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Conto

Nó na garganta

Estava com um nó na garganta tão grande que me fui confessar e acabei com mais um pecado na lista. 

A verdade, sim, porque eu só conto a verdade, nós mulheres honradas e honestas só contamos a verdade, a verdade é que já não podia mais com este nó na garganta. Eu queria tanto falar com alguém e não podia, quero dizer: não conseguia. 

Eu tenho três grandes amigas, todos os dias tomamos chá às 5 horas da tarde. Todos os dias quando o sino da igreja aqui da vila toca as 5 badaladas eu e as minhas amigas saímos das nossas respetivas casas e vamos até ao banco do jardim. Todos os dias levamos o nosso cesto com o lanche das 5, cada uma está responsável por uma parte do lanche. A Adelaide leva o chá de limonete, a Juzefina leva o pão, a Maria das Dores traz bolachinhas e eu os doces e a manteiga. Não somos muito gulosas, seria um pecado exercer o pecado da gula. 

O banco é um pouco pequeno para quatro, felizmente o presidente da junta que nos vê lá sentadas, apertadas e sem condições nenhumas para lanchar mandou fazer outro banco em frente e agora somos quatro, duas em cada banco umas em frente das outras. Somos tão amigas que até combinamos na roupa. Almas gémeas, assim como irmãs de outra mãe que nunca, mas mesmo nunca se traíram. Ainda assim, quando chegou o dia de ter um nó na garganta não consegui falar com elas, tive realmente de me ir confessar ao padre da igreja da nossa querida vila, onde somos todos tão felizes. 

Cheguei e disse: “Senhor padre, perdoe-me porque pequei.”. 

Do outro lado, respondeu-me: “Sim, filha, qual o teu pecado?”. 

Bom, era tão difícil falar, por isso é que tinha um nó na garganta, se fosse fácil não teria a garganta apertada, não é? Era tão difícil, mas tão difícil que só assim consegui começar:

“Ai que me dói a garganta só de pensar.” – e assim que terminei esta frase suspirei de alívio. 

O senhor padre, contudo, não estava muito feliz, disse que doer a garganta não era pecado algum e que estava ali para ouvir pecados, se eu não tivesse nenhum para revelar que me pusesse a andar. Achei indelicado, porém aceitei e prontamente, como uma flecha de palavras a sair pela boca fora disse: “Eu só estarei feliz no dia em que souber que a Adelaide, a Juzefina e a Maria das Dores estiverem infelizes.”. 

Como assim infelizes? Pensei eu para mim, como terei eu conseguido dizer tal coisa? Sei, que sou boa pessoa, vivi a vida inteira a dar tudo de mim a todos, incluindo a elas e agora, quero tanto que elas sejam INFELIZES!

O senhor padre, naquele momento levantou-se e saiu do confessionário, com a cabeça baixa, parecia não aprovar as minhas palavras. Contudo, não é para isso que ele lá está para nos penitenciar e assim fazer desaparecer o meu pecado? Eu só quero ver-me livre desta culpa de pensar mal para elas. Se depois acontecer novamente, quero cá voltar e voltar a sentir o castigo que me liberta. E ele foi. Não podia deixá-lo ir. Fui atrás dele como uma sombra, segui-o chamando-o: “Senhor padre, senhor padre…”. E nada! Nem um sinal de perdão. 

Entrou naquilo que é a sua sala, olhou para uma estátua de Nossa Senhora, ali ficou durante uns segundos, com um olhar devoto e virou-se para mim. Eu cheia de medo do castigo que dali viria baixei a cabeça. Ele levantou-me pelo queixo e saiu o beijo mais intenso e penetrante que alguma vez provei. 

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Conto

Chamada

“Sou chamada à Terra sempre que o voo vai alto demais.” – disse Clarice num belo dia de sol na esplanada enquanto tomava o seu Gin preferido. 

Importa dizer que ao certo nem me recordo qual o contexto desta citação, lembro apenas dela e das imagens que me surgiram. Para além do óbvio, do Gin fresco no copo grande e largo, das gotas de água a deslizar pelo vidro, sinto gotas na minha testa. Não são os 40 graus que se fazem sentir, é aquele frio na barriga que faz escorregar as gotas na testa. 

Vá-se lá saber porquê, mas Clarice trouxe-me memórias que queria apagar e podem crer, quanto bebi para que acontecesse um apagão geral dentro de mim. Mas o álcool apaga apenas o que deve ficar. Bebi quase até destruir as células que há em mim, e ainda assim, manteve-se o frio que me faz derreter. 

Não tenho motivos para transgredir limites, também prefiro não definir todos os limites, muito menos pormenorizadamente. Quanto mais sei o que fazer, menos quero saber. Mais me floresce a vontade de transgredir e sou chamada à Terra cada vez que perto estou de passar esses limites. Quais? Nem mesmo sei. Sendo que os há, há. Se um dia ao acaso os passar, posso sempre justificar que não sabia. Ou será que terei a mesma resposta que o governo português dá aos seus cidadãos: “Não é permitido alegar desconhecimento da lei.”. Tenho eu o direito de alegar desconhecimento se nunca definir limites, se nunca os colocar num edital? Possivelmente. Para qualquer um dos lados. 

Sou chamada à Terra cada vez que as gotas me escorrem e os movimentos se descontrolam. Sou chamada à Terra quando por perto, por tão perto não ultrapasso o limite. E se bem que me perguntei qual é o limite, terei o cuidado de não o pronunciar, nem aqui nem em lado algum, para que nunca possa ser dito que foi fixado. Caso contrário não poderei declarar desconhecimento. Sou chamada portanto no momento no momento em que Clarice diz que é chamada à Terra sempre o que o voo é alto demais. 

E se por momentos eu até me deixo voar. O telemóvel toca. Como agora. Trimmm.

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Conto Poema

Lisboa

Cidade maior, que Ulisses quis para si, porto de abrigo para quem se espalha na tua costa e para onde o Tejo corre despedindo-se da vida. Tens a luz única dos iluminados.   

Lisboa, 

és mãe, madrasta, viúva e filha. Mãe para quem acolhes, madrasta para quem teve de partir e viúva de quem não mais voltou. És a filha esquecida que se tornou mulher e a quem a idade com ouro cobiça as tuas partes mais desejadas. 

Na pena do MEC, cada avião que te deixa faz birra e vira-te as costas. Na verdade, quem foge prefere não olhar para trás. 

Acolhes quem te procura e te conserta por dentro. Mesmo assim segues obra imperfeita e inacabada.

Deixas que outras línguas te pisem para seres um mero caso, um affair de fim de semana ou o quer que seja enquanto lhes serves tesouros em forma de nata.

És Santa Maria, Maior e de todos os santos que vagueiam pelas tuas sete colinas entre pecados e virtudes. Cada um com a sua agenda, a sua história, a sua verdade. Cada um procurando uma razão para ficar. Uma razão para voltar. 

Tens porta aberta para o Atlântico e daí para o mundo e deste o nome ao Santo que Pádua recusa nomear.

Há mais de seis séculos que recebes cheiros e sabores do mundo, num gesto simples, repetido a cada dia quando temperas com caril, canela e açafrão. 

De Belém a Santa Apolónia, cavalos de ferro atravessam e cruzam a floresta branca levando quem mudou o futuro e deixou alguém a encharcar as calçadas de sal por esperar tantas e tantas vezes. 

Por mais que o Tejo lute contra o mar, por mais que o chão trema, por mais que o Sul esteja à distância de um Cacilheiro, segues segura e serena, caminhando sem cair, navegando sem naufragar.

Lisboa, 

és a obra maior que se constrói dia a dia. Podem deixar-te, amar-te, agredir-te, mas ninguém te consegue resistir. 

Segues de braços abertos para cada visita, para cada regresso. Para cada recomeço.

Lisboa,

parti enquanto dormias, envolta no sossego da noite e no embalo do Tejo.

Atravessei-te antes que acordaras e me disseras para ficar.

Ao rasgar o céu vi o sol nascer do ar.

Disse-lhe: já vens tarde.

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Conto

Kumquat

Há pouco tempo pediram-me ajuda. Quando alguém pede ajuda, não vejo o porquê de a recusar. Seria desrespeitoso e nada gentil. Neste caso específico a minha amiga procurava ajuda para algo em que estava bloqueada há muito tempo e de onde não conseguia sair: encontrar uma nova palavra segura (vulgo safe word). É corrente, e sobretudo dependente do contexto, ter uma palavra que se possa usar de forma a interromper uma ação que possa estar a passar dos limites. De tanto usarmos o positivo/negativo (“Sim, Sim”, “Não, Não”), o ambíguo pára/arranca (“não, pára! Não pares!”) ou de invocarmos o divino: “Ó céus!”, “Meu Deus, meu Deus!” (que também pode passar por elogio) ou o “Jesus não olhes, Jesus não olhes!” que estas palavras e expressões caíram em desuso e já pouco surpreendem.

Mas voltemos ao pedido inicial. Como primeira sugestão de palavra segura disse: “Albatroz”. Essa ave de asas enormes que rareia nas nossas costas certamente que é capaz de chamar a atenção nos momentos em que ela, a atenção, é mais necessária. A sua reação não foi a esperada uma vez que tendo em conta o contexto essa palavra pode levar a uma interpretação de “dar asas” ou de expandir a situação atual. 

A minha segunda sugestão foi “Crisântemo. Uma vez mais a reação foi fria. Apesar de elevar o ambiente para um clima floral que aguça os sentidos da visão e do olfato, a proximidade com a palavra “Cris-to” levaria para outras solenidades invocando uma vez mais o divino para atividades pagãs. 

Pensei em “Unicórnio”, esse ser mitológico alado que deixa um rasto de arco-íris por onde passa, seja no chão ou no ar e que, de acordo com a lenda, apenas pode ser domado por alguém jovem e ainda não tocada pelo pecado original. Mas a esse termo, disse-me ela, falta um pouco de substância…   

Seguiu-se a palavra “Paralelepípedo”. Não sei como esta palavra vos soa ao ouvido, mas o simples facto de mencionar uma forma geométrica transporta-me a aulas de expressão visual e de matemática, coisas que nada têm a ver com o contexto em questão, logo propícias à pausa e reflexão. Também não consegui fazer vingar o meu ponto de vista. A palavra segura, disse-me ela, não se pode referir a algo tão frio e esquemático que não deixe espaço para uma possível continuação se assim for o caso. Essa palavra deve ser um parêntesis fonético que obrigue a uma pausa momentânea. 

Estava prestes a desistir quando dei a minha quinta e última sugestão: “Kumquat”! Ainda que intrigada, a palavra não foi descartada de imediato. É uma palavra inusitada que está fora de todo e qualquer contexto, que surpreende, mas ainda assim deixa água na boca.

Pensem bem nesta palavra: “Kumquat”. Podem repeti-la e sentir a forma como aproxima os lábios, enrola a língua e por fim abre-nos o céu da boca. Sempre pensei que era alguém, a falar depressa e a tentar dizer “como qual”. Mas não, é apenas o nome de um fruto perfumado e cítrico. Uma laranja japonesa. Ou melhor, uma laranja-anã japonesa. 

Das palavras dizemos sempre que o vento as leva. É verdade, mas esquecemo-nos que esse mesmo vento também nos trouxe muitas palavras, quer empurrando velas ou soprando as asas de um avião. O Kumquat foi uma dessas. Chegou e ficou por cá. Quer nos campos quer a decorar varandas arejadas e ensolaradas. Está longe de casa, mas ainda assim acostumou-se a estas costas e por aqui ficou. Como tudo o que é novo há sempre uma desconfiança inicial (normal quando não se conhece) mas o tempo transforma a distância do desconhecido numa proximidade familiar. Hoje podemos encontrá-lo em quase todas as lojas de jardinagem e bricolage e sobretudo nos bares e cocktails da moda, onde o mini está “In”! 

Como fruta de pequeno porte, o Kumquat esconde poucos segredos para além do sumo e das sementes. Perde apenas para o morango – o único fruto que tem as sementes do lado de fora. Se pusermos de lado o seu tamanho, tem quase tudo para passar por uma laranja. Cortando-a ao meio a cor, a casca e o aspeto do gomo são quase os mesmos. Porém, há que ter cuidado para que as aparências não nos enganem. Neste pequeno fruto a doçura está na casca e não nos gomos. Muito pouco se pode tirar do seu interior. Pode ser comido por inteiro (o tom mais alaranjado deixa antever o grau de maturação) uma vez que o suco é mínimo e sorvido rapidamente pelos recantos mais escondidos da boca. A semente, no entanto, tem o mesmo tamanho e gosto amargo que a sua prima maior. A evitar. 

Custa habituar-se ao Kumquat. Quer à palavra, quer ao fruto. Não faz sentido ter uma laranja daquele tamanho, que dá tanto trabalho e que se come por inteiro, só para enfeitar. Sem falar que vindo do Japão não posso descartar que fosse uma pancada do tipo meter um gato dentro de um frasco de vidro para o ver crescer de forma “transparente” ou de plantar um morango a tal ponto perfeito que se pode vender ao preço de um cristal de edição limitada da Swaroski. O Kumquat tem o seu espaço e o seu valor. Prova disso é que hoje encontramo-lo em todo o lado.

Ela escutou a minha longa explicação e vi a sua cara desenhar um sorriso. As virtudes do Kumquat, palavra e fruto, foram reconhecidas.  

Ela agradeceu o exercício, considerou “Paralelepípedo” uma escolha “estranha”, arrumou as suas coisas e, antes de bater com a porta perguntou-me onde era o mercado mais próximo. Para usar a palavra de consciência tranquila é necessário tomar conhecimento (e gosto) de causa.

O Kumquat agradece. 

PS: Para descobrir outras palavras trazidas pelo vento, visite a página do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (disponível em: https://voc.cplp.org/index.php) onde encontram todas as palavras que o vento trouxe para aqui e para o mundo. 

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O Vazio

Ela perdeu um amante e esse era o vazio mais difícil de preencher.

Margarida passou uma década a trabalhar. Não tinha marido, nem filhos e estava feliz com isso. Era sua ambição ter uma carreira. Estava decidida e nada a abalava. 

Não a abalou as vezes que lhe perguntaram porque não tinha filhos, nem mesmo as que lhe disseram “Vais-te arrepender se não os tiveres”. Nada de abalos por ouvir que não era madura o suficiente por não ser mãe, ou mesmo quando as perguntas eram: “E marido? Para quando?”. 

Tudo o que interessava a Margarida era a carreira. Então, de facto, era abalada quando não lhe davam o valor que merecia. Quando a ultrapassavam, ou se por acaso levavam os louros que lhe pertenciam. Aí sim, Margarida virava fera. Não era para menos. Tinha 26 anos, nunca reprovou um ano, fez licenciatura, mestrado, doutoramento, recebeu bolsas de mérito e passou todos os segundos da sua vida dedicados ao laboratório.

Pesquisou para aprender. Defendeu uma tese e uma outra pesquisa, defendeu ainda outra tese e uma nova pesquisa só não se soube defender. 

Durante uma carreira exemplar foi dando o seu trabalho, ideias, suor, lágrimas e até as suas alegrias em prol da ciência. Achava desde de muito nova que seria uma cientista reconhecida. Queria de facto ajudar o mundo com as suas descobertas. Certo, que queria uma carreira, mas também a queria com significado: ajudar o mundo. 

Aos 26 continuou de bolsa em bolsa desta vez por sistema, investigação em investigação. Sentia-se muito sozinha, porém, a certa altura, um colega de trabalho aproximou-se e passaram a partilhar os seus dias.

Dos dias, passaram a partilhar trabalho, ideias e sucessos. Tudo parecia perfeito. Uma dupla infalível, um casamento perfeito: dois cientistas em prol da ciência com carreiras em ascensão. 

A dado momento, e porque não eram só as carreiras que cresciam, também as partilhas aumentaram. Os dias de Margarida e Diogo passaram a ser mais do que trabalho, ainda que Margarida se mantivesse fiel a si mesma: nada de amor/ casamento e muito menos filhos. 

10 anos passaram num abrir e fechar de olhos. E aos 36 Margarida percebeu que Diogo desapareceu de um dia para outro, levando com ele os louros de todo um trabalho. 10 anos dos quais, 8 juntos, voaram com Diogo. 

Ela, com 36 anos, certa das suas decisões, certa de que faria tudo de novo estava num buraco do qual não via fundo. É claro que não faltaram dedos a apontar: tivesses filhos estarias feliz, estás velha para arranjar marido agora, coitada da triste Margarida que escolheu ser infeliz a ter família. 

Enganam-se as más línguas. Margarida estava sim no meio do vazio, porque perdeu 10 anos, trabalho, embora não de conhecimento, um amigo, ou pelo menos assim compreendia e um amante. Sentia-se pior ainda porque era o vazio do amante que mais difícil estava de preencher. 

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Janela Aberta

O meu quarto foi sempre o meu maior espaço. É o espaço onde tudo me é familiar e onde mais ninguém sabe onde escondemos o que nos é mais valioso. Guardamos segredos no fundo das gavetas, por baixo de livros e cadernos antigos. Guardamos calendários, blocos e memórias de quem nos roubou o olhar. No meu quarto, jogo sempre em casa. 

Apesar de conhecer todos os recantos, a parte que mais me fascinava era a janela: a janela do meu quarto deu-me mundo. Eu sei que dava apenas para o descampado onde jogava à bola ao fim de semana, mas dessa janela eu sentia o pulso do bairro e até do país senão vejamos: conseguia ver quando é que havia fila para o supermercado pois as pessoas estavam à porta para entrar; sabia se era fim de semana pois o vizinho do prédio em frente estava a lavar o carro para depois se esticar e ler o Expresso durante o resto da manhã enquanto ouvia a rádio em alto e bom som e; também sabia se havia vento em Lisboa uma vez que os aviões sobrevoavam a minha casa de e para a pista 17 em vez de alongarem a costa do Espichel até ao Monte da Caparica. 

À minha janela chegavam os sons do primeiro centro comercial que abriu em Portugal. A música que entrava era bastante animada e claro está, decorei letra e ritmo. Quando uma vez a professora da 4ª classe me perguntou quem queria cantar alguma coisa antes de dar a aula por encerrada, cheguei-me à frente. A minha inocente consciência politica dos 9 anos não sabia o que era censura, mas assim que as primeiras notas saíram da minha garganta fiquei a conhecer pois a professora, que também vivia ao lado do dito centro comercial e ouvia a mesma música dia e noite, não era fã como eu e eis que salta da sua cadeira e pega na régua de madeira para me achatar as mãos. 

Virado para a minha janela li e estudei. Estudei, é certo, mas o meu olhar perdia-se para a rua e para o céu. Uma manhã perdi-me nas leituras e não fui ter com os meus amigos que foram à inauguração do hipermercado. Fiquei a ler em frente à janela. Enquanto lia sobre o meio-físico e social, vi as luzes das ambulâncias que foram socorrer quem levou com o telhado que ruíu com a chuva acumulada enquanto estreavam quando comprava pela primeira vez na grande superfície.    

Esta é a janela da qual me recordo mais, pois era minha. Tive outras que me davam vista para o mar, para a serra ou para o museu. Dormir embalado pelo som do Ondas do Mar foi um privilégio, se bem que o som do oceano era frequentemente abafado pelo vento. Ter a vista para a serra permitiu ver o sol a acordar atrás da montanha após largas noites a observar charcos de estrelas e ver como duas vidas podem ser condenadas numa noite. Já da janela para o museu o complicado era manter a concentração devido aos OVNI’s que por ali pairavam. Presságio ou não, anos depois esse mesmo museu foi promovido a ícone por albergar super-heróis.  

Ter um lugar à janela dá-nos uma perspetiva maior ao nosso redor. Seja no avião, autocarro expresso ou comboio, a janela tem qualquer coisa a mais (não é por acaso que um dos hashtags da CP é #Lugarajanela). A janela do comboio está sempre em movimento. Quando se podia abri-la era divertido pôr as cortinas e a cabeça de fora para sentir o vento na cara… tudo muito engraçado até aparecer um comboio em sentido inverso. Para se aproveitar a janela na linha da Beira Baixa ou do Douro há que ser estratégico: com sorte temos uma vista para o rio enquanto a linha serpenteia a água, caso contrário temos um lindo close-up do recorte da pedra. Da janela do avião há um momento muito particular: logo após a descolagem olhamos para fora para ver o que fica para trás. Eu penso que nos dá tempo para um último “até já” ou “adeus” consoante o caso. Do avião (provavelmente a minha janela de um meio de transporte preferida) deixamos de estar em pé de igualdade com a superficie. Temos perpetiva e a dimensão real das coisas. 

Há estas janelas onde somos espetadores passivos e vemos a vida a acontecer. São janelas que nos movem com elas. No entanto há janelas que requerem a nossa ação, são as janelas de oportunidade. Estas, infelizmente, nem sempre são visíveis e muitas vezes só nos apercebemos depois do momento passar. A diferença destas para as outras janelas é que não têm o vidro onde também podemos ver o nosso reflexo. Se passarmos por um um túnel de comboio ou na estrada ou se viajamos de noite de avião, temos a nossa cara a devolver-nos o olhar. Na janela de oportunidade tudo acontece, tudo se decide  e tudo se perde sem filtros. E uma vez fechada esta janela, não há forma de a voltar a abrir. 

Olhando por qualquer destas janelas, retenho a forma de como a paisagem mudou. O meu campo de futebol/basquetebol deu lugar (literalmente) a um parque de estacionamento. As folhas caem para que outras, mais fortes, brotem e cresçam dando continuidade à vida. Sempre me focalizei no que via lá fora, na distância, até que há pouco vi que o reflexo que a janela me devolve mudou e quase não reconheço aquela pessoa que tem os meus olhos. 

Engraçado, nunca tinha notado nisso. 

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IPERA

Atenção este texto contém spoilers! 

Faço uma declaração de interesses: um dos meus albúns preferidos de sempre é sem dúvida o “1° de Agosto Ao Vivo no RRV (Rock Rendez-Vous)” dos Xutos & Pontapés. Sejam vocês ouvintes da altura ou recém-chegados ao culto dos Xutos este é um album incontornável. O som leva-nos àquela noite de 1984 onde uma banda, já com 6 anos de estrada, registou um concerto que marcou um momento a caminho da consagração que chegaria mais tarde com os discos “Circo de Feras” e “88”. O álbum RRV contém aquela energia crua, eletrizante e bruta das músicas feitas para serem ouvidas com o som bem alto ou com auscultadores com redução de ruído que faz a música sobressair ainda mais. Canções incontornáveis como “O Homem do Leme”, “Se Me Amas”, “Conta-me Histórias” ou “Barcos Gregos” apareceram no RRV pela primeira vez, ainda antes de serem editadas num disco LP.

Ainda que este seja o meu disco preferido dos Xutos, há outras canções do seu repertório que me movem pelas mais diversas razões. Por exemplo não acredito que alguém consiga ouvir o “Dá um mergulho no mar” ou o “Ai se ele cai” sem que uma força sobre-humana o faça começar a saltar compulsivamente. A mesma homenagem pode ser feita à longa introdução do “N’América” onde o baixo, a guitarra elétrica e o saxofone discutem durante largos minutos sobre quem irá arriscar dar a palavra ao Tim; ou ainda ao incontornável “Para Ti Maria” que mediu o pulso ao desenvolvimento das estradas: se em 1988 demorávamos 9 horas para ir de Lisboa a Bragança, hoje em dia a mesma viagem faz-se em 4 horas e 45 minutos de carro (segundo o Google Maps) ou em menos de 1 hora de avião. E já que falamos em Marias, posso culminar com o “Avé Maria” que me era sempre dedicada em voz alta pelos colegas do Basquetebol que implicavam comigo por chegar atrasado aos treinos de Domingo porque vinha da catequese. 

Antes que me perca demasiado, queria apenas ressalvar que do reportório dos Xutos há uma música em particular que me sempre me intrigou. E isto vem de alguém que se intriga com coisas como o nome das ruas. Um pequeno parêntesis: desde cedo que me pergunto o que é que temos de fazer para dar o nome a uma rua. A primeira razão, está claro, é que já falecemos. A segunda é ter feito algo de absolutamente notável. Por essa razão, e muito antes do Wikipedia, costumava apontar os nomes das ruas e ia depois à biblioteca investigar quem eram aquelas pessoas.   

Mas voltando aos Xutos e à sua canção intrigante. Estou a falar de “As Torres da Cinciberlândia” que aparece no álbum “88”. Esta canção leva-me a um lugar místico e etéreo. Vivendo na margem sul a “Cinciberlândia” sempre me pareceu um lugar real ainda que distante. Eu, tal como narra a canção, passei largos anos à procura das ditas torres. Para mim eram torres que só poderiam servir um fim dúbio: comunicar com outros planetas (sim, a minha mente vai logo para ali). Afinal porque razão existiria um sítio tão secreto e avançado que não tivesse esse propósito? Torres que apenas brilham? As minhas suspeitas seria confirmadas alguns anos mais tarde quando apareceu a série “Ficheiros Secretos”. Se isto era possível nos EUA porque não em Portugal? Tudo bem que quando os extraterrestres visitam o nosso planeta passam primeiro pelos EUA (e isto está documentado de forma exaustiva), mas tendo Portugal ganho tantos Óscares de turismo, uma vista a este retângulo até que vale a pena! E claro está, não ajudou nada ver aquele documentário da RTP que falava dos “ficheiros secretos portugueses” e cujas amostras, que estavam guardadas no Museu Nacional de História Natural e de Ciência, desapareceram num incêndio de origem duvidosa. No fundo a minha imaginação levou-me a acreditar que as torres funcionavam como um portal para outro propósito que não a comunicação. 

Anos depois consegui enfim encontrar a Cinciberlândia, numa altura em que já tinham retirado as famosas torres que, afinal não eram mais do que antenas de comunicação. E sim, a Cinciberlândia servia outro fim que não a comunicação (Spoiler Alert): neste caso era a defesa atlântica uma vez que era um posto de comando da NATO de nome CINCIBERLANT. Hoje em dia tem outro nome: NCIA. Imagino que há uma série policial prestes a sair que relata as aventuras dos agentes secretos a trabalhar em Oeiras e a descansar entre a praia da Torre e o forte de S. Julião da Barra (fica aqui a sugestão: NCIA: Oeiras). Tudo isto para vos dizer que com esta descoberta perdi um pouco da ilusão que acompanhava a canção. Afinal o portal com que eu contava não era exatamente o esperado.

Mais tarde, a vida reservou-me o contato com um portal transdimensional. E com este sim, tive a possibilidade de o utilizar de forma frequente e fiquei a conhecer o seu nome: IPERA. Este portal está literalmente no ar (é um ponto GPS de navegação aérea) e serve tanto de entrada como de saída. Imaginem uma escadaria que nos levam a uma porta, só que a porta está a 10km de altura. Para quem viaja de avião entre a Europa e Cabo Verde este portal marca o início da descida e os 30 minutos que faltam para chegar. 

A minha primeira passagem por esse portal foi a medo. Afinal não sabia o que me esperava lá em baixo. Quando estamos no ar tudo é relativo e ao viajar deixamos tudo (incluindo os problemas) para trás. Ainda assim assustava-me ser o desconhecido e só ter como referência as histórias de quem já lá tinha estado e não me parecia possível serem todas coincidentes e positivas. Ao escutar o som dos reatores a retrairem e sentir o avião iniciar a sua descida entrei em modo “passageiro concentrado” e a pensar nos passos seguintes: haverá muita fila para o controle de passaporte, a bagagem vai chegar ou se o táxi vai demorar muito tempo. Estava eu a tentar organizar os meus pensamentos quando a senhora que está ao meu lado entrega-me o seu recém-nascido para os braços e diz-me para o segurar pois quer aproveitar o tempo que falta para ir à casa de banho. Foi aí que me dei conta: gente que confia os seus primogénitos a estranhos em aviões só podem ser seres humanos de coração aberto. 

O avião aterrou e durante os quatro anos seguintes pude comprovar que as histórias que tinha ouvido na verdade não faziam jus ao que vivenciei. IPERA tornou-se o meu ponto de chegada e de partida oficial (tecnicamente este ponto marca o inicio do espaço aéreo controlado por Cabo Verde). Nas viagens recorrentes tanto controlava a ansiedade para chegar a IPERA ou o certo aperto quando a deixava na viagem de sentido inverso. A viagem de avião sempre tinha entusiasmo, tanto ao início como ao fim. 

Passados quatro anos chegou a hora da partida definitiva. Esta iniciou-se em terra. Despedi-me no aeroporto com um abraço apertado, terno e adiado. De seguida enfrentei uma subida dolorosa até IPERA. Por alguma razão o avião voa praticamente em linha reta até sair lá em cima, como se fosse o fim de um túnel muito, muito comprido. Foi assim que cruzei o portal pela última vez.   

Como dizia o Tim, “já lá voltei e busquei o lugar” e há pouco tempo, a caminho do Atlântico Sul, passei ao lado do portal mas não desci para as ilhas da Morabeza. Ainda assim acordei uns minutos antes, servi um espumante e brindei à sua passagem.

IPERA: N20°21.91′ W20°41.98′

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Imortal

Li, um dia , que quando entras na vida de um escritor serás eternizado. Não me perguntes onde li, sei apenas que li. E isto, traz-me aqui. Quero saber em que páginas tuas me encontro. Quero saber onde me desenhas com palavras e se me imortalizas nas tuas páginas. Quero saber o que é importante entre nós que necessite ser imortalizado. O que de tão bom ou bonito te fez pintar-me, e em que materiais me esculpes, ou de que formas me materializas. Se é que o fazes.

Quero portanto saber as tuas prioridades e arrepios sobre nós. Será que aquela noite quente sobre uma lua cheia e luminosa, num banco de jardim, a beber um copo de vinho que trouxemos da casa alugada umas das prioridades? Essa noite onde trocámos, para mim as palavras mais sensuais sem se quer falar em sexo em nenhuma delas, sem que as mesmas fossem reflexo de provocação. E no entanto foram as palavras mais envolventes e provocantes, a intimidade prefeita. Sim porque sexo não é intimidade, é apenas sexo. Minto, sexo, pode ser sim intimidade, porém nem sempre o é. E nós, tivemos momentos quentes, fortes, deliciosos, no entanto, íntimos como aquele, no banco de jardim, nenhum. As nossas almas abraçaram-se e despimo-nos de medos, de vergonhas e de barreiras. Encontrámos um ninho um no outro, um ninho celeste que ninguém mais pode compreender, ninguém, exceto nós que ali estávamos um com o outro, um no outro. Será este o momento que decidiste eternizar?

Ou por outro lado queres-me para sempre a desejar-te, sacando de um preservativo do bolso e um “desculpa” da boca. Boca essa que selaste com um beijo bruto e delicioso, para mais não me explicar ou justificar. Num suspiro abriste o invólucro deixando escapar: “sem desculpas, eu quero”. Desse momento tenho gravados o início e o fim, este início e o final que todos imaginam, eu deitada na cama enrolada em mim mesma, exausta de uma sessão animalesca e desejada,  com o corpo a vibrar do prazer sentido e a sentir. 

Será contudo que guardas um outro momento, aquele em que eu conduzia e chorava sobre uma tristeza que não era tua, era tão minha, onde os olhos deixavam cair as lágrima que por pouco me deixavam o caminho baço. Tu, limpaste as minhas lágrima e quando parei o carro, tu olhaste-me nos olhos e sem palavras fizeste-me conduzir até ao destino. Não me lembro o entretanto, sei apenas que saía do banho e com um olhar do mesmo jeito, daquele no carro, um beijo aconteceu, vindo de um movimento que desconhecia e ainda desconheço, por estranho que pareça. A tolha caiu no chão e a tua roupa quis fazer-se seguir à toalha. 

Algum destes momentos são teus, meus e imortais? Serão outros aqueles que resolveste imortalizar. Quero saber como se me fosse alimentar disso. Podes ainda ter decidido colocar cada momento em cada um dos teus textos, espalhados como uma caça ao tesouro, e teria eu o discernimento de os encontrar, de me encontrar, de nos encontrar? Entre tantos outros de outrem ou de teus pensamentos. Ai, os pensamentos de quem são os teus pensamentos, a quem pertencem eles? Terei eu um pouco desse espaço?

Sei, no entanto que noutro dia, passei por uma livraria e como gosto de ler, não só a ti, mas tantos outros, percorri o dedo pela estante perguntando, a esta mesma estante, que livro seria o meu. O tal que teria uma mensagem para mim, naquele dia. De olhos fechados o dedo parou e assim que abri os olhos a contracapa dizia “Desculpa”, esse é o título. Nome do autor? O teu.   

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Hotel Morpheu

Mens sana in corpore sano”, ou se preferirem: “Mente sã em corpo são”. Sempre me disseram que a mente e o corpo, quando sintonizados, permitem-nos desfrutar da vida e não há nada que nos detenha. É como não ter obstáculos e ter tudo, verdadeiramente tudo como possível.  

Sempre que a mente comanda sinto que o corpo tem mais hipóteses de sucesso. A mente sabe até onde o meu corpo pode ir, por isso alimenta e avisa-o de quando está a chegar ao limite. Ainda assim, ocasionalmente, o meu corpo consegue surpreender a mente com uma descarga de adrenalina que lhe permite um esforço adicional. 

A mente dá as pistas (vai descansar, já deu, não te esforces mais, etc.) e o corpo geralmente apanha-as todas. Geralmente porque o meu corpo por vezes nada para fora de pé: perde o comboio, age por instinto, fica até acabar a festa, arrisca mais, ousa um beijo ou acredita que certos dias não deveriam ter fim: a tarde passa a noite e da noite nasce a alvorada, resultante das palavras e de copos a mais, e de todos os outros que virão. Os momentos de euforia do corpo são pagos com as consequências do dia seguinte.  

Num dia perfeito tanto o meu corpo como a minha mente vão descansar à mesma hora. Eu desço até à cama ou outro recanto que me esteja destinado, fecho os olhos e durmo. A minha mente, no entanto, espera que eu adormeça para também ter o seu descanso. Porém para descansar parte para o Hotel Morpheu. Pelo nome até aparenta ser um hotel como os outros, mas é o sítio onde as mentes descansam. 

Imagino que quando adormeço a horas ela consegue chegar a tempo de fazer o check-in e escolher um quarto com boas condições. Sabem como funciona, não é? Um quarto a meio do edifício, não muito alto nem muito baixo, para poder escapar em caso de fogo e suficientemente longe do elevador para não ouvir quem chega demasiado tarde. 

Se o check-in é feito cedo ela consegue escolher onde vai ficar e tem o descanso merecido. Entra no quarto, senta-se na escrivaninha e coloca a bagagem que acumulei ao longo do dia no chão. Revê as avarias em que me meti, tenta dar sentido às caras com as quais me cruzei e toma notas para que me lembre do que correu bem (ou mal) para o dia seguinte. No final, e independentemente do balanço, termina com uma nota positiva. A bagagem é lavada, passada e arrumada para memória futura. O que não faz muito sentido é enviado de volta para onde os sonhos acontecem e onde têm uma segunda oportunidade de fazerem sentido. No final tudo é enviado para backup que é quando estou no sono profundo. A partir daqui ela tem o seu tempo: tanto pode tomar um banho relaxante, mimar-se no SPA ou discutir com as outras mentes o que os corpos lhes fazem. Trocam impressões, comparam notas e afinam estratégias. E aí têm o seu merecido descanso.    

Nos dias em que abuso e vou dormir tarde, a pobre dificilmente encontra o quarto que merece. Tem de se contentar com o está disponível, o que nem sempre é agradável. São os quartos que ficam ao lado da copa, das escadas, em frente ao elevador e de espaço reduzido. Como estes quartos são os que ficaram livres há pouco tempo, nem sempre estão limpos o que não proporciona um descanso merecido para o que resta da noite. Desta feita a bagagem do meu dia não é arrumada como deveria. Fica espalhada pelos compartimentos da minha cabeça, suja, sem nexo e à espera de que a mente a possa arrumar quando tiver tempo. Um dia assim ainda passa. Mas quando estes se tornam recorrentes a mente deixa de conseguir gerir. E assim a bagagem continua espalhada pelos recantos da mente sem ser cuidada e com o tempo o desarrumo transforma-se em dor. Infelizmente e apesar do nome, o hotel não fornece morfina, pelo que a mente tem de reduzir a confusão e desenrascar-se sozinha. 

Quero apenas realçar o quão importante é manter a consonância entre a mente e o corpo, na medida do possível. Depois de uma noite reparadora a mente e o corpo despertam simultaneamente. Ou melhor, deveriam.   

Isto tudo porque ontem a minha mente acordou antes do meu corpo (suponho que já devia ter dormido o suficiente). Pode-vos parecer estranho, mas lembro-me perfeitamente de estar a dormir, abrir os olhos e olhar à minha volta. O sol estava escondido e ela ainda dormia ao meu lado. Olhei à volta, vi o candeeiro do quarto e reconheci a minha roupa na cadeira ao longe. Continuei a observar o quarto e a ver como tudo me era familiar. Apenas os meus olhos se moviam. O corpo inerte como se estivesse anestesiado e eu confuso entre sonho e estar acordado. 

Pouco a pouco o meu corpo começou a acordar e a tomar consciência do que se estava a passar. Nesse momento senti o coração a tentar sair do meu peito tal era a força das suas batidas. Não sei como a mente deixou escapar esse momento, mas o coração bombava como louco para se assegurar que recuperava o atraso e que todos os órgãos estavam a trabalhar a 100%. Foi aí que a mente voltou a tomar o comando e baixou o ritmo do coração. Sussurro-lhe baixinho: – “Está tudo bem! Mas agora por favor devagar, senão amanhã não estamos aqui para contar a história…”.    

Ele acalmou e eu ainda aqui estou.

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Conto

Memória do Futuro

“Pára. Já percebi a mensagem. Ainda não chegámos aí.” Assim comecei a conversa contigo, memória do futuro. Minha querida e indelicada memória do futuro. Ou deveria mesmo dizer minha tão amada, fugaz, insana e incomoda memória do futuro.

Poucas são as vezes que acontece, mas aconteceu há um ano. Vi-o, encostado à parede branca da sala e soube que estaria hoje no chão de corpos colados. Numa manhã de inverno, entrava um raio de sol pela janela direto a ele, realçando a barba e o cabelo castanho claro. Longe de imaginar que seria abordada por uma memória do futuro, quando de facto fui, aconteceste. Um flash do futuro a dourar um primeiro encontro. Desengane-se quem pensa que fui abordada por um déjà-vu. Nenhum déjà-vu dá concretamente uma imagem de dois corpos fundidos no chão de madeira e um tapete fofo ao lado, de uma casa que desconhecemos, com cheiro a pele fresca e sensação húmida de corpos colados. Nenhum déjà-vu me traz sabor, fogo e definição. Quando me avassalaste, memória do futuro, soube que estaria com ele hoje, aqui, no chão de corpos colados entre ti, memória, e ele. Tinha, há um ano, acabado de chegar à sala, ao trabalho novo, à minha vida. Num sopro do fogo que me inundou o corpo percebi que não poderia escapar a este futuro. E foste tu memória que me traçou o caminho. 

Expliquei-te que não poderia ser. Expliquei-te com vários e diversos pontos, bastante detalhados, que me dei ao trabalho de anotar, escrever, rescrever e corrigir meses a fio num longo documento, quase um contrato entre nós, em como tu serias capaz de sair da minha vida e com isto mudar o futuro, tranquilizando-me. Porém, não assinaste o contrato que hoje, está na minha secretária guardado entre tantos documentos arquivados. E hoje, estou aqui. Arquivaste a minha vontade de mudar o futuro. E colocaste o teu plano em prática quando 6 meses depois de me avassalares tu, ele fez o mesmo colocando-me contra a parede sussurrando ao meu ouvido: “Pena não termos mais momentos destes.”. Vi-te memória. Aqui. E com medo respondi: “Momentos deste como assim? Queres que te passe mais vezes as impressões de (pausa) de, (olhei para os papéis) de assinaturas de presença? Convenhamos que há coisas mais interessantes para fazer.”. E com isto saí. Achando portanto que o tinha desviado da minha vida e te tinha passado uma rasteira.  

Verdade, que tu escreves direito por linhas tortas e por isso, marquei presença numa das folhas dele, desta vez não entre a espada e a parede, mas na apresentação de um dos seus mais recentes projetos. Com medo de ser notada, assinei, sem o último nome, e saí. Claro está, que não me poderias deixar em paz e sei que deves ter arranjado uma forma dele ter reparado que eu estava em fuga e quando chegou até mim sussurrou-me, como outrora o fizera: “Último nome é requerido, contato de email e só para mim contato de telemóvel.”. Perfeito. Estiveste muito bem, devo dizer-te. Fui apanhada desprevenida assinei e segui. Dia seguinte uma mensagem no telemóvel desenrolou o fio que há muito estava enrolado. Uma mensagem puxou a outra e um beijo levou ao outro. 

Posso dizer-te que és demasiado inconveniente, sabias que isto não era possível acontecer sem que eu saísse desta situação sem marcas. Mesmo assim, quiseste manter-te como inalterável levando o futuro ao presente e agora, neste preciso momento, em que mais preciso de ti para me ajudares a levantar deixas-me sem ti, apenas ele e sem palavras para lhe responder. Sendo que ele adianta-se dizendo: “vou aceitar outro trabalho e”  interrompo dizendo: “Pára. Já percebi a mensagem.”. Isto para ele, já para ti: feliz?! Chegámos finalmente aqui.