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Hotel Morpheu

Mens sana in corpore sano”, ou se preferirem: “Mente sã em corpo são”. Sempre me disseram que a mente e o corpo, quando sintonizados, permitem-nos desfrutar da vida e não há nada que nos detenha. É como não ter obstáculos e ter tudo, verdadeiramente tudo como possível.  

Sempre que a mente comanda sinto que o corpo tem mais hipóteses de sucesso. A mente sabe até onde o meu corpo pode ir, por isso alimenta e avisa-o de quando está a chegar ao limite. Ainda assim, ocasionalmente, o meu corpo consegue surpreender a mente com uma descarga de adrenalina que lhe permite um esforço adicional. 

A mente dá as pistas (vai descansar, já deu, não te esforces mais, etc.) e o corpo geralmente apanha-as todas. Geralmente porque o meu corpo por vezes nada para fora de pé: perde o comboio, age por instinto, fica até acabar a festa, arrisca mais, ousa um beijo ou acredita que certos dias não deveriam ter fim: a tarde passa a noite e da noite nasce a alvorada, resultante das palavras e de copos a mais, e de todos os outros que virão. Os momentos de euforia do corpo são pagos com as consequências do dia seguinte.  

Num dia perfeito tanto o meu corpo como a minha mente vão descansar à mesma hora. Eu desço até à cama ou outro recanto que me esteja destinado, fecho os olhos e durmo. A minha mente, no entanto, espera que eu adormeça para também ter o seu descanso. Porém para descansar parte para o Hotel Morpheu. Pelo nome até aparenta ser um hotel como os outros, mas é o sítio onde as mentes descansam. 

Imagino que quando adormeço a horas ela consegue chegar a tempo de fazer o check-in e escolher um quarto com boas condições. Sabem como funciona, não é? Um quarto a meio do edifício, não muito alto nem muito baixo, para poder escapar em caso de fogo e suficientemente longe do elevador para não ouvir quem chega demasiado tarde. 

Se o check-in é feito cedo ela consegue escolher onde vai ficar e tem o descanso merecido. Entra no quarto, senta-se na escrivaninha e coloca a bagagem que acumulei ao longo do dia no chão. Revê as avarias em que me meti, tenta dar sentido às caras com as quais me cruzei e toma notas para que me lembre do que correu bem (ou mal) para o dia seguinte. No final, e independentemente do balanço, termina com uma nota positiva. A bagagem é lavada, passada e arrumada para memória futura. O que não faz muito sentido é enviado de volta para onde os sonhos acontecem e onde têm uma segunda oportunidade de fazerem sentido. No final tudo é enviado para backup que é quando estou no sono profundo. A partir daqui ela tem o seu tempo: tanto pode tomar um banho relaxante, mimar-se no SPA ou discutir com as outras mentes o que os corpos lhes fazem. Trocam impressões, comparam notas e afinam estratégias. E aí têm o seu merecido descanso.    

Nos dias em que abuso e vou dormir tarde, a pobre dificilmente encontra o quarto que merece. Tem de se contentar com o está disponível, o que nem sempre é agradável. São os quartos que ficam ao lado da copa, das escadas, em frente ao elevador e de espaço reduzido. Como estes quartos são os que ficaram livres há pouco tempo, nem sempre estão limpos o que não proporciona um descanso merecido para o que resta da noite. Desta feita a bagagem do meu dia não é arrumada como deveria. Fica espalhada pelos compartimentos da minha cabeça, suja, sem nexo e à espera de que a mente a possa arrumar quando tiver tempo. Um dia assim ainda passa. Mas quando estes se tornam recorrentes a mente deixa de conseguir gerir. E assim a bagagem continua espalhada pelos recantos da mente sem ser cuidada e com o tempo o desarrumo transforma-se em dor. Infelizmente e apesar do nome, o hotel não fornece morfina, pelo que a mente tem de reduzir a confusão e desenrascar-se sozinha. 

Quero apenas realçar o quão importante é manter a consonância entre a mente e o corpo, na medida do possível. Depois de uma noite reparadora a mente e o corpo despertam simultaneamente. Ou melhor, deveriam.   

Isto tudo porque ontem a minha mente acordou antes do meu corpo (suponho que já devia ter dormido o suficiente). Pode-vos parecer estranho, mas lembro-me perfeitamente de estar a dormir, abrir os olhos e olhar à minha volta. O sol estava escondido e ela ainda dormia ao meu lado. Olhei à volta, vi o candeeiro do quarto e reconheci a minha roupa na cadeira ao longe. Continuei a observar o quarto e a ver como tudo me era familiar. Apenas os meus olhos se moviam. O corpo inerte como se estivesse anestesiado e eu confuso entre sonho e estar acordado. 

Pouco a pouco o meu corpo começou a acordar e a tomar consciência do que se estava a passar. Nesse momento senti o coração a tentar sair do meu peito tal era a força das suas batidas. Não sei como a mente deixou escapar esse momento, mas o coração bombava como louco para se assegurar que recuperava o atraso e que todos os órgãos estavam a trabalhar a 100%. Foi aí que a mente voltou a tomar o comando e baixou o ritmo do coração. Sussurro-lhe baixinho: – “Está tudo bem! Mas agora por favor devagar, senão amanhã não estamos aqui para contar a história…”.    

Ele acalmou e eu ainda aqui estou.

Por Dário Muhamudo

Nasceu em Moçambique e passados 7 meses foi convidado a sair. Chega a Portugal depois de 10 horas de avião, uma experiência que o marcou e desde então vive com os olhos virados para o céu. No Seixal arriscou um pouco de teatro como ator e dramaturgo. 18 anos depois chega à Guarda, onde inicia a sua formação académica. Descobre a essência e a paixão pelas coisas originais e recomeça a escrever como jornalista. Sai de Portugal para continuar os estudos em Inglaterra e combina os seus interesses maiores: comunicação e economia. A vida trocou-lhe as voltas e continuou fora de Portugal. Gosta de viajar (especialmente para Itália), de vulcões, da imensidão do oceano e da Eurovisão. Cumpriu um dos seus maiores sonhos quando tirou o brevet de piloto. É Economista dos Media, tenta ser diplomata e acredita no poder de uma Serenata. Atualmente pode ser encontrado em Genebra, a cidade a que chama de casa.

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