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(a)Guarda

Godofredo de Almeida, funcionário postal. Esta é a forma como me apresento ao longo dos anos. O primeiro é o meu nome e o segundo a minha profissão. Sim, carteiro e afins. Sempre fui atraído pela questão logística das coisas, sobretudo seguir o caminho que uma encomenda ou carta faz para ir de A a B em perfeita segurança, sem atrasos e em perfeito estado. Há quem prefira seguir aviões, comboios ou camiões TIR. Eu prefiro as cartas. Gosto de acompanhar o percurso de cada uma, ver por onde passam, onde se demoram e quando passam a fronteira e são livres para chegar ao seu destino. Sabiam que existem estações de fronteira para o correio? Não são aquelas estações de correio perto das fronteiras como em Vilar Formoso ou Elvas, mas estações de correio que recebem e tratam o correio internacional. Imagino que as cartas e as encomendas também têm de passar pelo mesmo que nós.

Cada entrega tem uma história. Eu, que já ando nisto há muito tempo, ainda me lembro de pessoas esperarem por mim à porta de casa a cada manhã e à mesma hora, perguntando se havia correio para elas. Na maior parte do tempo eram só as contas do costume, e esses envelopes, asseguro-vos, ninguém gosta de os receber. Ainda menos os que vinham com aviso de receção devido ao atraso no pagamento. Sempre me assustou ver a velocidade de como um sorriso pode desaparecer do rosto de quem as recebe. Por vezes sentia-me culpado por dar estas notícias, mas, como sempre me disseram a culpa é da mensagem e não de quem a entrega. 

Como podem imaginar o que mais gosto de entregar, ainda que sejam cada vez mais raras, são cartas. De pessoas para pessoas. Cartas que dizem a quem as recebe que alguém pensou nelas, sentou-se, escreveu, colocou num envelope, pôs um selo e despachou-a. Têm tanto de ridículas como de inesperadas. Acabam com a ansiedade de quem as espera e surpreendem quem não tinha ideia de que ainda há cartas que lhes são dirigidas. Estas entregas compensam as outras todas. Seja um vale postal, os folhetos com as ofertas da semana ou os cartões-postal de quem foi a algum lado – confesso que olho rapidamente para as imagens para ver se é um sito que vale a pena visitar. Ultimamente entrego muitas encomendas sorridentes. Penso que a própria embalagem antecipa a reação das pessoas que as recebem.   

Ser carteiro implica também guardar os segredos dos outros. Segredos selados em papel. Segredos que não devem e não podem ser revelados. Por vezes, dependendo de onde as pessoas vivem, também recolho as suas cartas. É uma ajuda para quem mora longe. Pedem sempre para ter cuidado com elas, pois são partes de si que partem para outros. 

Há pouco tempo, no final do Outono, enviaram-me para um sítio novo. Um sítio diferente de todos os outros onde tinha estado. Os outros sítios eram planos e conseguia pedalar o dia todo para fazer as entregas. Aqui não. Cada dia é uma aventura. As ruas são diferentes, com altos e baixos, a calçada é negra e a chamada “baixa” da cidade, na verdade é na parte mais alta, ou seja, é tudo ao contrário. Nesta cidade as pessoas não esperam o correio à porta de suas casas a cada dia. O facto de terem as quatro estações do ano no mesmo dia não convida a longos períodos na rua. O interior torna-se apelativo para se passar a maior parte do tempo. 

Antes de começar a trabalhar estudei o percurso para melhor distribuir o correio e otimizar o meu tempo. Notei que até uma certa hora as ruas estavam desertas, mas assim que as pessoas decidiam sair, saíam todas ao mesmo tempo, como se fosse combinado. Como as entregas não coincidiam com estas horas, nunca via ninguém no meu percurso e isto fazia-me confusão. Comecei então a magicar uma forma de trazer as pessoas para a rua a qualquer hora. Apenas tinha de as convencer a porem o pé um pouco cá fora. Ao final da segunda semana, e quando já estava a tomar o pulso da cidade, eis que me engano num cruzamento e sou colhido por uma carrinha. Nada de grave, mas por momentos perdi os sentidos e até vi fogo de artifício. Disseram-me que a culpa era dos estudantes que ao retirarem o sinal de sentido proibido tinham transformado a rua de sentido único numa rua com duplo sentido… 

Voltando às entregas, comecei de forma suave, aguardando o bom momento: em vez de colocar o correio na caixa, tocava à campainha para me apresentar. As pessoas, vencidas pela sua curiosidade, lá abriam a porta para dizer bom dia. Com o tempo ia perguntando uma ou outra questão: se viviam ali há muito tempo, se iam ao posto dos correios ou se podia deixar as encomendas à porta nos dias em que ninguém atendesse a porta, mas não conseguia ter nenhuma resposta. Pensei que seriam tímidas e sem vontade em falar delas mesmas. Então mudei de estratégia e passei a perguntar pela vizinhança. Usei a desculpa de não conhecer bem as ruas tentado com isso conhecer melhor as pessoas. Também aqui avançava a passo. Porém, pouco a pouco fui notando os hábitos e particularidades de algumas pessoas: o senhor da Rua C coleciona selos; a senhora da Rua M que tem os filhos a estudar em Faro e no Porto e que gosta de receber cartões-postais com vistas do mar ou de sítios exóticos; ou a senhora da Rua H tem uma iguana de estimação, e por isso uma vez por mês recebe uma encomenda com suplementos para o animal (deve ser por isto que a sua casa está sempre bem aquecida, seja de Verão ou Inverno).

Foi assim que me dei conta do que realmente se passava naquela comunidade: apesar de ninguém falar de si mesmo, os seus tiques começaram a sair ao de cima. Tendo isto em conta resolvi pôr um plano em marcha, ajudando cada um a ajudar outra pessoa. Basicamente era dar um empurrãozinho para que as pessoas da comunidade prestassem um pouco mais de atenção aos seus vizinhos.  

Sempre que chegava uma carta com um selo especial, mostrava-o “sem querer” ao senhor da Rua C. Perguntava-lhe se sabia onde morava a destinatária e ele, com um interesse particular, não se mostrava rogado e até me acompanhava à porta para se assegurar que a carta era bem entregue. Durante a entrega tentava mencionar o seu interesse pela filatelia. E a partir daqui estas duas pessoas deixavam de ser meros desconhecidos e passaram a ser vizinhos. 

O mesmo aconteceu para a senhora da Rua M. Cada postal que chegava ficava no cimo do monte das cartas a entregar e com a imagem de fora para se notar que era uma foto e não um envelope. Com o tempo as pessoas aperceberam-se de quem era a destinatária e começaram a enviar postais quando também viajavam. No início não os enviavam diretamente: mandavam para as suas próprias casas e entregavam os cartões ao seu regresso e em mão. Só mais tarde, com a confiança já estabelecida é que enviavam diretamente. 

Quanto à senhora da iguana, passei a palavra que para além dos suplementos que recebia o que o animal também gostava era de talos de brócolos e de couve-flor. No início ela ficou bastante confusa com os vizinhos passarem e deixarem talos de legumes que de outra forma seriam desperdiçados.Foi assim que comecei aqui, aguardando os bons momentos para adaptar o ambiente ao meu redor. Pensava que era o frio que impedia as pessoas de sair à rua, esse mesmo frio que conserva tudo o que é perecível. No entanto, o frio também convida ao convívio, à entreajuda, à introspeção e à criatividade dentro de portas. Nesta cidade o calor que não se encontra no exterior está presente no interior de quem te acolhe e te recebe de braços e coração aberto.

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Finisterra

Olá, como estás? Há já algum tempo que que não falamos e por isso pensei que seria uma boa altura para trocarmos dois dedos de conversa. Eu bem sei, o tempo passa e tu não dás por ele, mas na verdade eu sinto o tempo a passar cada momento, hora, mês e ano e vejo o que andas a fazer com o teu tempo e, para ser sincera, não estou impressionada.

Quer dizer, tenho-te dado tudo, literalmente tudo para que possas ter uma vida plena, mas o que tens para mim são só abusos e uma tal violência que me pergunto se realmente tens alguma consideração por mim. Podes não ter notado mas por mais forte que possa parecer, na verdade eu sou bastante frágil. 

Sabes o quão complexo é o meu corpo e por isso não gosto de o expor. Ele é a tua área de prazer e dele retiras tudo o que precisas para sobreviver. Mas tu abusas constante e conscientemente. Esqueces-te que a minha pele, tal como a tua, sente e vive tudo o que lhe andas a fazer. Ela absorve tudo: os golpes, os cortes e as queimaduras sem razão. O tempo tudo sara, mas os teus abusos são regulares e a cada agressão a regeneração é cada vez mais difícil. Ainda assim, ela guarda os meus segredos e separa o que lhe acontece à superfície do que está no seu interior. Ultimamente andas fã da exploração profunda, procurando arrebentar-me das entranhas, como se isso te desse um prazer supremo. Esqueces-te que a minha pele, como a tua, sangra com cortes profundos. A minha pele, como a tua demora a sarar e enquanto não sara, o meu sangue verte sobre a minha pele até que a crosta seque. Mas ainda assim o meu sangue alimenta e traz vida à minha pele. 

Noto que a minha pele descansa mais onde tu não estás. Ou quando há menos de ti. Lá ela segue o seu curso, descansa, cria, sara e segue em paz. Na verdade, o que realmente me desequilibra és tu. Tu, que não encontras um motivo para apreciar o que tenho e deixo para ti. Tu e essa sede insaciável. 

Pergunto-me se esta pele fosse tua, terias o mesmo descuido por ela? 

Por isso da minha parte, já chega. Alguém tem de mudar e tomar uma atitude e como não vais ser tu, serei eu a dar o passo. Não é a primeira vez que tenho de me separar de alguém para me poder curar e ficar melhor. Dei-te as pistas todas e nunca compreendeste o que para aí vinha. Agora vou começar a fazer aquilo que é melhor para mim.    

Fim, A Terra

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Este

Vivo num país que se vê perfeito no papel, mas que a realidade mostra partes feias.

Vivo num país onde tudo acontece e pouco muda.

Vivo num país que deixa partir os seus filhos e filhas para ganhar mundo e prefere mantê-los lá fora.  

Vivo num país que acredita piamente que “Santos da casa não fazem milagres”, ainda que o milagre seja regressar e ficar. 

Vivo num país liderado por pessoas que não veem para além da sua ambição, e que almejam um futuro construído sobre as costas dos mais frágeis.

Vivo num país onde a dor é surda e a culpa morre, ainda e sempre, solteira.

Vivo num país onde se venera o que vem do Leste, ainda que tudo o que aconteceu a Este seja passado.

Vivo num país que espera ter resultados diferentes, mas continua a fazer os mesmos erros. 

Vivo num país onde ter esperança é difícil e pensar o amanhã é um luxo.

Vivo num país onde se espera pelo futuro e não se corre para desenhá-lo. 

Vivo num país onde não se vive, apenas se sobrevive.

No entanto, 

Vivo numa cidade que me dá o mundo como vizinho, 

que te recebe de braços abertos, mas que não te abraça.

que é pequena no tamanho, mas enorme no coração das pessoas.

onde cada bairro conta uma história e cada esquina te transporta a um sítio diferente.

Eu, 

Vivo numa rua onde as pessoas dizem bom dia de janela a janela,

que se anima com os risos e nas brincadeiras das crianças do parque,

que respira vida a torto e a direito. 

Vivo nesta rua comprida, plena de sombras onde a cada noite contamos estrelas cadentes.  

Vivo aqui onde o futuro é possível, e onde a esperança renascida é confirmada a cada piscar de olhos da tua pequena criatura. 

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Dinistro & Sextra

Num vale perdido pelo horizonte das montanhas, existe uma vila muito particular. Uma vila que em muito se assemelha às vilas que todos conhecemos. Os seus habitantes vivem as suas vidas sem questionar demasiado o futuro. Há escolas, farmácias, cafés, lugares de culto e de cultura e todos disfrutam de uma certa harmonia no que toca ao seu dia-a-dia. O que torna esta vila particular é apenas e só uma pequena ocorrência: todas as pessoas têm dois pés e duas mãos direitas. Sim, por mais estranho que pareça os membros são todos direitos. Para quem vem de fora até pode parecer muito surpreendente mas, para quem nunca conheceu nada de diferente, este é o normal de quem ali vive. 

O fato de terem dois pés direitos, e ao contrário do que se possa pensar, permite que avancem com uma ligeira inclinação para o outro lado, o esquerdo. Em percursos pequenos isso não faz muita diferença, no entanto para caminhadas maiores, leva a que as pessoas completem círculos em vez de avançarem. Com o tempo a vida da vila organizou-se num grande círculo onde todos podiam caminhar na mesma direção. Da rua principal, que também é o maior círculo, saem diversas ruas menores que levam as pessoas às zonas residenciais, que, como podem adivinhar, são também círculos menores dentro do grande círculo. 

Na vida do quotidiano, ter duas mãos direitas causa situações caricatas, pois torna-se difícil agarrar um objeto, dançar ou completar simples tarefas domésticas, como lavar as mãos ou comer sem que o garfo tente sempre entrar pela bochecha. No lago que marca o centro da vila os barcos a remo rodam no próprio eixo. A tração deixa os habitantes presos no centro e com tonturas. O caminhar de forma enviesada acabava por condicionar a perspetiva das pessoas. Afinal era complicado ver as coisas de outra forma e nas raras ocasiões em que duas pessoas se poderiam confrontar (quer física quer verbalmente), ainda antes de chegarem perto uma da outra os seus pés levavam-nos para direções diferentes. “Dar uma mão” neste caso também não ajudava. Duas mãos direitas não duplicam a ajuda, apenas fazem o mesmo duas vezes. 

À medida que o número de habitantes aumentava, também a dimensão da vila. Foi assim que se começou a escavar a montanha que limitava a vila para criar caminhos circulares adicionais. Numa dessas escavações a Komatsu esbarrou uma parede de gelo, enterrada na rocha. Foi retirada a terra à volta da parede para se ter uma ideia do que realmente se tratava. A parede brilhava como um espelho e percebiam-se formas do outro lado. Inicialmente todos consideraram que era apenas o seu próprio reflexo. Dinistro, uma pessoa mais curiosa começou a lascar a parede e notou que as formas do outro lado do gelo se tornavam cada vez mais nítidas. Tentou avisar os outros habitantes mas sem efeito. Continuou a lascar a parede e a certa altura viu que a sua imagem, do outro lado do gelo, já não replicava os seus movimentos. Na verdade havia mais do que uma forma que se movimentava do outro lado e todas estas formas se tornavam cada vez mais nítidas. A esta altura, Dinistro assustou-se, deixou de lapidar o gelo chamou todos os habitantes para que lhe ajudassem a dar sentido ao que se estava a passar. Ninguém entendeu, mas aceitaram que possivelmente não se tratava de reflexos mas sim de forma autónomas.

Sem nenhuma outra referência ou objeção, Dinistro continuou a escavar. O gelo cedia a cada instante, a luz que vinha do outro lado brilhava tornando as formas mais claras. A certo momento o gelo desapareceu e a parede abriu-se. Dinistro libertou o caminho e rompeu a parede até poder passar para o outro lado e ver o que estava além. Eram outros seres, pessoas como eles, com as mesmas formas mas havia algo de ligeiramente diferente que escapava à sua compreensão.

Uma das pessoas do outro lado arriscou um aceno com a sua mão. Era Sextra, que fora designada representante. Dinistro respondeu da mesma forma. Ao aproximar-se percebeu que as pessoas do outro lado tinham também os mesmos membros que ele, mas com particularidade de, na sua perspetiva, estarem ao contrário.     

Dinistro e Sextra observam detalhadamente os seus corpos. Soltam palavras e reconhecem o mesmo idioma. Repetem o aceno inicial e compreendem que as suas mãos se completam enquanto caminham na direção um do outro, e maravilham-se quando o círculo que desenham com o caminhar, na verdade aproxima e coloca-os na órbita do outro. 

Dos dois lados da parede os restantes habitantes estão em silêncio a observar este trocar de primeiros passos. É decidido que cada vila deverá trocar impressões e aprender ao máximo sobre cada uma para ver de que forma poderiam ter mais sinergias. A parede é destruída e ambas as vilas não têm barreiras a separá-las. 

Para Dinistro e Sextra os dias são de autoconhecimento e descoberta. Quer nos corpos um do outro quer em cada vila. Sextra, como os habitantes da sua vila, tem dois pés e duas mãos esquerdas. Quando caminham, caminha enviesada para a direita e na sua vila os círculos estão organizados na direção contrária da de Dinistro. Com o tempo as tarefas que lhes pareciam impossíveis tornam-se viáveis e novos caminhos são desvendados. Até o navegar no lago do centro era uma atividade que finalmente fazia sentido. Em vez de círculos, era finalmente possível navegar em linha reta. 

É impressionante que em todos estes anos duas vilas, praticamente reflexos de si mesmas, nunca tenham tido conhecimento da existência do outro, apesar de estarem tão próximos.  

Do conhecimento e do tempo que Dinistro e Sextra passaram juntos surgiu uma criança. Esta criança nasceu com um pé direito e um pé esquerdo. Ao verem as suas mãos também notaram que tinha tanto uma mão direita como uma mão esquerda. Ao contrário de Dinistro e Sextra, os os habitantes de ambas as vilas entraram em choque. Nunca se tinha visto tal coisa. O que seria de uma criança que não pertencia a nenhuma das vilas?  

A criança cresceu e quando caminhava, avançava. Não tinha enviesamentos, apenas caminhava para a frente. Para o futuro.

Com mais crianças, os habitantes puderam ver que os seus jovens corpos, frutos da partilha das duas vilas, faziam as coisas de forma diferente. Tinham mãos que se lavavam uma à outra, caminhavam lado a lado e podiam entrelaçar e perder os seus dedos nos dedos do outro.      

Este percurso das duas vilas permitiu um mudar de atitude e de perspetiva. Conseguiu-se deslumbrar um futuro onde a sociedade não andava aos círculos, com cada um a falar para o seu lado, mas onde a troca de experiências se podia fazer face a face, lado a lado e caminhando para a frente.

As crianças destas duas vilas eram assim a semente de uma sociedade que dava os seus primeiros passos e estabelecia formas diferentes de se relacionar. No final, apenas uma questão inquietava os habitantes das duas vilas: depois de anos a falar, interagir e a viver cada um do seu próprio lado, estavam agora a aprender a ter mãos e pés esquerdos e direitos. Algo novo. 

Mas quão saudável e extraordinário seria viver numa sociedade onde todas as pessoas pudessem, sem exceção, ter uma mão direita e uma mão esquerda, assim como um pé esquerdo e um pé direito para caminhar, pensar, trabalhar e resolver os seus problemas como um todo e não de forma enviesada?  Para estas vilas, que sempre tiveram uma visão parcial dividida por uma parede de gelo, estas mãos e estes pés, permitem uma coisa entre muitas outras: caminhar para a frente e deixar de andar às voltas. 

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Catarina, por quem sois?

Esta pergunta perseguiu-me toda a semana antes de te conhecer. A amiga que nos apresentou avisou-me com alguma antecedência que iria conhecer uma Catarina. Ela conhecia as minhas experiências passadas e tentou acalmar-me dizendo-me o teu nome. Há muito tempo que não convivia com uma Catarina e por isso tinha muitos receios do que poderia esperar. Não que as Catarinas que conheci antes fossem problemáticas ou que me tivessem dado má impressão, mas digamos antes que as credenciais que me deixaram não eram muito positivas. 

Não acreditas? 

Vejamos, a última Catarina com quem convivi a sério era possuída por uma depressão cada noite que estávamos juntos. E não, por uma vez não era eu que a punha naquele estado. Era ela Ofélia e eu o espírito do rei condenado a vaguear pelas muralhas frias de Helsingør. Em desespero, ela subia a uma árvore de onde mergulhava para a sua morte no leito do rio. Noite após noite tive de carregá-la para o Outro Lado para apaziguar a sua alma e deixar a água correr. Sim, era num palco e sim, era a fingir. Não ajudou.

A outra Catarina, era muito mais poderosa e de outra categoria. Categoria 5 disseram-me. Tinha o poder de arrancar árvores pela raiz e de levantar casas inteiras deixando um rasto de desespero e destruição à sua passagem. Assustava tanto de longe como de perto. Esta Catarina, ou Katrina como ficou conhecida, deu-me um baile nos céus da costa florida. Atirou-me em todas as direções e pôs-me a voar de pernas para o ar. Foi única, mas também não contribuiu para a minha experiência com Catarinas. 

Lembrei-me ainda de outra Catarina, cuja história só conheci recentemente que, com o seu charme ensinou todo um império a parar às cinco da tarde para saborear folhas secas diluídas em água fervida.

Serias tu alguma destas? 

A dúvida angustiou-me até ao dia do nosso primeiro encontro. Chovia a cântaros. Cheguei cedo na esperança de te ver pela janela. Estavas sentada no final da sala do Café com um livro aberto no teu colo. Percebi que teria de atravessar toda a sala para chegar ao teu lado. Entre a porta da rua e a tua mesa não havia obstáculos. Ainda assim imaginei que era um soldado prestes a atravessar um campo minado na esperança de chegar a terra livre. Num campo minado o perigo está no caminho, não no destino. 

Abri a porta e entrei. 

O vento que entrou atrás de mim fez bater a porta com estrondo e levou a que todos olhassem para mim por um momento. Para mim, que pingava por todos os lados enquanto abria o casaco. Confrontei-os, olhos nos olhos, um a um. Arrisquei um passo, mas reparei que não te tinhas virado. Temi que te fosse indiferente. E que tu fosses indiferente à minha entrada. Ou que o livro que lias te levava toda a atenção. Sobraria alguma para mim? 

Dei meia volta, voltei a fechar o casaco e preparei-me para sair e diluir-me na chuva de fora quando senti uma mão que me toca no ombro. 

Eras tu. 

Atravessaste o campo minado para vir ter comigo. Disseste: “Estava à tua espera!”. E os meus receios desapareceram no teu sorriso.    

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Batidas

Um coração humano bate em média entre 60 a 70 vezes por minuto. Para o ser humano que vive em média 80 anos chegamos a quase 3 mil milhões. Ou se preferirem 3 000 000 000 de batidas. São muitos zeros. Acrescentemos a esta equação que durante muito tempo suspeitou-se que os corações tinham um número limitado de batidas. Neil Armstrong, o primeiro humano a pisar a Lua, foi metido nesta discussão ao ser-lhe atribuída uma frase (entretanto desmentida) onde dizia que “Acredito que cada ser humano tem um número finito de batidas. Por esta razão não pretendo desperdiçá-las a correr ou a fazer exercícios”. Para todos e todas que já pensavam em cortar nas horas de exercício para não gastar as vossas batidas, podem esquecer este argumento pois há muito que foi desacreditado.

O coração é na verdade um órgão fascinante. É dos poucos órgãos que podemos sentir com as nossas mãos. Dizemos que bate, mas também que dói, que aperta, que aguenta, que se remenda, que pode ser embalado, que acelera, que se entrega, que late, que se maltrata, que se abre e eventualmente que se parte. Acontece-lhe de quase tudo e tem até um dia onde é rei e senhor das montras e aparece em tudo o que é lugar. No entanto a sua função básica é o garante da vida. Ao bater, alimenta as células e oxigena o corpo. O dos humanos, mas não só.  

Recentemente lembrei-me de um coração do qual poucos esperavam muita coisa. Trata-se de Laika, a cadela condenada a ser o primeiro ser vivo no Espaço. Laika foi escolhida (com uma substituta), entre os cães de rua de Moscovo e foi-lhe dado um bilhete de ida na Sputnik 2. Durante vários meses foi preparada para a viagem que lhe levaria à órbita terrestre, mas poucos acreditavam que sobreviveria a fase inicial do voo. Com a instalação de diversos sensores no seu corpo, Laika foi colocada no espaço exímio da cápsula que lhe foi reservado e que lhe serviria de transporte. Ali ficou 3 dias para se habituar. 

No dia da partida os cuidadores despediram-se dela. Durante a fase da descolagem, o som dos reatores e a pressão assustaram-na de tal forma que o seu ritmo cardíaco triplicou. Contra todas as expetativas Laika sobreviveu. Uma vez em órbita, estima-se que Laika tenha sobrevivido durante 103 minutos e completado entre 5 a 6 das 2570 órbitas que a Sputnik 2 completou nos seus 5 meses de missão. Após a órbita número 4 a temperatura no interior da cápsula atingiu os 32 graus e a vida tornou-se praticamente insustentável.

O coração da Laika não utilizou todas as suas batidas durante a sua estadia na Sputnik 2, ainda assim conseguiu latir mais forte que os reatores de uma cápsula espacial.    

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Água Sara

O navio corta a água.

A água estremece, divaga, solta a espuma para sarar a ferida. E espera que esta se dissipe.

O tempo ajuda a ferida a sarar, que o rasgo afunde e que a água volte. 

Até passar o próximo navio.