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IPERA

Atenção este texto contém spoilers! 

Faço uma declaração de interesses: um dos meus albúns preferidos de sempre é sem dúvida o “1° de Agosto Ao Vivo no RRV (Rock Rendez-Vous)” dos Xutos & Pontapés. Sejam vocês ouvintes da altura ou recém-chegados ao culto dos Xutos este é um album incontornável. O som leva-nos àquela noite de 1984 onde uma banda, já com 6 anos de estrada, registou um concerto que marcou um momento a caminho da consagração que chegaria mais tarde com os discos “Circo de Feras” e “88”. O álbum RRV contém aquela energia crua, eletrizante e bruta das músicas feitas para serem ouvidas com o som bem alto ou com auscultadores com redução de ruído que faz a música sobressair ainda mais. Canções incontornáveis como “O Homem do Leme”, “Se Me Amas”, “Conta-me Histórias” ou “Barcos Gregos” apareceram no RRV pela primeira vez, ainda antes de serem editadas num disco LP.

Ainda que este seja o meu disco preferido dos Xutos, há outras canções do seu repertório que me movem pelas mais diversas razões. Por exemplo não acredito que alguém consiga ouvir o “Dá um mergulho no mar” ou o “Ai se ele cai” sem que uma força sobre-humana o faça começar a saltar compulsivamente. A mesma homenagem pode ser feita à longa introdução do “N’América” onde o baixo, a guitarra elétrica e o saxofone discutem durante largos minutos sobre quem irá arriscar dar a palavra ao Tim; ou ainda ao incontornável “Para Ti Maria” que mediu o pulso ao desenvolvimento das estradas: se em 1988 demorávamos 9 horas para ir de Lisboa a Bragança, hoje em dia a mesma viagem faz-se em 4 horas e 45 minutos de carro (segundo o Google Maps) ou em menos de 1 hora de avião. E já que falamos em Marias, posso culminar com o “Avé Maria” que me era sempre dedicada em voz alta pelos colegas do Basquetebol que implicavam comigo por chegar atrasado aos treinos de Domingo porque vinha da catequese. 

Antes que me perca demasiado, queria apenas ressalvar que do reportório dos Xutos há uma música em particular que me sempre me intrigou. E isto vem de alguém que se intriga com coisas como o nome das ruas. Um pequeno parêntesis: desde cedo que me pergunto o que é que temos de fazer para dar o nome a uma rua. A primeira razão, está claro, é que já falecemos. A segunda é ter feito algo de absolutamente notável. Por essa razão, e muito antes do Wikipedia, costumava apontar os nomes das ruas e ia depois à biblioteca investigar quem eram aquelas pessoas.   

Mas voltando aos Xutos e à sua canção intrigante. Estou a falar de “As Torres da Cinciberlândia” que aparece no álbum “88”. Esta canção leva-me a um lugar místico e etéreo. Vivendo na margem sul a “Cinciberlândia” sempre me pareceu um lugar real ainda que distante. Eu, tal como narra a canção, passei largos anos à procura das ditas torres. Para mim eram torres que só poderiam servir um fim dúbio: comunicar com outros planetas (sim, a minha mente vai logo para ali). Afinal porque razão existiria um sítio tão secreto e avançado que não tivesse esse propósito? Torres que apenas brilham? As minhas suspeitas seria confirmadas alguns anos mais tarde quando apareceu a série “Ficheiros Secretos”. Se isto era possível nos EUA porque não em Portugal? Tudo bem que quando os extraterrestres visitam o nosso planeta passam primeiro pelos EUA (e isto está documentado de forma exaustiva), mas tendo Portugal ganho tantos Óscares de turismo, uma vista a este retângulo até que vale a pena! E claro está, não ajudou nada ver aquele documentário da RTP que falava dos “ficheiros secretos portugueses” e cujas amostras, que estavam guardadas no Museu Nacional de História Natural e de Ciência, desapareceram num incêndio de origem duvidosa. No fundo a minha imaginação levou-me a acreditar que as torres funcionavam como um portal para outro propósito que não a comunicação. 

Anos depois consegui enfim encontrar a Cinciberlândia, numa altura em que já tinham retirado as famosas torres que, afinal não eram mais do que antenas de comunicação. E sim, a Cinciberlândia servia outro fim que não a comunicação (Spoiler Alert): neste caso era a defesa atlântica uma vez que era um posto de comando da NATO de nome CINCIBERLANT. Hoje em dia tem outro nome: NCIA. Imagino que há uma série policial prestes a sair que relata as aventuras dos agentes secretos a trabalhar em Oeiras e a descansar entre a praia da Torre e o forte de S. Julião da Barra (fica aqui a sugestão: NCIA: Oeiras). Tudo isto para vos dizer que com esta descoberta perdi um pouco da ilusão que acompanhava a canção. Afinal o portal com que eu contava não era exatamente o esperado.

Mais tarde, a vida reservou-me o contato com um portal transdimensional. E com este sim, tive a possibilidade de o utilizar de forma frequente e fiquei a conhecer o seu nome: IPERA. Este portal está literalmente no ar (é um ponto GPS de navegação aérea) e serve tanto de entrada como de saída. Imaginem uma escadaria que nos levam a uma porta, só que a porta está a 10km de altura. Para quem viaja de avião entre a Europa e Cabo Verde este portal marca o início da descida e os 30 minutos que faltam para chegar. 

A minha primeira passagem por esse portal foi a medo. Afinal não sabia o que me esperava lá em baixo. Quando estamos no ar tudo é relativo e ao viajar deixamos tudo (incluindo os problemas) para trás. Ainda assim assustava-me ser o desconhecido e só ter como referência as histórias de quem já lá tinha estado e não me parecia possível serem todas coincidentes e positivas. Ao escutar o som dos reatores a retrairem e sentir o avião iniciar a sua descida entrei em modo “passageiro concentrado” e a pensar nos passos seguintes: haverá muita fila para o controle de passaporte, a bagagem vai chegar ou se o táxi vai demorar muito tempo. Estava eu a tentar organizar os meus pensamentos quando a senhora que está ao meu lado entrega-me o seu recém-nascido para os braços e diz-me para o segurar pois quer aproveitar o tempo que falta para ir à casa de banho. Foi aí que me dei conta: gente que confia os seus primogénitos a estranhos em aviões só podem ser seres humanos de coração aberto. 

O avião aterrou e durante os quatro anos seguintes pude comprovar que as histórias que tinha ouvido na verdade não faziam jus ao que vivenciei. IPERA tornou-se o meu ponto de chegada e de partida oficial (tecnicamente este ponto marca o inicio do espaço aéreo controlado por Cabo Verde). Nas viagens recorrentes tanto controlava a ansiedade para chegar a IPERA ou o certo aperto quando a deixava na viagem de sentido inverso. A viagem de avião sempre tinha entusiasmo, tanto ao início como ao fim. 

Passados quatro anos chegou a hora da partida definitiva. Esta iniciou-se em terra. Despedi-me no aeroporto com um abraço apertado, terno e adiado. De seguida enfrentei uma subida dolorosa até IPERA. Por alguma razão o avião voa praticamente em linha reta até sair lá em cima, como se fosse o fim de um túnel muito, muito comprido. Foi assim que cruzei o portal pela última vez.   

Como dizia o Tim, “já lá voltei e busquei o lugar” e há pouco tempo, a caminho do Atlântico Sul, passei ao lado do portal mas não desci para as ilhas da Morabeza. Ainda assim acordei uns minutos antes, servi um espumante e brindei à sua passagem.

IPERA: N20°21.91′ W20°41.98′

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Imortal

Li, um dia , que quando entras na vida de um escritor serás eternizado. Não me perguntes onde li, sei apenas que li. E isto, traz-me aqui. Quero saber em que páginas tuas me encontro. Quero saber onde me desenhas com palavras e se me imortalizas nas tuas páginas. Quero saber o que é importante entre nós que necessite ser imortalizado. O que de tão bom ou bonito te fez pintar-me, e em que materiais me esculpes, ou de que formas me materializas. Se é que o fazes.

Quero portanto saber as tuas prioridades e arrepios sobre nós. Será que aquela noite quente sobre uma lua cheia e luminosa, num banco de jardim, a beber um copo de vinho que trouxemos da casa alugada umas das prioridades? Essa noite onde trocámos, para mim as palavras mais sensuais sem se quer falar em sexo em nenhuma delas, sem que as mesmas fossem reflexo de provocação. E no entanto foram as palavras mais envolventes e provocantes, a intimidade prefeita. Sim porque sexo não é intimidade, é apenas sexo. Minto, sexo, pode ser sim intimidade, porém nem sempre o é. E nós, tivemos momentos quentes, fortes, deliciosos, no entanto, íntimos como aquele, no banco de jardim, nenhum. As nossas almas abraçaram-se e despimo-nos de medos, de vergonhas e de barreiras. Encontrámos um ninho um no outro, um ninho celeste que ninguém mais pode compreender, ninguém, exceto nós que ali estávamos um com o outro, um no outro. Será este o momento que decidiste eternizar?

Ou por outro lado queres-me para sempre a desejar-te, sacando de um preservativo do bolso e um “desculpa” da boca. Boca essa que selaste com um beijo bruto e delicioso, para mais não me explicar ou justificar. Num suspiro abriste o invólucro deixando escapar: “sem desculpas, eu quero”. Desse momento tenho gravados o início e o fim, este início e o final que todos imaginam, eu deitada na cama enrolada em mim mesma, exausta de uma sessão animalesca e desejada,  com o corpo a vibrar do prazer sentido e a sentir. 

Será contudo que guardas um outro momento, aquele em que eu conduzia e chorava sobre uma tristeza que não era tua, era tão minha, onde os olhos deixavam cair as lágrima que por pouco me deixavam o caminho baço. Tu, limpaste as minhas lágrima e quando parei o carro, tu olhaste-me nos olhos e sem palavras fizeste-me conduzir até ao destino. Não me lembro o entretanto, sei apenas que saía do banho e com um olhar do mesmo jeito, daquele no carro, um beijo aconteceu, vindo de um movimento que desconhecia e ainda desconheço, por estranho que pareça. A tolha caiu no chão e a tua roupa quis fazer-se seguir à toalha. 

Algum destes momentos são teus, meus e imortais? Serão outros aqueles que resolveste imortalizar. Quero saber como se me fosse alimentar disso. Podes ainda ter decidido colocar cada momento em cada um dos teus textos, espalhados como uma caça ao tesouro, e teria eu o discernimento de os encontrar, de me encontrar, de nos encontrar? Entre tantos outros de outrem ou de teus pensamentos. Ai, os pensamentos de quem são os teus pensamentos, a quem pertencem eles? Terei eu um pouco desse espaço?

Sei, no entanto que noutro dia, passei por uma livraria e como gosto de ler, não só a ti, mas tantos outros, percorri o dedo pela estante perguntando, a esta mesma estante, que livro seria o meu. O tal que teria uma mensagem para mim, naquele dia. De olhos fechados o dedo parou e assim que abri os olhos a contracapa dizia “Desculpa”, esse é o título. Nome do autor? O teu.   

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Hotel Morpheu

Mens sana in corpore sano”, ou se preferirem: “Mente sã em corpo são”. Sempre me disseram que a mente e o corpo, quando sintonizados, permitem-nos desfrutar da vida e não há nada que nos detenha. É como não ter obstáculos e ter tudo, verdadeiramente tudo como possível.  

Sempre que a mente comanda sinto que o corpo tem mais hipóteses de sucesso. A mente sabe até onde o meu corpo pode ir, por isso alimenta e avisa-o de quando está a chegar ao limite. Ainda assim, ocasionalmente, o meu corpo consegue surpreender a mente com uma descarga de adrenalina que lhe permite um esforço adicional. 

A mente dá as pistas (vai descansar, já deu, não te esforces mais, etc.) e o corpo geralmente apanha-as todas. Geralmente porque o meu corpo por vezes nada para fora de pé: perde o comboio, age por instinto, fica até acabar a festa, arrisca mais, ousa um beijo ou acredita que certos dias não deveriam ter fim: a tarde passa a noite e da noite nasce a alvorada, resultante das palavras e de copos a mais, e de todos os outros que virão. Os momentos de euforia do corpo são pagos com as consequências do dia seguinte.  

Num dia perfeito tanto o meu corpo como a minha mente vão descansar à mesma hora. Eu desço até à cama ou outro recanto que me esteja destinado, fecho os olhos e durmo. A minha mente, no entanto, espera que eu adormeça para também ter o seu descanso. Porém para descansar parte para o Hotel Morpheu. Pelo nome até aparenta ser um hotel como os outros, mas é o sítio onde as mentes descansam. 

Imagino que quando adormeço a horas ela consegue chegar a tempo de fazer o check-in e escolher um quarto com boas condições. Sabem como funciona, não é? Um quarto a meio do edifício, não muito alto nem muito baixo, para poder escapar em caso de fogo e suficientemente longe do elevador para não ouvir quem chega demasiado tarde. 

Se o check-in é feito cedo ela consegue escolher onde vai ficar e tem o descanso merecido. Entra no quarto, senta-se na escrivaninha e coloca a bagagem que acumulei ao longo do dia no chão. Revê as avarias em que me meti, tenta dar sentido às caras com as quais me cruzei e toma notas para que me lembre do que correu bem (ou mal) para o dia seguinte. No final, e independentemente do balanço, termina com uma nota positiva. A bagagem é lavada, passada e arrumada para memória futura. O que não faz muito sentido é enviado de volta para onde os sonhos acontecem e onde têm uma segunda oportunidade de fazerem sentido. No final tudo é enviado para backup que é quando estou no sono profundo. A partir daqui ela tem o seu tempo: tanto pode tomar um banho relaxante, mimar-se no SPA ou discutir com as outras mentes o que os corpos lhes fazem. Trocam impressões, comparam notas e afinam estratégias. E aí têm o seu merecido descanso.    

Nos dias em que abuso e vou dormir tarde, a pobre dificilmente encontra o quarto que merece. Tem de se contentar com o está disponível, o que nem sempre é agradável. São os quartos que ficam ao lado da copa, das escadas, em frente ao elevador e de espaço reduzido. Como estes quartos são os que ficaram livres há pouco tempo, nem sempre estão limpos o que não proporciona um descanso merecido para o que resta da noite. Desta feita a bagagem do meu dia não é arrumada como deveria. Fica espalhada pelos compartimentos da minha cabeça, suja, sem nexo e à espera de que a mente a possa arrumar quando tiver tempo. Um dia assim ainda passa. Mas quando estes se tornam recorrentes a mente deixa de conseguir gerir. E assim a bagagem continua espalhada pelos recantos da mente sem ser cuidada e com o tempo o desarrumo transforma-se em dor. Infelizmente e apesar do nome, o hotel não fornece morfina, pelo que a mente tem de reduzir a confusão e desenrascar-se sozinha. 

Quero apenas realçar o quão importante é manter a consonância entre a mente e o corpo, na medida do possível. Depois de uma noite reparadora a mente e o corpo despertam simultaneamente. Ou melhor, deveriam.   

Isto tudo porque ontem a minha mente acordou antes do meu corpo (suponho que já devia ter dormido o suficiente). Pode-vos parecer estranho, mas lembro-me perfeitamente de estar a dormir, abrir os olhos e olhar à minha volta. O sol estava escondido e ela ainda dormia ao meu lado. Olhei à volta, vi o candeeiro do quarto e reconheci a minha roupa na cadeira ao longe. Continuei a observar o quarto e a ver como tudo me era familiar. Apenas os meus olhos se moviam. O corpo inerte como se estivesse anestesiado e eu confuso entre sonho e estar acordado. 

Pouco a pouco o meu corpo começou a acordar e a tomar consciência do que se estava a passar. Nesse momento senti o coração a tentar sair do meu peito tal era a força das suas batidas. Não sei como a mente deixou escapar esse momento, mas o coração bombava como louco para se assegurar que recuperava o atraso e que todos os órgãos estavam a trabalhar a 100%. Foi aí que a mente voltou a tomar o comando e baixou o ritmo do coração. Sussurro-lhe baixinho: – “Está tudo bem! Mas agora por favor devagar, senão amanhã não estamos aqui para contar a história…”.    

Ele acalmou e eu ainda aqui estou.

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Memória do Futuro

“Pára. Já percebi a mensagem. Ainda não chegámos aí.” Assim comecei a conversa contigo, memória do futuro. Minha querida e indelicada memória do futuro. Ou deveria mesmo dizer minha tão amada, fugaz, insana e incomoda memória do futuro.

Poucas são as vezes que acontece, mas aconteceu há um ano. Vi-o, encostado à parede branca da sala e soube que estaria hoje no chão de corpos colados. Numa manhã de inverno, entrava um raio de sol pela janela direto a ele, realçando a barba e o cabelo castanho claro. Longe de imaginar que seria abordada por uma memória do futuro, quando de facto fui, aconteceste. Um flash do futuro a dourar um primeiro encontro. Desengane-se quem pensa que fui abordada por um déjà-vu. Nenhum déjà-vu dá concretamente uma imagem de dois corpos fundidos no chão de madeira e um tapete fofo ao lado, de uma casa que desconhecemos, com cheiro a pele fresca e sensação húmida de corpos colados. Nenhum déjà-vu me traz sabor, fogo e definição. Quando me avassalaste, memória do futuro, soube que estaria com ele hoje, aqui, no chão de corpos colados entre ti, memória, e ele. Tinha, há um ano, acabado de chegar à sala, ao trabalho novo, à minha vida. Num sopro do fogo que me inundou o corpo percebi que não poderia escapar a este futuro. E foste tu memória que me traçou o caminho. 

Expliquei-te que não poderia ser. Expliquei-te com vários e diversos pontos, bastante detalhados, que me dei ao trabalho de anotar, escrever, rescrever e corrigir meses a fio num longo documento, quase um contrato entre nós, em como tu serias capaz de sair da minha vida e com isto mudar o futuro, tranquilizando-me. Porém, não assinaste o contrato que hoje, está na minha secretária guardado entre tantos documentos arquivados. E hoje, estou aqui. Arquivaste a minha vontade de mudar o futuro. E colocaste o teu plano em prática quando 6 meses depois de me avassalares tu, ele fez o mesmo colocando-me contra a parede sussurrando ao meu ouvido: “Pena não termos mais momentos destes.”. Vi-te memória. Aqui. E com medo respondi: “Momentos deste como assim? Queres que te passe mais vezes as impressões de (pausa) de, (olhei para os papéis) de assinaturas de presença? Convenhamos que há coisas mais interessantes para fazer.”. E com isto saí. Achando portanto que o tinha desviado da minha vida e te tinha passado uma rasteira.  

Verdade, que tu escreves direito por linhas tortas e por isso, marquei presença numa das folhas dele, desta vez não entre a espada e a parede, mas na apresentação de um dos seus mais recentes projetos. Com medo de ser notada, assinei, sem o último nome, e saí. Claro está, que não me poderias deixar em paz e sei que deves ter arranjado uma forma dele ter reparado que eu estava em fuga e quando chegou até mim sussurrou-me, como outrora o fizera: “Último nome é requerido, contato de email e só para mim contato de telemóvel.”. Perfeito. Estiveste muito bem, devo dizer-te. Fui apanhada desprevenida assinei e segui. Dia seguinte uma mensagem no telemóvel desenrolou o fio que há muito estava enrolado. Uma mensagem puxou a outra e um beijo levou ao outro. 

Posso dizer-te que és demasiado inconveniente, sabias que isto não era possível acontecer sem que eu saísse desta situação sem marcas. Mesmo assim, quiseste manter-te como inalterável levando o futuro ao presente e agora, neste preciso momento, em que mais preciso de ti para me ajudares a levantar deixas-me sem ti, apenas ele e sem palavras para lhe responder. Sendo que ele adianta-se dizendo: “vou aceitar outro trabalho e”  interrompo dizendo: “Pára. Já percebi a mensagem.”. Isto para ele, já para ti: feliz?! Chegámos finalmente aqui. 

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(a)Guarda

Godofredo de Almeida, funcionário postal. Esta é a forma como me apresento ao longo dos anos. O primeiro é o meu nome e o segundo a minha profissão. Sim, carteiro e afins. Sempre fui atraído pela questão logística das coisas, sobretudo seguir o caminho que uma encomenda ou carta faz para ir de A a B em perfeita segurança, sem atrasos e em perfeito estado. Há quem prefira seguir aviões, comboios ou camiões TIR. Eu prefiro as cartas. Gosto de acompanhar o percurso de cada uma, ver por onde passam, onde se demoram e quando passam a fronteira e são livres para chegar ao seu destino. Sabiam que existem estações de fronteira para o correio? Não são aquelas estações de correio perto das fronteiras como em Vilar Formoso ou Elvas, mas estações de correio que recebem e tratam o correio internacional. Imagino que as cartas e as encomendas também têm de passar pelo mesmo que nós.

Cada entrega tem uma história. Eu, que já ando nisto há muito tempo, ainda me lembro de pessoas esperarem por mim à porta de casa a cada manhã e à mesma hora, perguntando se havia correio para elas. Na maior parte do tempo eram só as contas do costume, e esses envelopes, asseguro-vos, ninguém gosta de os receber. Ainda menos os que vinham com aviso de receção devido ao atraso no pagamento. Sempre me assustou ver a velocidade de como um sorriso pode desaparecer do rosto de quem as recebe. Por vezes sentia-me culpado por dar estas notícias, mas, como sempre me disseram a culpa é da mensagem e não de quem a entrega. 

Como podem imaginar o que mais gosto de entregar, ainda que sejam cada vez mais raras, são cartas. De pessoas para pessoas. Cartas que dizem a quem as recebe que alguém pensou nelas, sentou-se, escreveu, colocou num envelope, pôs um selo e despachou-a. Têm tanto de ridículas como de inesperadas. Acabam com a ansiedade de quem as espera e surpreendem quem não tinha ideia de que ainda há cartas que lhes são dirigidas. Estas entregas compensam as outras todas. Seja um vale postal, os folhetos com as ofertas da semana ou os cartões-postal de quem foi a algum lado – confesso que olho rapidamente para as imagens para ver se é um sito que vale a pena visitar. Ultimamente entrego muitas encomendas sorridentes. Penso que a própria embalagem antecipa a reação das pessoas que as recebem.   

Ser carteiro implica também guardar os segredos dos outros. Segredos selados em papel. Segredos que não devem e não podem ser revelados. Por vezes, dependendo de onde as pessoas vivem, também recolho as suas cartas. É uma ajuda para quem mora longe. Pedem sempre para ter cuidado com elas, pois são partes de si que partem para outros. 

Há pouco tempo, no final do Outono, enviaram-me para um sítio novo. Um sítio diferente de todos os outros onde tinha estado. Os outros sítios eram planos e conseguia pedalar o dia todo para fazer as entregas. Aqui não. Cada dia é uma aventura. As ruas são diferentes, com altos e baixos, a calçada é negra e a chamada “baixa” da cidade, na verdade é na parte mais alta, ou seja, é tudo ao contrário. Nesta cidade as pessoas não esperam o correio à porta de suas casas a cada dia. O facto de terem as quatro estações do ano no mesmo dia não convida a longos períodos na rua. O interior torna-se apelativo para se passar a maior parte do tempo. 

Antes de começar a trabalhar estudei o percurso para melhor distribuir o correio e otimizar o meu tempo. Notei que até uma certa hora as ruas estavam desertas, mas assim que as pessoas decidiam sair, saíam todas ao mesmo tempo, como se fosse combinado. Como as entregas não coincidiam com estas horas, nunca via ninguém no meu percurso e isto fazia-me confusão. Comecei então a magicar uma forma de trazer as pessoas para a rua a qualquer hora. Apenas tinha de as convencer a porem o pé um pouco cá fora. Ao final da segunda semana, e quando já estava a tomar o pulso da cidade, eis que me engano num cruzamento e sou colhido por uma carrinha. Nada de grave, mas por momentos perdi os sentidos e até vi fogo de artifício. Disseram-me que a culpa era dos estudantes que ao retirarem o sinal de sentido proibido tinham transformado a rua de sentido único numa rua com duplo sentido… 

Voltando às entregas, comecei de forma suave, aguardando o bom momento: em vez de colocar o correio na caixa, tocava à campainha para me apresentar. As pessoas, vencidas pela sua curiosidade, lá abriam a porta para dizer bom dia. Com o tempo ia perguntando uma ou outra questão: se viviam ali há muito tempo, se iam ao posto dos correios ou se podia deixar as encomendas à porta nos dias em que ninguém atendesse a porta, mas não conseguia ter nenhuma resposta. Pensei que seriam tímidas e sem vontade em falar delas mesmas. Então mudei de estratégia e passei a perguntar pela vizinhança. Usei a desculpa de não conhecer bem as ruas tentado com isso conhecer melhor as pessoas. Também aqui avançava a passo. Porém, pouco a pouco fui notando os hábitos e particularidades de algumas pessoas: o senhor da Rua C coleciona selos; a senhora da Rua M que tem os filhos a estudar em Faro e no Porto e que gosta de receber cartões-postais com vistas do mar ou de sítios exóticos; ou a senhora da Rua H tem uma iguana de estimação, e por isso uma vez por mês recebe uma encomenda com suplementos para o animal (deve ser por isto que a sua casa está sempre bem aquecida, seja de Verão ou Inverno).

Foi assim que me dei conta do que realmente se passava naquela comunidade: apesar de ninguém falar de si mesmo, os seus tiques começaram a sair ao de cima. Tendo isto em conta resolvi pôr um plano em marcha, ajudando cada um a ajudar outra pessoa. Basicamente era dar um empurrãozinho para que as pessoas da comunidade prestassem um pouco mais de atenção aos seus vizinhos.  

Sempre que chegava uma carta com um selo especial, mostrava-o “sem querer” ao senhor da Rua C. Perguntava-lhe se sabia onde morava a destinatária e ele, com um interesse particular, não se mostrava rogado e até me acompanhava à porta para se assegurar que a carta era bem entregue. Durante a entrega tentava mencionar o seu interesse pela filatelia. E a partir daqui estas duas pessoas deixavam de ser meros desconhecidos e passaram a ser vizinhos. 

O mesmo aconteceu para a senhora da Rua M. Cada postal que chegava ficava no cimo do monte das cartas a entregar e com a imagem de fora para se notar que era uma foto e não um envelope. Com o tempo as pessoas aperceberam-se de quem era a destinatária e começaram a enviar postais quando também viajavam. No início não os enviavam diretamente: mandavam para as suas próprias casas e entregavam os cartões ao seu regresso e em mão. Só mais tarde, com a confiança já estabelecida é que enviavam diretamente. 

Quanto à senhora da iguana, passei a palavra que para além dos suplementos que recebia o que o animal também gostava era de talos de brócolos e de couve-flor. No início ela ficou bastante confusa com os vizinhos passarem e deixarem talos de legumes que de outra forma seriam desperdiçados.Foi assim que comecei aqui, aguardando os bons momentos para adaptar o ambiente ao meu redor. Pensava que era o frio que impedia as pessoas de sair à rua, esse mesmo frio que conserva tudo o que é perecível. No entanto, o frio também convida ao convívio, à entreajuda, à introspeção e à criatividade dentro de portas. Nesta cidade o calor que não se encontra no exterior está presente no interior de quem te acolhe e te recebe de braços e coração aberto.

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Finisterra

Olá, como estás? Há já algum tempo que que não falamos e por isso pensei que seria uma boa altura para trocarmos dois dedos de conversa. Eu bem sei, o tempo passa e tu não dás por ele, mas na verdade eu sinto o tempo a passar cada momento, hora, mês e ano e vejo o que andas a fazer com o teu tempo e, para ser sincera, não estou impressionada.

Quer dizer, tenho-te dado tudo, literalmente tudo para que possas ter uma vida plena, mas o que tens para mim são só abusos e uma tal violência que me pergunto se realmente tens alguma consideração por mim. Podes não ter notado mas por mais forte que possa parecer, na verdade eu sou bastante frágil. 

Sabes o quão complexo é o meu corpo e por isso não gosto de o expor. Ele é a tua área de prazer e dele retiras tudo o que precisas para sobreviver. Mas tu abusas constante e conscientemente. Esqueces-te que a minha pele, tal como a tua, sente e vive tudo o que lhe andas a fazer. Ela absorve tudo: os golpes, os cortes e as queimaduras sem razão. O tempo tudo sara, mas os teus abusos são regulares e a cada agressão a regeneração é cada vez mais difícil. Ainda assim, ela guarda os meus segredos e separa o que lhe acontece à superfície do que está no seu interior. Ultimamente andas fã da exploração profunda, procurando arrebentar-me das entranhas, como se isso te desse um prazer supremo. Esqueces-te que a minha pele, como a tua, sangra com cortes profundos. A minha pele, como a tua demora a sarar e enquanto não sara, o meu sangue verte sobre a minha pele até que a crosta seque. Mas ainda assim o meu sangue alimenta e traz vida à minha pele. 

Noto que a minha pele descansa mais onde tu não estás. Ou quando há menos de ti. Lá ela segue o seu curso, descansa, cria, sara e segue em paz. Na verdade, o que realmente me desequilibra és tu. Tu, que não encontras um motivo para apreciar o que tenho e deixo para ti. Tu e essa sede insaciável. 

Pergunto-me se esta pele fosse tua, terias o mesmo descuido por ela? 

Por isso da minha parte, já chega. Alguém tem de mudar e tomar uma atitude e como não vais ser tu, serei eu a dar o passo. Não é a primeira vez que tenho de me separar de alguém para me poder curar e ficar melhor. Dei-te as pistas todas e nunca compreendeste o que para aí vinha. Agora vou começar a fazer aquilo que é melhor para mim.    

Fim, A Terra

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Este

Vivo num país que se vê perfeito no papel, mas que a realidade mostra partes feias.

Vivo num país onde tudo acontece e pouco muda.

Vivo num país que deixa partir os seus filhos e filhas para ganhar mundo e prefere mantê-los lá fora.  

Vivo num país que acredita piamente que “Santos da casa não fazem milagres”, ainda que o milagre seja regressar e ficar. 

Vivo num país liderado por pessoas que não veem para além da sua ambição, e que almejam um futuro construído sobre as costas dos mais frágeis.

Vivo num país onde a dor é surda e a culpa morre, ainda e sempre, solteira.

Vivo num país onde se venera o que vem do Leste, ainda que tudo o que aconteceu a Este seja passado.

Vivo num país que espera ter resultados diferentes, mas continua a fazer os mesmos erros. 

Vivo num país onde ter esperança é difícil e pensar o amanhã é um luxo.

Vivo num país onde se espera pelo futuro e não se corre para desenhá-lo. 

Vivo num país onde não se vive, apenas se sobrevive.

No entanto, 

Vivo numa cidade que me dá o mundo como vizinho, 

que te recebe de braços abertos, mas que não te abraça.

que é pequena no tamanho, mas enorme no coração das pessoas.

onde cada bairro conta uma história e cada esquina te transporta a um sítio diferente.

Eu, 

Vivo numa rua onde as pessoas dizem bom dia de janela a janela,

que se anima com os risos e nas brincadeiras das crianças do parque,

que respira vida a torto e a direito. 

Vivo nesta rua comprida, plena de sombras onde a cada noite contamos estrelas cadentes.  

Vivo aqui onde o futuro é possível, e onde a esperança renascida é confirmada a cada piscar de olhos da tua pequena criatura. 

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Dinistro & Sextra

Num vale perdido pelo horizonte das montanhas, existe uma vila muito particular. Uma vila que em muito se assemelha às vilas que todos conhecemos. Os seus habitantes vivem as suas vidas sem questionar demasiado o futuro. Há escolas, farmácias, cafés, lugares de culto e de cultura e todos disfrutam de uma certa harmonia no que toca ao seu dia-a-dia. O que torna esta vila particular é apenas e só uma pequena ocorrência: todas as pessoas têm dois pés e duas mãos direitas. Sim, por mais estranho que pareça os membros são todos direitos. Para quem vem de fora até pode parecer muito surpreendente mas, para quem nunca conheceu nada de diferente, este é o normal de quem ali vive. 

O fato de terem dois pés direitos, e ao contrário do que se possa pensar, permite que avancem com uma ligeira inclinação para o outro lado, o esquerdo. Em percursos pequenos isso não faz muita diferença, no entanto para caminhadas maiores, leva a que as pessoas completem círculos em vez de avançarem. Com o tempo a vida da vila organizou-se num grande círculo onde todos podiam caminhar na mesma direção. Da rua principal, que também é o maior círculo, saem diversas ruas menores que levam as pessoas às zonas residenciais, que, como podem adivinhar, são também círculos menores dentro do grande círculo. 

Na vida do quotidiano, ter duas mãos direitas causa situações caricatas, pois torna-se difícil agarrar um objeto, dançar ou completar simples tarefas domésticas, como lavar as mãos ou comer sem que o garfo tente sempre entrar pela bochecha. No lago que marca o centro da vila os barcos a remo rodam no próprio eixo. A tração deixa os habitantes presos no centro e com tonturas. O caminhar de forma enviesada acabava por condicionar a perspetiva das pessoas. Afinal era complicado ver as coisas de outra forma e nas raras ocasiões em que duas pessoas se poderiam confrontar (quer física quer verbalmente), ainda antes de chegarem perto uma da outra os seus pés levavam-nos para direções diferentes. “Dar uma mão” neste caso também não ajudava. Duas mãos direitas não duplicam a ajuda, apenas fazem o mesmo duas vezes. 

À medida que o número de habitantes aumentava, também a dimensão da vila. Foi assim que se começou a escavar a montanha que limitava a vila para criar caminhos circulares adicionais. Numa dessas escavações a Komatsu esbarrou uma parede de gelo, enterrada na rocha. Foi retirada a terra à volta da parede para se ter uma ideia do que realmente se tratava. A parede brilhava como um espelho e percebiam-se formas do outro lado. Inicialmente todos consideraram que era apenas o seu próprio reflexo. Dinistro, uma pessoa mais curiosa começou a lascar a parede e notou que as formas do outro lado do gelo se tornavam cada vez mais nítidas. Tentou avisar os outros habitantes mas sem efeito. Continuou a lascar a parede e a certa altura viu que a sua imagem, do outro lado do gelo, já não replicava os seus movimentos. Na verdade havia mais do que uma forma que se movimentava do outro lado e todas estas formas se tornavam cada vez mais nítidas. A esta altura, Dinistro assustou-se, deixou de lapidar o gelo chamou todos os habitantes para que lhe ajudassem a dar sentido ao que se estava a passar. Ninguém entendeu, mas aceitaram que possivelmente não se tratava de reflexos mas sim de forma autónomas.

Sem nenhuma outra referência ou objeção, Dinistro continuou a escavar. O gelo cedia a cada instante, a luz que vinha do outro lado brilhava tornando as formas mais claras. A certo momento o gelo desapareceu e a parede abriu-se. Dinistro libertou o caminho e rompeu a parede até poder passar para o outro lado e ver o que estava além. Eram outros seres, pessoas como eles, com as mesmas formas mas havia algo de ligeiramente diferente que escapava à sua compreensão.

Uma das pessoas do outro lado arriscou um aceno com a sua mão. Era Sextra, que fora designada representante. Dinistro respondeu da mesma forma. Ao aproximar-se percebeu que as pessoas do outro lado tinham também os mesmos membros que ele, mas com particularidade de, na sua perspetiva, estarem ao contrário.     

Dinistro e Sextra observam detalhadamente os seus corpos. Soltam palavras e reconhecem o mesmo idioma. Repetem o aceno inicial e compreendem que as suas mãos se completam enquanto caminham na direção um do outro, e maravilham-se quando o círculo que desenham com o caminhar, na verdade aproxima e coloca-os na órbita do outro. 

Dos dois lados da parede os restantes habitantes estão em silêncio a observar este trocar de primeiros passos. É decidido que cada vila deverá trocar impressões e aprender ao máximo sobre cada uma para ver de que forma poderiam ter mais sinergias. A parede é destruída e ambas as vilas não têm barreiras a separá-las. 

Para Dinistro e Sextra os dias são de autoconhecimento e descoberta. Quer nos corpos um do outro quer em cada vila. Sextra, como os habitantes da sua vila, tem dois pés e duas mãos esquerdas. Quando caminham, caminha enviesada para a direita e na sua vila os círculos estão organizados na direção contrária da de Dinistro. Com o tempo as tarefas que lhes pareciam impossíveis tornam-se viáveis e novos caminhos são desvendados. Até o navegar no lago do centro era uma atividade que finalmente fazia sentido. Em vez de círculos, era finalmente possível navegar em linha reta. 

É impressionante que em todos estes anos duas vilas, praticamente reflexos de si mesmas, nunca tenham tido conhecimento da existência do outro, apesar de estarem tão próximos.  

Do conhecimento e do tempo que Dinistro e Sextra passaram juntos surgiu uma criança. Esta criança nasceu com um pé direito e um pé esquerdo. Ao verem as suas mãos também notaram que tinha tanto uma mão direita como uma mão esquerda. Ao contrário de Dinistro e Sextra, os os habitantes de ambas as vilas entraram em choque. Nunca se tinha visto tal coisa. O que seria de uma criança que não pertencia a nenhuma das vilas?  

A criança cresceu e quando caminhava, avançava. Não tinha enviesamentos, apenas caminhava para a frente. Para o futuro.

Com mais crianças, os habitantes puderam ver que os seus jovens corpos, frutos da partilha das duas vilas, faziam as coisas de forma diferente. Tinham mãos que se lavavam uma à outra, caminhavam lado a lado e podiam entrelaçar e perder os seus dedos nos dedos do outro.      

Este percurso das duas vilas permitiu um mudar de atitude e de perspetiva. Conseguiu-se deslumbrar um futuro onde a sociedade não andava aos círculos, com cada um a falar para o seu lado, mas onde a troca de experiências se podia fazer face a face, lado a lado e caminhando para a frente.

As crianças destas duas vilas eram assim a semente de uma sociedade que dava os seus primeiros passos e estabelecia formas diferentes de se relacionar. No final, apenas uma questão inquietava os habitantes das duas vilas: depois de anos a falar, interagir e a viver cada um do seu próprio lado, estavam agora a aprender a ter mãos e pés esquerdos e direitos. Algo novo. 

Mas quão saudável e extraordinário seria viver numa sociedade onde todas as pessoas pudessem, sem exceção, ter uma mão direita e uma mão esquerda, assim como um pé esquerdo e um pé direito para caminhar, pensar, trabalhar e resolver os seus problemas como um todo e não de forma enviesada?  Para estas vilas, que sempre tiveram uma visão parcial dividida por uma parede de gelo, estas mãos e estes pés, permitem uma coisa entre muitas outras: caminhar para a frente e deixar de andar às voltas. 

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Tempo, esse velho de barbas brancas

O Tempo está muito cansado, visto que ele cura tudo. Nem imaginam como são tantas as dores de cabeça que um mundo inteiro de gente com problemas por resolver coloca em cima do Tempo! Este mar de gente está portanto a contar com o Tempo para que ele mesmo resolva. Talvez por isso, ele agora tem uma única cor: branco. Ele é branco nas barbas, no cabelo, e até as brancas que se lhe aparecem sobre as memórias são em branco. 

Vive num sótão onde mais espaço para ele se mover, não há. O Tempo é colecionador de dores, certo também que tem alegrias pelo sótão. Coleciona memórias de todo o tipo, mas o espaço, começa a escassear e  por ser tão acumulador as memórias encaixam-se umas em cima das outras causando alguns apagões, o pior é que com tanto caos o Tempo já se arrasta, não lhe é possível processar os dados com a mesma rapidez, o espaço é curto e a memória disponível também. 

Sendo que o Tempo, gosta de tomar conta de tantos, ele fica então sem mãos a medir. Por vezes acontece que encontra cacos ao seu redor e com muita calma e paciência junta caco a caco para voltar a fazer o vaso. Ainda assim o vaso nunca mais é como dantes, o Tempo fica triste e essa tristeza faz-se sentir nas suas barbas que sendo brancas, sem ponta de cor pelo meio, acabam por crescer. Então o Tempo agora é um velho de barbas e cabelos brancos, extremamente gigantes. 

A dado momento o Tempo tropeçou num molhe de cartas de amor, dois jovens de 15 anos eram as figuras das cartas, por estranho que pareça, ele só tinha um remetente e um recetor, cartas de uma só via. O Tempo perguntou-se: “Porque é que seria que a um molhe cheio de cartas de amor não se lhe apresentava resposta alguma?”. Possivelmente as respostas estariam perdidas naquele sótão pejado de feridas à espera de ser curadas. Visivelmente estas cartas de amor tinham muito por onde querer sarar. Entre encontros marcados e não acontecidos, até vergonhas alheias a impedir manifestações de amor e claro a típica timidez do primeiro amor.

A última carta surgia também ela incompleta:

Querido Jorge:

Hoje, não consigo falar porque as palavras ficaram presas na poça de lágrimas que surgiu na festa de finalistas. Estava feliz, disso eu lembro, até ler as palavras que me escreveste, com elas não vejo o futuro…

Esta última carta fica-se por aqui e o Tempo ficou desesperado porque não via mais cartas. Foi à procura delas no sótão, por todo o lado, remexeu até em factos menos distantes, porém, nada de encontrar o fio à carta. O Tempo não sabia o que lhe fazer, também não sabia como ajudar nesta situação. Com tanto trabalho para fazer, curas para apresentar, outras memórias e factos para arrumar naquele imenso sótão, o Tempo ficou sem movimentos pela carta de amor de Maria para Jorge, dois amados de primeira viagem. 

Entre uma carta e outra o Tempo resolveu brincar ao tempo e acabou por baralhar datas, baralhou-as de tal forma que o encontro marcado para 2000-10-03 acabou por ficar marcado para 20-01-30. Este acontecimento foi ao acaso, contudo, aconteceu. Foi então que finalizado este deslize temporal que ao olhar para o seu lado o Tempo encontrou uma carta que não existia até então. Era Jorge que a escreveu a Maria, o que dizia nessa carta, o Tempo não me revelou, disse porém: “Mais uma que o Tempo curou.”.    

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As aulas de natação de Narciso

Narciso sobreviveu. Após o susto, que apanhou quando caiu no rio, viu-se obrigado a ter aulas de natação, pois não iria deixar de ver o seu belo rosto refletido nas águas que quase o engoliram. 

Revelou-se, desde início, um péssimo aluno, e nadador. A começar pela recusa diária do uso de touca e óculos de natação, dizia que lhe desfiguravam a face, que não se reconhecia quando olhava para o seu reflexo. 

 Nos balneários, exigiu o cacifo mais próximo dos lavatórios com espelho para se ver enquanto trocava de roupa, ou se secava. E o mesmo com os chuveiros, esquecia de se lavar pois ficava a olhar para a sua cara no ralo do duche. E não vamos falar do tempo que ele despendia na casa de banho, pois distrai-se com a sua face na água da sanita. 

Narciso mostrava ser capaz de nadar. Estava rodeado daquilo que o distraía e que quase o matou. Recusava-se até a fazer os exercícios, como os que envolviam nadar debaixo de água, pois deixava de ver o reflexo da sua cara na piscina, e era essa a sua única motivação. 

O pior, principalmente para a equipa, eram quando treinavam mergulho a partir da prancha, Narciso ficava simplesmente a olhar-se, de um muito melhor ângulo do que quando estava na água. 

Narciso desistiu da natação. Aprendeu apenas o suficiente para sobreviver futuros afogamentos. E levou consigo uma boia.