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O homem que perdeu o riso

Vá-se lá perceber porque já não ri. Ser incapaz de o fazer afoga-lhe os olhos. A miséria do homem que esqueceu como soa a própria gargalhada não se deixa medir. Passa horas ao espelho a ensaiar um riso que as entranhas já não sabem cantar nem deixam nascer. A incapacidade de rir gerou uma especial alergia ao riso alheio. Que asco, que inveja, que revolta. Não se riam sem ele. 

Reivindica as rugas do riso porque a idade já as merece e nunca confiou num rosto velho sem elas. Acredita que a tristeza do homem se mede pelas rugas de riso que não tem. Como se pode confiar em alguém que não ri? Rir é dar-se e quem não se dá nem a si se tem. Sempre ouviu: cuidado com os amargos. E mesmo com cautela, amargou. Deixou secar o riso e parece não sobrar mais nada. Até quem chora de felicidade trabalha as rugas do riso, mas o homem não sabe chorar assim. Rugas só na testa e no nariz, nasceram do esforço de arrancar um riso das vísceras como quem arranca raízes da terra. 

Há arranjos de tanta espécie: esvaziam-se papos, coxas e barrigas, enchem-se rugas, olheiras, lábios, seios e egos, mas não há um médico que implante gargalhadas. 

Procurou o riso por todo o lado. Foi aos espetáculos de comédia mais concorridos, nem uma gargalhada. Só foi capaz de cuspir uma bolha de ar quase engasgado, como um carro que nunca pega à primeira. Que martírio. Ofereceram-lhe “aquilo que faz rir” e até isso o fez chorar.

Nunca soube apreciar massagens por ter cócegas até atrás do joelho. Investiu uma hora no massagista à procura do riso nervoso fruto da cócega acidental. Um suplício. Uma sessão de tortura e aflição sem graça. Tentou aulas de teatro, para aprender a rir mesmo sem vontade, como os atores mais convincentes. Achou tudo aquilo sinistro, um esforço sadomasoquista que doía mais do que aliviava. 

Espalhou cartazes a dar o riso como desaparecido. Tentou descrever como soava a gargalhada numa prosa curta e confusa, juntou uma fotografia sua de quando ainda sabia sorrir, do ano de mil novecentos e risos. Por fim, o número de telefone. “Se o ouvir, LIGUE JÁ.” Ninguém ligou. Faltaria recompensa aliciante? Mesmo que ouvissem algures o riso perdido, como teriam a certeza que era dele? Como poderiam apanhá-lo para o devolver? Como voltaria a guardar-se no corpo do homem? 

Chora o riso que perdeu, exclama um miserável ah ah ah ah ah ah ah ah ah com o entusiasmo de um defunto, com o esforço de quem suga a vida de um ventilador, com a dor de quem perdeu um filho. Morreu-lhe o riso, perdeu-se em parte incerta, sobra o choro para o enterrar. 

Por Mariana Godet

Chamo-me Mariana Godet, não me levo a sério o suficiente para escrever sobre mim na terceira pessoa e acho que é cedo para escrever uma biografia. Ou tarde? São só vinte e cinco anos, que continuam a pesar invariavelmente mais à minha mãe do que a mim. E ela é muito magrinha, leve e facilmente transportável. Dado este que vos permite calcular o quão insignificante é, afinal, o peso da minha existência. Ela diz que foi há uma vida. Mas que vida? Se nela não aconteceu nada digno de especial destaque? Estou a tempo - eu sei, mãe.
Sou irmã da melhor irmã do mundo. Gosto de frio, castanhas, chocolate, chá e café. Gosto de mantas, o que me torna incompatível com o calor. A bondade comove-me e a maldade enjoa-me. Gosto muito de liberdade e pouco de quem a quer levar. Gosto de olhar e ser olhada nos olhos, alturas dizem-me pouco e o respeito não nasce dos ombros - vem de dentro e passeia pelo sangue.
Escrevo por necessidade. Necessidades, para ser mais precisa. Vou descobrindo quais são. Espero que encontrem aconchego aqui.

2 comentários a “O homem que perdeu o riso”

Adorei. Lia a noite toda . Revejo-me nas palavras ” A bondade comove-me e a maldade enoja-me” e comove-me também que alguém com 24 anos já tenha atingido está elevação de Ser. Parabéns 👏 há esperança… haverá sempre

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