Categorias
Conto

Papagaio Amarelo

Alice vivia sozinha, mas nem por isso alguma vez se sentiu sozinha. Grande parte deve-se à sua vizinha Papagaio Amarelo, assim a trata Alice, de forma carinhosa, claro. Papagaio Amarelo vive no prédio laranja em frente ao apartamento de Alice, entre elas há um jardim, muito bem arranjado e verde, graças à relva, árvores e arvoredos, com bancos que permite alguns dos habitantes partilhar algumas palavras em momentos de descanso. Muito embora este jardim não seja exclusivo destes habitantes, é um jardim rodeado de prédios e apenas ruas estreitas e com chão em terra ou paralelos bem mal amanhados, por isso normalmente só mesmo os habitantes sabem deste jardim maravilha, no centro de uma cidade agitada. O jardim parece um autêntico paraíso, mais do que isso, é uma mini floresta encantada entre prédios, talvez só tenha sobrevivido sobre os tempos porque aqueles prédios se ergueram ao seu redor. Há uma árvore centenária bem no centro que é o ponto de referência para todos aqueles que conhecem o jardim. Por ser o centro é como o sol dos prédios envoltos. 

Papagaio Amarelo, vive no prédio laranja bem em frente de Alice e gosta de comunicar todos os dias as notícias mais importantes do dia, é como o noticiário, ela gosta também de as repetir 3 vezes, não vá alguém ter apanhado o noticiário a meio. 9h da manhã e Alice pega no café, senta na sua varanda respirando fundo e sentindo na pele os primeiros raios do dia na pele. Papagaio Amarelo: “Aviso Amarelo para os habitantes. Vão sentir-se ventos fortes e chuvas intensas. Repito. Aviso Amarelo.” Quando ela disse repito não estava de facto a repetir, estava só na primeira leva desta notícia. Alice, sentia o sol a brilhar e aquecer a pele, portanto não levou o aviso amarelo feito pelo Papagaio Amarelo muito a sério. Bom, mas ainda não vos contei porque é esta vizinha apelidada de Papagaio Amarelo, já todos percebemos que ela repete as notícias 3 vezes e muito provavelmente ouve-as na rádio ou televisão logo pela manhã, depois a meio do dia e finalmente à noite. Ela tem outro aspeto característico: pinta o cabelo de amarelo, por isso, Alice vê um ponto amarelo, ao fundo, de uma varanda alta que espalha as notícias. 

Desta feita, era o aviso amarelo, mas Alice até quase se engasgava com o café de tanto rir sobre este tal aviso amarelo. Alice acabou por limpar o café que verteu e foi para o computador, onde está o dia todo, ela passava o dia inteiro no computador a trabalhar. Ainda assim, sempre que alguém lhe ligava para o que quer que fosse, ela parecia nunca estar a trabalhar, sempre teve tempo para os amigos, os pedidos de ajuda e para tudo o que eventualmente aparecesse. Alice tinha apenas um hábito: ir até ao jardim paraíso, junto da árvore ler um pouco depois do almoço. Era quando ouvia as notícias da Papagaio Amarelo que fechava o livro e voltava para o computador. 

Anoiteceu, e com a noite chegaram as nuvens e com elas, a chuva, a chuva virou trovoada e esta desligou a corrente elétrica. Todos os prédios que habitualmente iluminavam com a luz de cada casa o jardim central apagaram-se e assim ficou todo o jardim às escuras. No dia seguinte, o jardim estava revolto, ramos partidos, poças de lama e tudo desorganizado. Porém, não era só o jardim que estava em pântanos, eram 9h e Alice não foi até à varanda, a Papagaio Amarelo não espalhou as notícias e todo esse dia pareceu uma continuidade da noite. 

No dia seguinte, Alice foi até à varanda colocar as coisas no lugar, arrumar tudo o que o vento levou e a chuva destruiu. 9h e nada ouviu, meio do dia e já nem lhe apeteceu ler, fim do dia e sentia como que não conseguisse fechar os olhos e dormir. 

Outro dia ainda e pelas 9h da manhã Alice não quis levantar da cama, mas Papagaio Amarelo começou com as suas habituais notícias, suspensas depois do tal “aviso amarelo”. Alice subitamente sorriu, e como se uma nova vida tivesse nascido nela, levantou da cama, foi buscar o café e sentou na varanda. 

Papagaio Amarelo: “A luz voltou a minha casa, já vos posso dar mais notícias.”.  

Categorias
Conto

Insónias

Aconteceu-me nessa noite ter uma insónia, pois são raras as vezes que não durmo que nem uma pedra. Poderia enumerar as razões que me mantinham acordado, mas pensar nelas propositadamente iria manter-me ainda mais acordado. Assumi a minha insónia, levantei-me, vesti o roupão. Da mochila, tirei o maço de tabaco. Abri a janela da marquise da cozinha já de cigarro na mão e, nesse preciso momento, observei a coisa mais estranha que alguma vez vira. No parque-infantil – este encontra-se no jardim que serve de vista à marquise – estavam dois homens, ambos de tronco nu, a olharem-se intensamente enquanto andavam em círculo. O diâmetro do círculo ficava menor a cada volta que os homens davam. Estavam cada vez mais próximos, já a um braço de distância. Não se ouvia nada. Apenas era visível a sua respiração, quase animalesca. As suas cabeças curvavam-se para a frente, a qualquer momento poderiam se cabecear ou beijar. Um deles, não era possível distinguí-los, agarrou o outro pelo pescoço e levou-o ao encontro do seu joelho arqueado. Foi aí que ouvi um primeiro som, um gemido alto de dor, que me fez fechar os olhos por breves segundos; quando os abri, estava deitado no chão a recuperar o que acabara de levar uma joelhada; levantou-se, limpou o nariz ensanguentado com o braço e demonstrou-se de novo pronto. Estavam novamente perto, muito perto, um do outro. Alguns segundos depois, o ensanguentado vai, de punho cerrado, à garganta do outro, que a agarra enquanto tosse e respira como um asmático. O ensanguentado nem esperou pela recuperação do outro, não percebi como mas imobilizou-o rapidamente no chão com um joelho no chão e outro na caixa torácica do imobilizado, que continuava a tossir. O sangue que continuava a jorrar do nariz do imobilizador caía sobre a cara do outro. Ficaram-se naquelas posições e eu, que sustentava a respiração há algum tempo, voltei à minha realidade, percebi que tinha um cigarro na mão que não acendi. Peguei no isqueiro que já cabia dentro do maço e acendi. A chama do isqueiro chamou a atenção da visão periférica do imobilizador que agora olhava na minha direção, e eu, em pânico, fechei a janela da marquise, não querendo terminar sem camisa a lutar num parque-infantil. 

Curiosamente, nessa semana, não consegui dormir bem uma única noite; acabava por me levantar várias vezes durante a noite e ir até à marquise fumar um cigarro enquanto observava o parque-infantil. Continuo sem saber o que me manteve acordado nessa semana: se os meus problemas ou o daqueles dois homens.

Categorias
Conto

Vozes VS Eu

Quero contar um conto que seja muito interessante, mas tudo o que me aparecem são personagens miseráveis que como numa roda louca aparecem. Cada uma com o seu problema e todas me gritam aos ouvidos:

  • Quero que me ouças e me fales.
  • Dança comigo como se não houvesse amanhã.
  • Mergulha no mesmo mar que eu, como sereia, banho-me aqui, todos os dias. 

E assim continuam a falar coisas sem fim, como se eu conseguisse reportar todas as suas vozes.  E como não consigo, perco-me em algumas, vendo imagens sem fim de suas vidas. Ou pelo menos as vidas que consigo ver em apenas uma frase. 

Alguém que me pede para ouvir, é alguém que não tem ninguém para falar e por isso empresto o meu ouvido, empresto também a minha alma para que possa sentir-se em casa. E assim, prossigo a ouvir as palavras de alguém que me quer despejar coisas como: tenho caspa e não sei como resolver. Às vezes é nítido, que tudo o que precisa é de falar. Outras, é possível confundir com necessidades que soa a necessidades reais. “Tenho fome e não tenho como comer.”. É nesta altura que me levanto e pego nas chaves de casa para correr a um supermercado e colecionar no carrinho de compras tudo o que esta mulher, esta voz feminina, sopra ao meu ouvido. O pior é que quando chego à porta não sei onde me dirigir, porque não sei se de facto esta mulher existe. Sei apenas que me grita ao ouvido. Acabo por trazer as compras para casa, etiqueto como: mulher desesperada. 

Por outro lado ouço tantas vezes aquela que me pede para dançar com ela, e como não sei do que gosta ela, vejo vezes sem conta, a minha lista de música e escolho para ela umas 7 músicas. Músicas que oiço em loop o dia todo, mas que escolho para que cada um dos dias da semana se possa cantar uma diferente. De facto, se esta mulher tiver o mesmo problema que eu, irá ouvir tudo, de uma vez só. Sou viciada em consumos musicais. Continuo, no entanto, a ouvi-la a pedir para que eu dance com ela, e por isso faço-lhe esse favor e danço.

Em jeitos envergonhados, ao ver o mar na minha frente vou despindo a roupa até nada sobrar, faço-o sem perceber se está alguém a ver. Contudo, no final, acabo por olhar ao meu redor para confirmar se estou a ser vigiada. Nada. Ninguém. Então falo, como se alguém me estive a ouvir, danço até entrar no mar e mergulho desejando ser uma sereia. 

Sou alguém que vive entre o mundo das vozes e o mundo da consciência, onde tudo é tão mau que chego a implorar para que essas vozes voltem, estranho que sejam sempre vozes de mulheres e que por incrível que pareça eu quase diria que sou eu. Porém, sou alguém tão consciente e normal que nunca me permitiria ser essas mulheres que querem ser ouvidas, ou aquelas que dançam como se não houvesse amanhã, muito menos aquelas que mergulham no mar para nadar como sereias. Afinal: sereias, dizem que não existem.