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Os Bichos

Um bicho apresentou-se e disse-me que veio ao mundo para me comer os olhos. Pedi-lhe que me deixasse ver o mundo antes de fazer da minha vista o seu repasto, mas a travessia antecipou a travessura, aguçou-lhe a vontade de comer o que vi. Encheu a boca com o meu mundo, podia imaginá-lo a inchar a cada dentada. Que fartura. Nem tive tempo de o ver, não sobram olhos para a terra comer. Não saberia descrever – quanto mais desenhar – o bicho que veio comer os olhos que a terra já não vai provar.

Os problemas, como os bichos, multiplicam-se: e se agora me esqueço de tudo o que vi? E como verei, agora, outros bichos que me queiram engolir outros pedaços? 

E se vier um bicho que me coma os ouvidos, como poderei ouvir chegar outros bichos que me venham devorar outros sentidos? 

E se vier um bicho que me coma o nariz e eu não der pelo fedor da decomposição de outros bocados meus? 

E se vier um bicho que me coma a ponta dos dedos, que ouse lambuzar-se com o meu tato, que outra forma me resta para dar pelos buracos que a bicheza se atrever a abrir em mim? 

E se vier um bicho que me coma o coração, onde fica a vossa casa depois da digestão? 

E se vier um bicho que me coma o medo? Já terá vindo outro comer a carne sobre a qual me sento. Se quem tem cu tem medo, só quem não tem cu pode não ter medo.

E se vier um bicho que me coma a vontade? Chamo-lhe Blimunda.

E se vier um bicho que me coma o caminho, como saberei onde pôr os pés? E se vier um bicho que me coma os pés, por que caminho me arrastarei?

E se vier um bicho que me coma a voz? Como direi “que chatice, não ser mais nada”?

E se vier um bicho que me coma a memória? Esqueç

E se os bichos não deixarem nada, serei bicho como eles? 

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a menina do vestido bonito

O dia em que a ouvi ser apelidada “A Menina do Vestido Bonito” não foi o dia mais feliz da sua vida, mas foi um dos primeiros em que lhe ouvi uma gargalhada sem rebentos de dor. Era Verão e ela plantava flores na roupa, um vestido que a cobria até pouco abaixo dos joelhos bronzeados; no rosto, levava um sorriso germinado como se estivesse a reaprender a sorrir como gente. Era lindo, de facto, o jardim que levava posto – as flores cor-de-rosa, laranja, amarelo e até azul tinham tanto a dizer que se atropelavam no falatório, mas tudo bem, o caos também pode ser bonito.


Mesmo não falando, todos sabiam da busca incessante a que ela se havia dedicado nos meses anteriores. Acordada, a menina do vestido bonito passava as noites à procura de si mesma – atrás da cómoda, debaixo da cama, entre as roupas penduradas no roupeiro, etc. – não estava no seu sem fim de coisas que, por muitas que fossem, não havia meio de lhe encherem a casa . Quando se olhava ao espelho, via uma sombra e, quando via a sua sombra, não se via a si. Tocava-lhe para perceber se era ela que estava a ser projetada contra a parede, se a falta de luz tinha feito dela a própria sombra, mas não se sentia do outro lado do toque. Não se sentia ninguém, presa num trânsito mental, à espera da sua vez de ser. Trocou a noite pelo dia, sem se aperceber. Era na cama que se escondia nas longas horas do sol e era à noite que saia do seu lugar confortável e retomava a sua busca – quem sabe, evitava a luz para evitar a sombra.


Não se lembrava de si, mas o seu problema não era de memória. Estava doente do tipo de tristeza que se aloja no coração e por aí fica a libertar veneno continuamente, de espinhos afundados no existir, até que ele deixe de o ser. Não sabia o que fazer ao corpo que sobrava de si, nem em que momento exato lhe tinham assaltado o templo e roubado as janelas, as portas e todas as saídas.


Ainda que triste, procurou por si nesse corpo que tinha deixado para trás – tinha todas as camadas que precisava para funcionar e, acima de tudo, as mãos e os músculos intactos. Pensou que, se pusesse a sua maquinaria interior a trabalhar, talvez ganhasse vida por dentro e, desse modo, aos poucos, foi conquistando o dia. Começou a pedir à noite para vir mais tarde, porque precisava da luz do sol para ver onde punha as mãos enquanto as sujava com argila e construía pequenas peças de cerâmica. Tinha medo de se estar a iludir com a dedicação mas, com a primeira peça que terminou, não quis acreditar no que via. Naquela pequena obra, a menina do vestido bonito viu-se a si – ou parte de si. Olhou de todos os ângulos, viu como era opaca, forte e impenetrável, tinha uma beleza simples mas que impunha respeito e, acima de tudo, estava completa.


Foi como se desenterrasse o mais valioso dos tesouros, a menina não parou mais de explorar o funcionar da sua máquina. Ouvia-se pelo dia o seu motor interno a trabalhar, como se se esforçasse para iluminar uma cidade inteira – e era isso mesmo o que fazia, ladeava as estradas suas com os mais altos candeeiros, para não deixar qualquer canto escuro. No fundo, é assim que se combatem sombras. Aos poucos, com o malabarismo gracioso entre a argila e a água, descobria novos pedaços de si – alguns deles, já se tinha esquecido que existiam, outros estavam à espera por nascer.


Juntou cada uma das suas obras bem perto do seu coração, amontoadas num pequeno caos emocional que era tão bonito e tão fértil, que não deixou de aumentar. Assim, a menina cresceu tanto que estranhava tudo – a cama, a roupa, a casa, a chuva, a terra –, tudo lhe parecia pequeno e estreito. À medida que se encontrava, também as pessoas pareciam vê-la pela primeira vez. Tornou-se tão grande e visível, que era maior que o mundo – já nem a roupa lhe servia. Com tanta cerâmica para consertar o coração, não tinha mangas que lhe passassem nos braços, golas que lhe passassem na cabeça, nem botas que lhe assentassem nos pés. Decidiu-se, então, a fazer a sua própria roupa e começou por plantar um jardim. Estava ainda na fisioterapia do riso quando o vestiu pela primeira vez e foi nesse dia que lhe chamaram aquilo pelo que a conhecemos hoje. A menina do vestido bonito, cujo nome não deve ser confundido por fraqueza. O vestido tem flores mas também tem raízes e espinhos – para que não se esqueçam que não se pode partir um coração coberto de flores.


Já não tem dívidas de amor, nem medo das sombras – de tal forma, que pintou as paredes de amarelo para as ver melhor – assim não se perdia no escuro. Diziam-lhe que não era bom dormir com cores frenéticas nas paredes, que não combinavam com a mobília, que era demasiado para a vista, “experimenta um bege”, diziam. Mas ela não se importava. Como ela tinha aprendido, também o caos podia ser bonito.

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Fogo de Artifício

Aquele auge no qual não sobra espaço para o vazio. Eu sou esse auge.

Passei anos da minha vida sem atear fogo com medo do incêndio e por isso nunca me dei ao prazer de ver tudo a arder. Anos e anos a evitar o confronto, a prevenir a discussão, a dar uma distância de segurança. Eu era a distância de segurança entre o fogo e o rastilho. 

Cansei.

Os quarenta trouxeram-me a crise que eu nunca achei real. E nem quarenta tenho. Como será quando lá estiver? Nem quero imaginar. Porque o filtro que outrora me era orgânico dissipou e da minha boca foge o fogo que se vê no céu.

Entre um e outro estava eu, acalmando as feras, impedindo rugidos e certamente sem qualquer tipo de disparo. E uns e outros viveram felizes para sempre. Ou até que eu, eu mesma, conseguisse segurar o fogo.

O que nunca, mas mesmo nunca, me apercebi é que “cão que ladra não morde” mas os latidos acabaram sim por morder, mas só a mim, de tanto bater no meu tímpano. E como vozes de burro não chegam ao céu, elas ficaram apenas comigo. A burra mor que nunca, mas mesmo nunca deixou atear fogo. 

E quando a própria virou cinza, esperei que a distância de segurança que eu era, já inexistente virasse explosão. Como o fogo e gasolina. Ao invés virou: Fogo de Artifício.

Como pude eu perder tal espetáculo? 

De hora avante, vou deixar o fogo atear e esperar por espetáculo semelhante! 

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Poema

existe um poema 

que não é meu

nem teu

podia ser nosso

existe um poema

que se esqueceu do nome

e não sabe bem onde

esqueceu os seus versos

existe um poema

com tacto e gosto

literalmente meu

vagamente teu

existe esse mesmo poema

de tinta sem cor

de amor preenchido 

com vida nos versos

existe um poema

aquele poema

que aconteceu, existe 

e ninguém o escreveu

existe um poema 

dois corações

emoções mais que muitas

existimos

existe este poema 

um poema

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O Vazio

Ela perdeu um amante e esse era o vazio mais difícil de preencher.

Margarida passou uma década a trabalhar. Não tinha marido, nem filhos e estava feliz com isso. Era sua ambição ter uma carreira. Estava decidida e nada a abalava. 

Não a abalou as vezes que lhe perguntaram porque não tinha filhos, nem mesmo as que lhe disseram “Vais-te arrepender se não os tiveres”. Nada de abalos por ouvir que não era madura o suficiente por não ser mãe, ou mesmo quando as perguntas eram: “E marido? Para quando?”. 

Tudo o que interessava a Margarida era a carreira. Então, de facto, era abalada quando não lhe davam o valor que merecia. Quando a ultrapassavam, ou se por acaso levavam os louros que lhe pertenciam. Aí sim, Margarida virava fera. Não era para menos. Tinha 26 anos, nunca reprovou um ano, fez licenciatura, mestrado, doutoramento, recebeu bolsas de mérito e passou todos os segundos da sua vida dedicados ao laboratório.

Pesquisou para aprender. Defendeu uma tese e uma outra pesquisa, defendeu ainda outra tese e uma nova pesquisa só não se soube defender. 

Durante uma carreira exemplar foi dando o seu trabalho, ideias, suor, lágrimas e até as suas alegrias em prol da ciência. Achava desde de muito nova que seria uma cientista reconhecida. Queria de facto ajudar o mundo com as suas descobertas. Certo, que queria uma carreira, mas também a queria com significado: ajudar o mundo. 

Aos 26 continuou de bolsa em bolsa desta vez por sistema, investigação em investigação. Sentia-se muito sozinha, porém, a certa altura, um colega de trabalho aproximou-se e passaram a partilhar os seus dias.

Dos dias, passaram a partilhar trabalho, ideias e sucessos. Tudo parecia perfeito. Uma dupla infalível, um casamento perfeito: dois cientistas em prol da ciência com carreiras em ascensão. 

A dado momento, e porque não eram só as carreiras que cresciam, também as partilhas aumentaram. Os dias de Margarida e Diogo passaram a ser mais do que trabalho, ainda que Margarida se mantivesse fiel a si mesma: nada de amor/ casamento e muito menos filhos. 

10 anos passaram num abrir e fechar de olhos. E aos 36 Margarida percebeu que Diogo desapareceu de um dia para outro, levando com ele os louros de todo um trabalho. 10 anos dos quais, 8 juntos, voaram com Diogo. 

Ela, com 36 anos, certa das suas decisões, certa de que faria tudo de novo estava num buraco do qual não via fundo. É claro que não faltaram dedos a apontar: tivesses filhos estarias feliz, estás velha para arranjar marido agora, coitada da triste Margarida que escolheu ser infeliz a ter família. 

Enganam-se as más línguas. Margarida estava sim no meio do vazio, porque perdeu 10 anos, trabalho, embora não de conhecimento, um amigo, ou pelo menos assim compreendia e um amante. Sentia-se pior ainda porque era o vazio do amante que mais difícil estava de preencher. 

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A Fome

Sempre vivi a sair da mesa de prato meio vazio. É uma falta de educação, eu sei, sou um mal educado, na verdade. Mas tenho bom coração, prometo, e tudo isto teve um bom motivo para começar.


Comecei esta mania aos dez anos, quando ainda levava para a escola “tupperwares” de um plástico já bronzeado, numa lancheira azul e pesada que dividia com o meu irmão. Num desses dias, chamaram-me gordo e eu decidi que estava cheio para todo o sempre. Naquela altura, aquecia a comida em microondas comunitários numa sala que cheirava a sopa, onde putos escondiam os macacos que tiravam do nariz debaixo da mesa, e contínuas corriam atrás deles com cordas vocais afiadas e já cansadas. Gritavam porque havia puré de batata na parede e não no estômago de alguma criança; gritavam porque havia uma maçã escondida por baixo do lavatório, já em fase cinco de degradação, gritavam porque os tênis se colavam ao chão, pelas mãos da magia de algum resto de almoço entornado há três dias; e, comigo, gritavam porque não queria comer.


Chamaram-me gordo um dia e eu decidi que queria deixar de ver em tudo uma forma de me encher. Queria deixar de esconder o coração na dispensa, e de partir as jarras de vidro onde guardava as bolachas porque não podia esperar nem mais um segundo para matar aquele animal que tinha dentro. A verdade é que saía caro: se cada jarra custasse dois euros no IKEA, e se eu tivesse um destes ataques duas vezes por dia, eram quatro euros diários que saíam em jarras e uns quantos quilos de gordura que entravam. No fim das contas, o fluxo de caixa não compensava o prejuízo, dado que a carne que acumulava não tinha valor no mercado. De maneira que tirei das bolachas o poder de me encher, e os meus maxilares deixaram de ser músculo do coração.
A minha sorte foi ter sempre um parceiro que comesse aquilo que eu deixava para trás. Em todas as fases da minha vida – na escola, na faculdade ou no trabalho -, encontrei sempre alguém que terminasse a refeição por mim. Assim, quando chegava a meio, começava a fazer o frete e ele já sabia. Era só passar-lhe o termo e o nosso trato estava selado. Levava para casa um tupperware vazio, e em mim deixava um espaço por encher que faria de tudo para que não me voltassem a magoar.


Queria deixar metade da comida no prato, até eu ser metade do que era. E, quando cheguei a esse ponto, quis deixar três quartos. Queria deixar de comer até desaparecer, ficar vazio por dentro para que não tivessem carne para atacar, quando se virassem para mim com palavras pontiagudas.


O que eu não sabia, era que alimentava um monstro maior que aqueles miúdos do refeitório que faziam guerras de esparregado sem dó nem piedade. Por cada prato que deixava com comida, era uma refeição completa com que alimentava o bicho da fome que crescia em mim. Não me apercebia que o fazia, mas foi assim que permiti que tomasse posse de todo o meu tamanho, como uma nova camada interior, que começava a agir em meu nome.


Quando eu falava, era a fome que falava por mim e, quando cantava, era ela a gritar, a pedir que a alimentassem. Fiquei sem saber como a matar. Não podia voltar a comer os cinco croquetes que me enviava a minha mãe, ou a terminar um bife sozinho sem o partilhar. Não tinha em mim a força para encostar o garfo à faca no fim de uma refeição, sem ter partilhado o prato com a solidariedade de algum companheiro. Não, não voltaria a terminar uma refeição, por isso, tudo o que fiz foi ignorar. Acostumei-me aos roncos do meu estômago – passei a falar com eles e, para minha surpresa, não eram má companhia.


Acomodei o vazio dentro de mim e a fome nunca passou. Na verdade, é ela que vos escreve agora. É também ela que me faz escrever.

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A mãe não teme

Nasceu perfeita. Parto fácil, hora curta e uma mãe forte o suficiente para fazer crescer no ventre tantos mais filhos quantos vierem. Contaram-lhe os dedos das mãos e dos pés: um dedo, dois dedos, mais um dedo e outro dedo e outro e outro e conta certa. Os três cabelos que irrompiam do topo da cabeça prometiam uma cabeleira forte e lustrosa. Parecia tão bonita. O rosto avermelhado visto num ápice parecia resolver-se com o primeiro banho, mas não era sangue, era barro. 

Nasceu perfeita, com um rosto de barro. A pele não era pele. Os ossos ainda moles do rosto – e, quem sabe, a carne – cobriam-se de terra alaranjada e quente, incandescente ou em brasa, como a que se vê nos postais de lugares longínquos, abafados e pintados a cores que parecem nem existir. 

A mãe acolheu-a nos braços com o mesmo orgulho com que qualquer oleiro ergue as obras que lhe saem das mãos. Fê-la de barro sem intenção, mas fê-la tão bonita. A mãe era a mais calma da sala que, em chamas, lhe gritava todos os inconvenientes:

O banho desfez a expressão da recém nascida. 

A mãe não teme, molda de novo com o coração na ponta dos dedos.

A criança não chorou enquanto nascia. 

A mãe não teme, compreende que não chora porque o choro desfaz. E quando chorar, pode esculpir-se tal como era de novo. A expressão pode dispensar a lágrima, a menina pode cravá-la no rosto sem a chorar, pode crescer capaz de chorar para dentro sem corroer a carne que se cobre de barro. 

Alguém grita E A CHUVA?

A mãe não teme, promete ser abrigo enquanto viver – e depois. Ser mãe é ser abrigo e será mãe para sempre. 

Mas a água ameaça o barro mais sólido.

A mãe não teme, o que a água molha o calor enxuga e o sol endurece o barro. À falta de abrigo ou calor, há verniz que repele a água. Pode ser o que quiser, até casco de barco, se encher o peito de ar.

Vai viver com medo.

A mãe não teme, não conhece quem viva sem ele.

A menina temeu a água como quem teme a morte, com medo que a pele que não o era se deixasse desfazer até ruir ossos abaixo. A mãe não temeu. A menina aprendeu a moldar-se de novo depois do chuveiro e da chuva. Perdeu o medo de se esquecer como era antes. Deixou-se molhar com e sem intenção, soube envernizar-se quando o vento fintou o abrigo, soube moldar-se de novo sempre que se deixou desfazer e aprendeu a esculpir apenas as rugas que a desenham também por dentro. Todas contam uma história e é ela quem as escreve. 

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IPERA

Atenção este texto contém spoilers! 

Faço uma declaração de interesses: um dos meus albúns preferidos de sempre é sem dúvida o “1° de Agosto Ao Vivo no RRV (Rock Rendez-Vous)” dos Xutos & Pontapés. Sejam vocês ouvintes da altura ou recém-chegados ao culto dos Xutos este é um album incontornável. O som leva-nos àquela noite de 1984 onde uma banda, já com 6 anos de estrada, registou um concerto que marcou um momento a caminho da consagração que chegaria mais tarde com os discos “Circo de Feras” e “88”. O álbum RRV contém aquela energia crua, eletrizante e bruta das músicas feitas para serem ouvidas com o som bem alto ou com auscultadores com redução de ruído que faz a música sobressair ainda mais. Canções incontornáveis como “O Homem do Leme”, “Se Me Amas”, “Conta-me Histórias” ou “Barcos Gregos” apareceram no RRV pela primeira vez, ainda antes de serem editadas num disco LP.

Ainda que este seja o meu disco preferido dos Xutos, há outras canções do seu repertório que me movem pelas mais diversas razões. Por exemplo não acredito que alguém consiga ouvir o “Dá um mergulho no mar” ou o “Ai se ele cai” sem que uma força sobre-humana o faça começar a saltar compulsivamente. A mesma homenagem pode ser feita à longa introdução do “N’América” onde o baixo, a guitarra elétrica e o saxofone discutem durante largos minutos sobre quem irá arriscar dar a palavra ao Tim; ou ainda ao incontornável “Para Ti Maria” que mediu o pulso ao desenvolvimento das estradas: se em 1988 demorávamos 9 horas para ir de Lisboa a Bragança, hoje em dia a mesma viagem faz-se em 4 horas e 45 minutos de carro (segundo o Google Maps) ou em menos de 1 hora de avião. E já que falamos em Marias, posso culminar com o “Avé Maria” que me era sempre dedicada em voz alta pelos colegas do Basquetebol que implicavam comigo por chegar atrasado aos treinos de Domingo porque vinha da catequese. 

Antes que me perca demasiado, queria apenas ressalvar que do reportório dos Xutos há uma música em particular que me sempre me intrigou. E isto vem de alguém que se intriga com coisas como o nome das ruas. Um pequeno parêntesis: desde cedo que me pergunto o que é que temos de fazer para dar o nome a uma rua. A primeira razão, está claro, é que já falecemos. A segunda é ter feito algo de absolutamente notável. Por essa razão, e muito antes do Wikipedia, costumava apontar os nomes das ruas e ia depois à biblioteca investigar quem eram aquelas pessoas.   

Mas voltando aos Xutos e à sua canção intrigante. Estou a falar de “As Torres da Cinciberlândia” que aparece no álbum “88”. Esta canção leva-me a um lugar místico e etéreo. Vivendo na margem sul a “Cinciberlândia” sempre me pareceu um lugar real ainda que distante. Eu, tal como narra a canção, passei largos anos à procura das ditas torres. Para mim eram torres que só poderiam servir um fim dúbio: comunicar com outros planetas (sim, a minha mente vai logo para ali). Afinal porque razão existiria um sítio tão secreto e avançado que não tivesse esse propósito? Torres que apenas brilham? As minhas suspeitas seria confirmadas alguns anos mais tarde quando apareceu a série “Ficheiros Secretos”. Se isto era possível nos EUA porque não em Portugal? Tudo bem que quando os extraterrestres visitam o nosso planeta passam primeiro pelos EUA (e isto está documentado de forma exaustiva), mas tendo Portugal ganho tantos Óscares de turismo, uma vista a este retângulo até que vale a pena! E claro está, não ajudou nada ver aquele documentário da RTP que falava dos “ficheiros secretos portugueses” e cujas amostras, que estavam guardadas no Museu Nacional de História Natural e de Ciência, desapareceram num incêndio de origem duvidosa. No fundo a minha imaginação levou-me a acreditar que as torres funcionavam como um portal para outro propósito que não a comunicação. 

Anos depois consegui enfim encontrar a Cinciberlândia, numa altura em que já tinham retirado as famosas torres que, afinal não eram mais do que antenas de comunicação. E sim, a Cinciberlândia servia outro fim que não a comunicação (Spoiler Alert): neste caso era a defesa atlântica uma vez que era um posto de comando da NATO de nome CINCIBERLANT. Hoje em dia tem outro nome: NCIA. Imagino que há uma série policial prestes a sair que relata as aventuras dos agentes secretos a trabalhar em Oeiras e a descansar entre a praia da Torre e o forte de S. Julião da Barra (fica aqui a sugestão: NCIA: Oeiras). Tudo isto para vos dizer que com esta descoberta perdi um pouco da ilusão que acompanhava a canção. Afinal o portal com que eu contava não era exatamente o esperado.

Mais tarde, a vida reservou-me o contato com um portal transdimensional. E com este sim, tive a possibilidade de o utilizar de forma frequente e fiquei a conhecer o seu nome: IPERA. Este portal está literalmente no ar (é um ponto GPS de navegação aérea) e serve tanto de entrada como de saída. Imaginem uma escadaria que nos levam a uma porta, só que a porta está a 10km de altura. Para quem viaja de avião entre a Europa e Cabo Verde este portal marca o início da descida e os 30 minutos que faltam para chegar. 

A minha primeira passagem por esse portal foi a medo. Afinal não sabia o que me esperava lá em baixo. Quando estamos no ar tudo é relativo e ao viajar deixamos tudo (incluindo os problemas) para trás. Ainda assim assustava-me ser o desconhecido e só ter como referência as histórias de quem já lá tinha estado e não me parecia possível serem todas coincidentes e positivas. Ao escutar o som dos reatores a retrairem e sentir o avião iniciar a sua descida entrei em modo “passageiro concentrado” e a pensar nos passos seguintes: haverá muita fila para o controle de passaporte, a bagagem vai chegar ou se o táxi vai demorar muito tempo. Estava eu a tentar organizar os meus pensamentos quando a senhora que está ao meu lado entrega-me o seu recém-nascido para os braços e diz-me para o segurar pois quer aproveitar o tempo que falta para ir à casa de banho. Foi aí que me dei conta: gente que confia os seus primogénitos a estranhos em aviões só podem ser seres humanos de coração aberto. 

O avião aterrou e durante os quatro anos seguintes pude comprovar que as histórias que tinha ouvido na verdade não faziam jus ao que vivenciei. IPERA tornou-se o meu ponto de chegada e de partida oficial (tecnicamente este ponto marca o inicio do espaço aéreo controlado por Cabo Verde). Nas viagens recorrentes tanto controlava a ansiedade para chegar a IPERA ou o certo aperto quando a deixava na viagem de sentido inverso. A viagem de avião sempre tinha entusiasmo, tanto ao início como ao fim. 

Passados quatro anos chegou a hora da partida definitiva. Esta iniciou-se em terra. Despedi-me no aeroporto com um abraço apertado, terno e adiado. De seguida enfrentei uma subida dolorosa até IPERA. Por alguma razão o avião voa praticamente em linha reta até sair lá em cima, como se fosse o fim de um túnel muito, muito comprido. Foi assim que cruzei o portal pela última vez.   

Como dizia o Tim, “já lá voltei e busquei o lugar” e há pouco tempo, a caminho do Atlântico Sul, passei ao lado do portal mas não desci para as ilhas da Morabeza. Ainda assim acordei uns minutos antes, servi um espumante e brindei à sua passagem.

IPERA: N20°21.91′ W20°41.98′

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O homem que perdeu o riso

Vá-se lá perceber porque já não ri. Ser incapaz de o fazer afoga-lhe os olhos. A miséria do homem que esqueceu como soa a própria gargalhada não se deixa medir. Passa horas ao espelho a ensaiar um riso que as entranhas já não sabem cantar nem deixam nascer. A incapacidade de rir gerou uma especial alergia ao riso alheio. Que asco, que inveja, que revolta. Não se riam sem ele. 

Reivindica as rugas do riso porque a idade já as merece e nunca confiou num rosto velho sem elas. Acredita que a tristeza do homem se mede pelas rugas de riso que não tem. Como se pode confiar em alguém que não ri? Rir é dar-se e quem não se dá nem a si se tem. Sempre ouviu: cuidado com os amargos. E mesmo com cautela, amargou. Deixou secar o riso e parece não sobrar mais nada. Até quem chora de felicidade trabalha as rugas do riso, mas o homem não sabe chorar assim. Rugas só na testa e no nariz, nasceram do esforço de arrancar um riso das vísceras como quem arranca raízes da terra. 

Há arranjos de tanta espécie: esvaziam-se papos, coxas e barrigas, enchem-se rugas, olheiras, lábios, seios e egos, mas não há um médico que implante gargalhadas. 

Procurou o riso por todo o lado. Foi aos espetáculos de comédia mais concorridos, nem uma gargalhada. Só foi capaz de cuspir uma bolha de ar quase engasgado, como um carro que nunca pega à primeira. Que martírio. Ofereceram-lhe “aquilo que faz rir” e até isso o fez chorar.

Nunca soube apreciar massagens por ter cócegas até atrás do joelho. Investiu uma hora no massagista à procura do riso nervoso fruto da cócega acidental. Um suplício. Uma sessão de tortura e aflição sem graça. Tentou aulas de teatro, para aprender a rir mesmo sem vontade, como os atores mais convincentes. Achou tudo aquilo sinistro, um esforço sadomasoquista que doía mais do que aliviava. 

Espalhou cartazes a dar o riso como desaparecido. Tentou descrever como soava a gargalhada numa prosa curta e confusa, juntou uma fotografia sua de quando ainda sabia sorrir, do ano de mil novecentos e risos. Por fim, o número de telefone. “Se o ouvir, LIGUE JÁ.” Ninguém ligou. Faltaria recompensa aliciante? Mesmo que ouvissem algures o riso perdido, como teriam a certeza que era dele? Como poderiam apanhá-lo para o devolver? Como voltaria a guardar-se no corpo do homem? 

Chora o riso que perdeu, exclama um miserável ah ah ah ah ah ah ah ah ah com o entusiasmo de um defunto, com o esforço de quem suga a vida de um ventilador, com a dor de quem perdeu um filho. Morreu-lhe o riso, perdeu-se em parte incerta, sobra o choro para o enterrar. 

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Não Chorei Quando Nasci

Não chorei quando nasci. Não é que me lembre, mas é um daqueles factos que ouvimos tantas vezes em reuniões familiares, que os acabamos por carregar connosco como se formassem uma espécie de cognome incrustado à nossa existência.


A minha mãe, apesar das suas vontades em ter um parto natural, cuspiu-me para este mundo num silêncio adormecido, enquanto lhe retiravam o bicho ensanguentado pela fissura aberta do seu ventre. O médico e enfermeiras estavam num estado tão profundo de concentração naquele turno da madrugada, que nem um esgar soltaram no momento solene em que entrei de pé esquerdo nesta realidade. No bloco operatório, até os sons sintomáticos do hospital se pareciam ter feito diminuir numa espera inconcebida pelo choro normal de um nascimento.


O silêncio acompanhou-me, assim, a vida toda. Os meus pais dizem até hoje que era uma maravilha de bebé, chorava tão pouco que se esqueciam que me tinham. Quando comecei a escola, era tão calado que me tentaram diagnosticar mais de dez vezes com diferentes problemas de foro psíquico, nenhum deles acabou por estar certo. Parecia apenas que não tinha palavras trocadas na carteira, e as que tinha, requiriam esforços sobrehumanos para serem puxadas cá para fora.


Aos catorze anos, já tinha andado em quatro psicólogos e dois terapeutas da fala. Contudo, apesar de grandes e longas análises, nunca ninguém soube perceber a razão do meu silêncio e, quando me perguntavam, simplesmente encolhia os ombros, sem nada para dizer. Não o fazia por provocar, simplesmente, não sabia o que dizer. Nunca.

Com a idade, fui percebendo que levava comigo este silêncio denso e pesado. Era como uma massa negra à minha volta, que pesava no ambiente, sem deixar espaço para palavras. Comecei a pensar que, quando me colheram do ventre da minha mãe, colheram também um irmão gémeo esquecido, carregado nas minhas costas que fez calar todo o hospital.


Tentei visualizar várias vezes esta massa negra que me rodeava, talvez se percebesse a sua forma, a conseguisse expulsar. Pensei que fosse um polvo gigante, pousado no alto da minha cabeça oca de palavras, que levava o desconforto nos tentáculos, para tapar a minha boca e a de toda a gente que me abeirasse. Teria a aparência e o destino de um vilão da Disney – invariavelmente determinado a vencer-me, mas condenado a uma eventual derrota sobre o domínio da minha palavra. Contudo, quando os anos começaram a passar sem que levassem consigo os tentáculos, comecei a desacreditar-me do rato Mickey e das histórias de embalar.


Esse foi o momento em que comecei a pensar que talvez esta massa fosse um Anjo da Guarda que me protegia das palavras, guardando-as numa caixinha preciosa, apenas aberta nos momentos oportunos. Queria acreditar que o fazia para me proteger das esquinas afiadas das letras, mas também o meu silêncio me começava a magoar. Quanto mais tempo passava sem saber o que dizer, mais pequeno me tornava, mais me escondia pelos cantos, e mais sozinho fui ficando. Pelo que concluí que, quem me roubava as palavras não seria um anjo da guarda.


Comecei, então, a deixar de procurar causas externas para a atmosfera silenciosa e sufocante que carregava comigo e passei a crer que o silêncio vinha de mim. Eu tinha a massa dentro de mim, densa e corrosiva, a deixar-me a cabeça doente e cansada, atolada só das palavras que me faziam mal. Cambaleavam dentro do meu cérebro por horas, deixando feridas na sua passagem e sem nunca saírem para ver a luz do dia.


Tinha o silêncio na roupa que vestia e na pele que a suportava também. O silêncio estava nas minhas pestanas e unhas, escondido por entre cabelos e dedos, que se entrelaçavam sem ruído. Tinha-o nos lençóis à noite e nas toalhas de manhã. Nos cadernos em que tentava escrever e nos desenhos que falhava em completar. Entendi que o silêncio não só arrombava as portas e janelas do meu bem-estar, como também era ele a casa e as paredes contra as quais cambaleava à procura de equilíbrio.


Quando tive esta realização de que eu era o meu próprio silêncio, chorei como nunca o tinha feito. Chorei pela vez que não chorei ao nascer, e por todas as outras que me mantive demasiado calado para poder exprimir qualquer emoção. Tinha nas minhas lágrimas dor e confusão – toda a minha vida tinha culpado o universo por este meu problema, mas aparentemente, eu era o problema. Foram dias a chorar, inundei a casa e o tejo entrou-me pela sala e quarto sem autorização.
Estou ainda a limpar os estragos deste meu entendimento mas, já que não chorei quando nasci, espero nascer agora que chorei.