhar. Ainda assim, sempre que alguém lhe ligava para o que quer que fosse, ela parecia nunca estar a trabalhar, sempre teve tempo para os amigos, os pedidos de ajuda e para tudo o que eventualmente aparecesse. Alice tinha apenas um hábito: ir até ao jardim paraíso, junto da árvore ler um pouco depois do almoço. Era quando ouvia as notícias da Papagaio Amarelo que fechava o livro e voltava para o computador. 

Anoiteceu, e com a noite chegaram as nuvens e com elas, a chuva, a chuva virou trovoada e esta desligou a corrente elétrica. Todos os prédios que habitualmente iluminavam com a luz de cada casa o jardim central apagaram-se e assim ficou todo o jardim às escuras. No dia seguinte, o jardim estava revolto, ramos partidos, poças de lama e tudo desorganizado. Porém, não era só o jardim que estava em pântanos, eram 9h e Alice não foi até à varanda, a Papagaio Amarelo não espalhou as notícias e todo esse dia pareceu uma continuidade da noite. 

No dia seguinte, Alice foi até à varanda colocar as coisas no lugar, arrumar tudo o que o vento levou e a chuva destruiu. 9h e nada ouviu, meio do dia e já nem lhe apeteceu ler, fim do dia e sentia como que não conseguisse fechar os olhos e dormir. 

Outro dia ainda e pelas 9h da manhã Alice não quis levantar da cama, mas Papagaio Amarelo começou com as suas habituais notícias, suspensas depois do tal “aviso amarelo”. Alice subitamente sorriu, e como se uma nova vida tivesse nascido nela, levantou da cama, foi buscar o café e sentou na varanda. 

Papagaio Amarelo: “A luz voltou a minha casa, já vos posso dar mais notícias.”.