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Poema

Não quero morrer devagar

Na verdade, ninguém quer, mas…

Morre-se devagarinho quando a esperança se esvai do olhar.  

Morremos um pouco quando acreditamos que o amanhã não supera o passado.

Morre quem se esquece do que é capaz, do quão alto as suas gargalhadas podem soar, 

Do quanto um sonho pode guiar uma noite, um dia, o resto da vida. 

Morremos quando nadamos para fora de pé sem um plano B, C, D ou quaquer outra letra que ainda nos falte citar.

Morremos quando prescindimos de dar o primeiro passo, e realizamos que somos semente sem fruto.

E assim se morre, gota a gota, pouco a pouco, pedaço a pedaço…

Mas no fim de contas, o fim da vida é a morte.

E morre quem na verdade quer deixar de viver.

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Conto

A Máscara

No Carnaval ninguém (ou melhor, quase ninguém) leva a mal.

O facto de se reservar um fim de semana em Fevereiro para poder andar camuflado no meio da multidão igualmente camuflada sempre me fascinou. Mais que não seja porque a tolerância para a brincadeira é maior e vigora a amnistia do disparate. O Carnaval na Europa é, regra geral, frio. Há um incentivo maior para sacudir o corpo para o aquecer. O futuro reserva-nos um clima um pouco mais ameno para os próximos Fevereiros. Isto tudo para dizer que as pessoas que desfilam na rua, bravando a chuva e o vento sempre me impressionam. 

Mas pelo que eu realmente esperava e me deixava desperto pela noite fora era a transmissão do desfile do Sambódromo do Rio. 

Sambódromo.  

O sufixo “dromo”, grego, significa “lugar onde se corre”. Por isso temos o Aeródromo – lugar onde os aviões “correm” para voar, o Autódromo – lugar onde os carros correm, o Hipódromo – onde os cavalos correm, o Velódromo – onde as bicicletas correm, para citar os mais conhecidos. Também temos o Salsódromo, onde se “corre” para dançar Salsa, uma palavra que nos chega da Colômbia onde a Salsa é Rainha e, num registo ligeiramente diferente, a Síndrome, onde várias coisas (o)correm ao mesmo tempo no corpo. No entanto para além de Sambódromo – lugar onde se corre para Sambar, o Brasil deu-nos também o Fumódromo – lugar onde se corre para fumar e decididamente o meu “dromo” favorito: Namoródromo: o lugar onde se corre para namorar. Este é o espaço, normalmente num dos cantos mais recatados da casa, interior ou exterior, onde se encontra o sossego para namorar em paz e em boa companhia (de preferência). Para mim pode ser ao lado de uma janela com uma vista serena e um chão almofadado. Se é sempre bom ter um porto seguro para nos refugiarmos, porque não para namorar?  

Mas divago… 

A forma de festejar o Carnaval difere de país para país: no Rio usa-se pouca roupa, em Nova Orleães cada um interpreta a versão mais devassa e satânica da sua figura histórica preferida; nas ilhas do Atlântico pinta-se o corpo de negro; em Ivrea as pessoas atiram laranjas umas contra as outras; em Colónia dá-se vida às fadas e aos duendes e, em Veneza cobre-se de fatos exuberantes que só não tapam os lábios e o nariz (para mais informações ver o filme Eyes Wide Shut).   

Usar uma máscara no Carnaval permite ocultar a identidade e ser um outro alguém. Entre o divino e o profano a escolha é farta e vasta. Por vezes as pessoas acreditam terem poderes como os super-heróis. No entanto, eu preocupo-me com as máscaras que usamos no dia-a-dia e que não esperam pelo Carnaval para aparecer: aquelas que estão permanentemente à vista de todos. O meu argumento é que uma máscara funciona como um atributo que permite atrair a atenção para outra coisa que não seja o teu aspeto físico. 

Eu explico: usar uma mala (do Michael, do Louis, da joaninha ou do cavalo anão), um casaco, um relógio, um perfume ou mesmo um Caniche/Chihuahua (ou qualquer outro animal de colo que caiba na bolsa) faz com que as pessoas se fixem no que lhes retém a atenção e de repente qualquer inabilidade fica invisível. 

Imaginemos alguém que vai começar a surfar e como não quer estar “out” desde o início vai comprar o melhor equipamento possível (normalmente reservado e apreciado por praticantes de longa data) e assim dará a impressão que já tem tudo: o clássico exibicionista. Ainda antes de molhar o pé já é o centro das atenções. 

Isto funciona para quase tudo e permite de um lado que uma conversa se inicie e que a primeira impressão seja de algo de interesse comum. Se a prosa for suficiente hábil nem é preciso molhar os pés… tenho uma amiga que repara nestas coisas e consegue sempre identificar os relógios mais raros que estão à nossa volta. Com isso inicia as conversas mais inesperadas. Common ground, o segredo para ultrapassar a primeira impressão e quebrar o gelo. O familiar atrai o que lhe é próximo para ficar tudo em família.

Para mim, que nunca aprendi a apreciar relógios a esse ponto, lembro-me sempre do meu amigo Oríadeu, que tinha a dança como máscara. Tímido e discreto, falava pouco e demorava-se até abrir a boca para deixar sair algo que não fosse um “Errrrr” hesitante e sem consequência através de um sorriso desmaiado. A máscara que usava fazia sair toda uma nova personalidade. Assim que ouvia as primeiras batidas da sua música preferida, atacava a pista com passos sincronizados ao ritmo da música desafiando a gravidade. Todas as suas imprecisões tornavam-se invisíveis pois apenas se via o bailarino a arrepiar a pista.  

Vendo-o dançar, vi de tudo: gritos, suspiros, aplausos, arrepios, lágrimas, sustos e abraços. Pessoas que assistiam nas laterais levantavam-se das cadeiras em aplausos e acorriam para agradecer a “exibição”. Na Universidade houve pessoas que decidiram aprender a dançar depois de o ver na pista, qual instrumento de evangelização à causa da dança. Se num casamento foi aclamado como “Cidadão Latino Honorário”, tal foi a forma como homenageou a América do Sul, noutro foi designado como “impróprio para consumo”, tal foi o abuso na pista. Houve pessoas que se transformaram, parcerias que se formaram, barreiras que se romperam e portas que se abriram. Num momento supremo ensinou um amigo a dançar para que este, ao surpreender a namorada, conseguisse salvar a sua relação. E conseguiu.

Oríadeu dança onde, quando e sempre que pode. Em casa, na sala de aula, nos corredores do trabalho, ao ar livre e sempre que a música começava a tocar. Para estar sempre pronto tinha uma muda de roupa e sapatos na bagageira do carro e num armário do escritório. Uma vez cruzei-me com ele no aeroporto: um grupo de músicos latino-americanos, acabados de chegar de uma viagem de longo-curso aproveitaram para fazer um concerto espontâneo enquanto esperavam pelas suas bagagens. Oríadeu lá estava, a convidar passageiras desprevenidas a dar uns passos antes de cruzar a alfândega e a susterem as suas vidas por uns momentos antes de seguirem para outros braços que não os seus. Os seus passos entranham-se nos corpos de quem com ele partilha uma dança ou um momento. No fundo, é apenas isso que ele oferece, um parêntesis de abstração antes do resto, antes da continuação. 

No entanto o que as pessoas esqueciam era que para Oríadeu, o ato de Dançar era apenas e somente sobre dançar. Era sobre essa partilha, sobre esses momentos. E sempre foi assim.

Até o dia em que ela, a Profetisa, apareceu. Para quem se ocupou em converter gente pagã à dança durante tanto tempo, Oríadeu voltou a ser discípulo. Naquele tempo, vê-los bailar era como observar dois corpos a conversar, onde cada gesto era uma pergunta e cada passo uma resposta. De certa forma era inspirador e mostrava ao que nós, os demais, poderíamos almejar. 

Com o passar do tempo e apesar de ter sido avisado, Oríadeu deixou de conseguir conter os seus anseios e, tal como Ícaro voou demasiado perto do Sol, queimando a sua máscara duma vez por todas.   

Desmascarado e com a boca descoberta, Oríadeu deu-se conta que há fôlegos que só se retomam quando dois corpos se juntam. E que há anseios que só se saciam quando duas bocas se amam. 

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Conto Poema

Lisboa

Cidade maior, que Ulisses quis para si, porto de abrigo para quem se espalha na tua costa e para onde o Tejo corre despedindo-se da vida. Tens a luz única dos iluminados.   

Lisboa, 

és mãe, madrasta, viúva e filha. Mãe para quem acolhes, madrasta para quem teve de partir e viúva de quem não mais voltou. És a filha esquecida que se tornou mulher e a quem a idade com ouro cobiça as tuas partes mais desejadas. 

Na pena do MEC, cada avião que te deixa faz birra e vira-te as costas. Na verdade, quem foge prefere não olhar para trás. 

Acolhes quem te procura e te conserta por dentro. Mesmo assim segues obra imperfeita e inacabada.

Deixas que outras línguas te pisem para seres um mero caso, um affair de fim de semana ou o quer que seja enquanto lhes serves tesouros em forma de nata.

És Santa Maria, Maior e de todos os santos que vagueiam pelas tuas sete colinas entre pecados e virtudes. Cada um com a sua agenda, a sua história, a sua verdade. Cada um procurando uma razão para ficar. Uma razão para voltar. 

Tens porta aberta para o Atlântico e daí para o mundo e deste o nome ao Santo que Pádua recusa nomear.

Há mais de seis séculos que recebes cheiros e sabores do mundo, num gesto simples, repetido a cada dia quando temperas com caril, canela e açafrão. 

De Belém a Santa Apolónia, cavalos de ferro atravessam e cruzam a floresta branca levando quem mudou o futuro e deixou alguém a encharcar as calçadas de sal por esperar tantas e tantas vezes. 

Por mais que o Tejo lute contra o mar, por mais que o chão trema, por mais que o Sul esteja à distância de um Cacilheiro, segues segura e serena, caminhando sem cair, navegando sem naufragar.

Lisboa, 

és a obra maior que se constrói dia a dia. Podem deixar-te, amar-te, agredir-te, mas ninguém te consegue resistir. 

Segues de braços abertos para cada visita, para cada regresso. Para cada recomeço.

Lisboa,

parti enquanto dormias, envolta no sossego da noite e no embalo do Tejo.

Atravessei-te antes que acordaras e me disseras para ficar.

Ao rasgar o céu vi o sol nascer do ar.

Disse-lhe: já vens tarde.

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Conto

Kumquat

Há pouco tempo pediram-me ajuda. Quando alguém pede ajuda, não vejo o porquê de a recusar. Seria desrespeitoso e nada gentil. Neste caso específico a minha amiga procurava ajuda para algo em que estava bloqueada há muito tempo e de onde não conseguia sair: encontrar uma nova palavra segura (vulgo safe word). É corrente, e sobretudo dependente do contexto, ter uma palavra que se possa usar de forma a interromper uma ação que possa estar a passar dos limites. De tanto usarmos o positivo/negativo (“Sim, Sim”, “Não, Não”), o ambíguo pára/arranca (“não, pára! Não pares!”) ou de invocarmos o divino: “Ó céus!”, “Meu Deus, meu Deus!” (que também pode passar por elogio) ou o “Jesus não olhes, Jesus não olhes!” que estas palavras e expressões caíram em desuso e já pouco surpreendem.

Mas voltemos ao pedido inicial. Como primeira sugestão de palavra segura disse: “Albatroz”. Essa ave de asas enormes que rareia nas nossas costas certamente que é capaz de chamar a atenção nos momentos em que ela, a atenção, é mais necessária. A sua reação não foi a esperada uma vez que tendo em conta o contexto essa palavra pode levar a uma interpretação de “dar asas” ou de expandir a situação atual. 

A minha segunda sugestão foi “Crisântemo. Uma vez mais a reação foi fria. Apesar de elevar o ambiente para um clima floral que aguça os sentidos da visão e do olfato, a proximidade com a palavra “Cris-to” levaria para outras solenidades invocando uma vez mais o divino para atividades pagãs. 

Pensei em “Unicórnio”, esse ser mitológico alado que deixa um rasto de arco-íris por onde passa, seja no chão ou no ar e que, de acordo com a lenda, apenas pode ser domado por alguém jovem e ainda não tocada pelo pecado original. Mas a esse termo, disse-me ela, falta um pouco de substância…   

Seguiu-se a palavra “Paralelepípedo”. Não sei como esta palavra vos soa ao ouvido, mas o simples facto de mencionar uma forma geométrica transporta-me a aulas de expressão visual e de matemática, coisas que nada têm a ver com o contexto em questão, logo propícias à pausa e reflexão. Também não consegui fazer vingar o meu ponto de vista. A palavra segura, disse-me ela, não se pode referir a algo tão frio e esquemático que não deixe espaço para uma possível continuação se assim for o caso. Essa palavra deve ser um parêntesis fonético que obrigue a uma pausa momentânea. 

Estava prestes a desistir quando dei a minha quinta e última sugestão: “Kumquat”! Ainda que intrigada, a palavra não foi descartada de imediato. É uma palavra inusitada que está fora de todo e qualquer contexto, que surpreende, mas ainda assim deixa água na boca.

Pensem bem nesta palavra: “Kumquat”. Podem repeti-la e sentir a forma como aproxima os lábios, enrola a língua e por fim abre-nos o céu da boca. Sempre pensei que era alguém, a falar depressa e a tentar dizer “como qual”. Mas não, é apenas o nome de um fruto perfumado e cítrico. Uma laranja japonesa. Ou melhor, uma laranja-anã japonesa. 

Das palavras dizemos sempre que o vento as leva. É verdade, mas esquecemo-nos que esse mesmo vento também nos trouxe muitas palavras, quer empurrando velas ou soprando as asas de um avião. O Kumquat foi uma dessas. Chegou e ficou por cá. Quer nos campos quer a decorar varandas arejadas e ensolaradas. Está longe de casa, mas ainda assim acostumou-se a estas costas e por aqui ficou. Como tudo o que é novo há sempre uma desconfiança inicial (normal quando não se conhece) mas o tempo transforma a distância do desconhecido numa proximidade familiar. Hoje podemos encontrá-lo em quase todas as lojas de jardinagem e bricolage e sobretudo nos bares e cocktails da moda, onde o mini está “In”! 

Como fruta de pequeno porte, o Kumquat esconde poucos segredos para além do sumo e das sementes. Perde apenas para o morango – o único fruto que tem as sementes do lado de fora. Se pusermos de lado o seu tamanho, tem quase tudo para passar por uma laranja. Cortando-a ao meio a cor, a casca e o aspeto do gomo são quase os mesmos. Porém, há que ter cuidado para que as aparências não nos enganem. Neste pequeno fruto a doçura está na casca e não nos gomos. Muito pouco se pode tirar do seu interior. Pode ser comido por inteiro (o tom mais alaranjado deixa antever o grau de maturação) uma vez que o suco é mínimo e sorvido rapidamente pelos recantos mais escondidos da boca. A semente, no entanto, tem o mesmo tamanho e gosto amargo que a sua prima maior. A evitar. 

Custa habituar-se ao Kumquat. Quer à palavra, quer ao fruto. Não faz sentido ter uma laranja daquele tamanho, que dá tanto trabalho e que se come por inteiro, só para enfeitar. Sem falar que vindo do Japão não posso descartar que fosse uma pancada do tipo meter um gato dentro de um frasco de vidro para o ver crescer de forma “transparente” ou de plantar um morango a tal ponto perfeito que se pode vender ao preço de um cristal de edição limitada da Swaroski. O Kumquat tem o seu espaço e o seu valor. Prova disso é que hoje encontramo-lo em todo o lado.

Ela escutou a minha longa explicação e vi a sua cara desenhar um sorriso. As virtudes do Kumquat, palavra e fruto, foram reconhecidas.  

Ela agradeceu o exercício, considerou “Paralelepípedo” uma escolha “estranha”, arrumou as suas coisas e, antes de bater com a porta perguntou-me onde era o mercado mais próximo. Para usar a palavra de consciência tranquila é necessário tomar conhecimento (e gosto) de causa.

O Kumquat agradece. 

PS: Para descobrir outras palavras trazidas pelo vento, visite a página do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (disponível em: https://voc.cplp.org/index.php) onde encontram todas as palavras que o vento trouxe para aqui e para o mundo. 

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Conto

Janela Aberta

O meu quarto foi sempre o meu maior espaço. É o espaço onde tudo me é familiar e onde mais ninguém sabe onde escondemos o que nos é mais valioso. Guardamos segredos no fundo das gavetas, por baixo de livros e cadernos antigos. Guardamos calendários, blocos e memórias de quem nos roubou o olhar. No meu quarto, jogo sempre em casa. 

Apesar de conhecer todos os recantos, a parte que mais me fascinava era a janela: a janela do meu quarto deu-me mundo. Eu sei que dava apenas para o descampado onde jogava à bola ao fim de semana, mas dessa janela eu sentia o pulso do bairro e até do país senão vejamos: conseguia ver quando é que havia fila para o supermercado pois as pessoas estavam à porta para entrar; sabia se era fim de semana pois o vizinho do prédio em frente estava a lavar o carro para depois se esticar e ler o Expresso durante o resto da manhã enquanto ouvia a rádio em alto e bom som e; também sabia se havia vento em Lisboa uma vez que os aviões sobrevoavam a minha casa de e para a pista 17 em vez de alongarem a costa do Espichel até ao Monte da Caparica. 

À minha janela chegavam os sons do primeiro centro comercial que abriu em Portugal. A música que entrava era bastante animada e claro está, decorei letra e ritmo. Quando uma vez a professora da 4ª classe me perguntou quem queria cantar alguma coisa antes de dar a aula por encerrada, cheguei-me à frente. A minha inocente consciência politica dos 9 anos não sabia o que era censura, mas assim que as primeiras notas saíram da minha garganta fiquei a conhecer pois a professora, que também vivia ao lado do dito centro comercial e ouvia a mesma música dia e noite, não era fã como eu e eis que salta da sua cadeira e pega na régua de madeira para me achatar as mãos. 

Virado para a minha janela li e estudei. Estudei, é certo, mas o meu olhar perdia-se para a rua e para o céu. Uma manhã perdi-me nas leituras e não fui ter com os meus amigos que foram à inauguração do hipermercado. Fiquei a ler em frente à janela. Enquanto lia sobre o meio-físico e social, vi as luzes das ambulâncias que foram socorrer quem levou com o telhado que ruíu com a chuva acumulada enquanto estreavam quando comprava pela primeira vez na grande superfície.    

Esta é a janela da qual me recordo mais, pois era minha. Tive outras que me davam vista para o mar, para a serra ou para o museu. Dormir embalado pelo som do Ondas do Mar foi um privilégio, se bem que o som do oceano era frequentemente abafado pelo vento. Ter a vista para a serra permitiu ver o sol a acordar atrás da montanha após largas noites a observar charcos de estrelas e ver como duas vidas podem ser condenadas numa noite. Já da janela para o museu o complicado era manter a concentração devido aos OVNI’s que por ali pairavam. Presságio ou não, anos depois esse mesmo museu foi promovido a ícone por albergar super-heróis.  

Ter um lugar à janela dá-nos uma perspetiva maior ao nosso redor. Seja no avião, autocarro expresso ou comboio, a janela tem qualquer coisa a mais (não é por acaso que um dos hashtags da CP é #Lugarajanela). A janela do comboio está sempre em movimento. Quando se podia abri-la era divertido pôr as cortinas e a cabeça de fora para sentir o vento na cara… tudo muito engraçado até aparecer um comboio em sentido inverso. Para se aproveitar a janela na linha da Beira Baixa ou do Douro há que ser estratégico: com sorte temos uma vista para o rio enquanto a linha serpenteia a água, caso contrário temos um lindo close-up do recorte da pedra. Da janela do avião há um momento muito particular: logo após a descolagem olhamos para fora para ver o que fica para trás. Eu penso que nos dá tempo para um último “até já” ou “adeus” consoante o caso. Do avião (provavelmente a minha janela de um meio de transporte preferida) deixamos de estar em pé de igualdade com a superficie. Temos perpetiva e a dimensão real das coisas. 

Há estas janelas onde somos espetadores passivos e vemos a vida a acontecer. São janelas que nos movem com elas. No entanto há janelas que requerem a nossa ação, são as janelas de oportunidade. Estas, infelizmente, nem sempre são visíveis e muitas vezes só nos apercebemos depois do momento passar. A diferença destas para as outras janelas é que não têm o vidro onde também podemos ver o nosso reflexo. Se passarmos por um um túnel de comboio ou na estrada ou se viajamos de noite de avião, temos a nossa cara a devolver-nos o olhar. Na janela de oportunidade tudo acontece, tudo se decide  e tudo se perde sem filtros. E uma vez fechada esta janela, não há forma de a voltar a abrir. 

Olhando por qualquer destas janelas, retenho a forma de como a paisagem mudou. O meu campo de futebol/basquetebol deu lugar (literalmente) a um parque de estacionamento. As folhas caem para que outras, mais fortes, brotem e cresçam dando continuidade à vida. Sempre me focalizei no que via lá fora, na distância, até que há pouco vi que o reflexo que a janela me devolve mudou e quase não reconheço aquela pessoa que tem os meus olhos. 

Engraçado, nunca tinha notado nisso. 

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IPERA

Atenção este texto contém spoilers! 

Faço uma declaração de interesses: um dos meus albúns preferidos de sempre é sem dúvida o “1° de Agosto Ao Vivo no RRV (Rock Rendez-Vous)” dos Xutos & Pontapés. Sejam vocês ouvintes da altura ou recém-chegados ao culto dos Xutos este é um album incontornável. O som leva-nos àquela noite de 1984 onde uma banda, já com 6 anos de estrada, registou um concerto que marcou um momento a caminho da consagração que chegaria mais tarde com os discos “Circo de Feras” e “88”. O álbum RRV contém aquela energia crua, eletrizante e bruta das músicas feitas para serem ouvidas com o som bem alto ou com auscultadores com redução de ruído que faz a música sobressair ainda mais. Canções incontornáveis como “O Homem do Leme”, “Se Me Amas”, “Conta-me Histórias” ou “Barcos Gregos” apareceram no RRV pela primeira vez, ainda antes de serem editadas num disco LP.

Ainda que este seja o meu disco preferido dos Xutos, há outras canções do seu repertório que me movem pelas mais diversas razões. Por exemplo não acredito que alguém consiga ouvir o “Dá um mergulho no mar” ou o “Ai se ele cai” sem que uma força sobre-humana o faça começar a saltar compulsivamente. A mesma homenagem pode ser feita à longa introdução do “N’América” onde o baixo, a guitarra elétrica e o saxofone discutem durante largos minutos sobre quem irá arriscar dar a palavra ao Tim; ou ainda ao incontornável “Para Ti Maria” que mediu o pulso ao desenvolvimento das estradas: se em 1988 demorávamos 9 horas para ir de Lisboa a Bragança, hoje em dia a mesma viagem faz-se em 4 horas e 45 minutos de carro (segundo o Google Maps) ou em menos de 1 hora de avião. E já que falamos em Marias, posso culminar com o “Avé Maria” que me era sempre dedicada em voz alta pelos colegas do Basquetebol que implicavam comigo por chegar atrasado aos treinos de Domingo porque vinha da catequese. 

Antes que me perca demasiado, queria apenas ressalvar que do reportório dos Xutos há uma música em particular que me sempre me intrigou. E isto vem de alguém que se intriga com coisas como o nome das ruas. Um pequeno parêntesis: desde cedo que me pergunto o que é que temos de fazer para dar o nome a uma rua. A primeira razão, está claro, é que já falecemos. A segunda é ter feito algo de absolutamente notável. Por essa razão, e muito antes do Wikipedia, costumava apontar os nomes das ruas e ia depois à biblioteca investigar quem eram aquelas pessoas.   

Mas voltando aos Xutos e à sua canção intrigante. Estou a falar de “As Torres da Cinciberlândia” que aparece no álbum “88”. Esta canção leva-me a um lugar místico e etéreo. Vivendo na margem sul a “Cinciberlândia” sempre me pareceu um lugar real ainda que distante. Eu, tal como narra a canção, passei largos anos à procura das ditas torres. Para mim eram torres que só poderiam servir um fim dúbio: comunicar com outros planetas (sim, a minha mente vai logo para ali). Afinal porque razão existiria um sítio tão secreto e avançado que não tivesse esse propósito? Torres que apenas brilham? As minhas suspeitas seria confirmadas alguns anos mais tarde quando apareceu a série “Ficheiros Secretos”. Se isto era possível nos EUA porque não em Portugal? Tudo bem que quando os extraterrestres visitam o nosso planeta passam primeiro pelos EUA (e isto está documentado de forma exaustiva), mas tendo Portugal ganho tantos Óscares de turismo, uma vista a este retângulo até que vale a pena! E claro está, não ajudou nada ver aquele documentário da RTP que falava dos “ficheiros secretos portugueses” e cujas amostras, que estavam guardadas no Museu Nacional de História Natural e de Ciência, desapareceram num incêndio de origem duvidosa. No fundo a minha imaginação levou-me a acreditar que as torres funcionavam como um portal para outro propósito que não a comunicação. 

Anos depois consegui enfim encontrar a Cinciberlândia, numa altura em que já tinham retirado as famosas torres que, afinal não eram mais do que antenas de comunicação. E sim, a Cinciberlândia servia outro fim que não a comunicação (Spoiler Alert): neste caso era a defesa atlântica uma vez que era um posto de comando da NATO de nome CINCIBERLANT. Hoje em dia tem outro nome: NCIA. Imagino que há uma série policial prestes a sair que relata as aventuras dos agentes secretos a trabalhar em Oeiras e a descansar entre a praia da Torre e o forte de S. Julião da Barra (fica aqui a sugestão: NCIA: Oeiras). Tudo isto para vos dizer que com esta descoberta perdi um pouco da ilusão que acompanhava a canção. Afinal o portal com que eu contava não era exatamente o esperado.

Mais tarde, a vida reservou-me o contato com um portal transdimensional. E com este sim, tive a possibilidade de o utilizar de forma frequente e fiquei a conhecer o seu nome: IPERA. Este portal está literalmente no ar (é um ponto GPS de navegação aérea) e serve tanto de entrada como de saída. Imaginem uma escadaria que nos levam a uma porta, só que a porta está a 10km de altura. Para quem viaja de avião entre a Europa e Cabo Verde este portal marca o início da descida e os 30 minutos que faltam para chegar. 

A minha primeira passagem por esse portal foi a medo. Afinal não sabia o que me esperava lá em baixo. Quando estamos no ar tudo é relativo e ao viajar deixamos tudo (incluindo os problemas) para trás. Ainda assim assustava-me ser o desconhecido e só ter como referência as histórias de quem já lá tinha estado e não me parecia possível serem todas coincidentes e positivas. Ao escutar o som dos reatores a retrairem e sentir o avião iniciar a sua descida entrei em modo “passageiro concentrado” e a pensar nos passos seguintes: haverá muita fila para o controle de passaporte, a bagagem vai chegar ou se o táxi vai demorar muito tempo. Estava eu a tentar organizar os meus pensamentos quando a senhora que está ao meu lado entrega-me o seu recém-nascido para os braços e diz-me para o segurar pois quer aproveitar o tempo que falta para ir à casa de banho. Foi aí que me dei conta: gente que confia os seus primogénitos a estranhos em aviões só podem ser seres humanos de coração aberto. 

O avião aterrou e durante os quatro anos seguintes pude comprovar que as histórias que tinha ouvido na verdade não faziam jus ao que vivenciei. IPERA tornou-se o meu ponto de chegada e de partida oficial (tecnicamente este ponto marca o inicio do espaço aéreo controlado por Cabo Verde). Nas viagens recorrentes tanto controlava a ansiedade para chegar a IPERA ou o certo aperto quando a deixava na viagem de sentido inverso. A viagem de avião sempre tinha entusiasmo, tanto ao início como ao fim. 

Passados quatro anos chegou a hora da partida definitiva. Esta iniciou-se em terra. Despedi-me no aeroporto com um abraço apertado, terno e adiado. De seguida enfrentei uma subida dolorosa até IPERA. Por alguma razão o avião voa praticamente em linha reta até sair lá em cima, como se fosse o fim de um túnel muito, muito comprido. Foi assim que cruzei o portal pela última vez.   

Como dizia o Tim, “já lá voltei e busquei o lugar” e há pouco tempo, a caminho do Atlântico Sul, passei ao lado do portal mas não desci para as ilhas da Morabeza. Ainda assim acordei uns minutos antes, servi um espumante e brindei à sua passagem.

IPERA: N20°21.91′ W20°41.98′

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Hotel Morpheu

Mens sana in corpore sano”, ou se preferirem: “Mente sã em corpo são”. Sempre me disseram que a mente e o corpo, quando sintonizados, permitem-nos desfrutar da vida e não há nada que nos detenha. É como não ter obstáculos e ter tudo, verdadeiramente tudo como possível.  

Sempre que a mente comanda sinto que o corpo tem mais hipóteses de sucesso. A mente sabe até onde o meu corpo pode ir, por isso alimenta e avisa-o de quando está a chegar ao limite. Ainda assim, ocasionalmente, o meu corpo consegue surpreender a mente com uma descarga de adrenalina que lhe permite um esforço adicional. 

A mente dá as pistas (vai descansar, já deu, não te esforces mais, etc.) e o corpo geralmente apanha-as todas. Geralmente porque o meu corpo por vezes nada para fora de pé: perde o comboio, age por instinto, fica até acabar a festa, arrisca mais, ousa um beijo ou acredita que certos dias não deveriam ter fim: a tarde passa a noite e da noite nasce a alvorada, resultante das palavras e de copos a mais, e de todos os outros que virão. Os momentos de euforia do corpo são pagos com as consequências do dia seguinte.  

Num dia perfeito tanto o meu corpo como a minha mente vão descansar à mesma hora. Eu desço até à cama ou outro recanto que me esteja destinado, fecho os olhos e durmo. A minha mente, no entanto, espera que eu adormeça para também ter o seu descanso. Porém para descansar parte para o Hotel Morpheu. Pelo nome até aparenta ser um hotel como os outros, mas é o sítio onde as mentes descansam. 

Imagino que quando adormeço a horas ela consegue chegar a tempo de fazer o check-in e escolher um quarto com boas condições. Sabem como funciona, não é? Um quarto a meio do edifício, não muito alto nem muito baixo, para poder escapar em caso de fogo e suficientemente longe do elevador para não ouvir quem chega demasiado tarde. 

Se o check-in é feito cedo ela consegue escolher onde vai ficar e tem o descanso merecido. Entra no quarto, senta-se na escrivaninha e coloca a bagagem que acumulei ao longo do dia no chão. Revê as avarias em que me meti, tenta dar sentido às caras com as quais me cruzei e toma notas para que me lembre do que correu bem (ou mal) para o dia seguinte. No final, e independentemente do balanço, termina com uma nota positiva. A bagagem é lavada, passada e arrumada para memória futura. O que não faz muito sentido é enviado de volta para onde os sonhos acontecem e onde têm uma segunda oportunidade de fazerem sentido. No final tudo é enviado para backup que é quando estou no sono profundo. A partir daqui ela tem o seu tempo: tanto pode tomar um banho relaxante, mimar-se no SPA ou discutir com as outras mentes o que os corpos lhes fazem. Trocam impressões, comparam notas e afinam estratégias. E aí têm o seu merecido descanso.    

Nos dias em que abuso e vou dormir tarde, a pobre dificilmente encontra o quarto que merece. Tem de se contentar com o está disponível, o que nem sempre é agradável. São os quartos que ficam ao lado da copa, das escadas, em frente ao elevador e de espaço reduzido. Como estes quartos são os que ficaram livres há pouco tempo, nem sempre estão limpos o que não proporciona um descanso merecido para o que resta da noite. Desta feita a bagagem do meu dia não é arrumada como deveria. Fica espalhada pelos compartimentos da minha cabeça, suja, sem nexo e à espera de que a mente a possa arrumar quando tiver tempo. Um dia assim ainda passa. Mas quando estes se tornam recorrentes a mente deixa de conseguir gerir. E assim a bagagem continua espalhada pelos recantos da mente sem ser cuidada e com o tempo o desarrumo transforma-se em dor. Infelizmente e apesar do nome, o hotel não fornece morfina, pelo que a mente tem de reduzir a confusão e desenrascar-se sozinha. 

Quero apenas realçar o quão importante é manter a consonância entre a mente e o corpo, na medida do possível. Depois de uma noite reparadora a mente e o corpo despertam simultaneamente. Ou melhor, deveriam.   

Isto tudo porque ontem a minha mente acordou antes do meu corpo (suponho que já devia ter dormido o suficiente). Pode-vos parecer estranho, mas lembro-me perfeitamente de estar a dormir, abrir os olhos e olhar à minha volta. O sol estava escondido e ela ainda dormia ao meu lado. Olhei à volta, vi o candeeiro do quarto e reconheci a minha roupa na cadeira ao longe. Continuei a observar o quarto e a ver como tudo me era familiar. Apenas os meus olhos se moviam. O corpo inerte como se estivesse anestesiado e eu confuso entre sonho e estar acordado. 

Pouco a pouco o meu corpo começou a acordar e a tomar consciência do que se estava a passar. Nesse momento senti o coração a tentar sair do meu peito tal era a força das suas batidas. Não sei como a mente deixou escapar esse momento, mas o coração bombava como louco para se assegurar que recuperava o atraso e que todos os órgãos estavam a trabalhar a 100%. Foi aí que a mente voltou a tomar o comando e baixou o ritmo do coração. Sussurro-lhe baixinho: – “Está tudo bem! Mas agora por favor devagar, senão amanhã não estamos aqui para contar a história…”.    

Ele acalmou e eu ainda aqui estou.

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A Guarda

Godofredo de Almeida, funcionário postal. Esta é a forma como me apresento ao longo dos anos. O primeiro é o meu nome e o segundo a minha profissão. Sim, carteiro e afins. Sempre fui atraído pela questão logística das coisas, sobretudo seguir o caminho que uma encomenda ou carta faz para ir de A a B em perfeita segurança, sem atrasos e em perfeito estado. Há quem prefira seguir aviões, comboios ou camiões TIR. Eu prefiro as cartas. Gosto de acompanhar o percurso de cada uma, ver por onde passam, onde se demoram e quando passam a fronteira e são livres para chegar ao seu destino. Sabiam que existem estações de fronteira para o correio? Não são aquelas estações de correio perto das fronteiras como em Vilar Formoso ou Elvas, mas estações de correio que recebem e tratam o correio internacional. Imagino que as cartas e as encomendas também têm de passar pelo mesmo que nós.

Cada entrega tem uma história. Eu, que já ando nisto há muito tempo, ainda me lembro de pessoas esperarem por mim à porta de casa a cada manhã e à mesma hora, perguntando se havia correio para elas. Na maior parte do tempo eram só as contas do costume, e esses envelopes, asseguro-vos, ninguém gosta de os receber. Ainda menos os que vinham com aviso de receção devido ao atraso no pagamento. Sempre me assustou ver a velocidade de como um sorriso pode desaparecer do rosto de quem as recebe. Por vezes sentia-me culpado por dar estas notícias, mas, como sempre me disseram a culpa é da mensagem e não de quem a entrega. 

Como podem imaginar o que mais gosto de entregar, ainda que sejam cada vez mais raras, são cartas. De pessoas para pessoas. Cartas que dizem a quem as recebe que alguém pensou nelas, sentou-se, escreveu, colocou num envelope, pôs um selo e despachou-a. Têm tanto de ridículas como de inesperadas. Acabam com a ansiedade de quem as espera e surpreendem quem não tinha ideia de que ainda há cartas que lhes são dirigidas. Estas entregas compensam as outras todas. Seja um vale postal, os folhetos com as ofertas da semana ou os cartões-postal de quem foi a algum lado – confesso que olho rapidamente para as imagens para ver se é um sito que vale a pena visitar. Ultimamente entrego muitas encomendas sorridentes. Penso que a própria embalagem antecipa a reação das pessoas que as recebem.   

Ser carteiro implica também guardar os segredos dos outros. Segredos selados em papel. Segredos que não devem e não podem ser revelados. Por vezes, dependendo de onde as pessoas vivem, também recolho as suas cartas. É uma ajuda para quem mora longe. Pedem sempre para ter cuidado com elas, pois são partes de si que partem para outros. 

Há pouco tempo, no final do Outono, enviaram-me para um sítio novo. Um sítio diferente de todos os outros onde tinha estado. Os outros sítios eram planos e conseguia pedalar o dia todo para fazer as entregas. Aqui não. Cada dia é uma aventura. As ruas são diferentes, com altos e baixos, a calçada é negra e a chamada “baixa” da cidade, na verdade é na parte mais alta, ou seja, é tudo ao contrário. Nesta cidade as pessoas não esperam o correio à porta de suas casas a cada dia. O facto de terem as quatro estações do ano no mesmo dia não convida a longos períodos na rua. O interior torna-se apelativo para se passar a maior parte do tempo. 

Antes de começar a trabalhar estudei o percurso para melhor distribuir o correio e otimizar o meu tempo. Notei que até uma certa hora as ruas estavam desertas, mas assim que as pessoas decidiam sair, saíam todas ao mesmo tempo, como se fosse combinado. Como as entregas não coincidiam com estas horas, nunca via ninguém no meu percurso e isto fazia-me confusão. Comecei então a magicar uma forma de trazer as pessoas para a rua a qualquer hora. Apenas tinha de as convencer a porem o pé um pouco cá fora. Ao final da segunda semana, e quando já estava a tomar o pulso da cidade, eis que me engano num cruzamento e sou colhido por uma carrinha. Nada de grave, mas por momentos perdi os sentidos e até vi fogo de artifício. Disseram-me que a culpa era dos estudantes que ao retirarem o sinal de sentido proibido tinham transformado a rua de sentido único numa rua com duplo sentido… 

Voltando às entregas, comecei de forma suave, aguardando o bom momento: em vez de colocar o correio na caixa, tocava à campainha para me apresentar. As pessoas, vencidas pela sua curiosidade, lá abriam a porta para dizer bom dia. Com o tempo ia perguntando uma ou outra questão: se viviam ali há muito tempo, se iam ao posto dos correios ou se podia deixar as encomendas à porta nos dias em que ninguém atendesse a porta, mas não conseguia ter nenhuma resposta. Pensei que seriam tímidas e sem vontade em falar delas mesmas. Então mudei de estratégia e passei a perguntar pela vizinhança. Usei a desculpa de não conhecer bem as ruas tentado com isso conhecer melhor as pessoas. Também aqui avançava a passo. Porém, pouco a pouco fui notando os hábitos e particularidades de algumas pessoas: o senhor da Rua C coleciona selos; a senhora da Rua M que tem os filhos a estudar em Faro e no Porto e que gosta de receber cartões-postais com vistas do mar ou de sítios exóticos; ou a senhora da Rua H tem uma iguana de estimação, e por isso uma vez por mês recebe uma encomenda com suplementos para o animal (deve ser por isto que a sua casa está sempre bem aquecida, seja de Verão ou Inverno).

Foi assim que me dei conta do que realmente se passava naquela comunidade: apesar de ninguém falar de si mesmo, os seus tiques começaram a sair ao de cima. Tendo isto em conta resolvi pôr um plano em marcha, ajudando cada um a ajudar outra pessoa. Basicamente era dar um empurrãozinho para que as pessoas da comunidade prestassem um pouco mais de atenção aos seus vizinhos.  

Sempre que chegava uma carta com um selo especial, mostrava-o “sem querer” ao senhor da Rua C. Perguntava-lhe se sabia onde morava a destinatária e ele, com um interesse particular, não se mostrava rogado e até me acompanhava à porta para se assegurar que a carta era bem entregue. Durante a entrega tentava mencionar o seu interesse pela filatelia. E a partir daqui estas duas pessoas deixavam de ser meros desconhecidos e passaram a ser vizinhos. 

O mesmo aconteceu para a senhora da Rua M. Cada postal que chegava ficava no cimo do monte das cartas a entregar e com a imagem de fora para se notar que era uma foto e não um envelope. Com o tempo as pessoas aperceberam-se de quem era a destinatária e começaram a enviar postais quando também viajavam. No início não os enviavam diretamente: mandavam para as suas próprias casas e entregavam os cartões ao seu regresso e em mão. Só mais tarde, com a confiança já estabelecida é que enviavam diretamente. 

Quanto à senhora da iguana, passei a palavra que para além dos suplementos que recebia o que o animal também gostava era de talos de brócolos e de couve-flor. No início ela ficou bastante confusa com os vizinhos passarem e deixarem talos de legumes que de outra forma seriam desperdiçados.Foi assim que comecei aqui, aguardando os bons momentos para adaptar o ambiente ao meu redor. Pensava que era o frio que impedia as pessoas de sair à rua, esse mesmo frio que conserva tudo o que é perecível. No entanto, o frio também convida ao convívio, à entreajuda, à introspeção e à criatividade dentro de portas. Nesta cidade o calor que não se encontra no exterior está presente no interior de quem te acolhe e te recebe de braços e coração aberto.

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Finisterra

Olá, como estás? Há já algum tempo que que não falamos e por isso pensei que seria uma boa altura para trocarmos dois dedos de conversa. Eu bem sei, o tempo passa e tu não dás por ele, mas na verdade eu sinto o tempo a passar cada momento, hora, mês e ano e vejo o que andas a fazer com o teu tempo e, para ser sincera, não estou impressionada.

Quer dizer, tenho-te dado tudo, literalmente tudo para que possas ter uma vida plena, mas o que tens para mim são só abusos e uma tal violência que me pergunto se realmente tens alguma consideração por mim. Podes não ter notado mas por mais forte que possa parecer, na verdade eu sou bastante frágil. 

Sabes o quão complexo é o meu corpo e por isso não gosto de o expor. Ele é a tua área de prazer e dele retiras tudo o que precisas para sobreviver. Mas tu abusas constante e conscientemente. Esqueces-te que a minha pele, tal como a tua, sente e vive tudo o que lhe andas a fazer. Ela absorve tudo: os golpes, os cortes e as queimaduras sem razão. O tempo tudo sara, mas os teus abusos são regulares e a cada agressão a regeneração é cada vez mais difícil. Ainda assim, ela guarda os meus segredos e separa o que lhe acontece à superfície do que está no seu interior. Ultimamente andas fã da exploração profunda, procurando arrebentar-me das entranhas, como se isso te desse um prazer supremo. Esqueces-te que a minha pele, como a tua, sangra com cortes profundos. A minha pele, como a tua demora a sarar e enquanto não sara, o meu sangue verte sobre a minha pele até que a crosta seque. Mas ainda assim o meu sangue alimenta e traz vida à minha pele. 

Noto que a minha pele descansa mais onde tu não estás. Ou quando há menos de ti. Lá ela segue o seu curso, descansa, cria, sara e segue em paz. Na verdade, o que realmente me desequilibra és tu. Tu, que não encontras um motivo para apreciar o que tenho e deixo para ti. Tu e essa sede insaciável. 

Pergunto-me se esta pele fosse tua, terias o mesmo descuido por ela? 

Por isso da minha parte, já chega. Alguém tem de mudar e tomar uma atitude e como não vais ser tu, serei eu a dar o passo. Não é a primeira vez que tenho de me separar de alguém para me poder curar e ficar melhor. Dei-te as pistas todas e nunca compreendeste o que para aí vinha. Agora vou começar a fazer aquilo que é melhor para mim.    

Fim, A Terra

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Este

Vivo num país que se vê perfeito no papel, mas que a realidade mostra partes feias.

Vivo num país onde tudo acontece e pouco muda.

Vivo num país que deixa partir os seus filhos e filhas para ganhar mundo e prefere mantê-los lá fora.  

Vivo num país que acredita piamente que “Santos da casa não fazem milagres”, ainda que o milagre seja regressar e ficar. 

Vivo num país liderado por pessoas que não veem para além da sua ambição, e que almejam um futuro construído sobre as costas dos mais frágeis.

Vivo num país onde a dor é surda e a culpa morre, ainda e sempre, solteira.

Vivo num país onde se venera o que vem do Leste, ainda que tudo o que aconteceu a Este seja passado.

Vivo num país que espera ter resultados diferentes, mas continua a fazer os mesmos erros. 

Vivo num país onde ter esperança é difícil e pensar o amanhã é um luxo.

Vivo num país onde se espera pelo futuro e não se corre para desenhá-lo. 

Vivo num país onde não se vive, apenas se sobrevive.

No entanto, 

Vivo numa cidade que me dá o mundo como vizinho, 

que te recebe de braços abertos, mas que não te abraça.

que é pequena no tamanho, mas enorme no coração das pessoas.

onde cada bairro conta uma história e cada esquina te transporta a um sítio diferente.

Eu, 

Vivo numa rua onde as pessoas dizem bom dia de janela a janela,

que se anima com os risos e nas brincadeiras das crianças do parque,

que respira vida a torto e a direito. 

Vivo nesta rua comprida, plena de sombras onde a cada noite contamos estrelas cadentes.  

Vivo aqui onde o futuro é possível, e onde a esperança renascida é confirmada a cada piscar de olhos da tua pequena criatura.