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Poema

existe um poema 

que não é meu

nem teu

podia ser nosso

existe um poema

que se esqueceu do nome

e não sabe bem onde

esqueceu os seus versos

existe um poema

com tacto e gosto

literalmente meu

vagamente teu

existe esse mesmo poema

de tinta sem cor

de amor preenchido 

com vida nos versos

existe um poema

aquele poema

que aconteceu, existe 

e ninguém o escreveu

existe um poema 

dois corações

emoções mais que muitas

existimos

existe este poema 

um poema

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O Vazio

Ela perdeu um amante e esse era o vazio mais difícil de preencher.

Margarida passou uma década a trabalhar. Não tinha marido, nem filhos e estava feliz com isso. Era sua ambição ter uma carreira. Estava decidida e nada a abalava. 

Não a abalou as vezes que lhe perguntaram porque não tinha filhos, nem mesmo as que lhe disseram “Vais-te arrepender se não os tiveres”. Nada de abalos por ouvir que não era madura o suficiente por não ser mãe, ou mesmo quando as perguntas eram: “E marido? Para quando?”. 

Tudo o que interessava a Margarida era a carreira. Então, de facto, era abalada quando não lhe davam o valor que merecia. Quando a ultrapassavam, ou se por acaso levavam os louros que lhe pertenciam. Aí sim, Margarida virava fera. Não era para menos. Tinha 26 anos, nunca reprovou um ano, fez licenciatura, mestrado, doutoramento, recebeu bolsas de mérito e passou todos os segundos da sua vida dedicados ao laboratório.

Pesquisou para aprender. Defendeu uma tese e uma outra pesquisa, defendeu ainda outra tese e uma nova pesquisa só não se soube defender. 

Durante uma carreira exemplar foi dando o seu trabalho, ideias, suor, lágrimas e até as suas alegrias em prol da ciência. Achava desde de muito nova que seria uma cientista reconhecida. Queria de facto ajudar o mundo com as suas descobertas. Certo, que queria uma carreira, mas também a queria com significado: ajudar o mundo. 

Aos 26 continuou de bolsa em bolsa desta vez por sistema, investigação em investigação. Sentia-se muito sozinha, porém, a certa altura, um colega de trabalho aproximou-se e passaram a partilhar os seus dias.

Dos dias, passaram a partilhar trabalho, ideias e sucessos. Tudo parecia perfeito. Uma dupla infalível, um casamento perfeito: dois cientistas em prol da ciência com carreiras em ascensão. 

A dado momento, e porque não eram só as carreiras que cresciam, também as partilhas aumentaram. Os dias de Margarida e Diogo passaram a ser mais do que trabalho, ainda que Margarida se mantivesse fiel a si mesma: nada de amor/ casamento e muito menos filhos. 

10 anos passaram num abrir e fechar de olhos. E aos 36 Margarida percebeu que Diogo desapareceu de um dia para outro, levando com ele os louros de todo um trabalho. 10 anos dos quais, 8 juntos, voaram com Diogo. 

Ela, com 36 anos, certa das suas decisões, certa de que faria tudo de novo estava num buraco do qual não via fundo. É claro que não faltaram dedos a apontar: tivesses filhos estarias feliz, estás velha para arranjar marido agora, coitada da triste Margarida que escolheu ser infeliz a ter família. 

Enganam-se as más línguas. Margarida estava sim no meio do vazio, porque perdeu 10 anos, trabalho, embora não de conhecimento, um amigo, ou pelo menos assim compreendia e um amante. Sentia-se pior ainda porque era o vazio do amante que mais difícil estava de preencher. 

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Crónica

Nome Próprio

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

Álvaro de Campos 

O meu nome é Cansaço, apenas e só Cansaço. Há quem tenha mais de um nome, porque agregado ao nome próprio segue os de família, da mãe e do pai. No meu caso, sou apenas Cansaço. 

Órfão de pai e mãe, conheço-me por cansaço, não sei portanto as minhas origens. Não posso dizer de quem ou de que derivo, em mim há apenas Cansaço. Como será possível que haja quem vá ao século, sei lá bem qual, por certo um bem lá trás para saber quem é? Como possível será que se precise de justificar o próprio nome com o nome de outrem, ou ações de outrem, como se eu fosse fruto de apenas o que outros fazem, ou fizeram. Mais ainda, quando se trata de ações tão longínquas! 

Há pois quem justifique a sua miséria pela miséria do nome, ou do sangue que lhes corre nas veias, quando se Cansaço há é por uma corrida própria. E está a contar, como num táxi que vai no seu caminho e enquanto não pára segue e soma. Se se cansa ou não depende do gosto. 

Há ainda quem não tendo justificações para apresentar queira encontrá-las, à força, no nome, apelido nem que para isso vá ao fundo do baú e apanhe uns pós que o fazem espirrar ao ponto de um espirro ter outra justificação a do nome comum. 

Há quem prefira inverter a ordem e nunca se quer mencionar o nome próprio, será vergonha? Será falta de identidade ou excesso dela? Será que representa uma personagem tipo? 

Eu, sou do tipo que tem nome, o primeiro e próprio: Cansaço. Sem justificações, nem pretensões, com apenas um custo: a minha própria corrida. 

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Ensaio

És tu, não sou eu

Deixo aqui esclarecido desde o início que és tu. Sim tu e só tu. Em nada esta situação está relacionada comigo. 

Tenho por hábito acarretar todas as responsabilidades sobre todas as situações e assim fiz por anos. Anos e anos a fio. Soube-te bem? Vejo que sim. Vejo que o melhor do mundo foi ver-me a arcar com todas as pontas, todos os pesos, e isto desequilibrou a balança. 

Tenho de admitir que possivelmente o problema de tudo isto foi precisamente a balança. Eu, mais do que ninguém tenho problemas com a balança, fujo dela como quem corre do diabo, se o diabo fosse pessoa e lhe pudéssemos atribuir forma. Fujo porque ela me dita destinos, me aflora medos, grita ao meu ouvido o quanto sou incapaz de me perceber como um ser belo. Belo, onde a balança não dita a beleza. E aqui está: foi o meu medo de balanças que me atirou para o momento em que estou. Este desequilíbrio onde percebo finalmente as coisas como elas são: não fui eu, foste tu. 

Pena que de tanto penar, de tanto te salvar eu tenha impedido-me de perceber que este desequilíbrio da balança facilmente chegaria a outros campos e que depois de penar e te salvar eu penaria um pouco mais por me atirares ao fogo para arder sozinha. Repito sozinha. Porque me incentivaste a atear a fogueira e foste tu quem me disse que lá estarias tu para apagar fogos. Foi então que eu peguei na acendalha e uma chama transformou-se num incêndio que tu decidiste ver de longe. Deixaste arder. Quiseste ver tudo a queimar. E quem sabe regozijar-te com as cinzas que provocaste. Sim, foste tu que fizeste isso, não eu. 

Bonito, não? Tão bonito ver o que sobra de nós. De mim. A ti nem mesmo consigo ver. Afinal tu ficaste de longe a ver, quem sabe a deitar gasolina para o fogo que ardeu como se não houvesse amanhã. 

Agora?! Agora, grito: és tu, não sou eu. Finalmente percebi que és tu e não eu, pena, muita pena que tenha percebido isso tão tarde que infelizmente passei a ser eu e não tu. Fui que deixei seres tu e não eu. 

Para finalizar esclarece, por teres sido tu e não eu, fui eu e não tu. Mas só hoje que gritar bem alto para que me possas ouvir a esta distância: 

És tu, não sou eu. 

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Ensaio

Ensaio sobre o regresso

Nasceu. 

Está connosco, é verdade e oficial. 

Todos os anos ele se apresenta como o mais feliz e nunca teve problemas com as suas formas redondas, incrível! 

Amante do frio, de facto é o único meio onde vive, ainda assim não dispensa um bom cachecol. 

Faz crianças felizes e até os adultos esboçam sorrisos ou desatam às gargalhas, contudo não faz uso de uma única palavra. Apresenta-se perante todos, sempre com estilo e determinação. Não sendo comediante faz rir a pedra da calçada. Se calhar a pedra não, porém do carrancudo ao inerte, ele derrete qualquer um. E sorri. 

Faz do tempo gelado a sua casa e aquece as almas de todos. Faz de seu corpo o contraponto para aqueles que se apresentam perante ele. 

Começa a ganhar forma, muito antes de ter de facto forma. É na entrada do inverno no primeiro floco e nos sonhos de todos que começa a nascer. A fórmula mágica para a sua gestação é o tempo. Não será a de todos? Neste caso, todavia, estamos a referir tempos diferentes, não é o cronológico, ao invés é a meteorologia que falamos. 

É este coração frio, formas redondas, sorriso pontilhado na cara e um nariz, verdadeiro, ainda que grande como o do Pinóquio que faz as alegrias dos pequenos aos graúdos. São as gargalhas de todos que o mantêm vivo. 

Ninguém se quer despedir dele, porque nele está toda a felicidade do mundo. No entanto, chega um dia, em que o sol derrete o seu coração, ele, regressa apenas no próximo floco, este Boneco de Neve.

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Conto

Imortal

Li, um dia , que quando entras na vida de um escritor serás eternizado. Não me perguntes onde li, sei apenas que li. E isto, traz-me aqui. Quero saber em que páginas tuas me encontro. Quero saber onde me desenhas com palavras e se me imortalizas nas tuas páginas. Quero saber o que é importante entre nós que necessite ser imortalizado. O que de tão bom ou bonito te fez pintar-me, e em que materiais me esculpes, ou de que formas me materializas. Se é que o fazes.

Quero portanto saber as tuas prioridades e arrepios sobre nós. Será que aquela noite quente sobre uma lua cheia e luminosa, num banco de jardim, a beber um copo de vinho que trouxemos da casa alugada umas das prioridades? Essa noite onde trocámos, para mim as palavras mais sensuais sem se quer falar em sexo em nenhuma delas, sem que as mesmas fossem reflexo de provocação. E no entanto foram as palavras mais envolventes e provocantes, a intimidade prefeita. Sim porque sexo não é intimidade, é apenas sexo. Minto, sexo, pode ser sim intimidade, porém nem sempre o é. E nós, tivemos momentos quentes, fortes, deliciosos, no entanto, íntimos como aquele, no banco de jardim, nenhum. As nossas almas abraçaram-se e despimo-nos de medos, de vergonhas e de barreiras. Encontrámos um ninho um no outro, um ninho celeste que ninguém mais pode compreender, ninguém, exceto nós que ali estávamos um com o outro, um no outro. Será este o momento que decidiste eternizar?

Ou por outro lado queres-me para sempre a desejar-te, sacando de um preservativo do bolso e um “desculpa” da boca. Boca essa que selaste com um beijo bruto e delicioso, para mais não me explicar ou justificar. Num suspiro abriste o invólucro deixando escapar: “sem desculpas, eu quero”. Desse momento tenho gravados o início e o fim, este início e o final que todos imaginam, eu deitada na cama enrolada em mim mesma, exausta de uma sessão animalesca e desejada,  com o corpo a vibrar do prazer sentido e a sentir. 

Será contudo que guardas um outro momento, aquele em que eu conduzia e chorava sobre uma tristeza que não era tua, era tão minha, onde os olhos deixavam cair as lágrima que por pouco me deixavam o caminho baço. Tu, limpaste as minhas lágrima e quando parei o carro, tu olhaste-me nos olhos e sem palavras fizeste-me conduzir até ao destino. Não me lembro o entretanto, sei apenas que saía do banho e com um olhar do mesmo jeito, daquele no carro, um beijo aconteceu, vindo de um movimento que desconhecia e ainda desconheço, por estranho que pareça. A tolha caiu no chão e a tua roupa quis fazer-se seguir à toalha. 

Algum destes momentos são teus, meus e imortais? Serão outros aqueles que resolveste imortalizar. Quero saber como se me fosse alimentar disso. Podes ainda ter decidido colocar cada momento em cada um dos teus textos, espalhados como uma caça ao tesouro, e teria eu o discernimento de os encontrar, de me encontrar, de nos encontrar? Entre tantos outros de outrem ou de teus pensamentos. Ai, os pensamentos de quem são os teus pensamentos, a quem pertencem eles? Terei eu um pouco desse espaço?

Sei, no entanto que noutro dia, passei por uma livraria e como gosto de ler, não só a ti, mas tantos outros, percorri o dedo pela estante perguntando, a esta mesma estante, que livro seria o meu. O tal que teria uma mensagem para mim, naquele dia. De olhos fechados o dedo parou e assim que abri os olhos a contracapa dizia “Desculpa”, esse é o título. Nome do autor? O teu.   

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Conto

Memória do Futuro

“Pára. Já percebi a mensagem. Ainda não chegámos aí.” Assim comecei a conversa contigo, memória do futuro. Minha querida e indelicada memória do futuro. Ou deveria mesmo dizer minha tão amada, fugaz, insana e incomoda memória do futuro.

Poucas são as vezes que acontece, mas aconteceu há um ano. Vi-o, encostado à parede branca da sala e soube que estaria hoje no chão de corpos colados. Numa manhã de inverno, entrava um raio de sol pela janela direto a ele, realçando a barba e o cabelo castanho claro. Longe de imaginar que seria abordada por uma memória do futuro, quando de facto fui, aconteceste. Um flash do futuro a dourar um primeiro encontro. Desengane-se quem pensa que fui abordada por um déjà-vu. Nenhum déjà-vu dá concretamente uma imagem de dois corpos fundidos no chão de madeira e um tapete fofo ao lado, de uma casa que desconhecemos, com cheiro a pele fresca e sensação húmida de corpos colados. Nenhum déjà-vu me traz sabor, fogo e definição. Quando me avassalaste, memória do futuro, soube que estaria com ele hoje, aqui, no chão de corpos colados entre ti, memória, e ele. Tinha, há um ano, acabado de chegar à sala, ao trabalho novo, à minha vida. Num sopro do fogo que me inundou o corpo percebi que não poderia escapar a este futuro. E foste tu memória que me traçou o caminho. 

Expliquei-te que não poderia ser. Expliquei-te com vários e diversos pontos, bastante detalhados, que me dei ao trabalho de anotar, escrever, rescrever e corrigir meses a fio num longo documento, quase um contrato entre nós, em como tu serias capaz de sair da minha vida e com isto mudar o futuro, tranquilizando-me. Porém, não assinaste o contrato que hoje, está na minha secretária guardado entre tantos documentos arquivados. E hoje, estou aqui. Arquivaste a minha vontade de mudar o futuro. E colocaste o teu plano em prática quando 6 meses depois de me avassalares tu, ele fez o mesmo colocando-me contra a parede sussurrando ao meu ouvido: “Pena não termos mais momentos destes.”. Vi-te memória. Aqui. E com medo respondi: “Momentos deste como assim? Queres que te passe mais vezes as impressões de (pausa) de, (olhei para os papéis) de assinaturas de presença? Convenhamos que há coisas mais interessantes para fazer.”. E com isto saí. Achando portanto que o tinha desviado da minha vida e te tinha passado uma rasteira.  

Verdade, que tu escreves direito por linhas tortas e por isso, marquei presença numa das folhas dele, desta vez não entre a espada e a parede, mas na apresentação de um dos seus mais recentes projetos. Com medo de ser notada, assinei, sem o último nome, e saí. Claro está, que não me poderias deixar em paz e sei que deves ter arranjado uma forma dele ter reparado que eu estava em fuga e quando chegou até mim sussurrou-me, como outrora o fizera: “Último nome é requerido, contato de email e só para mim contato de telemóvel.”. Perfeito. Estiveste muito bem, devo dizer-te. Fui apanhada desprevenida assinei e segui. Dia seguinte uma mensagem no telemóvel desenrolou o fio que há muito estava enrolado. Uma mensagem puxou a outra e um beijo levou ao outro. 

Posso dizer-te que és demasiado inconveniente, sabias que isto não era possível acontecer sem que eu saísse desta situação sem marcas. Mesmo assim, quiseste manter-te como inalterável levando o futuro ao presente e agora, neste preciso momento, em que mais preciso de ti para me ajudares a levantar deixas-me sem ti, apenas ele e sem palavras para lhe responder. Sendo que ele adianta-se dizendo: “vou aceitar outro trabalho e”  interrompo dizendo: “Pára. Já percebi a mensagem.”. Isto para ele, já para ti: feliz?! Chegámos finalmente aqui. 

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Poema

dito por ela

ela disse

que disse ela?

ela disse

e disse

ponto

ela disse

voltou a dizer

disse e reforçou

disse ela

o que disse

foi

exatamente

o que ela disse

ela disse

que disse ela?  

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Ensaio

Ensaio sobre ti

Vou tratar-te como um ensaio, porque neste momento não te sei tratar de outra forma. 

Queria tratar-te pelo nome, mas não me é conveniente, e por isso, apenas por isso vou sempre dirigir-me a ti (quando assim for necessário) na segunda pessoa. 

Se tivesse uma lista, um livro com listas de pessoas onde te encaixarias tu? Possivelmente na lista dos cobardes, ou na dos mentirosos, quem sabe ainda a dos instáveis teria o teu nome. Vou decidir colocar-te na dos mentirosos. Por enquanto é lá que te vou encontrar, se assim o quiser. 

Afinal, que custa assumir a tua decisão? A tua posição? A tua vontade? Hoje, surgiu-me, inclusive uma palavra que não costumo proferir, enquanto conduzia, pensava em ti e no quanto literalmente abusaste de mim. 

Esquece, não falo das vezes em que permiti, deliberadamente, que passasses as linhas traçadas pelas posições devidas. Falo das outras em que me querias convencer da tua posição como certa. E sabes? Eu não mordo, a não ser que me seja pedido e que eu queira, portanto, poderias ter sido leal e falar o que dizia o teu coração. Mesmo que eu não gostasse de ouvir. Afinal, foi tudo o que te pedi: que fosses leal. Falasses a verdade. O que te ia no coração. Mesmo que eu não gostasse de ouvir. Isso servia. 

Pergunto-me, agora, que já virei a página. Serias diferente, mais leal, verdadeiro, se as linhas estivessem bem marcadas? Possivelmente, fui eu quem te permitiu abusares de mim. 

Vamos por momentos reescrever os factos e retirar-te da lista dos mentirosos. Passar-te para a lista dos verdadeiros. E assim ouço: 

“Amava fazer parte da tua vida. Mas por enquanto tenho outro caminho a traçar. Que o futuro nos cruze novamente, é o que desejo.”

Ouço, agora, o que gostaria de ter ouvido. E dir-te-ia: no meu livro estás na lista dos que sempre terão a porta aberta. 

Entretanto a porta fechou, terás de perceber se está trancada, encostada, e como poderás voltar a abrir. Se assim o desejares. Porém aviso: há chave mestra e não sei onde anda ela. 

Ensaio meu sobre ti. 

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Escreve-me


Já bebi o suficiente para dizer que tenho saudades tuas.

Ignora. 

Sobretudo,

se o teu estado for diferente do meu.


Entretanto,

se te afogares na bebida 

e te lembrares de mim, 

escreve-me. 


Mesmo que para me dizer: 

Já bebi o suficiente para dizer que tenho saudades tuas.