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“Somos pedaços de pessoas recortados e colados ao acaso”, alguém me disse

Volto a ouvir o barulho desta cidade que se torna mais suportável aqui de cima. Da varanda, digo. O telefona toca e é um amigo, sempre um amigo. O peso da vida recai-se sobre mim como um daqueles cobertores da casa da avó que mal conseguíamos agarrar de tão pesados. Mas da mesma maneira que criavam peso, reconfortavam. Faziam-nos acreditar que tudo estava bem e só precisávamos de uma boa noite de sono.
E era verdade.
Com o peso da vida é parecido; cai-nos em cima e uma boa noite de sono ajuda. Ou uma boa música, um bom vinho, uma boa companhia, um incenso, sei lá. É só que às vezes as boas noites de sono são escassas. Nem sempre por maus motivos, atenção; pode ser apenas por me perder a ouvir o barulho desta cidade aqui de cima.

Com o tempo vai-se aprendendo o que é isto de andarmos por aqui com as cabeças para baixo e cada um no seu mundo. Com o tempo vai-se compreendendo que o teu mundo é o meu mundo e por isso cuido dele. Com o tempo vamos sentindo o toque, e alguns serão corajosos o suficiente para deixar que se entranhe na pele. E aqueles com mais receio, com o tempo aprenderão.

“Somos pedaços de pessoas recortados e colados ao acaso”, alguém me disse

19/03/2021

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A Gratidão Triste de uma Existência Quase Possível

Ela sempre tinha tido uma dificuldade enorme em tomar decisões. Seria talvez por insegurança, exigência, altruísmo, falta de amor próprio – não auto-estima (porque embora não quisesse admitir, sabia o valor que tinha) – ou teria simplesmente consciência do verdadeiro efeito que cada pequena decisão comporta (bater das asas da borboleta e por aí fora). Era assim nas coisas pequenas, porque nas grandes debatia-se como se a sua vida dependesse disso, e às vezes dependia. Esse debate interno tinha-lhe proporcionado ferramentas que lhe possibilitavam ganhar qualquer discussão. Era, por assim dizer, uma espécie de farol metafórico na vida dos que a rodeavam. Talvez fosse por isso que os seus poderes de argumentação lhe conferiam uma maturidade muito para além dos seus anos de vida. Discretamente atenta ela foi-lhe ensinando (a ele) o poder da liberdade, do desapego e a reflexão profunda sobre a direcção que a vida vai tomando aos poucos, sem darmos conta. Onde é que de repente nos encontramos sem nos darmos conta? – perguntava muitas vezes. Dizia Cai-nos o mundo em cima, questionamos tudo e depois, com muita dificuldade e muitas dúvidas, levantamo-nos e seguimos o mesmo ou outro caminho com os mesmos ou outros obstáculos.
Curiosamente ou não, toda esta sabedoria era virada para fora. Por dentro, no silêncio, dormia uma criança atormentada por pesadelos horríveis populados de acontecimentos inomináveis. Ele quis, na sua soberba, acalentar essa criança turbulenta, solitária, desamparada e acabaram por confundir as decisões de ambos, os pesadelos dos dois. Esculpiram a vida em árvores, resgataram búzios, ganchos de cabelo, pôres-do-sol e luas cheias. Mas nunca puderam existir porque a existência dele tinha-se perdido algures e ela não tinha ainda chegado a existir, não tinha ainda decidido nascer. Por isso nunca existiram juntos e o que existiu foi apenas um choque cósmico de estrelas a muitos milhões de anos-luz que iluminou momentaneamente um pequeno recanto de uma qualquer realidade que será perdida para sempre, desenhos do artista envergonhado fechados numa gaveta. Uma existência recheada de gratidão mas perdida para todos menos para eles que serão, até ao fim, réstias dessa luz.
Foi amor.

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Dinistro & Sextra

Num vale perdido pelo horizonte das montanhas, existe uma vila muito particular. Uma vila que em muito se assemelha às vilas que todos conhecemos. Os seus habitantes vivem as suas vidas sem questionar demasiado o futuro. Há escolas, farmácias, cafés, lugares de culto e de cultura e todos disfrutam de uma certa harmonia no que toca ao seu dia-a-dia. O que torna esta vila particular é apenas e só uma pequena ocorrência: todas as pessoas têm dois pés e duas mãos direitas. Sim, por mais estranho que pareça os membros são todos direitos. Para quem vem de fora até pode parecer muito surpreendente mas, para quem nunca conheceu nada de diferente, este é o normal de quem ali vive. 

O fato de terem dois pés direitos, e ao contrário do que se possa pensar, permite que avancem com uma ligeira inclinação para o outro lado, o esquerdo. Em percursos pequenos isso não faz muita diferença, no entanto para caminhadas maiores, leva a que as pessoas completem círculos em vez de avançarem. Com o tempo a vida da vila organizou-se num grande círculo onde todos podiam caminhar na mesma direção. Da rua principal, que também é o maior círculo, saem diversas ruas menores que levam as pessoas às zonas residenciais, que, como podem adivinhar, são também círculos menores dentro do grande círculo. 

Na vida do quotidiano, ter duas mãos direitas causa situações caricatas, pois torna-se difícil agarrar um objeto, dançar ou completar simples tarefas domésticas, como lavar as mãos ou comer sem que o garfo tente sempre entrar pela bochecha. No lago que marca o centro da vila os barcos a remo rodam no próprio eixo. A tração deixa os habitantes presos no centro e com tonturas. O caminhar de forma enviesada acabava por condicionar a perspetiva das pessoas. Afinal era complicado ver as coisas de outra forma e nas raras ocasiões em que duas pessoas se poderiam confrontar (quer física quer verbalmente), ainda antes de chegarem perto uma da outra os seus pés levavam-nos para direções diferentes. “Dar uma mão” neste caso também não ajudava. Duas mãos direitas não duplicam a ajuda, apenas fazem o mesmo duas vezes. 

À medida que o número de habitantes aumentava, também a dimensão da vila. Foi assim que se começou a escavar a montanha que limitava a vila para criar caminhos circulares adicionais. Numa dessas escavações a Komatsu esbarrou uma parede de gelo, enterrada na rocha. Foi retirada a terra à volta da parede para se ter uma ideia do que realmente se tratava. A parede brilhava como um espelho e percebiam-se formas do outro lado. Inicialmente todos consideraram que era apenas o seu próprio reflexo. Dinistro, uma pessoa mais curiosa começou a lascar a parede e notou que as formas do outro lado do gelo se tornavam cada vez mais nítidas. Tentou avisar os outros habitantes mas sem efeito. Continuou a lascar a parede e a certa altura viu que a sua imagem, do outro lado do gelo, já não replicava os seus movimentos. Na verdade havia mais do que uma forma que se movimentava do outro lado e todas estas formas se tornavam cada vez mais nítidas. A esta altura, Dinistro assustou-se, deixou de lapidar o gelo chamou todos os habitantes para que lhe ajudassem a dar sentido ao que se estava a passar. Ninguém entendeu, mas aceitaram que possivelmente não se tratava de reflexos mas sim de forma autónomas.

Sem nenhuma outra referência ou objeção, Dinistro continuou a escavar. O gelo cedia a cada instante, a luz que vinha do outro lado brilhava tornando as formas mais claras. A certo momento o gelo desapareceu e a parede abriu-se. Dinistro libertou o caminho e rompeu a parede até poder passar para o outro lado e ver o que estava além. Eram outros seres, pessoas como eles, com as mesmas formas mas havia algo de ligeiramente diferente que escapava à sua compreensão.

Uma das pessoas do outro lado arriscou um aceno com a sua mão. Era Sextra, que fora designada representante. Dinistro respondeu da mesma forma. Ao aproximar-se percebeu que as pessoas do outro lado tinham também os mesmos membros que ele, mas com particularidade de, na sua perspetiva, estarem ao contrário.     

Dinistro e Sextra observam detalhadamente os seus corpos. Soltam palavras e reconhecem o mesmo idioma. Repetem o aceno inicial e compreendem que as suas mãos se completam enquanto caminham na direção um do outro, e maravilham-se quando o círculo que desenham com o caminhar, na verdade aproxima e coloca-os na órbita do outro. 

Dos dois lados da parede os restantes habitantes estão em silêncio a observar este trocar de primeiros passos. É decidido que cada vila deverá trocar impressões e aprender ao máximo sobre cada uma para ver de que forma poderiam ter mais sinergias. A parede é destruída e ambas as vilas não têm barreiras a separá-las. 

Para Dinistro e Sextra os dias são de autoconhecimento e descoberta. Quer nos corpos um do outro quer em cada vila. Sextra, como os habitantes da sua vila, tem dois pés e duas mãos esquerdas. Quando caminham, caminha enviesada para a direita e na sua vila os círculos estão organizados na direção contrária da de Dinistro. Com o tempo as tarefas que lhes pareciam impossíveis tornam-se viáveis e novos caminhos são desvendados. Até o navegar no lago do centro era uma atividade que finalmente fazia sentido. Em vez de círculos, era finalmente possível navegar em linha reta. 

É impressionante que em todos estes anos duas vilas, praticamente reflexos de si mesmas, nunca tenham tido conhecimento da existência do outro, apesar de estarem tão próximos.  

Do conhecimento e do tempo que Dinistro e Sextra passaram juntos surgiu uma criança. Esta criança nasceu com um pé direito e um pé esquerdo. Ao verem as suas mãos também notaram que tinha tanto uma mão direita como uma mão esquerda. Ao contrário de Dinistro e Sextra, os os habitantes de ambas as vilas entraram em choque. Nunca se tinha visto tal coisa. O que seria de uma criança que não pertencia a nenhuma das vilas?  

A criança cresceu e quando caminhava, avançava. Não tinha enviesamentos, apenas caminhava para a frente. Para o futuro.

Com mais crianças, os habitantes puderam ver que os seus jovens corpos, frutos da partilha das duas vilas, faziam as coisas de forma diferente. Tinham mãos que se lavavam uma à outra, caminhavam lado a lado e podiam entrelaçar e perder os seus dedos nos dedos do outro.      

Este percurso das duas vilas permitiu um mudar de atitude e de perspetiva. Conseguiu-se deslumbrar um futuro onde a sociedade não andava aos círculos, com cada um a falar para o seu lado, mas onde a troca de experiências se podia fazer face a face, lado a lado e caminhando para a frente.

As crianças destas duas vilas eram assim a semente de uma sociedade que dava os seus primeiros passos e estabelecia formas diferentes de se relacionar. No final, apenas uma questão inquietava os habitantes das duas vilas: depois de anos a falar, interagir e a viver cada um do seu próprio lado, estavam agora a aprender a ter mãos e pés esquerdos e direitos. Algo novo. 

Mas quão saudável e extraordinário seria viver numa sociedade onde todas as pessoas pudessem, sem exceção, ter uma mão direita e uma mão esquerda, assim como um pé esquerdo e um pé direito para caminhar, pensar, trabalhar e resolver os seus problemas como um todo e não de forma enviesada?  Para estas vilas, que sempre tiveram uma visão parcial dividida por uma parede de gelo, estas mãos e estes pés, permitem uma coisa entre muitas outras: caminhar para a frente e deixar de andar às voltas. 

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São lonjuras, Senhores


São lonjuras, Srs. 

Sentia saudades de tudo, o que a deixava descansada, significando que ainda tinha memória, embora começasse a ser frequente esquecer-se de coisas tão simples como chegar à cozinha sem saber por quê. Não se preocupava com esses pequenos sinais do início precoce de uma demência senil. Cada vez tinha mais saudades e por curiosidade consultou a sua definição.

1. Lembrança grata de pessoa ausente, de um momento passado, ou de alguma coisa de que alguém se vê privado.

2. Pesar, mágoa que essa privação causa.

(também existem mais pontos que a definem como plantas).

A primeira definição encaixava na perfeição – gratidão e privação – que nalguns casos levava ao ponto dois, a mágoa.

Era grata pela quantidade de memórias que tinha amealhado: da sua mãe, com os dentes da frente separados “dentes de malandra” com ela dizia – que deixaram de ser (até nisso a sua mãe contrariava a natureza, em vez de se abrirem, fechavam); das viagens realizadas com a mãe ao longo de tantos anos no lancia Delta preto onde ouviam a TSF e depois Joan Baez ou Paul Simon. O mesmo carro que albergava qualquer pessoa que a mãe visse a andar a pé em esforço; das vésperas de Natal e do cheiro a pinhões; do pão quente com queijo fresco que a mãe fazia questão de comprar todos os dias; das festas que organizava sozinha, quando parecia que mais de cem pessoas o estavam a fazer; das mãos delicadas da mãe, com os dedos tão finos que usava para fazer broas e cujo cheiro invadia toda a rua; dos enfeites que criava para todas as ocasiões que considerava especiais; e das meiguices que recebia das mãos da mãe. 

Estas saudades, gratas, matava sempre que visitava os pais e seguramente originariam muitas mais. Djavan relembrava-a com a sua música, “…é doce morrer nesse mar de lembrar e nunca esquecer…. Isso sim, pra mim é viver “, a importância destas saudades.

Já as saudades de privação agonizavam-na a ponto de não saber se era melhor lembrar ou esquecer, quando sabia ser impossível apagar parte da sua vida. 

Escrevia cartas, mesmo que em vão, numa tentativa de obter respostas que nunca chegavam. Gostava de escrever desde que se lembrava de ser gente e ainda guardava numa grande caixa cartas trocadas com metade da sua vida. Essa caixa, bem como a sua memória olfativa, ajudavam-na construir o passado. Podia viajar para qualquer sítio que quisesse e a partir daí reconstruir uma história – por exemplo o cheiro a eucalipto, que a levava para grandes campos cheios de arvores verdes, onde andava a cavalo com o seu irmão, ou o cheiro a madeira que remontava para a casa onde nasceu.

Conhecia também o odor de cada pessoa que amava e se, acaso fora de alguém que já não estava na sua vida, largava-se em lágrimas e recordava Denison Mendes (dizem que atribuído erroneamente a Caio F. Abreu) com a sua frase:

“O médico perguntou: — O que sentes? E eu respondi: — Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias”.

Hoje sentia-se muito doente, padecia de lonjuras, sofria de distâncias.

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A televisão comeu a minha avó

Não sabemos bem como aconteceu, foi certamente enquanto ninguém estava na sala. Ninguém viu. Desconfiamos que não foi numa dentada só, mas antes aos poucos. Lenta e sorrateiramente, para não percebermos de imediato aquilo que a televisão se preparava para lhe fazer. Aliás, para nos fazer, porque a avó é nossa. Quando digo nossa, digo do nosso coração. Ser mesmo, ela é lá dela e só dela. Deus nos livre de questionar de quem é. Se há senhora de si, é a avó.

A avó foi-se entretendo. A televisão era uma companhia quase dispensável, depois começou a preencher o silêncio e o vazio que o avô deixou. O avô foi comido pelo próprio coração. Até hoje fazemos contas de cabeça como raio coube todo, inteirinho, dentro do próprio coração, que estava ali arrumado num canto – canto bonito, é certo, mas com as naturais limitações físicas e espaciais da caixa de arrumos onde tinha lugar, que calha ser a caixa toráxica. Depois de alguns anos a desenvolver e testar hipóteses, concluo que o coração seria certamente muito maior do que a ciência nos permite calcular. Se coube, havia espaço e se havia espaço para tanto avô, então era uma coração maior ainda que a sua barriga. E sabemos que barriga de avô cresce para guardar mais amor.

A da avó também. Foi crescendo à frente da televisão, sobre o sofá e entre mantas. Parece que a cada vez que a avó carrega num botão do comando a barriga cresce um pouco e televisão rouba-lhe mais um pedaço. E a avó carrega muitas vezes em muitos botões. Quando se engana no comando, vira uma verdadeira teclista. Acho que a televisão percebeu que essa seria uma boa forma de a engolir sem darmos conta. Cria confusão, a avó responde atacando os botões todos onde as mãos chegam e a televisão vai levando mais e mais dela. Percebo a tentação porque a avó é pequenina, dá vontade de agarrar e embrulhar num abracinho e continua a minguar aos poucos, o que aguça a vontade. Os médicos dizem que é natural com a idade, mas eu sei que a televisão não é inocente. 

As duas foram ficando mais amigas. A televisão começou por roubar a atenção da avó, depois os acenos e beijinhos também. Juro. Ficou amiga da televisão e das pessoas dentro dela. Diz mesmo que a vêm, mas não nos deixa olhar para ela. Ou não nos vê olhar para ela. 

Se antes se sentava a ouvir televisão enquanto fazia crochet, palavras cruzadas ou mil e uma outras atividades que exigiam paciência, não demorou a largar tudo para se dedicar inteiramente à nova amizade. Tal como fez com a atenção, a televisão começou a comer também a paciência que a avó tinha para tudo o que havia fora daquela moldura brilhante e barulhenta. Podemos afirmar, com certeza, que a televisão planeou isto com muito mais detalhe do que acharíamos possível.

Julgamento de intenções à parte, o que é certo é que a televisão trabalhou muito nesta sua missão. Acorda com a minha avó e só dorme depois de ela se deitar. A televisão começou a dominá-la e agora, as duas juntas, dominam a casa onde estiverem. 

Começámos a desconfiar das intenções do quadrado-mágico-trágico quando a avó deu os primeiros sinais de mergulho. Podemos estar mesmo ao lado dela mas, estando uma televisão ligada, entramos num duelo pela sua atenção. E perdemos cada vez com mais frequência. Os beijinhos deixaram de aterrar nas nossas bochechas e passaram a voar em direção ao ecrã. O mesmo com acenos, a atenção e a paciência. 

Demos a atenção e paciência como desaparecidas. As buscas deixaram-nos descobrir para onde foram, mas não estamos a ser capazes de negociar o resgate. A avó continua a minguar. Só a barriga e o cabelo escapam a esta tendência. O mais notório minguar, cuja responsabilidade podemos atribuir diretamente à televisão, é o dos olhos. Os olhos da avó estão cada vez mais pequeninos e escondidos. Como a televisão se reflete nas lentes gastas dos óculos que insiste em não mudar, fica ainda mais difícil ver os olhos da avó. Antes de os vermos, vemos a televisão. E mesmo quando parece olhar para nós, não são raras as vezes em que o raio da televisão está lá pelo meio.

O frio que a avó sente não vem da rua, vem das temperaturas que vê anunciar na televisão, das tempestades batizadas com nomes humanos que encharcam os ecrãs. O sol que a queima não lhe pousa em cima, entra-lhe pelos olhos e aquece-lhe o medo e a paciência. O frio que a televisão lhe conta arrefece-lhe a coragem e enterra-a no sofá. A avó, que passou tanto tempo sob chuva, sol, granizo, neve – o que fosse – a trabalhar, hoje tem tanto medo do calor como do frio e tanto medo do dia como da noite. Tem medo do tempo que já nem quer sentir.

Não se enganem, a avó tem mais saúde do que a televisão lhe diz, mas não a vê. Para ela, a idade não é só um número. É mais a cada número, é pior a cada número. Tem de ser sinónimo de velhice e a velhice, por sua vez, tem de ser sinal de doença e proximidade do fim. Mesmo que todas as análises, medições e exames lhe gritem que está bem. Ouve mais os médicos da televisão do que os que lhe abrem a porta do consultório.

Já não quer ir à casa dela. A senhora mais dona de si, já não tem saudades da sua casa. Imagino que de alguma forma a televisão se tenha feito casa. Qualquer televisão, menos a dela. Acreditam que mandou tirar a televisão de casa? Podíamos assumir que é por não lhe dar assim tanta importância, mas é precisamente por sabermos que a televisão a engoliu que entendemos que isto é parte da estratégia que as duas montaram para ela não voltar a casa. A decisão de não voltar foi tomada tirando de lá a televisão. Foi a confirmação e assim não há dúvida, porque onde não há televisão, não pode haver avó. 

Ainda faz da janela uma televisão, mas depressa se aborrece, porque não pode mudar de canal. Passeia sentada no sofá, vê pessoas e interage, tudo sem sair do lugar. A avó tem medo até da comida, do mal que lhe pode fazer. Já pouco se importa com o bem que lhe sabe. É sempre o medo. Priva-se de tanto por medo. O medo, o medo, o medo. 

A avó tem medo de morrer, mas está constantemente a encontrar morte na televisão. Mal ela se apercebe que antes de a morte a roubar de nós, já a televisão a está a levar. Pergunto-me se nos ouviria melhor se lhe falássemos de dentro da televisão. A avó tem tanto medo de morrer que não vive.

A televisão comeu a minha avó. Com medo de um caixão, prendeu-se dentro de uma caixa. 

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Mudanças

Quando tinha quinze anos, ponderei pela primeira vez se teria um futuro feliz. Dei-me conta que não estava no caminho certo para me tornar uma estrela rock internacional, e procurei alento na minha avó que, por muito que nunca tenha alcançado o estrelato que tanto protagonizava os meus sonhos, tinha passado metade da sua vida a cantar. A outra metade dividiu-se entre ouvir trautear o meu pai e tio e, mais tarde, ouvir-me a mim evocar Variações na cave da sua moradia gigante. Mas adiante. Naquela conversa, ensinou-me que os quinze anos eram a idade mais fértil para os sonhos – que cresciam como ervas daninhas nos cantos mais recônditos das nossas cabeças. Notar que nem todas as ervas daninhas são feias ou dispensáveis, muitas delas até são úteis para aparar as quedas no alcatrão. A minha avó também me avisou das quedas e disse-me que, a partir dos quinze anos, deixavam de deixar feridas nos joelhos e cotovelos e começavam a chegar a sítios mais escondidos. Contudo, fez notar que aquela era a melhor altura para admirar a vida e para colher dela os melhores instrumentos para imaginar.  “A vida consegue ser tão linda”, disse-me.

~

Hoje – dez anos depois – sujei as mãos, arranhei a garganta e enfraqueci as costas a tentar fazer caber essa vida linda em caixas de cartão. Esvaziei o sótão, limpei o pó e deixei espaço para quem quiser vir vaguear para este lote, uma vez que estou de saída. Encaixotei a música e as primeiras notas que cantei, junto com os poemas e os textos em que me perguntava onde ia. Houve espaço para as minhas viagens à boleia pelos céus – os meus sonhos de Kerouac, de dias em que fazia as malas, prometia não voltar e desfazia de seguida. Empacotei a varanda onde fumava às escondidas, a ver a serra de Sintra, na procura de abrandar uma adolescência em foguetão. Até consegui encolher as paredes deste quarto, os cantos húmidos, os momentos em que foram as minhas únicas amigas – houve espaço para todos os nossos segredos. Quanta barulheira ficaria dentro daquelas caixas quando as fechasse, perguntava-me. Talvez se ouvissem as tuas palavras avó, pois encontrei um postal de aniversário escrito por ti, com conselhos e votos de um próspero futuro – pôs-me a pensar o que tenho de próspero agora, e onde estarás tu.

“A vida consegue ser tão linda”, dizia no cartão. Talvez seja, avó. Com tanta música, poemas, textos, sonhos, viagens para lado nenhum, malas feitas e desfeitas que não saem do quarto, não há como não o ser. Eu talvez tenha demorado o meu tempo a ver isso – ainda não precisava de óculos na altura em que te pedia conselhos. Agora não tenho quem me ouça quando canto sozinho na cave e nem mesmo com este meu novo par de lentes te consigo ver a espreitar, na curiosidade de saber que canção cantarei a seguir. 

Arranjei várias formas de me sentir menos só, mas nenhuma me impediu de encher a casa de tralha. É irónico, porque é agora que está vazia que me sinto mais acompanhado e concretizado. Afinal de contas, não tinhas razão numa coisa – eu continuo a sonhar como se tivesse quinze anos. Mas noutra coisa estavas certa – a vida consegue ser tão linda. Pensava que a podia guardar em caixas e sótãos, mas ela está por aí. Tu estás por aí, avó. 

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Depois da ressaca

Desculpem o atraso,
queria ter chegado a tempo mas entretanto fui dar uma volta e cruzei-me com a vida
fomos nesta viagem incrível sobre existirmos e deixarmos de existir,
fez-me experienciar muitas coisas
e quando dei por mim já tinha passado muito tempo e tempo nenhum.
Isto não é uma forma de me justificar
Isto não é arranjar desculpas para a minha falta de qualquer coisa que não sei bem o quê
Isto não é uma carta
Ou um texto para o blog.
Isto sou eu depois de noites mal dormidas,
pessoas a partir,
beijos inesperados,
reencontros inevitáveis,
sobre ter calma, sobre não hesitar
sobre parar para pensar, sobre não pensar
sobre respirar fundo
e sobre nada
(ou isso queria eu).

Desculpem o atraso,
perdi-me com a vida e sei que ela esteve sempre aqui e eu é que fui para longe
e entretanto dei-me conta de que passou um ano desde a última vez quando eu diria que passou uma vida
Passou-me uma vida.
Passou-me um céu estrelado com brilhos a cair-me em cima
E uma lufada de ar fresco no peito.

Bebo um copo de tinto e brindo a nós
Porque somos sempre nós no momento do brinde
(no som do copo a bater, nos olhares que se cruzam com o brilho de quem brinda com a vida)
Desculpem o atraso mas,
estive de ressaca.

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Narciso Injustiçado

Não soube o que dizer quando me chamaste narcisita e me viraste as costas. Pensei belas costas, pensei não acho que seja narcisista, pensei que nem sabia bem se ser narcisista era o que eu pensava que era e pensei que te queria responder alguma coisa sobre isso mas já não estavas ali. Eu tinha perdido a oportunidade de impedir que fosses passear as tuas belas costas para outro lado. Nessa noite fiquei acordado como fico muitas vezes. Acho que é porque preciso de sentir a solidão. Pensei em Narciso, claramente das figuras mitológicas mais injustiçadas de que há memória. Pensei nesta afirmação e pensei logo em Ícaro, na sua sede de conhecimento visto como soberba e nalguns outros que por uma razão ou outra foram sendo erradamente reintepretados como maus exemplos para impingir a moralidade da humildade exacerbada anti-sabedoria.
Pensei que a maior lição que narciso nos dá nada tem que ver com as consequências do egoísmo, da vaidade ou do desprezo pelo próximo. Não é culpado dos defeitos da humanidade nem da situação em que foi colocado pelo oráculo que lhe destina a morte no momento em que vê o seu próprio reflexo na água e acaba por definhar, perdido na sua beleza e no amor-próprio, essa noção moderna que impingimos uns aos outros como forma de desculparmos a nossa imperfeição e encontrarmos a felicidade tranquila que nos torna mansos, desinteressados, desinteressantes, incapazes de pensamento crítico e de revolta. A verdade das histórias reside na boca de quem as conta e reconta e no recontar deturpou-se e perdeu-se a essência dessa verdade. E a verdade é que narciso é o herói da luta contra os brandos costumes, contra a aceitação da homogeneidade da espécie humana. Ele recusa o amor não correspondido e apenas deseja partilhar aquilo que no seu íntimo aceita como profundamente real. Não há nada falso em narciso, nada escondido, nada politicamente correto. Acredita na sua esplendorosa beleza e maravilha-se com a possibilidade de ser diferente, de ser único, de ser especial. Essa é a dádiva que nos deixa, a consciência da individualidade que se torna plena quando, contrariando o que lhe era imposto sob pena de tropeçar pela espiral dos dramas humanos, vislumbra o seu próprio reflexo. É por isso que narciso é o herói da história. Sacrifica a sua vida para que tenhamos consciência de nós próprios como seres diferentes de todos os outros, ao mesmo tempo que nos alerta para os perigos da salvação: Em terra de cegos quem tem olho é linchado, crucificado, apedrejado, ridicularizado e morto.
Penso, leio observo, discuto, ponho em causa e questiono, aceito a minha individualidade mas sempre com a consciência de que o conhecimento e a inteligência não trazem felicidade. Trazem consciência e sabedoria. Para cada um de nós valerá ou não o sacrifício.
Pensei que nada disto tem que ver contigo nem com as tuas belas costas mas pensei também que gostava de ter tido esta conversa contigo. Mas não podia. Já não estavas ali.

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Cabeça-balão

Perdi a cabeça. Podia ter enlouquecido, perdido o controlo, deixado de saber quem sou, onde estou e todas essas derradeiras questões existenciais. Podia ter perdido o emprego, um comboio, a carteira, as chaves de casa ou do carro, um amor que julgava eterno ou até um cão que me era querido. Podia ter perdido o apetite, a energia, a vontade, a memória, a paciência, a fé, a coragem… Mas perdi a cabeça.

Soltou-se fisicamente do meu corpo. Não sei precisar o tempo que perdi à procura de alguém que se fingisse especialista capaz de ajudar nestes casos de cabeças perdidas. Salvou-me uma costureira. Encarregou-se de me encher de nagalhos no pescoço para que a cabeça ficasse amarrada a mim e não me fugisse mais. Chamam-me enforcado, tal é a malha de nagalhos em nós cegos. Eu próprio já lhes perdi a conta. 

Tudo começou com uma dor na coluna. Trepou-me vértebra por vértebra e, assim que pôde, agarrou-se ao meu pescoço. Entrou pescoço adentro e esticou-se até o distender. Milímetro a milímetro, senti-os todos. Já o pescoço se via mais alto quando a dor, que julgava terminar ali, me sobe cabeça a cima. Trepou até à ponta da coluna e desaguou no que pareceu ser o centro do meu cérebro. Aí, desatou numa correria desenfreada, como quem faz do crânio uma esfera da morte – aquelas estruturas esféricas metálicas onde motas correm a altas velocidades, não sei bem se a fugir da morte, se a correrem atrás dela. A dor correu então pelo crânio e atropelou sem piedade toda e cada partícula de osso a uma velocidade que duvido ser sequer mensurável. Arrancou depois sem aviso e foi como se me tivesse atravessado a testa, esmigalhando toda a estrutura óssea que a constitui. Saiu de rompante, mas nem por isso deu espaço ao alívio. Foi como se me rebentasse a cabeça num ápice agudo e voltasse para pisar a cratera que me abriu. Nesse momento desejei não ter cabeça, quis oferecê-la à dor. Não sei se me levou a mal e quis ir ou se a levaram. Sei apenas que se foi.

Não é surpreendente que o meu corpo me desobedeça. Sou pouco coordenado, lento e desajeitado. Nunca encontrei especial habilidade para o desporto e quando a cabeça se soltou revivi a minha curta experiência no volley. Senti-me de novo a correr timidamente, em círculos e sem critério. Jogava sempre de mãos no ar, mas a bola nunca lhes tocou. Tinha a intenção, mas faltava-me intuição. A cabeça-balão soltou-se acelerada como um balão largado ainda sem nó e, tal como a bola, não sei deixava agarrar. Já era tosco quando era inteiro e a divisão não me beneficiou. 

Primeiro, é preciso algum tempo para reaprender a controlar o corpo sem o comando. Refiro-me à cabeça que, quando se liberta do corpo, renuncia à responsabilidade sobre o que nele acontece. É necessário um nível de destreza quase olímpico para almejar tocar-lhe. Agarrá-la parece coisa do divino. Depois de vaguear como quem corre, começa eventualmente a abrandar. Mas neste ponto da expedição, parece transformar-se num balão de hélio e aponta ao céu como destino. No caso, ao teto. A minha casa é alta e não sou bom trepador. Um pequeno toque, por muito cauteloso que seja, pode atirar a cabeça para outro canto. Tentei de tudo, até reconduzi-la com o auxílio de um cabo de vassoura. Foi medianamente eficaz, mas altamente desconfortável. Quando finalmente a recuperei, sentei-me no sofá com ela ao colo. A visão continua do lado da cabeça. Olhei atentamente para o meu pescoço meio desfeito com quase tanto asco como entusiasmo. O que podia exigir de mim? Tinha acabado de perder a cabeça. Lembro-me de tudo e sei precisamente como aconteceu, mas isso não me junta a cabeça ao corpo, nem explica porque é que ela se foi. 

Recorri ao meu psicanalista. Respeito o homem e o seu trabalho, mas desde que lhe contei tudo sobre como perdi a cabeça, o pescoço do senhor ganhou dois centímetros e quarenta e dois milímetros. Foi este o cumprimento preciso que o meu pescoço viu crescer numa primeira fase, que antecipava o momento em que ela se soltou de mim sem permissão. Não digo sem aviso porque o sinal estava lá. Não soube interpretar e a ciência não estava ainda preparada. 

Dou por mim nas sessões de terapia a alertar o psicanalista de que estão prestes a rebentar. Não as águas, mas as costuras invisíveis que lhe seguram a cabeça. O homem ri. Mas ri dois centímetros e quarenta e dois milímetros mais acima do que ria antes. Com a precisão que olho me concede, tenho registado o crescimento do pescoço do doutor nos últimos meses. Se o caso dele se manifestar da mesma forma que o meu – como tem sido – faltam-lhe apenas sete milímetros para atingir a expansão que o meu pescoço tinha à data da separação. Pelas minhas contas, a cabeça vai descolar pescoço-pista fora às 15h56 de quinta-feira. 

Ofereci-lhe nagalhos, mas não os quis. Deu-os ao cão para brincar. Sempre que ouço as unhas grossas do cão arranhar o chão flutuante do consultório, imagino o momento em que a cabeça do doutor levanta voo e se transforma num brinquedo. Será que vai chiar, como os brinquedos coloridos insuflados que o cão costuma trazer alegremente entre os dentinhos afiados? Chamo-lhe cão porque não sei o nome. O doutor recusa-se a dizer-me como se chama. Diz-me que é uma informação muito pessoal e não podemos criar laços. Nem criar laços, nem trocar nagalhos, e a cabeça que se vá. Já nem é por ele, que parece quase curioso por experienciar esta perda, é por mim. Podendo escolher, preferia um psicanalista inteiro. Como posso esperar que o doutor me resolva o problema do qual o próprio sofre em negação? Ninguém pede a um coxo para lhe ensinar a correr. 

Estou mais determinado a encontrar possíveis motivos para tudo isto do que o psicanalista. É esforçado, mas peca pela falta de criatividade. Gere as minhas deambulações, mas não contribui especialmente para elas. 

Comecei por baixo na escala da insanidade. Primeira opção: a culpa é minha. Sempre sofri com dores de cabeça. Desde que me lembro de a sentir, ela doía com alguma frequência. As crianças não estão preparadas para sofrer tanto e eu rogava pragas ao universo por me fazer sentir assim. A minha mãe caminhava sobre joanetes disformes que lhe causavam uma dor tão aguda que chegava a chorar. Dizia com frequência que preferia cortar os pés a sentir aquilo. Não fosse mimetizar uma arte das crianças, eu próprio considerei que cortar a cabeça podia ser a solução para o meu mal. Disse, pensei e senti que queria não ter cabeça. Talvez me tenha amaldiçoado. Ainda assim, parece-me coisa pouca para tamanho circo. 

A necessidade de perceber o porquê foi perdendo intensidade com a clara falta de respostas. O psicanalista apresentou-me uma tese que me roubou vontade de mergulhar tão fundo porque, pasmem-se, a culpa também era minha. Atirou-me à cara um episódio trágico. Tinha quatro anos quando decapitei o Sebastião, um peixe dourado que exigia responsabilidade que eu ainda não possuía. Numa manhã fria e sem vigia parental, encontrei-o a boiar e tentei reanimá-lo. Quis fechar-lhe os olhos como se vê fazer na televisão, mas não havia pálpebras que os tapassem. Os olhos ainda brilhantes e desproporcionais provocaram-me desconforto tal que, com força desmedida e num impulso que ainda hoje não compreendo, separei acidentalmente o corpo da cabeça. A imagem da cabeça do Sebastião na minha mão direita e o resto do corpo na mão esquerda assombraram-me em pesadelos recorrentes durante anos. O psicanalista diz que a culpa que guardo pode ser a causa da desintegração do meu corpo, o que me permitiu concluir que não preciso assim TANTO de uma razão. Culpa há muita e acho desnecessário chafurdar.

Escolhi ver os nagalhos que me seguram a cabeça como uma piada – ainda que palerma – sobre a minha distração crónica. Ouvi mais vezes do que seria tolerável “só não perdes a cabeça porque está agarrada”, facto que vim a comprovar pouco depois da primeira tentativa de a segurar. Percebi a piada, não ri e queria o corpo antigo de volta, por favor. Obrigado. 

Confirmei a precariedade do primeiro kit de nagalhos pouco depois de o instalar. Corto o cabelo na barbearia do senhor Zeca há mais de dezoito anos. A idade já lhe pesa na vista, os óculos deslizam nariz abaixo e, nos últimos cortes, a navalha deixou um rasto trágico, parecia guiada por uma toupeira.

O senhor Zeca começa sempre de baixo para cima e sempre atrás, onde o pescoço se cobre com os primeiros cabelos. Precisamente o local onde a dor se fixou antes de invadir o interior do meu crânio até sair num ápice pela minha testa. O senhor Zeca é um bom homem, mas é céptico. Pedi-lhe que tivesse cuidado, não fosse dar-me cabo do sistema sem querer. Incrédulo, repetiu várias vezes que era “impossível”, mas que eu era “muito engraçado”. Mesmo estando a ver todos os nagalhos, não acreditava. Explicar que tenho a cabeça presa ao corpo por pequenos cordelinhos tem tanto de insano como de exaustivo. Mas também não posso não explicar. 

O senhor Zeca não acreditava, nem aceitava a minha explicação. Já me contento quando acenam e me chamam maluquinho com os olhos. Mas a reação do senhor Zeca custou-me. Conhece-me há anos, esperava outra postura. Ouvi-lo descredibilizar o meu problema e a minha dor daquela forma, fez nascer em mim revolta. Ponderei, durante dois segundos, desfazer todos os nós e soltar a cabeça à frente dos seus olhos só para lhe mostrar que não tinha graça nenhuma. Levei a mão a um dos nagalhos centrais mas, felizmente, apesar de solta, a cabeça preserva algum juízo e soube acalmar-me a tempo. Não tenho especial prazer em traumatizar idosos. 

O senhor Zeca percebeu que me arreliou. Olhou-me pelo espelho e mostrou-se mais cuidadoso. Notei pela sua conversa que estava a tentar avaliar o meu estado e diagnosticar-me uma qualquer loucura que justificasse os preparos em que me apresentei. Entre cortes, desviava o olhar dos nagalhos. Vi-lhe o esforço, vi a tentativa de olhar para eles como quem não os vê. Sem sucesso, retomou o corte de olhar fixo no espelho, sempre nos meus olhos refletidos no espelho e nunca no meu pescoço, nunca nos nagalhos! Percebi que sairia com o pior corte até ali testemunhado, mas antes isso que uma guedelha a tapar-me os olhos. Tentei explicar-lhe que a minha vida estava tão boa ou tão má como habitualmente. Jurei que nada tinha a ver com enforcamento. “Queres morrer?”, perguntou-me, preocupado. Hesitei, mas respondi “às vezes”. O senhor Zeca afastou a navalha da minha cabeça, inclinou-se para trás e observou-me mais atento. Ri e perguntei “quem nunca quis?”. Relaxou, mas não totalmente. Antes de retomar, tentou convencer-me a deixar crescer o cabelo. “Disfarça os nagalhos, se não os quiseres tirar”, propôs-me quase como quem pergunta. “Não os posso tirar”, disse-lhe, menos paciente. “Um dia vais poder”, respondeu-me com um olhar esperançoso e uma palmadinha quente e condescendente nas costas. Julga-me louco. “Acho que o senhor Zeca não está a perceber… Se os desapertar, ela vai-se”, apontei para a minha cabeça. Não me respondeu. 

Vi-o concentrar-se no meu pescoço, levou a mão direita à bata e sacou de uma pequena tesoura. Ouvi o corte. Senti o corte. Foram-se três nagalhos e a minha nuca começou a elevar-se, como um verdadeiro balão com corda solta para voar. Suspirei aborrecido e tentei servir-me do espelho para agarrar a cabeça e atar de novo os nagalhos. O senhor Zeca, de tão aterrorizado, parecia congelado. Pálido, recupera apenas o suficiente para dar três passos acelerados para trás. De mãos na cabeça, olhei-o e dei-lhe alguns minutos para se recompor. As pálpebras do homem continuavam a desafiar a física e abriam mais e mais. “É verdade”, disse o homem entre gaguejos. Confirmei-lhe o que via e pedi ajuda para voltar a amarrar a cabeça ao corpo. Cedeu hesitante, quase enojado, mas sobretudo arrependido. Larguei a cabeça quando ele a agarrou. O senhor Zeca sentiu a força da cabeça-balão e, talvez assustado, largou-a bruscamente. A nuca voltou a virar-se para o céu e o movimento fez soltar mais uns quantos nagalhos. “Ela flutua!”, exclama mais entusiasmado. Para lá dos meus pés, só conseguia ver a minha vida a andar para trás. Consegui amarrar a cabeça, mas continuo à procura de um barbeiro… O senhor Zeca não me apanha lá que não tente cortar uns quantos nagalhos para me exibir aos outros clientes como um número de circo incluído no serviço.

Talvez tenha enlouquecido, perdido o controlo, deixado de saber quem sou, onde estou e todas essas derradeiras questões existenciais. Talvez tenha perdido o emprego, um comboio, a carteira, as chaves de casa ou do carro, um amor que julgava eterno ou até um cão que me era querido. Talvez tenha perdido tudo e isso me tenha levado a perder a cabeça. Não sou louco, sou um decapitado que respira e procura um barbeiro. A cabeça fez-se balão, mas nem assim deixou de doer.

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Não eram Margaridas

Conduzimos para fora da lei
Naquele teu dia de anos.
A quarenta minutos da cidade,
Não tínhamos de ser bons,
Não tínhamos de ser maus,
Nem sequer tínhamos de saber de nada.
Ninguém tinha de saber de nada.
Dei-me por feliz por termos chegado até ali.

O tempo deu-nos permissão,
E nós demos-lhe propósito,
Onde, encontrados num campo de margaridas,
Não tínhamos de ser bons,
Não tínhamos de ser maus,
Nem sequer tínhamos de saber as nossas canções.
Ninguém sabia que eram nossas as canções.
E eu dei-me por feliz por ter chegado até ali.