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Memória do Futuro

“Pára. Já percebi a mensagem. Ainda não chegámos aí.” Assim comecei a conversa contigo, memória do futuro. Minha querida e indelicada memória do futuro. Ou deveria mesmo dizer minha tão amada, fugaz, insana e incomoda memória do futuro.

Poucas são as vezes que acontece, mas aconteceu há um ano. Vi-o, encostado à parede branca da sala e soube que estaria hoje no chão de corpos colados. Numa manhã de inverno, entrava um raio de sol pela janela direto a ele, realçando a barba e o cabelo castanho claro. Longe de imaginar que seria abordada por uma memória do futuro, quando de facto fui, aconteceste. Um flash do futuro a dourar um primeiro encontro. Desengane-se quem pensa que fui abordada por um déjà-vu. Nenhum déjà-vu dá concretamente uma imagem de dois corpos fundidos no chão de madeira e um tapete fofo ao lado, de uma casa que desconhecemos, com cheiro a pele fresca e sensação húmida de corpos colados. Nenhum déjà-vu me traz sabor, fogo e definição. Quando me avassalaste, memória do futuro, soube que estaria com ele hoje, aqui, no chão de corpos colados entre ti, memória, e ele. Tinha, há um ano, acabado de chegar à sala, ao trabalho novo, à minha vida. Num sopro do fogo que me inundou o corpo percebi que não poderia escapar a este futuro. E foste tu memória que me traçou o caminho. 

Expliquei-te que não poderia ser. Expliquei-te com vários e diversos pontos, bastante detalhados, que me dei ao trabalho de anotar, escrever, rescrever e corrigir meses a fio num longo documento, quase um contrato entre nós, em como tu serias capaz de sair da minha vida e com isto mudar o futuro, tranquilizando-me. Porém, não assinaste o contrato que hoje, está na minha secretária guardado entre tantos documentos arquivados. E hoje, estou aqui. Arquivaste a minha vontade de mudar o futuro. E colocaste o teu plano em prática quando 6 meses depois de me avassalares tu, ele fez o mesmo colocando-me contra a parede sussurrando ao meu ouvido: “Pena não termos mais momentos destes.”. Vi-te memória. Aqui. E com medo respondi: “Momentos deste como assim? Queres que te passe mais vezes as impressões de (pausa) de, (olhei para os papéis) de assinaturas de presença? Convenhamos que há coisas mais interessantes para fazer.”. E com isto saí. Achando portanto que o tinha desviado da minha vida e te tinha passado uma rasteira.  

Verdade, que tu escreves direito por linhas tortas e por isso, marquei presença numa das folhas dele, desta vez não entre a espada e a parede, mas na apresentação de um dos seus mais recentes projetos. Com medo de ser notada, assinei, sem o último nome, e saí. Claro está, que não me poderias deixar em paz e sei que deves ter arranjado uma forma dele ter reparado que eu estava em fuga e quando chegou até mim sussurrou-me, como outrora o fizera: “Último nome é requerido, contato de email e só para mim contato de telemóvel.”. Perfeito. Estiveste muito bem, devo dizer-te. Fui apanhada desprevenida assinei e segui. Dia seguinte uma mensagem no telemóvel desenrolou o fio que há muito estava enrolado. Uma mensagem puxou a outra e um beijo levou ao outro. 

Posso dizer-te que és demasiado inconveniente, sabias que isto não era possível acontecer sem que eu saísse desta situação sem marcas. Mesmo assim, quiseste manter-te como inalterável levando o futuro ao presente e agora, neste preciso momento, em que mais preciso de ti para me ajudares a levantar deixas-me sem ti, apenas ele e sem palavras para lhe responder. Sendo que ele adianta-se dizendo: “vou aceitar outro trabalho e”  interrompo dizendo: “Pára. Já percebi a mensagem.”. Isto para ele, já para ti: feliz?! Chegámos finalmente aqui. 

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A Guarda

Godofredo de Almeida, funcionário postal. Esta é a forma como me apresento ao longo dos anos. O primeiro é o meu nome e o segundo a minha profissão. Sim, carteiro e afins. Sempre fui atraído pela questão logística das coisas, sobretudo seguir o caminho que uma encomenda ou carta faz para ir de A a B em perfeita segurança, sem atrasos e em perfeito estado. Há quem prefira seguir aviões, comboios ou camiões TIR. Eu prefiro as cartas. Gosto de acompanhar o percurso de cada uma, ver por onde passam, onde se demoram e quando passam a fronteira e são livres para chegar ao seu destino. Sabiam que existem estações de fronteira para o correio? Não são aquelas estações de correio perto das fronteiras como em Vilar Formoso ou Elvas, mas estações de correio que recebem e tratam o correio internacional. Imagino que as cartas e as encomendas também têm de passar pelo mesmo que nós.

Cada entrega tem uma história. Eu, que já ando nisto há muito tempo, ainda me lembro de pessoas esperarem por mim à porta de casa a cada manhã e à mesma hora, perguntando se havia correio para elas. Na maior parte do tempo eram só as contas do costume, e esses envelopes, asseguro-vos, ninguém gosta de os receber. Ainda menos os que vinham com aviso de receção devido ao atraso no pagamento. Sempre me assustou ver a velocidade de como um sorriso pode desaparecer do rosto de quem as recebe. Por vezes sentia-me culpado por dar estas notícias, mas, como sempre me disseram a culpa é da mensagem e não de quem a entrega. 

Como podem imaginar o que mais gosto de entregar, ainda que sejam cada vez mais raras, são cartas. De pessoas para pessoas. Cartas que dizem a quem as recebe que alguém pensou nelas, sentou-se, escreveu, colocou num envelope, pôs um selo e despachou-a. Têm tanto de ridículas como de inesperadas. Acabam com a ansiedade de quem as espera e surpreendem quem não tinha ideia de que ainda há cartas que lhes são dirigidas. Estas entregas compensam as outras todas. Seja um vale postal, os folhetos com as ofertas da semana ou os cartões-postal de quem foi a algum lado – confesso que olho rapidamente para as imagens para ver se é um sito que vale a pena visitar. Ultimamente entrego muitas encomendas sorridentes. Penso que a própria embalagem antecipa a reação das pessoas que as recebem.   

Ser carteiro implica também guardar os segredos dos outros. Segredos selados em papel. Segredos que não devem e não podem ser revelados. Por vezes, dependendo de onde as pessoas vivem, também recolho as suas cartas. É uma ajuda para quem mora longe. Pedem sempre para ter cuidado com elas, pois são partes de si que partem para outros. 

Há pouco tempo, no final do Outono, enviaram-me para um sítio novo. Um sítio diferente de todos os outros onde tinha estado. Os outros sítios eram planos e conseguia pedalar o dia todo para fazer as entregas. Aqui não. Cada dia é uma aventura. As ruas são diferentes, com altos e baixos, a calçada é negra e a chamada “baixa” da cidade, na verdade é na parte mais alta, ou seja, é tudo ao contrário. Nesta cidade as pessoas não esperam o correio à porta de suas casas a cada dia. O facto de terem as quatro estações do ano no mesmo dia não convida a longos períodos na rua. O interior torna-se apelativo para se passar a maior parte do tempo. 

Antes de começar a trabalhar estudei o percurso para melhor distribuir o correio e otimizar o meu tempo. Notei que até uma certa hora as ruas estavam desertas, mas assim que as pessoas decidiam sair, saíam todas ao mesmo tempo, como se fosse combinado. Como as entregas não coincidiam com estas horas, nunca via ninguém no meu percurso e isto fazia-me confusão. Comecei então a magicar uma forma de trazer as pessoas para a rua a qualquer hora. Apenas tinha de as convencer a porem o pé um pouco cá fora. Ao final da segunda semana, e quando já estava a tomar o pulso da cidade, eis que me engano num cruzamento e sou colhido por uma carrinha. Nada de grave, mas por momentos perdi os sentidos e até vi fogo de artifício. Disseram-me que a culpa era dos estudantes que ao retirarem o sinal de sentido proibido tinham transformado a rua de sentido único numa rua com duplo sentido… 

Voltando às entregas, comecei de forma suave, aguardando o bom momento: em vez de colocar o correio na caixa, tocava à campainha para me apresentar. As pessoas, vencidas pela sua curiosidade, lá abriam a porta para dizer bom dia. Com o tempo ia perguntando uma ou outra questão: se viviam ali há muito tempo, se iam ao posto dos correios ou se podia deixar as encomendas à porta nos dias em que ninguém atendesse a porta, mas não conseguia ter nenhuma resposta. Pensei que seriam tímidas e sem vontade em falar delas mesmas. Então mudei de estratégia e passei a perguntar pela vizinhança. Usei a desculpa de não conhecer bem as ruas tentado com isso conhecer melhor as pessoas. Também aqui avançava a passo. Porém, pouco a pouco fui notando os hábitos e particularidades de algumas pessoas: o senhor da Rua C coleciona selos; a senhora da Rua M que tem os filhos a estudar em Faro e no Porto e que gosta de receber cartões-postais com vistas do mar ou de sítios exóticos; ou a senhora da Rua H tem uma iguana de estimação, e por isso uma vez por mês recebe uma encomenda com suplementos para o animal (deve ser por isto que a sua casa está sempre bem aquecida, seja de Verão ou Inverno).

Foi assim que me dei conta do que realmente se passava naquela comunidade: apesar de ninguém falar de si mesmo, os seus tiques começaram a sair ao de cima. Tendo isto em conta resolvi pôr um plano em marcha, ajudando cada um a ajudar outra pessoa. Basicamente era dar um empurrãozinho para que as pessoas da comunidade prestassem um pouco mais de atenção aos seus vizinhos.  

Sempre que chegava uma carta com um selo especial, mostrava-o “sem querer” ao senhor da Rua C. Perguntava-lhe se sabia onde morava a destinatária e ele, com um interesse particular, não se mostrava rogado e até me acompanhava à porta para se assegurar que a carta era bem entregue. Durante a entrega tentava mencionar o seu interesse pela filatelia. E a partir daqui estas duas pessoas deixavam de ser meros desconhecidos e passaram a ser vizinhos. 

O mesmo aconteceu para a senhora da Rua M. Cada postal que chegava ficava no cimo do monte das cartas a entregar e com a imagem de fora para se notar que era uma foto e não um envelope. Com o tempo as pessoas aperceberam-se de quem era a destinatária e começaram a enviar postais quando também viajavam. No início não os enviavam diretamente: mandavam para as suas próprias casas e entregavam os cartões ao seu regresso e em mão. Só mais tarde, com a confiança já estabelecida é que enviavam diretamente. 

Quanto à senhora da iguana, passei a palavra que para além dos suplementos que recebia o que o animal também gostava era de talos de brócolos e de couve-flor. No início ela ficou bastante confusa com os vizinhos passarem e deixarem talos de legumes que de outra forma seriam desperdiçados.Foi assim que comecei aqui, aguardando os bons momentos para adaptar o ambiente ao meu redor. Pensava que era o frio que impedia as pessoas de sair à rua, esse mesmo frio que conserva tudo o que é perecível. No entanto, o frio também convida ao convívio, à entreajuda, à introspeção e à criatividade dentro de portas. Nesta cidade o calor que não se encontra no exterior está presente no interior de quem te acolhe e te recebe de braços e coração aberto.

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Finisterra

Olá, como estás? Há já algum tempo que que não falamos e por isso pensei que seria uma boa altura para trocarmos dois dedos de conversa. Eu bem sei, o tempo passa e tu não dás por ele, mas na verdade eu sinto o tempo a passar cada momento, hora, mês e ano e vejo o que andas a fazer com o teu tempo e, para ser sincera, não estou impressionada.

Quer dizer, tenho-te dado tudo, literalmente tudo para que possas ter uma vida plena, mas o que tens para mim são só abusos e uma tal violência que me pergunto se realmente tens alguma consideração por mim. Podes não ter notado mas por mais forte que possa parecer, na verdade eu sou bastante frágil. 

Sabes o quão complexo é o meu corpo e por isso não gosto de o expor. Ele é a tua área de prazer e dele retiras tudo o que precisas para sobreviver. Mas tu abusas constante e conscientemente. Esqueces-te que a minha pele, tal como a tua, sente e vive tudo o que lhe andas a fazer. Ela absorve tudo: os golpes, os cortes e as queimaduras sem razão. O tempo tudo sara, mas os teus abusos são regulares e a cada agressão a regeneração é cada vez mais difícil. Ainda assim, ela guarda os meus segredos e separa o que lhe acontece à superfície do que está no seu interior. Ultimamente andas fã da exploração profunda, procurando arrebentar-me das entranhas, como se isso te desse um prazer supremo. Esqueces-te que a minha pele, como a tua, sangra com cortes profundos. A minha pele, como a tua demora a sarar e enquanto não sara, o meu sangue verte sobre a minha pele até que a crosta seque. Mas ainda assim o meu sangue alimenta e traz vida à minha pele. 

Noto que a minha pele descansa mais onde tu não estás. Ou quando há menos de ti. Lá ela segue o seu curso, descansa, cria, sara e segue em paz. Na verdade, o que realmente me desequilibra és tu. Tu, que não encontras um motivo para apreciar o que tenho e deixo para ti. Tu e essa sede insaciável. 

Pergunto-me se esta pele fosse tua, terias o mesmo descuido por ela? 

Por isso da minha parte, já chega. Alguém tem de mudar e tomar uma atitude e como não vais ser tu, serei eu a dar o passo. Não é a primeira vez que tenho de me separar de alguém para me poder curar e ficar melhor. Dei-te as pistas todas e nunca compreendeste o que para aí vinha. Agora vou começar a fazer aquilo que é melhor para mim.    

Fim, A Terra

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Conto

Este

Vivo num país que se vê perfeito no papel, mas que a realidade mostra partes feias.

Vivo num país onde tudo acontece e pouco muda.

Vivo num país que deixa partir os seus filhos e filhas para ganhar mundo e prefere mantê-los lá fora.  

Vivo num país que acredita piamente que “Santos da casa não fazem milagres”, ainda que o milagre seja regressar e ficar. 

Vivo num país liderado por pessoas que não veem para além da sua ambição, e que almejam um futuro construído sobre as costas dos mais frágeis.

Vivo num país onde a dor é surda e a culpa morre, ainda e sempre, solteira.

Vivo num país onde se venera o que vem do Leste, ainda que tudo o que aconteceu a Este seja passado.

Vivo num país que espera ter resultados diferentes, mas continua a fazer os mesmos erros. 

Vivo num país onde ter esperança é difícil e pensar o amanhã é um luxo.

Vivo num país onde se espera pelo futuro e não se corre para desenhá-lo. 

Vivo num país onde não se vive, apenas se sobrevive.

No entanto, 

Vivo numa cidade que me dá o mundo como vizinho, 

que te recebe de braços abertos, mas que não te abraça.

que é pequena no tamanho, mas enorme no coração das pessoas.

onde cada bairro conta uma história e cada esquina te transporta a um sítio diferente.

Eu, 

Vivo numa rua onde as pessoas dizem bom dia de janela a janela,

que se anima com os risos e nas brincadeiras das crianças do parque,

que respira vida a torto e a direito. 

Vivo nesta rua comprida, plena de sombras onde a cada noite contamos estrelas cadentes.  

Vivo aqui onde o futuro é possível, e onde a esperança renascida é confirmada a cada piscar de olhos da tua pequena criatura. 

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Conto Todas

Dinistro & Sextra

Num vale perdido pelo horizonte das montanhas, existe uma vila muito particular. Uma vila que em muito se assemelha às vilas que todos conhecemos. Os seus habitantes vivem as suas vidas sem questionar demasiado o futuro. Há escolas, farmácias, cafés, lugares de culto e de cultura e todos disfrutam de uma certa harmonia no que toca ao seu dia-a-dia. O que torna esta vila particular é apenas e só uma pequena ocorrência: todas as pessoas têm dois pés e duas mãos direitas. Sim, por mais estranho que pareça os membros são todos direitos. Para quem vem de fora até pode parecer muito surpreendente mas, para quem nunca conheceu nada de diferente, este é o normal de quem ali vive. 

O fato de terem dois pés direitos, e ao contrário do que se possa pensar, permite que avancem com uma ligeira inclinação para o outro lado, o esquerdo. Em percursos pequenos isso não faz muita diferença, no entanto para caminhadas maiores, leva a que as pessoas completem círculos em vez de avançarem. Com o tempo a vida da vila organizou-se num grande círculo onde todos podiam caminhar na mesma direção. Da rua principal, que também é o maior círculo, saem diversas ruas menores que levam as pessoas às zonas residenciais, que, como podem adivinhar, são também círculos menores dentro do grande círculo. 

Na vida do quotidiano, ter duas mãos direitas causa situações caricatas, pois torna-se difícil agarrar um objeto, dançar ou completar simples tarefas domésticas, como lavar as mãos ou comer sem que o garfo tente sempre entrar pela bochecha. No lago que marca o centro da vila os barcos a remo rodam no próprio eixo. A tração deixa os habitantes presos no centro e com tonturas. O caminhar de forma enviesada acabava por condicionar a perspetiva das pessoas. Afinal era complicado ver as coisas de outra forma e nas raras ocasiões em que duas pessoas se poderiam confrontar (quer física quer verbalmente), ainda antes de chegarem perto uma da outra os seus pés levavam-nos para direções diferentes. “Dar uma mão” neste caso também não ajudava. Duas mãos direitas não duplicam a ajuda, apenas fazem o mesmo duas vezes. 

À medida que o número de habitantes aumentava, também a dimensão da vila. Foi assim que se começou a escavar a montanha que limitava a vila para criar caminhos circulares adicionais. Numa dessas escavações a Komatsu esbarrou uma parede de gelo, enterrada na rocha. Foi retirada a terra à volta da parede para se ter uma ideia do que realmente se tratava. A parede brilhava como um espelho e percebiam-se formas do outro lado. Inicialmente todos consideraram que era apenas o seu próprio reflexo. Dinistro, uma pessoa mais curiosa começou a lascar a parede e notou que as formas do outro lado do gelo se tornavam cada vez mais nítidas. Tentou avisar os outros habitantes mas sem efeito. Continuou a lascar a parede e a certa altura viu que a sua imagem, do outro lado do gelo, já não replicava os seus movimentos. Na verdade havia mais do que uma forma que se movimentava do outro lado e todas estas formas se tornavam cada vez mais nítidas. A esta altura, Dinistro assustou-se, deixou de lapidar o gelo chamou todos os habitantes para que lhe ajudassem a dar sentido ao que se estava a passar. Ninguém entendeu, mas aceitaram que possivelmente não se tratava de reflexos mas sim de forma autónomas.

Sem nenhuma outra referência ou objeção, Dinistro continuou a escavar. O gelo cedia a cada instante, a luz que vinha do outro lado brilhava tornando as formas mais claras. A certo momento o gelo desapareceu e a parede abriu-se. Dinistro libertou o caminho e rompeu a parede até poder passar para o outro lado e ver o que estava além. Eram outros seres, pessoas como eles, com as mesmas formas mas havia algo de ligeiramente diferente que escapava à sua compreensão.

Uma das pessoas do outro lado arriscou um aceno com a sua mão. Era Sextra, que fora designada representante. Dinistro respondeu da mesma forma. Ao aproximar-se percebeu que as pessoas do outro lado tinham também os mesmos membros que ele, mas com particularidade de, na sua perspetiva, estarem ao contrário.     

Dinistro e Sextra observam detalhadamente os seus corpos. Soltam palavras e reconhecem o mesmo idioma. Repetem o aceno inicial e compreendem que as suas mãos se completam enquanto caminham na direção um do outro, e maravilham-se quando o círculo que desenham com o caminhar, na verdade aproxima e coloca-os na órbita do outro. 

Dos dois lados da parede os restantes habitantes estão em silêncio a observar este trocar de primeiros passos. É decidido que cada vila deverá trocar impressões e aprender ao máximo sobre cada uma para ver de que forma poderiam ter mais sinergias. A parede é destruída e ambas as vilas não têm barreiras a separá-las. 

Para Dinistro e Sextra os dias são de autoconhecimento e descoberta. Quer nos corpos um do outro quer em cada vila. Sextra, como os habitantes da sua vila, tem dois pés e duas mãos esquerdas. Quando caminham, caminha enviesada para a direita e na sua vila os círculos estão organizados na direção contrária da de Dinistro. Com o tempo as tarefas que lhes pareciam impossíveis tornam-se viáveis e novos caminhos são desvendados. Até o navegar no lago do centro era uma atividade que finalmente fazia sentido. Em vez de círculos, era finalmente possível navegar em linha reta. 

É impressionante que em todos estes anos duas vilas, praticamente reflexos de si mesmas, nunca tenham tido conhecimento da existência do outro, apesar de estarem tão próximos.  

Do conhecimento e do tempo que Dinistro e Sextra passaram juntos surgiu uma criança. Esta criança nasceu com um pé direito e um pé esquerdo. Ao verem as suas mãos também notaram que tinha tanto uma mão direita como uma mão esquerda. Ao contrário de Dinistro e Sextra, os os habitantes de ambas as vilas entraram em choque. Nunca se tinha visto tal coisa. O que seria de uma criança que não pertencia a nenhuma das vilas?  

A criança cresceu e quando caminhava, avançava. Não tinha enviesamentos, apenas caminhava para a frente. Para o futuro.

Com mais crianças, os habitantes puderam ver que os seus jovens corpos, frutos da partilha das duas vilas, faziam as coisas de forma diferente. Tinham mãos que se lavavam uma à outra, caminhavam lado a lado e podiam entrelaçar e perder os seus dedos nos dedos do outro.      

Este percurso das duas vilas permitiu um mudar de atitude e de perspetiva. Conseguiu-se deslumbrar um futuro onde a sociedade não andava aos círculos, com cada um a falar para o seu lado, mas onde a troca de experiências se podia fazer face a face, lado a lado e caminhando para a frente.

As crianças destas duas vilas eram assim a semente de uma sociedade que dava os seus primeiros passos e estabelecia formas diferentes de se relacionar. No final, apenas uma questão inquietava os habitantes das duas vilas: depois de anos a falar, interagir e a viver cada um do seu próprio lado, estavam agora a aprender a ter mãos e pés esquerdos e direitos. Algo novo. 

Mas quão saudável e extraordinário seria viver numa sociedade onde todas as pessoas pudessem, sem exceção, ter uma mão direita e uma mão esquerda, assim como um pé esquerdo e um pé direito para caminhar, pensar, trabalhar e resolver os seus problemas como um todo e não de forma enviesada?  Para estas vilas, que sempre tiveram uma visão parcial dividida por uma parede de gelo, estas mãos e estes pés, permitem uma coisa entre muitas outras: caminhar para a frente e deixar de andar às voltas. 

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Tempo, esse velho de barbas brancas

O Tempo está muito cansado, visto que ele cura tudo. Nem imaginam como são tantas as dores de cabeça que um mundo inteiro de gente com problemas por resolver coloca em cima do Tempo! Este mar de gente está portanto a contar com o Tempo para que ele mesmo resolva. Talvez por isso, ele agora tem uma única cor: branco. Ele é branco nas barbas, no cabelo, e até as brancas que se lhe aparecem sobre as memórias são em branco. 

Vive num sótão onde mais espaço para ele se mover, não há. O Tempo é colecionador de dores, certo também que tem alegrias pelo sótão. Coleciona memórias de todo o tipo, mas o espaço, começa a escassear e  por ser tão acumulador as memórias encaixam-se umas em cima das outras causando alguns apagões, o pior é que com tanto caos o Tempo já se arrasta, não lhe é possível processar os dados com a mesma rapidez, o espaço é curto e a memória disponível também. 

Sendo que o Tempo, gosta de tomar conta de tantos, ele fica então sem mãos a medir. Por vezes acontece que encontra cacos ao seu redor e com muita calma e paciência junta caco a caco para voltar a fazer o vaso. Ainda assim o vaso nunca mais é como dantes, o Tempo fica triste e essa tristeza faz-se sentir nas suas barbas que sendo brancas, sem ponta de cor pelo meio, acabam por crescer. Então o Tempo agora é um velho de barbas e cabelos brancos, extremamente gigantes. 

A dado momento o Tempo tropeçou num molhe de cartas de amor, dois jovens de 15 anos eram as figuras das cartas, por estranho que pareça, ele só tinha um remetente e um recetor, cartas de uma só via. O Tempo perguntou-se: “Porque é que seria que a um molhe cheio de cartas de amor não se lhe apresentava resposta alguma?”. Possivelmente as respostas estariam perdidas naquele sótão pejado de feridas à espera de ser curadas. Visivelmente estas cartas de amor tinham muito por onde querer sarar. Entre encontros marcados e não acontecidos, até vergonhas alheias a impedir manifestações de amor e claro a típica timidez do primeiro amor.

A última carta surgia também ela incompleta:

Querido Jorge:

Hoje, não consigo falar porque as palavras ficaram presas na poça de lágrimas que surgiu na festa de finalistas. Estava feliz, disso eu lembro, até ler as palavras que me escreveste, com elas não vejo o futuro…

Esta última carta fica-se por aqui e o Tempo ficou desesperado porque não via mais cartas. Foi à procura delas no sótão, por todo o lado, remexeu até em factos menos distantes, porém, nada de encontrar o fio à carta. O Tempo não sabia o que lhe fazer, também não sabia como ajudar nesta situação. Com tanto trabalho para fazer, curas para apresentar, outras memórias e factos para arrumar naquele imenso sótão, o Tempo ficou sem movimentos pela carta de amor de Maria para Jorge, dois amados de primeira viagem. 

Entre uma carta e outra o Tempo resolveu brincar ao tempo e acabou por baralhar datas, baralhou-as de tal forma que o encontro marcado para 2000-10-03 acabou por ficar marcado para 20-01-30. Este acontecimento foi ao acaso, contudo, aconteceu. Foi então que finalizado este deslize temporal que ao olhar para o seu lado o Tempo encontrou uma carta que não existia até então. Era Jorge que a escreveu a Maria, o que dizia nessa carta, o Tempo não me revelou, disse porém: “Mais uma que o Tempo curou.”.    

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As aulas de natação de Narciso

Narciso sobreviveu. Após o susto, que apanhou quando caiu no rio, viu-se obrigado a ter aulas de natação, pois não iria deixar de ver o seu belo rosto refletido nas águas que quase o engoliram. 

Revelou-se, desde início, um péssimo aluno, e nadador. A começar pela recusa diária do uso de touca e óculos de natação, dizia que lhe desfiguravam a face, que não se reconhecia quando olhava para o seu reflexo. 

 Nos balneários, exigiu o cacifo mais próximo dos lavatórios com espelho para se ver enquanto trocava de roupa, ou se secava. E o mesmo com os chuveiros, esquecia de se lavar pois ficava a olhar para a sua cara no ralo do duche. E não vamos falar do tempo que ele despendia na casa de banho, pois distrai-se com a sua face na água da sanita. 

Narciso mostrava ser capaz de nadar. Estava rodeado daquilo que o distraía e que quase o matou. Recusava-se até a fazer os exercícios, como os que envolviam nadar debaixo de água, pois deixava de ver o reflexo da sua cara na piscina, e era essa a sua única motivação. 

O pior, principalmente para a equipa, eram quando treinavam mergulho a partir da prancha, Narciso ficava simplesmente a olhar-se, de um muito melhor ângulo do que quando estava na água. 

Narciso desistiu da natação. Aprendeu apenas o suficiente para sobreviver futuros afogamentos. E levou consigo uma boia. 

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Elefante

Pela minha janela entram os primeiros raios de sol. Gosto dessas horas em que ainda não é dia nem noite. A Noa hoje não dormiu comigo. Estranho… Ainda não abri os olhos. As drogas continuam o seu efeito quotidiano e eu tento dormir mais um bocado. Sinto um toque na pele e… um toque?! Estou sozinha. Abro os olhos naquele estilo drogado e dou um salto, ou melhor dizendo, mando-me da cama abaixo. O elefante dourado que costuma estar em cima da mesa mãe está deitado ao meu lado a desenhar-me o infinito na pele.

 – Que raio estás tu aí a fazer?! ­– Ainda não percebi se acreditei ou não no que estou a ouvir. Dou uma estalada em mim própria para garantir que não é efeito das drogas. Afinal, já tive Sir Anthony Hopkins de kilt na minha sala. Nop, é um elefante! Sim, estou de olhos abertos. Consigo ver as paredes rosa onde ele está encostado, o édredon de flores em tons frios, a bicicleta estática ao fundo, o guarda-fatos mel com baixos relevos de flores. Sim, estou acordada.

 Repeti para me convencer que ele estava ali – Que raio estás tu aí a fazer?!

-Vim te fazer uma visita, não posso?!

-É assim, filho! Se tens ideias de vir espalhar fertilidade, temos pena, já trouxeste um Siddhartha ao mundo, e eu não tenho vocação para criar o próximo Guru da Humanidade!

Num misto de curiosidade e incredulidade, comecei a admirar-lhe as decorações espalhadas pelo corpo, um lótus na testa, uma mandala no dorso, uma miríade de cores realçadas com o ouro. O bichinho era bonito.

 -Explica-me lá que vieste cá fazer?! Não queres fazer yoga, pois não? E podes contar que já tenho os chacras alinhados. Trazes sorte?! Dava jeito!

-Não…ouvi dizer que precisavas de memória. Posso-ta oferecer.

– Mas por que raio é que me haverias de oferecer memória, se me podes dar prosperidade, sucesso, sabedoria, proteção… se já te vi debaixo dum globo a suportar o mundo, se segundo os hindus até tinhas asas e brincavas nas nuvens? Não estou a perceber!

– Já ouviste a expressão “memória de elefante”? É verdade! Lembro-me de tudo e mais alguma coisa, desde o dia em que nasci até agora. Não gostavas de te lembrar da tua irmã, dos primeiros passos, de como estava o mar no dia em que te levaram para casa, do olhar da tua avó todas as vezes que te viu?

-Gostar até gostava! E como propões que faça isso? Injeção, comprimido, inalação?! Já levei de tudo!

-Fecha os olhos!

 Contrariada fechei os olhos, senti o som leve duns sinos, um pó que aposto seria dourado a cair levemente na minha pele e, numa fração de segundos, vi vários instantes da minha vida. As conversas com a minha irmã ainda na barriga da mãe, roubarem-na de mim, as tardes na esplanada com a avó, o gesso até ao pescoço, voltar a andar outra vez…todas as dores e alegrias da minha vida até este momento vieram até mim.

  Abri os olhos, não estava diferente, não me lembrava de tudo, só do Amor. O Elefante tinha razão. Ele já tinha desaparecido, mas eu não duvidei, nem por um momento, ele tinha-me dado o melhor presente de sempre.

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Catarina, por quem sois?

Esta pergunta perseguiu-me toda a semana antes de te conhecer. A amiga que nos apresentou avisou-me com alguma antecedência que iria conhecer uma Catarina. Ela conhecia as minhas experiências passadas e tentou acalmar-me dizendo-me o teu nome. Há muito tempo que não convivia com uma Catarina e por isso tinha muitos receios do que poderia esperar. Não que as Catarinas que conheci antes fossem problemáticas ou que me tivessem dado má impressão, mas digamos antes que as credenciais que me deixaram não eram muito positivas. 

Não acreditas? 

Vejamos, a última Catarina com quem convivi a sério era possuída por uma depressão cada noite que estávamos juntos. E não, por uma vez não era eu que a punha naquele estado. Era ela Ofélia e eu o espírito do rei condenado a vaguear pelas muralhas frias de Helsingør. Em desespero, ela subia a uma árvore de onde mergulhava para a sua morte no leito do rio. Noite após noite tive de carregá-la para o Outro Lado para apaziguar a sua alma e deixar a água correr. Sim, era num palco e sim, era a fingir. Não ajudou.

A outra Catarina, era muito mais poderosa e de outra categoria. Categoria 5 disseram-me. Tinha o poder de arrancar árvores pela raiz e de levantar casas inteiras deixando um rasto de desespero e destruição à sua passagem. Assustava tanto de longe como de perto. Esta Catarina, ou Katrina como ficou conhecida, deu-me um baile nos céus da costa florida. Atirou-me em todas as direções e pôs-me a voar de pernas para o ar. Foi única, mas também não contribuiu para a minha experiência com Catarinas. 

Lembrei-me ainda de outra Catarina, cuja história só conheci recentemente que, com o seu charme ensinou todo um império a parar às cinco da tarde para saborear folhas secas diluídas em água fervida.

Serias tu alguma destas? 

A dúvida angustiou-me até ao dia do nosso primeiro encontro. Chovia a cântaros. Cheguei cedo na esperança de te ver pela janela. Estavas sentada no final da sala do Café com um livro aberto no teu colo. Percebi que teria de atravessar toda a sala para chegar ao teu lado. Entre a porta da rua e a tua mesa não havia obstáculos. Ainda assim imaginei que era um soldado prestes a atravessar um campo minado na esperança de chegar a terra livre. Num campo minado o perigo está no caminho, não no destino. 

Abri a porta e entrei. 

O vento que entrou atrás de mim fez bater a porta com estrondo e levou a que todos olhassem para mim por um momento. Para mim, que pingava por todos os lados enquanto abria o casaco. Confrontei-os, olhos nos olhos, um a um. Arrisquei um passo, mas reparei que não te tinhas virado. Temi que te fosse indiferente. E que tu fosses indiferente à minha entrada. Ou que o livro que lias te levava toda a atenção. Sobraria alguma para mim? 

Dei meia volta, voltei a fechar o casaco e preparei-me para sair e diluir-me na chuva de fora quando senti uma mão que me toca no ombro. 

Eras tu. 

Atravessaste o campo minado para vir ter comigo. Disseste: “Estava à tua espera!”. E os meus receios desapareceram no teu sorriso.    

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Cabeça-balão

Perdi a cabeça. Podia ter enlouquecido, perdido o controlo, deixado de saber quem sou, onde estou e todas essas derradeiras questões existenciais. Podia ter perdido o emprego, um comboio, a carteira, as chaves de casa ou do carro, um amor que julgava eterno ou até um cão que me era querido. Podia ter perdido o apetite, a energia, a vontade, a memória, a paciência, a fé, a coragem… Mas perdi a cabeça.

Soltou-se fisicamente do meu corpo. Não sei precisar o tempo que perdi à procura de alguém que se fingisse especialista capaz de ajudar nestes casos de cabeças perdidas. Salvou-me uma costureira. Encarregou-se de me encher de nagalhos no pescoço para que a cabeça ficasse amarrada a mim e não me fugisse mais. Chamam-me enforcado, tal é a malha de nagalhos em nós cegos. Eu próprio já lhes perdi a conta. 

Tudo começou com uma dor na coluna. Trepou-me vértebra por vértebra e, assim que pôde, agarrou-se ao meu pescoço. Entrou pescoço adentro e esticou-se até o distender. Milímetro a milímetro, senti-os todos. Já o pescoço se via mais alto quando a dor, que julgava terminar ali, me sobe cabeça a cima. Trepou até à ponta da coluna e desaguou no que pareceu ser o centro do meu cérebro. Aí, desatou numa correria desenfreada, como quem faz do crânio uma esfera da morte – aquelas estruturas esféricas metálicas onde motas correm a altas velocidades, não sei bem se a fugir da morte, se a correrem atrás dela. A dor correu então pelo crânio e atropelou sem piedade toda e cada partícula de osso a uma velocidade que duvido ser sequer mensurável. Arrancou depois sem aviso e foi como se me tivesse atravessado a testa, esmigalhando toda a estrutura óssea que a constitui. Saiu de rompante, mas nem por isso deu espaço ao alívio. Foi como se me rebentasse a cabeça num ápice agudo e voltasse para pisar a cratera que me abriu. Nesse momento desejei não ter cabeça, quis oferecê-la à dor. Não sei se me levou a mal e quis ir ou se a levaram. Sei apenas que se foi.

Não é surpreendente que o meu corpo me desobedeça. Sou pouco coordenado, lento e desajeitado. Nunca encontrei especial habilidade para o desporto e quando a cabeça se soltou revivi a minha curta experiência no volley. Senti-me de novo a correr timidamente, em círculos e sem critério. Jogava sempre de mãos no ar, mas a bola nunca lhes tocou. Tinha a intenção, mas faltava-me intuição. A cabeça-balão soltou-se acelerada como um balão largado ainda sem nó e, tal como a bola, não sei deixava agarrar. Já era tosco quando era inteiro e a divisão não me beneficiou. 

Primeiro, é preciso algum tempo para reaprender a controlar o corpo sem o comando. Refiro-me à cabeça que, quando se liberta do corpo, renuncia à responsabilidade sobre o que nele acontece. É necessário um nível de destreza quase olímpico para almejar tocar-lhe. Agarrá-la parece coisa do divino. Depois de vaguear como quem corre, começa eventualmente a abrandar. Mas neste ponto da expedição, parece transformar-se num balão de hélio e aponta ao céu como destino. No caso, ao teto. A minha casa é alta e não sou bom trepador. Um pequeno toque, por muito cauteloso que seja, pode atirar a cabeça para outro canto. Tentei de tudo, até reconduzi-la com o auxílio de um cabo de vassoura. Foi medianamente eficaz, mas altamente desconfortável. Quando finalmente a recuperei, sentei-me no sofá com ela ao colo. A visão continua do lado da cabeça. Olhei atentamente para o meu pescoço meio desfeito com quase tanto asco como entusiasmo. O que podia exigir de mim? Tinha acabado de perder a cabeça. Lembro-me de tudo e sei precisamente como aconteceu, mas isso não me junta a cabeça ao corpo, nem explica porque é que ela se foi. 

Recorri ao meu psicanalista. Respeito o homem e o seu trabalho, mas desde que lhe contei tudo sobre como perdi a cabeça, o pescoço do senhor ganhou dois centímetros e quarenta e dois milímetros. Foi este o cumprimento preciso que o meu pescoço viu crescer numa primeira fase, que antecipava o momento em que ela se soltou de mim sem permissão. Não digo sem aviso porque o sinal estava lá. Não soube interpretar e a ciência não estava ainda preparada. 

Dou por mim nas sessões de terapia a alertar o psicanalista de que estão prestes a rebentar. Não as águas, mas as costuras invisíveis que lhe seguram a cabeça. O homem ri. Mas ri dois centímetros e quarenta e dois milímetros mais acima do que ria antes. Com a precisão que olho me concede, tenho registado o crescimento do pescoço do doutor nos últimos meses. Se o caso dele se manifestar da mesma forma que o meu – como tem sido – faltam-lhe apenas sete milímetros para atingir a expansão que o meu pescoço tinha à data da separação. Pelas minhas contas, a cabeça vai descolar pescoço-pista fora às 15h56 de quinta-feira. 

Ofereci-lhe nagalhos, mas não os quis. Deu-os ao cão para brincar. Sempre que ouço as unhas grossas do cão arranhar o chão flutuante do consultório, imagino o momento em que a cabeça do doutor levanta voo e se transforma num brinquedo. Será que vai chiar, como os brinquedos coloridos insuflados que o cão costuma trazer alegremente entre os dentinhos afiados? Chamo-lhe cão porque não sei o nome. O doutor recusa-se a dizer-me como se chama. Diz-me que é uma informação muito pessoal e não podemos criar laços. Nem criar laços, nem trocar nagalhos, e a cabeça que se vá. Já nem é por ele, que parece quase curioso por experienciar esta perda, é por mim. Podendo escolher, preferia um psicanalista inteiro. Como posso esperar que o doutor me resolva o problema do qual o próprio sofre em negação? Ninguém pede a um coxo para lhe ensinar a correr. 

Estou mais determinado a encontrar possíveis motivos para tudo isto do que o psicanalista. É esforçado, mas peca pela falta de criatividade. Gere as minhas deambulações, mas não contribui especialmente para elas. 

Comecei por baixo na escala da insanidade. Primeira opção: a culpa é minha. Sempre sofri com dores de cabeça. Desde que me lembro de a sentir, ela doía com alguma frequência. As crianças não estão preparadas para sofrer tanto e eu rogava pragas ao universo por me fazer sentir assim. A minha mãe caminhava sobre joanetes disformes que lhe causavam uma dor tão aguda que chegava a chorar. Dizia com frequência que preferia cortar os pés a sentir aquilo. Não fosse mimetizar uma arte das crianças, eu próprio considerei que cortar a cabeça podia ser a solução para o meu mal. Disse, pensei e senti que queria não ter cabeça. Talvez me tenha amaldiçoado. Ainda assim, parece-me coisa pouca para tamanho circo. 

A necessidade de perceber o porquê foi perdendo intensidade com a clara falta de respostas. O psicanalista apresentou-me uma tese que me roubou vontade de mergulhar tão fundo porque, pasmem-se, a culpa também era minha. Atirou-me à cara um episódio trágico. Tinha quatro anos quando decapitei o Sebastião, um peixe dourado que exigia responsabilidade que eu ainda não possuía. Numa manhã fria e sem vigia parental, encontrei-o a boiar e tentei reanimá-lo. Quis fechar-lhe os olhos como se vê fazer na televisão, mas não havia pálpebras que os tapassem. Os olhos ainda brilhantes e desproporcionais provocaram-me desconforto tal que, com força desmedida e num impulso que ainda hoje não compreendo, separei acidentalmente o corpo da cabeça. A imagem da cabeça do Sebastião na minha mão direita e o resto do corpo na mão esquerda assombraram-me em pesadelos recorrentes durante anos. O psicanalista diz que a culpa que guardo pode ser a causa da desintegração do meu corpo, o que me permitiu concluir que não preciso assim TANTO de uma razão. Culpa há muita e acho desnecessário chafurdar.

Escolhi ver os nagalhos que me seguram a cabeça como uma piada – ainda que palerma – sobre a minha distração crónica. Ouvi mais vezes do que seria tolerável “só não perdes a cabeça porque está agarrada”, facto que vim a comprovar pouco depois da primeira tentativa de a segurar. Percebi a piada, não ri e queria o corpo antigo de volta, por favor. Obrigado. 

Confirmei a precariedade do primeiro kit de nagalhos pouco depois de o instalar. Corto o cabelo na barbearia do senhor Zeca há mais de dezoito anos. A idade já lhe pesa na vista, os óculos deslizam nariz abaixo e, nos últimos cortes, a navalha deixou um rasto trágico, parecia guiada por uma toupeira.

O senhor Zeca começa sempre de baixo para cima e sempre atrás, onde o pescoço se cobre com os primeiros cabelos. Precisamente o local onde a dor se fixou antes de invadir o interior do meu crânio até sair num ápice pela minha testa. O senhor Zeca é um bom homem, mas é céptico. Pedi-lhe que tivesse cuidado, não fosse dar-me cabo do sistema sem querer. Incrédulo, repetiu várias vezes que era “impossível”, mas que eu era “muito engraçado”. Mesmo estando a ver todos os nagalhos, não acreditava. Explicar que tenho a cabeça presa ao corpo por pequenos cordelinhos tem tanto de insano como de exaustivo. Mas também não posso não explicar. 

O senhor Zeca não acreditava, nem aceitava a minha explicação. Já me contento quando acenam e me chamam maluquinho com os olhos. Mas a reação do senhor Zeca custou-me. Conhece-me há anos, esperava outra postura. Ouvi-lo descredibilizar o meu problema e a minha dor daquela forma, fez nascer em mim revolta. Ponderei, durante dois segundos, desfazer todos os nós e soltar a cabeça à frente dos seus olhos só para lhe mostrar que não tinha graça nenhuma. Levei a mão a um dos nagalhos centrais mas, felizmente, apesar de solta, a cabeça preserva algum juízo e soube acalmar-me a tempo. Não tenho especial prazer em traumatizar idosos. 

O senhor Zeca percebeu que me arreliou. Olhou-me pelo espelho e mostrou-se mais cuidadoso. Notei pela sua conversa que estava a tentar avaliar o meu estado e diagnosticar-me uma qualquer loucura que justificasse os preparos em que me apresentei. Entre cortes, desviava o olhar dos nagalhos. Vi-lhe o esforço, vi a tentativa de olhar para eles como quem não os vê. Sem sucesso, retomou o corte de olhar fixo no espelho, sempre nos meus olhos refletidos no espelho e nunca no meu pescoço, nunca nos nagalhos! Percebi que sairia com o pior corte até ali testemunhado, mas antes isso que uma guedelha a tapar-me os olhos. Tentei explicar-lhe que a minha vida estava tão boa ou tão má como habitualmente. Jurei que nada tinha a ver com enforcamento. “Queres morrer?”, perguntou-me, preocupado. Hesitei, mas respondi “às vezes”. O senhor Zeca afastou a navalha da minha cabeça, inclinou-se para trás e observou-me mais atento. Ri e perguntei “quem nunca quis?”. Relaxou, mas não totalmente. Antes de retomar, tentou convencer-me a deixar crescer o cabelo. “Disfarça os nagalhos, se não os quiseres tirar”, propôs-me quase como quem pergunta. “Não os posso tirar”, disse-lhe, menos paciente. “Um dia vais poder”, respondeu-me com um olhar esperançoso e uma palmadinha quente e condescendente nas costas. Julga-me louco. “Acho que o senhor Zeca não está a perceber… Se os desapertar, ela vai-se”, apontei para a minha cabeça. Não me respondeu. 

Vi-o concentrar-se no meu pescoço, levou a mão direita à bata e sacou de uma pequena tesoura. Ouvi o corte. Senti o corte. Foram-se três nagalhos e a minha nuca começou a elevar-se, como um verdadeiro balão com corda solta para voar. Suspirei aborrecido e tentei servir-me do espelho para agarrar a cabeça e atar de novo os nagalhos. O senhor Zeca, de tão aterrorizado, parecia congelado. Pálido, recupera apenas o suficiente para dar três passos acelerados para trás. De mãos na cabeça, olhei-o e dei-lhe alguns minutos para se recompor. As pálpebras do homem continuavam a desafiar a física e abriam mais e mais. “É verdade”, disse o homem entre gaguejos. Confirmei-lhe o que via e pedi ajuda para voltar a amarrar a cabeça ao corpo. Cedeu hesitante, quase enojado, mas sobretudo arrependido. Larguei a cabeça quando ele a agarrou. O senhor Zeca sentiu a força da cabeça-balão e, talvez assustado, largou-a bruscamente. A nuca voltou a virar-se para o céu e o movimento fez soltar mais uns quantos nagalhos. “Ela flutua!”, exclama mais entusiasmado. Para lá dos meus pés, só conseguia ver a minha vida a andar para trás. Consegui amarrar a cabeça, mas continuo à procura de um barbeiro… O senhor Zeca não me apanha lá que não tente cortar uns quantos nagalhos para me exibir aos outros clientes como um número de circo incluído no serviço.

Talvez tenha enlouquecido, perdido o controlo, deixado de saber quem sou, onde estou e todas essas derradeiras questões existenciais. Talvez tenha perdido o emprego, um comboio, a carteira, as chaves de casa ou do carro, um amor que julgava eterno ou até um cão que me era querido. Talvez tenha perdido tudo e isso me tenha levado a perder a cabeça. Não sou louco, sou um decapitado que respira e procura um barbeiro. A cabeça fez-se balão, mas nem assim deixou de doer.