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Não Chorei Quando Nasci

Não chorei quando nasci. Não é que me lembre, mas é um daqueles factos que ouvimos tantas vezes em reuniões familiares, que os acabamos por carregar connosco como se formassem uma espécie de cognome incrustado à nossa existência.


A minha mãe, apesar das suas vontades em ter um parto natural, cuspiu-me para este mundo num silêncio adormecido, enquanto lhe retiravam o bicho ensanguentado pela fissura aberta do seu ventre. O médico e enfermeiras estavam num estado tão profundo de concentração naquele turno da madrugada, que nem um esgar soltaram no momento solene em que entrei de pé esquerdo nesta realidade. No bloco operatório, até os sons sintomáticos do hospital se pareciam ter feito diminuir numa espera inconcebida pelo choro normal de um nascimento.


O silêncio acompanhou-me, assim, a vida toda. Os meus pais dizem até hoje que era uma maravilha de bebé, chorava tão pouco que se esqueciam que me tinham. Quando comecei a escola, era tão calado que me tentaram diagnosticar mais de dez vezes com diferentes problemas de foro psíquico, nenhum deles acabou por estar certo. Parecia apenas que não tinha palavras trocadas na carteira, e as que tinha, requiriam esforços sobrehumanos para serem puxadas cá para fora.


Aos catorze anos, já tinha andado em quatro psicólogos e dois terapeutas da fala. Contudo, apesar de grandes e longas análises, nunca ninguém soube perceber a razão do meu silêncio e, quando me perguntavam, simplesmente encolhia os ombros, sem nada para dizer. Não o fazia por provocar, simplesmente, não sabia o que dizer. Nunca.

Com a idade, fui percebendo que levava comigo este silêncio denso e pesado. Era como uma massa negra à minha volta, que pesava no ambiente, sem deixar espaço para palavras. Comecei a pensar que, quando me colheram do ventre da minha mãe, colheram também um irmão gémeo esquecido, carregado nas minhas costas que fez calar todo o hospital.


Tentei visualizar várias vezes esta massa negra que me rodeava, talvez se percebesse a sua forma, a conseguisse expulsar. Pensei que fosse um polvo gigante, pousado no alto da minha cabeça oca de palavras, que levava o desconforto nos tentáculos, para tapar a minha boca e a de toda a gente que me abeirasse. Teria a aparência e o destino de um vilão da Disney – invariavelmente determinado a vencer-me, mas condenado a uma eventual derrota sobre o domínio da minha palavra. Contudo, quando os anos começaram a passar sem que levassem consigo os tentáculos, comecei a desacreditar-me do rato Mickey e das histórias de embalar.


Esse foi o momento em que comecei a pensar que talvez esta massa fosse um Anjo da Guarda que me protegia das palavras, guardando-as numa caixinha preciosa, apenas aberta nos momentos oportunos. Queria acreditar que o fazia para me proteger das esquinas afiadas das letras, mas também o meu silêncio me começava a magoar. Quanto mais tempo passava sem saber o que dizer, mais pequeno me tornava, mais me escondia pelos cantos, e mais sozinho fui ficando. Pelo que concluí que, quem me roubava as palavras não seria um anjo da guarda.


Comecei, então, a deixar de procurar causas externas para a atmosfera silenciosa e sufocante que carregava comigo e passei a crer que o silêncio vinha de mim. Eu tinha a massa dentro de mim, densa e corrosiva, a deixar-me a cabeça doente e cansada, atolada só das palavras que me faziam mal. Cambaleavam dentro do meu cérebro por horas, deixando feridas na sua passagem e sem nunca saírem para ver a luz do dia.


Tinha o silêncio na roupa que vestia e na pele que a suportava também. O silêncio estava nas minhas pestanas e unhas, escondido por entre cabelos e dedos, que se entrelaçavam sem ruído. Tinha-o nos lençóis à noite e nas toalhas de manhã. Nos cadernos em que tentava escrever e nos desenhos que falhava em completar. Entendi que o silêncio não só arrombava as portas e janelas do meu bem-estar, como também era ele a casa e as paredes contra as quais cambaleava à procura de equilíbrio.


Quando tive esta realização de que eu era o meu próprio silêncio, chorei como nunca o tinha feito. Chorei pela vez que não chorei ao nascer, e por todas as outras que me mantive demasiado calado para poder exprimir qualquer emoção. Tinha nas minhas lágrimas dor e confusão – toda a minha vida tinha culpado o universo por este meu problema, mas aparentemente, eu era o problema. Foram dias a chorar, inundei a casa e o tejo entrou-me pela sala e quarto sem autorização.
Estou ainda a limpar os estragos deste meu entendimento mas, já que não chorei quando nasci, espero nascer agora que chorei.



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Hotel Morpheu

Mens sana in corpore sano”, ou se preferirem: “Mente sã em corpo são”. Sempre me disseram que a mente e o corpo, quando sintonizados, permitem-nos desfrutar da vida e não há nada que nos detenha. É como não ter obstáculos e ter tudo, verdadeiramente tudo como possível.  

Sempre que a mente comanda sinto que o corpo tem mais hipóteses de sucesso. A mente sabe até onde o meu corpo pode ir, por isso alimenta e avisa-o de quando está a chegar ao limite. Ainda assim, ocasionalmente, o meu corpo consegue surpreender a mente com uma descarga de adrenalina que lhe permite um esforço adicional. 

A mente dá as pistas (vai descansar, já deu, não te esforces mais, etc.) e o corpo geralmente apanha-as todas. Geralmente porque o meu corpo por vezes nada para fora de pé: perde o comboio, age por instinto, fica até acabar a festa, arrisca mais, ousa um beijo ou acredita que certos dias não deveriam ter fim: a tarde passa a noite e da noite nasce a alvorada, resultante das palavras e de copos a mais, e de todos os outros que virão. Os momentos de euforia do corpo são pagos com as consequências do dia seguinte.  

Num dia perfeito tanto o meu corpo como a minha mente vão descansar à mesma hora. Eu desço até à cama ou outro recanto que me esteja destinado, fecho os olhos e durmo. A minha mente, no entanto, espera que eu adormeça para também ter o seu descanso. Porém para descansar parte para o Hotel Morpheu. Pelo nome até aparenta ser um hotel como os outros, mas é o sítio onde as mentes descansam. 

Imagino que quando adormeço a horas ela consegue chegar a tempo de fazer o check-in e escolher um quarto com boas condições. Sabem como funciona, não é? Um quarto a meio do edifício, não muito alto nem muito baixo, para poder escapar em caso de fogo e suficientemente longe do elevador para não ouvir quem chega demasiado tarde. 

Se o check-in é feito cedo ela consegue escolher onde vai ficar e tem o descanso merecido. Entra no quarto, senta-se na escrivaninha e coloca a bagagem que acumulei ao longo do dia no chão. Revê as avarias em que me meti, tenta dar sentido às caras com as quais me cruzei e toma notas para que me lembre do que correu bem (ou mal) para o dia seguinte. No final, e independentemente do balanço, termina com uma nota positiva. A bagagem é lavada, passada e arrumada para memória futura. O que não faz muito sentido é enviado de volta para onde os sonhos acontecem e onde têm uma segunda oportunidade de fazerem sentido. No final tudo é enviado para backup que é quando estou no sono profundo. A partir daqui ela tem o seu tempo: tanto pode tomar um banho relaxante, mimar-se no SPA ou discutir com as outras mentes o que os corpos lhes fazem. Trocam impressões, comparam notas e afinam estratégias. E aí têm o seu merecido descanso.    

Nos dias em que abuso e vou dormir tarde, a pobre dificilmente encontra o quarto que merece. Tem de se contentar com o está disponível, o que nem sempre é agradável. São os quartos que ficam ao lado da copa, das escadas, em frente ao elevador e de espaço reduzido. Como estes quartos são os que ficaram livres há pouco tempo, nem sempre estão limpos o que não proporciona um descanso merecido para o que resta da noite. Desta feita a bagagem do meu dia não é arrumada como deveria. Fica espalhada pelos compartimentos da minha cabeça, suja, sem nexo e à espera de que a mente a possa arrumar quando tiver tempo. Um dia assim ainda passa. Mas quando estes se tornam recorrentes a mente deixa de conseguir gerir. E assim a bagagem continua espalhada pelos recantos da mente sem ser cuidada e com o tempo o desarrumo transforma-se em dor. Infelizmente e apesar do nome, o hotel não fornece morfina, pelo que a mente tem de reduzir a confusão e desenrascar-se sozinha. 

Quero apenas realçar o quão importante é manter a consonância entre a mente e o corpo, na medida do possível. Depois de uma noite reparadora a mente e o corpo despertam simultaneamente. Ou melhor, deveriam.   

Isto tudo porque ontem a minha mente acordou antes do meu corpo (suponho que já devia ter dormido o suficiente). Pode-vos parecer estranho, mas lembro-me perfeitamente de estar a dormir, abrir os olhos e olhar à minha volta. O sol estava escondido e ela ainda dormia ao meu lado. Olhei à volta, vi o candeeiro do quarto e reconheci a minha roupa na cadeira ao longe. Continuei a observar o quarto e a ver como tudo me era familiar. Apenas os meus olhos se moviam. O corpo inerte como se estivesse anestesiado e eu confuso entre sonho e estar acordado. 

Pouco a pouco o meu corpo começou a acordar e a tomar consciência do que se estava a passar. Nesse momento senti o coração a tentar sair do meu peito tal era a força das suas batidas. Não sei como a mente deixou escapar esse momento, mas o coração bombava como louco para se assegurar que recuperava o atraso e que todos os órgãos estavam a trabalhar a 100%. Foi aí que a mente voltou a tomar o comando e baixou o ritmo do coração. Sussurro-lhe baixinho: – “Está tudo bem! Mas agora por favor devagar, senão amanhã não estamos aqui para contar a história…”.    

Ele acalmou e eu ainda aqui estou.

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Memória do Futuro

“Pára. Já percebi a mensagem. Ainda não chegámos aí.” Assim comecei a conversa contigo, memória do futuro. Minha querida e indelicada memória do futuro. Ou deveria mesmo dizer minha tão amada, fugaz, insana e incomoda memória do futuro.

Poucas são as vezes que acontece, mas aconteceu há um ano. Vi-o, encostado à parede branca da sala e soube que estaria hoje no chão de corpos colados. Numa manhã de inverno, entrava um raio de sol pela janela direto a ele, realçando a barba e o cabelo castanho claro. Longe de imaginar que seria abordada por uma memória do futuro, quando de facto fui, aconteceste. Um flash do futuro a dourar um primeiro encontro. Desengane-se quem pensa que fui abordada por um déjà-vu. Nenhum déjà-vu dá concretamente uma imagem de dois corpos fundidos no chão de madeira e um tapete fofo ao lado, de uma casa que desconhecemos, com cheiro a pele fresca e sensação húmida de corpos colados. Nenhum déjà-vu me traz sabor, fogo e definição. Quando me avassalaste, memória do futuro, soube que estaria com ele hoje, aqui, no chão de corpos colados entre ti, memória, e ele. Tinha, há um ano, acabado de chegar à sala, ao trabalho novo, à minha vida. Num sopro do fogo que me inundou o corpo percebi que não poderia escapar a este futuro. E foste tu memória que me traçou o caminho. 

Expliquei-te que não poderia ser. Expliquei-te com vários e diversos pontos, bastante detalhados, que me dei ao trabalho de anotar, escrever, rescrever e corrigir meses a fio num longo documento, quase um contrato entre nós, em como tu serias capaz de sair da minha vida e com isto mudar o futuro, tranquilizando-me. Porém, não assinaste o contrato que hoje, está na minha secretária guardado entre tantos documentos arquivados. E hoje, estou aqui. Arquivaste a minha vontade de mudar o futuro. E colocaste o teu plano em prática quando 6 meses depois de me avassalares tu, ele fez o mesmo colocando-me contra a parede sussurrando ao meu ouvido: “Pena não termos mais momentos destes.”. Vi-te memória. Aqui. E com medo respondi: “Momentos deste como assim? Queres que te passe mais vezes as impressões de (pausa) de, (olhei para os papéis) de assinaturas de presença? Convenhamos que há coisas mais interessantes para fazer.”. E com isto saí. Achando portanto que o tinha desviado da minha vida e te tinha passado uma rasteira.  

Verdade, que tu escreves direito por linhas tortas e por isso, marquei presença numa das folhas dele, desta vez não entre a espada e a parede, mas na apresentação de um dos seus mais recentes projetos. Com medo de ser notada, assinei, sem o último nome, e saí. Claro está, que não me poderias deixar em paz e sei que deves ter arranjado uma forma dele ter reparado que eu estava em fuga e quando chegou até mim sussurrou-me, como outrora o fizera: “Último nome é requerido, contato de email e só para mim contato de telemóvel.”. Perfeito. Estiveste muito bem, devo dizer-te. Fui apanhada desprevenida assinei e segui. Dia seguinte uma mensagem no telemóvel desenrolou o fio que há muito estava enrolado. Uma mensagem puxou a outra e um beijo levou ao outro. 

Posso dizer-te que és demasiado inconveniente, sabias que isto não era possível acontecer sem que eu saísse desta situação sem marcas. Mesmo assim, quiseste manter-te como inalterável levando o futuro ao presente e agora, neste preciso momento, em que mais preciso de ti para me ajudares a levantar deixas-me sem ti, apenas ele e sem palavras para lhe responder. Sendo que ele adianta-se dizendo: “vou aceitar outro trabalho e”  interrompo dizendo: “Pára. Já percebi a mensagem.”. Isto para ele, já para ti: feliz?! Chegámos finalmente aqui. 

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(a)Guarda

Godofredo de Almeida, funcionário postal. Esta é a forma como me apresento ao longo dos anos. O primeiro é o meu nome e o segundo a minha profissão. Sim, carteiro e afins. Sempre fui atraído pela questão logística das coisas, sobretudo seguir o caminho que uma encomenda ou carta faz para ir de A a B em perfeita segurança, sem atrasos e em perfeito estado. Há quem prefira seguir aviões, comboios ou camiões TIR. Eu prefiro as cartas. Gosto de acompanhar o percurso de cada uma, ver por onde passam, onde se demoram e quando passam a fronteira e são livres para chegar ao seu destino. Sabiam que existem estações de fronteira para o correio? Não são aquelas estações de correio perto das fronteiras como em Vilar Formoso ou Elvas, mas estações de correio que recebem e tratam o correio internacional. Imagino que as cartas e as encomendas também têm de passar pelo mesmo que nós.

Cada entrega tem uma história. Eu, que já ando nisto há muito tempo, ainda me lembro de pessoas esperarem por mim à porta de casa a cada manhã e à mesma hora, perguntando se havia correio para elas. Na maior parte do tempo eram só as contas do costume, e esses envelopes, asseguro-vos, ninguém gosta de os receber. Ainda menos os que vinham com aviso de receção devido ao atraso no pagamento. Sempre me assustou ver a velocidade de como um sorriso pode desaparecer do rosto de quem as recebe. Por vezes sentia-me culpado por dar estas notícias, mas, como sempre me disseram a culpa é da mensagem e não de quem a entrega. 

Como podem imaginar o que mais gosto de entregar, ainda que sejam cada vez mais raras, são cartas. De pessoas para pessoas. Cartas que dizem a quem as recebe que alguém pensou nelas, sentou-se, escreveu, colocou num envelope, pôs um selo e despachou-a. Têm tanto de ridículas como de inesperadas. Acabam com a ansiedade de quem as espera e surpreendem quem não tinha ideia de que ainda há cartas que lhes são dirigidas. Estas entregas compensam as outras todas. Seja um vale postal, os folhetos com as ofertas da semana ou os cartões-postal de quem foi a algum lado – confesso que olho rapidamente para as imagens para ver se é um sito que vale a pena visitar. Ultimamente entrego muitas encomendas sorridentes. Penso que a própria embalagem antecipa a reação das pessoas que as recebem.   

Ser carteiro implica também guardar os segredos dos outros. Segredos selados em papel. Segredos que não devem e não podem ser revelados. Por vezes, dependendo de onde as pessoas vivem, também recolho as suas cartas. É uma ajuda para quem mora longe. Pedem sempre para ter cuidado com elas, pois são partes de si que partem para outros. 

Há pouco tempo, no final do Outono, enviaram-me para um sítio novo. Um sítio diferente de todos os outros onde tinha estado. Os outros sítios eram planos e conseguia pedalar o dia todo para fazer as entregas. Aqui não. Cada dia é uma aventura. As ruas são diferentes, com altos e baixos, a calçada é negra e a chamada “baixa” da cidade, na verdade é na parte mais alta, ou seja, é tudo ao contrário. Nesta cidade as pessoas não esperam o correio à porta de suas casas a cada dia. O facto de terem as quatro estações do ano no mesmo dia não convida a longos períodos na rua. O interior torna-se apelativo para se passar a maior parte do tempo. 

Antes de começar a trabalhar estudei o percurso para melhor distribuir o correio e otimizar o meu tempo. Notei que até uma certa hora as ruas estavam desertas, mas assim que as pessoas decidiam sair, saíam todas ao mesmo tempo, como se fosse combinado. Como as entregas não coincidiam com estas horas, nunca via ninguém no meu percurso e isto fazia-me confusão. Comecei então a magicar uma forma de trazer as pessoas para a rua a qualquer hora. Apenas tinha de as convencer a porem o pé um pouco cá fora. Ao final da segunda semana, e quando já estava a tomar o pulso da cidade, eis que me engano num cruzamento e sou colhido por uma carrinha. Nada de grave, mas por momentos perdi os sentidos e até vi fogo de artifício. Disseram-me que a culpa era dos estudantes que ao retirarem o sinal de sentido proibido tinham transformado a rua de sentido único numa rua com duplo sentido… 

Voltando às entregas, comecei de forma suave, aguardando o bom momento: em vez de colocar o correio na caixa, tocava à campainha para me apresentar. As pessoas, vencidas pela sua curiosidade, lá abriam a porta para dizer bom dia. Com o tempo ia perguntando uma ou outra questão: se viviam ali há muito tempo, se iam ao posto dos correios ou se podia deixar as encomendas à porta nos dias em que ninguém atendesse a porta, mas não conseguia ter nenhuma resposta. Pensei que seriam tímidas e sem vontade em falar delas mesmas. Então mudei de estratégia e passei a perguntar pela vizinhança. Usei a desculpa de não conhecer bem as ruas tentado com isso conhecer melhor as pessoas. Também aqui avançava a passo. Porém, pouco a pouco fui notando os hábitos e particularidades de algumas pessoas: o senhor da Rua C coleciona selos; a senhora da Rua M que tem os filhos a estudar em Faro e no Porto e que gosta de receber cartões-postais com vistas do mar ou de sítios exóticos; ou a senhora da Rua H tem uma iguana de estimação, e por isso uma vez por mês recebe uma encomenda com suplementos para o animal (deve ser por isto que a sua casa está sempre bem aquecida, seja de Verão ou Inverno).

Foi assim que me dei conta do que realmente se passava naquela comunidade: apesar de ninguém falar de si mesmo, os seus tiques começaram a sair ao de cima. Tendo isto em conta resolvi pôr um plano em marcha, ajudando cada um a ajudar outra pessoa. Basicamente era dar um empurrãozinho para que as pessoas da comunidade prestassem um pouco mais de atenção aos seus vizinhos.  

Sempre que chegava uma carta com um selo especial, mostrava-o “sem querer” ao senhor da Rua C. Perguntava-lhe se sabia onde morava a destinatária e ele, com um interesse particular, não se mostrava rogado e até me acompanhava à porta para se assegurar que a carta era bem entregue. Durante a entrega tentava mencionar o seu interesse pela filatelia. E a partir daqui estas duas pessoas deixavam de ser meros desconhecidos e passaram a ser vizinhos. 

O mesmo aconteceu para a senhora da Rua M. Cada postal que chegava ficava no cimo do monte das cartas a entregar e com a imagem de fora para se notar que era uma foto e não um envelope. Com o tempo as pessoas aperceberam-se de quem era a destinatária e começaram a enviar postais quando também viajavam. No início não os enviavam diretamente: mandavam para as suas próprias casas e entregavam os cartões ao seu regresso e em mão. Só mais tarde, com a confiança já estabelecida é que enviavam diretamente. 

Quanto à senhora da iguana, passei a palavra que para além dos suplementos que recebia o que o animal também gostava era de talos de brócolos e de couve-flor. No início ela ficou bastante confusa com os vizinhos passarem e deixarem talos de legumes que de outra forma seriam desperdiçados.Foi assim que comecei aqui, aguardando os bons momentos para adaptar o ambiente ao meu redor. Pensava que era o frio que impedia as pessoas de sair à rua, esse mesmo frio que conserva tudo o que é perecível. No entanto, o frio também convida ao convívio, à entreajuda, à introspeção e à criatividade dentro de portas. Nesta cidade o calor que não se encontra no exterior está presente no interior de quem te acolhe e te recebe de braços e coração aberto.

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Poema

dito por ela

ela disse

que disse ela?

ela disse

e disse

ponto

ela disse

voltou a dizer

disse e reforçou

disse ela

o que disse

foi

exatamente

o que ela disse

ela disse

que disse ela?  

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Expedição ao fim do mundo

Tomaram o navio de assalto. Impermeáveis a qualquer tentativa de negociação, os marujos dissidentes estão determinados a romper o mar-céu-terra-o-que-for para chegarem ao fim do mundo. Com a revolta ao leme, o navio rasga céu e terra como se fossem mar.

Se a terra é esférica ou plana, pouco lhes importa. Os marujos sabem que a terra pode ser uma infinidade de coisas, mas uma será certamente: finita. A obsessão pela finitude vem-lhes de longe e morrerá com eles.

O navio é pequeno e a tripulação é curta, mas está reunida. Sete homens – um para cada mar. O fim da expedição pode muito bem ser o fim dos homens. São poucos e pequenos para tamanha expedição, mas se findarem pelo caminho terão chegado ao destino: o fim. O sucesso parece inevitável, mesmo que seja uma viagem eterna – ou enquanto durarem.

A vontade é imensa como o mar que enfrentam, mas o plano de navegação é tão vago como o destino. Não há mapa que desenhe o fim do mundo. Não sabem se lhe chegam ou se lhes chega. Não sabem se devem contar os dias ou medir a distância. Avançam mar adentro conscientes de que o debate sobre o que é o fim do mundo pode durar até lá chegarem.

Há quem julgue ser um lugar, um sítio onde tudo termina, uma meta que se cruza para findar. Há quem acredite ser um momento ou um evento que se dá para pôr fim a tudo, como o momento em que um coração pára de bater ou a terra se abre e engole os bípedes quase reles de tão finitos. Há ainda quem sugira que o fim do mundo pode ser uma espécie de sentimento, um desespero inato que nasce da efemeridade das coisas. Eventualmente, tudo acaba e dá-se razão ao desespero.

Pode ser um abismo escuro e sem fundo, como um buraco onde se cai. Alguns poderão vê-lo, outros não. Pode ser uma porta que só se abre e fecha uma vez. Quem a abrir terá de a fechar, depois de cruzar a linha da ombreira – ou não fechará. Pode ser a morte de cada um como o fim do mundo para si. Pode ser um evento catastrófico-apocalíptico que faz implodir ou explodir o mundo inteiro de uma vez. O fim para todos, sem retorno.

Há tanta gente a dizer o que não é o fim do mundo, mas ninguém sabe dizer o que é. Ou quem sabe já não pode contar. Na escala do bem e do mal, substituímos o mal pelo fim do mundo e fizemos dele uma bitola que desvirtua angústias mais pequenas.

A viagem dura há duzentos e trinta e dois anos. Os marujos estão velhos e cansados. Já deviam estar mortos, já se sentiram mortos, já se fingiram mortos. Desafiaram o fim e ele foge-lhes. Já viram mais do que podem lembrar. Já julgaram ter chegado ao fim, mas há sempre mais mundo. O mar ardeu, mas o mundo ainda não acabou.

Até ao fim do mundo, nada é o fim do mundo.

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Ócio

Ócio.
Oh, se o odeio.

Meu velho amigo,
És bonito no mês de Agosto –
Serias bonito em qualquer altura,
Se não tivesse de vestir estes ossos.

Ócio.
Oh-sim-o meu amigo,
Deita a cabeça no meu colo
Dá-me carne para vestir os ossos –
Ósseo.

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Ensaio

Ensaio sobre ti

Vou tratar-te como um ensaio, porque neste momento não te sei tratar de outra forma. 

Queria tratar-te pelo nome, mas não me é conveniente, e por isso, apenas por isso vou sempre dirigir-me a ti (quando assim for necessário) na segunda pessoa. 

Se tivesse uma lista, um livro com listas de pessoas onde te encaixarias tu? Possivelmente na lista dos cobardes, ou na dos mentirosos, quem sabe ainda a dos instáveis teria o teu nome. Vou decidir colocar-te na dos mentirosos. Por enquanto é lá que te vou encontrar, se assim o quiser. 

Afinal, que custa assumir a tua decisão? A tua posição? A tua vontade? Hoje, surgiu-me, inclusive uma palavra que não costumo proferir, enquanto conduzia, pensava em ti e no quanto literalmente abusaste de mim. 

Esquece, não falo das vezes em que permiti, deliberadamente, que passasses as linhas traçadas pelas posições devidas. Falo das outras em que me querias convencer da tua posição como certa. E sabes? Eu não mordo, a não ser que me seja pedido e que eu queira, portanto, poderias ter sido leal e falar o que dizia o teu coração. Mesmo que eu não gostasse de ouvir. Afinal, foi tudo o que te pedi: que fosses leal. Falasses a verdade. O que te ia no coração. Mesmo que eu não gostasse de ouvir. Isso servia. 

Pergunto-me, agora, que já virei a página. Serias diferente, mais leal, verdadeiro, se as linhas estivessem bem marcadas? Possivelmente, fui eu quem te permitiu abusares de mim. 

Vamos por momentos reescrever os factos e retirar-te da lista dos mentirosos. Passar-te para a lista dos verdadeiros. E assim ouço: 

“Amava fazer parte da tua vida. Mas por enquanto tenho outro caminho a traçar. Que o futuro nos cruze novamente, é o que desejo.”

Ouço, agora, o que gostaria de ter ouvido. E dir-te-ia: no meu livro estás na lista dos que sempre terão a porta aberta. 

Entretanto a porta fechou, terás de perceber se está trancada, encostada, e como poderás voltar a abrir. Se assim o desejares. Porém aviso: há chave mestra e não sei onde anda ela. 

Ensaio meu sobre ti. 

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Ode aos Pés

Acordar e levar comigo,

Acordar, mais um dia 

Eu comigo

A levar comigo

Os meus pés, sempre comigo.

Levantar e pôr-me de pé

Embora, sou eu e eu

O dia todo

Vamos, estou cansada

Deitar.

Calça os meus sapatos,

Agora

Anda com eles

Não têm salto

Calço os teus sapatos

Agora

Ando com eles

Não têm salto

Magoam.

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Apetecia-me um poema

Ainda não me tinha sentado à mesa, já a senhora me estendia o menu. Agarrei-o enquanto me ajeitava na cadeira. Pressionada, apressei-me.

Pode ser um prego, por favor.
Bem passado, mal passado?
Assim assim.
E uma sopinha, para aconchegar?
Obrigada, mas não me traz grande aconchego. Gosto pouco de legumes.
E uma canjinha, não vai?

Hesitei.

Que massa usam na canja?

A senhora ficou confusa. Justifiquei-me:

Gosto de comer letras.

A mulher retirou-me o menu da mão, desconfiada.

Comer letras?
Na canja, por exemplo. A minha massa preferida é a de letras.

A senhora pareceu aliviada.

Ah, essas letras!
E outras. Letras, de um modo geral. Gosto muito de ESSES. Não nego aquelas bolachas que parecem ÓÓÓÓÓÓÓÓS…
Ah, pena. Usam cuscus.
Que chatice.
É só o preguinho, então?

Encolhi os ombros. A conversa abriu-me o apetite para letras. Estava capaz de comer palavras inteiras e digeri-las até serem algo maior. Perante o meu desânimo, a senhora tentou remediar:

Quer espreitar novamente o menu?

Anuí. O menu tinha letras, podia enganar a vontade, mas li, reli e continuei augada.

Não tem nada mais palavroso que me possa servir?
Quer um jornal?

Hesitei. 

Apetecia-me um poema.

A senhora pareceu enrascada. 

Bem passado, mal passado?
Que me faça passar bem.

A senhora assumiu a missão, abeirou-se da cozinha e gritou por um poema. O cozinheiro não demorou a chegar à minha mesa. De peito firme e mãos guardadas atrás das costas, fechou os olhos como se me fosse cantar um fado e recitou-me Saramago:

Não era hoje um dia de palavras,
Intenções de poemas ou discursos,
Nem qualquer dos caminhos era nosso.
A definir-nos bastava um acto só,
E já que nas palavras me não salvo, 
Diz tu por mim, silêncio, o que não posso.

Depois de servido o poema, o cozinheiro fez uma vénia tímida e saiu para dar lugar à senhora, que entretanto me trazia o prego. 

Era o poema que me apetecia e fiquei cheia. Pode embrulhar, por favor?