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Cabeça-balão

Perdi a cabeça. Podia ter enlouquecido, perdido o controlo, deixado de saber quem sou, onde estou e todas essas derradeiras questões existenciais. Podia ter perdido o emprego, um comboio, a carteira, as chaves de casa ou do carro, um amor que julgava eterno ou até um cão que me era querido. Podia ter perdido o apetite, a energia, a vontade, a memória, a paciência, a fé, a coragem… Mas perdi a cabeça.

Soltou-se fisicamente do meu corpo. Não sei precisar o tempo que perdi à procura de alguém que se fingisse especialista capaz de ajudar nestes casos de cabeças perdidas. Salvou-me uma costureira. Encarregou-se de me encher de nagalhos no pescoço para que a cabeça ficasse amarrada a mim e não me fugisse mais. Chamam-me enforcado, tal é a malha de nagalhos em nós cegos. Eu próprio já lhes perdi a conta. 

Tudo começou com uma dor na coluna. Trepou-me vértebra por vértebra e, assim que pôde, agarrou-se ao meu pescoço. Entrou pescoço adentro e esticou-se até o distender. Milímetro a milímetro, senti-os todos. Já o pescoço se via mais alto quando a dor, que julgava terminar ali, me sobe cabeça a cima. Trepou até à ponta da coluna e desaguou no que pareceu ser o centro do meu cérebro. Aí, desatou numa correria desenfreada, como quem faz do crânio uma esfera da morte – aquelas estruturas esféricas metálicas onde motas correm a altas velocidades, não sei bem se a fugir da morte, se a correrem atrás dela. A dor correu então pelo crânio e atropelou sem piedade toda e cada partícula de osso a uma velocidade que duvido ser sequer mensurável. Arrancou depois sem aviso e foi como se me tivesse atravessado a testa, esmigalhando toda a estrutura óssea que a constitui. Saiu de rompante, mas nem por isso deu espaço ao alívio. Foi como se me rebentasse a cabeça num ápice agudo e voltasse para pisar a cratera que me abriu. Nesse momento desejei não ter cabeça, quis oferecê-la à dor. Não sei se me levou a mal e quis ir ou se a levaram. Sei apenas que se foi.

Não é surpreendente que o meu corpo me desobedeça. Sou pouco coordenado, lento e desajeitado. Nunca encontrei especial habilidade para o desporto e quando a cabeça se soltou revivi a minha curta experiência no volley. Senti-me de novo a correr timidamente, em círculos e sem critério. Jogava sempre de mãos no ar, mas a bola nunca lhes tocou. Tinha a intenção, mas faltava-me intuição. A cabeça-balão soltou-se acelerada como um balão largado ainda sem nó e, tal como a bola, não sei deixava agarrar. Já era tosco quando era inteiro e a divisão não me beneficiou. 

Primeiro, é preciso algum tempo para reaprender a controlar o corpo sem o comando. Refiro-me à cabeça que, quando se liberta do corpo, renuncia à responsabilidade sobre o que nele acontece. É necessário um nível de destreza quase olímpico para almejar tocar-lhe. Agarrá-la parece coisa do divino. Depois de vaguear como quem corre, começa eventualmente a abrandar. Mas neste ponto da expedição, parece transformar-se num balão de hélio e aponta ao céu como destino. No caso, ao teto. A minha casa é alta e não sou bom trepador. Um pequeno toque, por muito cauteloso que seja, pode atirar a cabeça para outro canto. Tentei de tudo, até reconduzi-la com o auxílio de um cabo de vassoura. Foi medianamente eficaz, mas altamente desconfortável. Quando finalmente a recuperei, sentei-me no sofá com ela ao colo. A visão continua do lado da cabeça. Olhei atentamente para o meu pescoço meio desfeito com quase tanto asco como entusiasmo. O que podia exigir de mim? Tinha acabado de perder a cabeça. Lembro-me de tudo e sei precisamente como aconteceu, mas isso não me junta a cabeça ao corpo, nem explica porque é que ela se foi. 

Recorri ao meu psicanalista. Respeito o homem e o seu trabalho, mas desde que lhe contei tudo sobre como perdi a cabeça, o pescoço do senhor ganhou dois centímetros e quarenta e dois milímetros. Foi este o cumprimento preciso que o meu pescoço viu crescer numa primeira fase, que antecipava o momento em que ela se soltou de mim sem permissão. Não digo sem aviso porque o sinal estava lá. Não soube interpretar e a ciência não estava ainda preparada. 

Dou por mim nas sessões de terapia a alertar o psicanalista de que estão prestes a rebentar. Não as águas, mas as costuras invisíveis que lhe seguram a cabeça. O homem ri. Mas ri dois centímetros e quarenta e dois milímetros mais acima do que ria antes. Com a precisão que olho me concede, tenho registado o crescimento do pescoço do doutor nos últimos meses. Se o caso dele se manifestar da mesma forma que o meu – como tem sido – faltam-lhe apenas sete milímetros para atingir a expansão que o meu pescoço tinha à data da separação. Pelas minhas contas, a cabeça vai descolar pescoço-pista fora às 15h56 de quinta-feira. 

Ofereci-lhe nagalhos, mas não os quis. Deu-os ao cão para brincar. Sempre que ouço as unhas grossas do cão arranhar o chão flutuante do consultório, imagino o momento em que a cabeça do doutor levanta voo e se transforma num brinquedo. Será que vai chiar, como os brinquedos coloridos insuflados que o cão costuma trazer alegremente entre os dentinhos afiados? Chamo-lhe cão porque não sei o nome. O doutor recusa-se a dizer-me como se chama. Diz-me que é uma informação muito pessoal e não podemos criar laços. Nem criar laços, nem trocar nagalhos, e a cabeça que se vá. Já nem é por ele, que parece quase curioso por experienciar esta perda, é por mim. Podendo escolher, preferia um psicanalista inteiro. Como posso esperar que o doutor me resolva o problema do qual o próprio sofre em negação? Ninguém pede a um coxo para lhe ensinar a correr. 

Estou mais determinado a encontrar possíveis motivos para tudo isto do que o psicanalista. É esforçado, mas peca pela falta de criatividade. Gere as minhas deambulações, mas não contribui especialmente para elas. 

Comecei por baixo na escala da insanidade. Primeira opção: a culpa é minha. Sempre sofri com dores de cabeça. Desde que me lembro de a sentir, ela doía com alguma frequência. As crianças não estão preparadas para sofrer tanto e eu rogava pragas ao universo por me fazer sentir assim. A minha mãe caminhava sobre joanetes disformes que lhe causavam uma dor tão aguda que chegava a chorar. Dizia com frequência que preferia cortar os pés a sentir aquilo. Não fosse mimetizar uma arte das crianças, eu próprio considerei que cortar a cabeça podia ser a solução para o meu mal. Disse, pensei e senti que queria não ter cabeça. Talvez me tenha amaldiçoado. Ainda assim, parece-me coisa pouca para tamanho circo. 

A necessidade de perceber o porquê foi perdendo intensidade com a clara falta de respostas. O psicanalista apresentou-me uma tese que me roubou vontade de mergulhar tão fundo porque, pasmem-se, a culpa também era minha. Atirou-me à cara um episódio trágico. Tinha quatro anos quando decapitei o Sebastião, um peixe dourado que exigia responsabilidade que eu ainda não possuía. Numa manhã fria e sem vigia parental, encontrei-o a boiar e tentei reanimá-lo. Quis fechar-lhe os olhos como se vê fazer na televisão, mas não havia pálpebras que os tapassem. Os olhos ainda brilhantes e desproporcionais provocaram-me desconforto tal que, com força desmedida e num impulso que ainda hoje não compreendo, separei acidentalmente o corpo da cabeça. A imagem da cabeça do Sebastião na minha mão direita e o resto do corpo na mão esquerda assombraram-me em pesadelos recorrentes durante anos. O psicanalista diz que a culpa que guardo pode ser a causa da desintegração do meu corpo, o que me permitiu concluir que não preciso assim TANTO de uma razão. Culpa há muita e acho desnecessário chafurdar.

Escolhi ver os nagalhos que me seguram a cabeça como uma piada – ainda que palerma – sobre a minha distração crónica. Ouvi mais vezes do que seria tolerável “só não perdes a cabeça porque está agarrada”, facto que vim a comprovar pouco depois da primeira tentativa de a segurar. Percebi a piada, não ri e queria o corpo antigo de volta, por favor. Obrigado. 

Confirmei a precariedade do primeiro kit de nagalhos pouco depois de o instalar. Corto o cabelo na barbearia do senhor Zeca há mais de dezoito anos. A idade já lhe pesa na vista, os óculos deslizam nariz abaixo e, nos últimos cortes, a navalha deixou um rasto trágico, parecia guiada por uma toupeira.

O senhor Zeca começa sempre de baixo para cima e sempre atrás, onde o pescoço se cobre com os primeiros cabelos. Precisamente o local onde a dor se fixou antes de invadir o interior do meu crânio até sair num ápice pela minha testa. O senhor Zeca é um bom homem, mas é céptico. Pedi-lhe que tivesse cuidado, não fosse dar-me cabo do sistema sem querer. Incrédulo, repetiu várias vezes que era “impossível”, mas que eu era “muito engraçado”. Mesmo estando a ver todos os nagalhos, não acreditava. Explicar que tenho a cabeça presa ao corpo por pequenos cordelinhos tem tanto de insano como de exaustivo. Mas também não posso não explicar. 

O senhor Zeca não acreditava, nem aceitava a minha explicação. Já me contento quando acenam e me chamam maluquinho com os olhos. Mas a reação do senhor Zeca custou-me. Conhece-me há anos, esperava outra postura. Ouvi-lo descredibilizar o meu problema e a minha dor daquela forma, fez nascer em mim revolta. Ponderei, durante dois segundos, desfazer todos os nós e soltar a cabeça à frente dos seus olhos só para lhe mostrar que não tinha graça nenhuma. Levei a mão a um dos nagalhos centrais mas, felizmente, apesar de solta, a cabeça preserva algum juízo e soube acalmar-me a tempo. Não tenho especial prazer em traumatizar idosos. 

O senhor Zeca percebeu que me arreliou. Olhou-me pelo espelho e mostrou-se mais cuidadoso. Notei pela sua conversa que estava a tentar avaliar o meu estado e diagnosticar-me uma qualquer loucura que justificasse os preparos em que me apresentei. Entre cortes, desviava o olhar dos nagalhos. Vi-lhe o esforço, vi a tentativa de olhar para eles como quem não os vê. Sem sucesso, retomou o corte de olhar fixo no espelho, sempre nos meus olhos refletidos no espelho e nunca no meu pescoço, nunca nos nagalhos! Percebi que sairia com o pior corte até ali testemunhado, mas antes isso que uma guedelha a tapar-me os olhos. Tentei explicar-lhe que a minha vida estava tão boa ou tão má como habitualmente. Jurei que nada tinha a ver com enforcamento. “Queres morrer?”, perguntou-me, preocupado. Hesitei, mas respondi “às vezes”. O senhor Zeca afastou a navalha da minha cabeça, inclinou-se para trás e observou-me mais atento. Ri e perguntei “quem nunca quis?”. Relaxou, mas não totalmente. Antes de retomar, tentou convencer-me a deixar crescer o cabelo. “Disfarça os nagalhos, se não os quiseres tirar”, propôs-me quase como quem pergunta. “Não os posso tirar”, disse-lhe, menos paciente. “Um dia vais poder”, respondeu-me com um olhar esperançoso e uma palmadinha quente e condescendente nas costas. Julga-me louco. “Acho que o senhor Zeca não está a perceber… Se os desapertar, ela vai-se”, apontei para a minha cabeça. Não me respondeu. 

Vi-o concentrar-se no meu pescoço, levou a mão direita à bata e sacou de uma pequena tesoura. Ouvi o corte. Senti o corte. Foram-se três nagalhos e a minha nuca começou a elevar-se, como um verdadeiro balão com corda solta para voar. Suspirei aborrecido e tentei servir-me do espelho para agarrar a cabeça e atar de novo os nagalhos. O senhor Zeca, de tão aterrorizado, parecia congelado. Pálido, recupera apenas o suficiente para dar três passos acelerados para trás. De mãos na cabeça, olhei-o e dei-lhe alguns minutos para se recompor. As pálpebras do homem continuavam a desafiar a física e abriam mais e mais. “É verdade”, disse o homem entre gaguejos. Confirmei-lhe o que via e pedi ajuda para voltar a amarrar a cabeça ao corpo. Cedeu hesitante, quase enojado, mas sobretudo arrependido. Larguei a cabeça quando ele a agarrou. O senhor Zeca sentiu a força da cabeça-balão e, talvez assustado, largou-a bruscamente. A nuca voltou a virar-se para o céu e o movimento fez soltar mais uns quantos nagalhos. “Ela flutua!”, exclama mais entusiasmado. Para lá dos meus pés, só conseguia ver a minha vida a andar para trás. Consegui amarrar a cabeça, mas continuo à procura de um barbeiro… O senhor Zeca não me apanha lá que não tente cortar uns quantos nagalhos para me exibir aos outros clientes como um número de circo incluído no serviço.

Talvez tenha enlouquecido, perdido o controlo, deixado de saber quem sou, onde estou e todas essas derradeiras questões existenciais. Talvez tenha perdido o emprego, um comboio, a carteira, as chaves de casa ou do carro, um amor que julgava eterno ou até um cão que me era querido. Talvez tenha perdido tudo e isso me tenha levado a perder a cabeça. Não sou louco, sou um decapitado que respira e procura um barbeiro. A cabeça fez-se balão, mas nem assim deixou de doer.

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Não eram Margaridas

Conduzimos para fora da lei
Naquele teu dia de anos.
A quarenta minutos da cidade,
Não tínhamos de ser bons,
Não tínhamos de ser maus,
Nem sequer tínhamos de saber de nada.
Ninguém tinha de saber de nada.
Dei-me por feliz por termos chegado até ali.

O tempo deu-nos permissão,
E nós demos-lhe propósito,
Onde, encontrados num campo de margaridas,
Não tínhamos de ser bons,
Não tínhamos de ser maus,
Nem sequer tínhamos de saber as nossas canções.
Ninguém sabia que eram nossas as canções.
E eu dei-me por feliz por ter chegado até ali.

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próxima paragem: sítio nenhum

o tempo passa cada vez mais depressa. sinto-o aumentar a velocidade cada vez mais à medida que vou crescendo, como um comboio ao arrancar. os dias continuam a ter 24 horas, mas nenhuma delas pode ser passada sentada debaixo de uma árvore a ler um livro ou a ouvir os pássaros porque isso seria uma “perda de tempo”. o que é ganhar tempo, então? será “ganhar tempo” passar os dias a trabalhar para ganhar dinheiro para depois gastá-lo no tempo? aquela semana do ano em que estamos de “férias” e passamos as “férias” a pensar “passam tão rápido”.


universo dentro de universos sobre universos sem universo mas
cheios de nada.
não passa disso,
Tempo.
não passa cá para fora está
preso.
preso e preso a ser-se si mesmo


só o sentimos na pele quando vivemos muito ou não vivemos de todo. quando o contamos minuto a minuto enquanto aguardamos a nossa liberdade, ou quando estamos tão livres que ele já passou.

(tentemos) fazer disto um bom sítio de viagem
como quando vamos a caminho de algum lugar e fazemos do lugar onde estamos o mais confortável do comboio
ou do autocarro
ou
cá dentro percebem
deve ser esse o propósito
não ir a lugar nenhum e ainda assim
estar no lugar mais confortável deste comboio

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Poesia em 14 Lugares Concretos

Os lugares são
a geografia da solidão.
São lugares comuns a casa a cama.
(Manuel António Pina)

I FALÉSIA DE PORTO CÔVO 
  
 Neste sentimento que me tem na vertigem de cair em nós 
 Gasto os beijos que não se gastam e
 salto aqui neste ter não ter
 onde não tenho chão
 só queda livre
 Confio que há um oceano para nos receber 
 Mergulhamos 
 Mergulhámos
 na inigualável sensação de medo
 Salva-me o cheiro e o calor do naufrágio em que juntos 
 inventamos um mundo
  
  
 II CALÇADA DA RUA DA MADALENA
  
 A pergunta é quando
 Não só esperar até ser
 Esforço de quebrar 
 Imóvel permaneço 
 E tropeço
 E caio  
 Na terra de ninguém 
  
  
 III SALA DE PINTURA NAS BELAS-ARTES
  
 Sinto como facadas cada vez que 
 de longe
 me queres falar
 Queres falar-me e não o fazes porque não mereço 
 O beijo que não me dás 
 As mãos que não me tocam no corpo
 O sorriso que não me ofereces 
 porque não mereço 
 Aqui me fico no meu canto 
 esquivo
 Esquissos os teus desenhos
 Pinturas no vazio
 Dedos que trabalham sem destino
 Pensamentos com destino em mim
 São esses os que guardo
 Os pensamentos 
 Porque é o que tenho teu
 Acarinho essa solidão 
 Porque foi o que me deixaste 
 Com ternura e amor
  
  
 IV PRAIA DA CRUZ QUEBRADA
 Quando tudo parece nada 
 Quero nada
 Navego ao sabor amargo da ausência 
 Sonho os dedos cabelos
 Sonho a Vertigem queda
 Sonho o espesso vazio do sangue quente
 Quero tudo 
                              
  
 V RODOVIÁRIA DE SETE RIOS
 Um terço da vida toda é feita disto
 Do que sentes agora 
 O resto é chegar ou partir
 Pegar ou largar
 Esquecer
 Lembrar
  
  
 VI FOYER DO TEATRO NACIONAL (AFORISMO) 
 Há quem padeça de teatro estético, de teatro físico, teatro da palavra, teatro clássico, teatro político, há quem padeça de teatro biográfico ou autobiográfico. Mas há um teatro de que todo o actor padece. O teatro auto-inflingido
  
  
 VII CARRO 
 Estradas em contramão
  
 CARRO (2)
 Olhos na estrada do mendigo
 A viagem é em contramão 
 Perco sempre aquilo que digo
 No contorno suave da tua mão
  
  
 VIII À PORTA DE CASA (DEPOIS DE A FECHAR) 
 Estar contigo é lembrar-me às vezes da minha desilusão-própria
 Namoro o exaspero 
 Desconfio da porta de casa
 Silencio a palavra-pensamento 
 Salto para o vazio 
 Olvidando desatar o nó 
 E morro (des)abraçado 
 
  
 IX CASA DE BANHO (REFLEXO/REFLEXÃO) 
 Sou bastante asseado
 Considero-me uma pessoa bastante asseada
 Gostaria de ser uma Pessoa Asseada também
 Uma Pessoa Asseada
  e uma pessoa asseada
  
 CASA DE BANHO (CHÃO) 
 Onan morreu
 Dos escombros
 Renasci
 Jamais só 
 Contigo 
 Ininterrupto
 Orgasmo eterno
 Cego 
 Surdo
 Mudo
 Mas eterno
  
  
 X SALA DE ESTAR
 Suspeitei das sobras dos sussurros assustados
 Dos dissimulados serões de sofá 
 Salvei as sinopses das emoções passadas
 Das futuras não sei se as há 
 A chaleira vai chiado mas não gosto de chá
 Sem saber acendi um cigarro
 E sabendo o que sei dos assuntos sensíveis
 Distraí-me mortalhando o passado
 Ainda ontem indigente fui inventar o epitáfio 
 Para inscrever sobre um túmulo nosso:
 Aqui jazem os restos mortais de um amor
 Não deixem que morra o vosso. 
  
  
 XI SOFÁ 
 Rezo e quero 
 Espero também
 Ativamente
 Busco incessantemente 
 O comando da televisão 
  
  
 XII CAMA DE CASAL
 O frio que está hoje vem de dentro para fora, como um grito
  
 CAMA DE CASAL (2)
 Ah! pudesse eu estar de quarentena
  
 CAMA DE CASAL (3)
 Eu sou em ti tanto
 Que sou mais eu em ti
 E entretanto quando só me sinto
 No labirinto de me encontrar
 entre tantos outros eus
 Tu 
 que sabes bem
 e sabes tão bem
 vens por mim
 vens para mim
 desembocas a tua boca na minha
 encontras o que eu procuro
 soltas-te para me agarrar
 E na madrugada da vida toda
 nus de tudo e juntos
 Os meus olhos pelos teus veem 
 o meu corpo pelo teu transpira
 respira
 suspira
 Só porque é assim
 Só Porque sim
 Só Porque é verdade
 Só
 Mas só contigo
  
  
 XIII VARANDA DO QUINTO ESQUERDO 
 Gostava que fosses mais gorda
 Para ocupares o espaço todo
 Do meu abraço
  
 VARANDA DO QUINTO ESQUERDO (2)
 Sou mulher em permanente parir de mim
 Amo como quem respira
 Fujo pela janela para um momentâneo ar
 Mulher é muito mais
 Tanto mais que a poesia
 Tanto
 E mais
  
  
 XIV COZINHA 
 Entonteço e então teço o teu estômago nos meus intestinos, e a alma na lapela
  
 COZINHA (2)
 Como como quem come
 Oh, que inovação 
 Que rasgo de lucidez
 Que epifania esclarecedora
 Que tranquilidade desceu sobre mim
 com este conhecimento! 
 Tristes aqueles que comem como quem vive 
 Ou como quem faz amor
 Ou como quem acede a uma dimensão superior
 Ou como quem! quem! quem! 
 Como os da raça canina. 
 Como e como sabe bem comer
 delicio-me na alimentação
 Nutro o corpo
 Sacio o espírito 
 Mas sempre no espírito de quem come
 Pois quem come como eu como
 (que é como quem come) 
 Come, apenas
 Que é como se deve comer 
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Palavras à solta

A construção do texto seguinte é baseada na utilização de palavras previamente escolhidas de forma aleatória.

Eram 5h00 da tarde quando o escocês da perna de titânio entrou porta adentro. Podia jurar que uma manada de elefantes, a viajar em benzodiazepinas, tinha acabado de chegar. Pousou três garrafas em cima da mesa. Whisky, vodka e limoncello, perfeitamente alinhadas. Pegou numa bola de ténis, que trouxera com ele, e decidiu que era tão boa altura como qualquer outra para jogar bowling. Caíram as três. Duas partiram e, como se não estivesse bonita a confusão, ele foi apanhar a terceira garrafa e cortou o indicador numa daquelas veias que quase nos dá banho. Senti-me num western do Tarantino, prestes a ganhar o prémio de motion picture com mais sangue. Os moços que estavam no jogo continuaram como se tivessem recebido um email da EDP e sobrou para mim levá-lo à Urgência. Sobra sempre. Se o futuro do mundo dependesse de uma descoberta qualquer, relacionada com as células estaminais, também seria eu a ter de as ir colher. É.

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Batidas

Um coração humano bate em média entre 60 a 70 vezes por minuto. Para o ser humano que vive em média 80 anos chegamos a quase 3 mil milhões. Ou se preferirem 3 000 000 000 de batidas. São muitos zeros. Acrescentemos a esta equação que durante muito tempo suspeitou-se que os corações tinham um número limitado de batidas. Neil Armstrong, o primeiro humano a pisar a Lua, foi metido nesta discussão ao ser-lhe atribuída uma frase (entretanto desmentida) onde dizia que “Acredito que cada ser humano tem um número finito de batidas. Por esta razão não pretendo desperdiçá-las a correr ou a fazer exercícios”. Para todos e todas que já pensavam em cortar nas horas de exercício para não gastar as vossas batidas, podem esquecer este argumento pois há muito que foi desacreditado.

O coração é na verdade um órgão fascinante. É dos poucos órgãos que podemos sentir com as nossas mãos. Dizemos que bate, mas também que dói, que aperta, que aguenta, que se remenda, que pode ser embalado, que acelera, que se entrega, que late, que se maltrata, que se abre e eventualmente que se parte. Acontece-lhe de quase tudo e tem até um dia onde é rei e senhor das montras e aparece em tudo o que é lugar. No entanto a sua função básica é o garante da vida. Ao bater, alimenta as células e oxigena o corpo. O dos humanos, mas não só.  

Recentemente lembrei-me de um coração do qual poucos esperavam muita coisa. Trata-se de Laika, a cadela condenada a ser o primeiro ser vivo no Espaço. Laika foi escolhida (com uma substituta), entre os cães de rua de Moscovo e foi-lhe dado um bilhete de ida na Sputnik 2. Durante vários meses foi preparada para a viagem que lhe levaria à órbita terrestre, mas poucos acreditavam que sobreviveria a fase inicial do voo. Com a instalação de diversos sensores no seu corpo, Laika foi colocada no espaço exímio da cápsula que lhe foi reservado e que lhe serviria de transporte. Ali ficou 3 dias para se habituar. 

No dia da partida os cuidadores despediram-se dela. Durante a fase da descolagem, o som dos reatores e a pressão assustaram-na de tal forma que o seu ritmo cardíaco triplicou. Contra todas as expetativas Laika sobreviveu. Uma vez em órbita, estima-se que Laika tenha sobrevivido durante 103 minutos e completado entre 5 a 6 das 2570 órbitas que a Sputnik 2 completou nos seus 5 meses de missão. Após a órbita número 4 a temperatura no interior da cápsula atingiu os 32 graus e a vida tornou-se praticamente insustentável.

O coração da Laika não utilizou todas as suas batidas durante a sua estadia na Sputnik 2, ainda assim conseguiu latir mais forte que os reatores de uma cápsula espacial.    

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O Homem Mealheiro

Ouço em mim, nos passos que dou, o dinheiro que tenho a chocalhar. Ou o que não tenho, porque ouço o que não chocalha também. Ouço o vazio que ele deixa, o eco que preenche o vazio que esse dinheiro – o que não tenho – ocupa. O que há é tão pouco que se conta em meia dúzia de moedas que dançam corpo acima corpo abaixo. Como pedras num adufe, ameaçam rasgar-me a pele. Se rasgarem, que desenho farão na minha pele? São ferrugentas, encardidas e gastas. Gastaram-se a trabalhar.

Sou como um mealheiro quebrado, o tostão entra na ranhura sobre a minha cabeça e, antes mesmo de pestanejar, está a escapar-me pela planta do pé. Mesmo que o pise, não é meu. O dinheiro que ganho não chega a ser meu – não chega a ser eu. Não somos o dinheiro que temos, dizem sempre, mas o que temos tem poder sobre o que somos.

Penso tanto no dinheiro que não tenho que o ouço sempre chocalhar. Queria o silêncio porque silêncio seriam notas. O silêncio seria o conforto de uma casa que não tenho. Canta um Bernardo que passou a vida a trabalhar para fazer nada e o homem tem razão. Trabalhamos não para poupar ou viver mais confortavelmente, mas para manter seis tostões corpo acima corpo abaixo, conscientes de que nos vão fugindo dos pés, por isso, enchemos a cabeça.

Ouvem? Chocalho para cima, chocalho para baixo. Outra e outra vez. Não fosse a pele um cobertor que abafa a cantiga das moedas, pareceria eu uma pandeireta?

Jurei colar os pés ao chão para segurar os tostões, mas parado não lhes dou uso nem lhes arranjo companhia. Viver é gastar: o dinheiro, o corpo, a vida, o mundo – é gastar tudo o que somos e tudo o que nos rodeia. Gastar as pessoas, até.

A palavra gastar soa a ato irresponsável, como se fosse um capricho ou ímpeto obscuro tão forte como o de um vício. Vestiram-na de má fé e tornou-se depreciativa. Gastar é coisa da ralé, os ricos investem. Prefiro a palavra dar a gastar. Isso sim é coisa de ralé, os ricos pouco dão. Dar dinheiro a negócios, prazeres, lazeres. Dar o corpo a negócios, prazeres, lazeres – às pessoas, ao mundo, a manifestos, dar o corpo ao que quisermos. Dar a vida à morte, negociar a duração dos negócios, prazeres e lazeres, negociar a validade. Dar a vida à morte porque lhe estamos prometidos. Dar vida às pessoas, aos sítios e aos negócios, prazeres e lazeres a que a dedicamos. Dar mundo a quem conhecemos entre negócios, prazeres e lazeres. Dar mundo ao mundo que seremos mais um filho seu, mais ossadas para o cimentar. Mais uma dádiva. Damos mais do que gastamos. Gastar pressupõe – deixem-me teorizar – uma escolha, uma certa luxúria ou desejo cru de querer ter. Eu quero gastar isto naquilo porque eu sou assim e quero ter, posso ter. Damos a vida porque a temos e sabemos não ser só nossa. Aprendo que o dinheiro também não. Nem o mundo ou mesmo o corpo.

A relação que temos com o dinheiro é de possessão. Resta esclarecer se somos nós que o possuímos ou ele a nós. Se eu for, de facto, um mealheiro, posso só guardá-lo, sem que ele me pertença. O poder está do lado dele. Não precisa que o guarde, existe por si e há sempre alguém que lhe deita a mão. Já eu, se mealheiro, preciso dele para justificar a minha existência. Se homem, dependo dele para sustentar a minha existência. O dinheiro pode sempre mais.

Cresci na dinastia do dinheiro, onde as vidas se fazem em prol do rei. A veneração era tal que penso em dinheiro desde que penso em ser. Desde que sou. Lembro-me de olhar desiludido para as minhas mãos pequenas, gordas e quase sempre sujas, porque não lhes chegava um tostão. Trabalhar, ganhar, poupar, perder, precisar, pedir, gastar, querer. Todos querem dinheiro. Tenham muito ou pouco, quer-se sempre dinheiro. E eu quis dinheiro assim que a vontade me nasceu. Corpo pequeno, ossos quase moles, sentia pouco mais do que fome e sono, mas nasceu-me a vontade e gritou: dinheiro. Com a vontade veio a angústia, porque querer nunca vem só. Querer é fácil na medida em que nos é inato. Nem todos quereriam nascer, mas, nascendo, quer-se tudo. Até os que não queriam nascer passam a querer não ter nascido. Como querer não é necessariamente poder, quando não se pode, quer-se não querer.

A ânsia de querer existe porque nos satisfaz almejar. A inundação de vontade ajuda o sangue a fluir corpo acima, corpo abaixo – como as moedas. Mas querer sem poder tira o encanto à inundação e transforma-a numa corrente forte e agressiva que nos cansa por dentro.

Era ainda um garoto com jardineiras de pano e, antes de sentir a porrada que é querer e não ter, encontrei uma moeda no chão. Fiel à dinastia que nos governa, apanhei-a com os meus dedos gordos e imprecisos, apertei-a com a força que tinha e senti o que é concretizar o querer. As mãos finalmente encontraram um tostão. A vontade gritou-me que o guardasse, mas as jardineiras de pano não tinham bolso e eu não era – ainda – um mealheiro. Comi a moeda. A única, até ver, que não me escapou do corpo pela planta do pé.

Talvez tenha sido esse o dia em que o meu corpo, a par com o que já ia na minha cabeça, se transformou num mealheiro. Terá sido nesse dia que se começou a esculpir na parte superior do meu crânio – a que se dá à lua, ao sol, ao trono alto do rei dinheiro cuja sombra nos cobre a todos – a ranhura do mealheiro que sou.

Levantei-me trôpego e depressa ouvi baixinho o que viria a ser o chocalhar da moeda. Não era ainda um chocalhar corpo acima, corpo a baixo, a cada passo curto e desengonçado. Chocalhou a medo e enterrou-se no estômago por algum tempo. Ouvi ali, pela primeira vez, o primeiro tempo do compasso que me persegue. A planta do pé estaria ainda intacta. Julgo que não teria o tamanho suficiente para se deixar fazer ponto de fuga. Hoje há mais margem para fugirem do que para me chegarem. Perco-as a cada passo.

O chocalhar substituiu a pulsação. Quando se ouve menos, sinto a vida a ir-se com as moedas. Instala-se cansaço tamanho que nem a vontade que me grita “dinheiro” chega para o empurrar para longe. O corpo que quis forrar-se delas, talvez até fundir-se com elas, tornou-se um mero mealheiro.

Sou um mealheiro na dinastia do dinheiro. Já não visto jardineiras de pano, as moedas esmurram as paredes doridas do mealheiro estafado. Queria ser o homem moeda e sou o homem mealheiro. Entre o chocalhar irregular e a ânsia da vontade a gritar mais alto do que eu, sussurro exausto: quero não querer dinheiro.

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Sobre a Cidade

Não quero falar de mim. Em mim não há nada de novo há quase um ano e, pelo andar da coisa, não há-de haver tão cedo. Ou talvez haja e eu é que não dei pela sua criação. Não é fácil distinguir os dias quando passam sempre da mesma forma. Sentado à varanda deste nono andar, com a cidade linda por baixo de mim. É difícil olhar para dentro quando temos uma vista tão bonita à nossa frente.


Ao contrário de mim, na cidade vejo que tudo se passa ao mesmo tempo. As ambulâncias servem de autocarros para os doentes e condenados, enquanto vizinhos e vizinhas sacodem tapetes para a roupa estendida uns dos outros, alegando distração. Ao contrário de mim, nunca há aborrecimento na cidade. As ruas são varridas do seu mau cheiro, enquanto a poluição e os perfumes da vaidade se espreguiçam com grande vontade, cada um para cada canto distinto. Ao contrário de mim, a cidade não se deita na cama a folhear três livros de uma vez, sem efetivamente ler nenhum. Ao contrário de mim, a cidade não esconde o seu caos em roupa que já devia ter ido para lavar e comida que nunca devia ter sido desejada. De todos os modos, não é de mim que quero falar.


Quero falar da cidade tão bonita neste crepúsculo vermelho e azul. Com as luzinhas desfocadas que vejo da janela por limpar, algumas a tilintar dentro das casas e outras nas estradas quase vazias. Parece tão quieta e resolvida. Ao vê-la assim, quase não consigo acreditar que também ela está empestada. Minada de vermes e guerras e vermes que querem guerras – adoeceu. Quero olhar para a doença pelos olhos de Rilke e pensar que será através dela que nos livraremos do que temos de podre. Mas como é que é possível acreditar nisso quando o que está podre é tão violento e barulhento?


A cidade é bonita mas às vezes parece que me entra pela janela dentro com os seus gritos. Acorda-me e abana-me a dizer que não está nada bem, que tem macacos a invadir-lhe as entranhas que berram porque querem berrar e não porque têm algo a dizer. Trepam-lhe as paredes dos prédios e declaram conquista nos topos dos edifícios, fazendo-se ouvir mais alto que as sirenes. São macacos porque não têm humanidade. Encontraram o grande prazer que é olhar para um espelho e nunca mais o largaram. Agora querem mandar na cidade e ela, que sempre mandou em mim, pede-me ajuda. Eu ajudá-la-ia, se pudesse. Se também eu não tivesse doente, de olhos presos à maquina que me fizeram sentir que tinha obrigação de ter. Apita, treme, canta, mostra-me coisas, tudo para me tirar os olhos da cidade. Desculpem, eu sei que não era de mim que ia falar, mas são efeitos colaterais desta doença. Não sou como os macacos que se agarraram aos espelhos, mas parece que às vezes também só me vejo a mim à frente.


A cidade é bonita mas às vezes parece que não me quer como eu a quero a ela. Não sei se é da sua doença, mas olha cada vez menos para mim com ternura. As vizinhas e vizinhos não sacodem migalhas para a roupa estendida dos outros por distração, mas porque no seu espelho bonito não vêem o problema. As suas barrigas não encolhem, nem as suas camas ficam mais pequenas quando incomodam os outros. Mas eu, se não estivesse no nono andar – que é também o último do prédio – não ficaria contente com migalhas de pão no meu estendal. Da mesma forma que não fico contente quando poluem a minha vista sobre a cidade com espelhos voltados de costas para mim e apitos telefónicos que não dizem nada de todo. É como se me tornasse podre por dentro, com macacos nas minhas veias a mandar o lixo para o chão. Com ambulâncias dentro de mim a tentar salvar-me os orgãos, desviando-se de calhaus e encostas que caem sabe Deus de onde. Foi assim que me tiraram o silêncio da cidade – as ambulâncias gritam, os macacos gritam e até os calhaus gritam – todos ao mesmo tempo. É difícil olhar para dentro com uma cidade bonita à minha frente, mas não é difícil ouvir-me gritar no mesmo tom que ela. Um uníssono doloroso, talvez até engraçado e desajeitado.


E eu sei que não era de mim que ia falar. Era da cidade, mas às vezes é difícil perceber onde acaba um e começa o outro. Quando os dois ruímos e nos vendemos. E nos castigamos . E nos cegamos. Talvez em prol de coisa nenhuma, apenas por estarmos doentes com esta mania de sobreviver a qualquer custo, mesmo que seja deitados juntos nesta cama de hospital, com macacos, ambulâncias, migalhas, calhaus e poluição a misturar os limites de um e de outro.


No fim de contas, não sei sobre qual dos dois foi este texto.

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Atlas

um vaivém cheio de coisas a ir e outras a querer voltar outras que não têm a certeza se foram ou se deviam ter ido outras que estão tão longe que mal as vejo e outras que não vejo e talvez nunca tenha visto umas que ficam e ficam e ficam ainda que já tenham ido e outras que nunca existiram fora deste vaivém de coisas a ir e outras a querer voltar.

vou
fico
saio
chego
parto
carrego
peso
chego
abro
deixo aberto
para
ir
ando
corro
páro
cheguei?
nunca.
nunca chego
nunca parto
está tudo às costas
está pesado

Atlas (em grego: Άτλας), também chamado Atlante, na mitologia grega, é um dos titãs condenado por Zeus a sustentar os céus para sempre.

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Vegemite e Amor

Tinha-me acontecido tudo naquele dia, de tal forma forma que aquele dia passou a ser conhecido, por mim pelo menos, por Aquele Dia. Quando penso na forma como Aquele Dia ficou imprimido na minha memória lembro-me sempre da maquineta daquelas com fitas de colar com letras de imprensa que usava para escrever o meu nome nos cadernos, nos brinquedos, nas prateleiras, na cabeceira da cama, a maquineta com que escrevi o teu nome e o meu por baixo da secretária onde fazia os trabalhos de casa e estudava o mapa plastificado que a cobria, os meus dedos sonhando com viagens em roteiros por países longínquos e desconhecidos. As letras ainda estão coladas debaixo da secretária e Aquele Dia está colado na minha memória.

Acordei da cama que era demasiado alta para o meu tamanho e saltei para o chão para que os gremlins que lá viviam debaixo não me agarrassem as canelas, corri para a casa de banho e fiz o meu xixi matinal sentado porque sempre joguei pelo seguro e como vivia numa casa quase só com mulheres nunca aprendi verdadeiramente a fazer xixi de pé sem pingar um bocado para fora. Já estava gente acordada em casa, fui introduzido na rotina matinal que era costume naquele tempo e zarpámos em direcção à escola.

Entrei na sala, vi-te pela primeira vez e tentei sem sucesso recolher o meu coração que tinha passado para o estado líquido e descia velozmente em direcção aos intestinos onde se transformou em milhares de pequenas borboletas azuis que me faziam cócegas nas paredes do abdómen enquanto tentavam alegremente encontrar uma saída. Acabaram por encontrar e soltei uma gás audível que fez toda a gente rir e me fez fugir para o exterior com vergonha não do som ou do riso mas de te enfrentar de cara vermelha e assumir logo naquele momento o meu amor eterno por ti. Diziam que eras a miúda mais feia da escola e no entanto eu amava-te, com o teu cabelo ruivo, nariz batatudo, sem dentes da frente e os olhos mais azuis e doces que alguma vez tinha visto em toda a minha curta vida. Corri para trás do poço que havia no meio do recreio e três dos rapazes vieram atrás de mim a gozar e a rir. Sem pensar, o meu primeiro acto verdadeiramente violento traduziu-se naquela pedra que atirei e acertou em cheio na cabeça de um deles que imediatamente foi ao chão a gritar e a espernear com dores. O rapaz acabou por ir para o hospital levar dois pontos e eu fiquei obviamente de castigo na salinha perto da entrada onde guardávamos as lancheiras com o almoço e o lanche do dia, o meu cérebro a batalhar entre o completamente chocado com a minha incompreensível violência e completamente apaixonado cheio de vontade de voltar a banhar-me na admirável luz da tua presença. Percebi mais tarde que o amor tem a capacidade extraordinária de nos destabilizar ao ponto de não nos reconhecermos e de incompreendermos repentinamente o mundo à nossa volta.

Entretanto o cheiro da comida das lancheiras começou intrometer-se nos meus pensamentos e distraídamente comecei a abrir as lacheiras uma por uma e a picar qualquer coisa que me matasse a fome e fosse diferente das sandes com vegemite e do aipo com manteiga de amendoim que todos os dias recheavam a minha lancheira. Não é que não gostasse da minha comida mas variar e descobrir novos sabores é sempre positivo para o palato e para a alma. Embora na altura ainda não desconfiasse, o amor abre o apetite, ou pelo menos dá vontade de comer e sentir o corpo a libertar aquela seratotina para compensar o desgaste emocional da paixão juvenil. A porta abriu-se e surgiu a inevitável pergunta gritada O que é que tu estás a fazer ao que tive de responder calmamente com o mais inocente olhar de gato das botas que consegui engendrar, Estou a comer. Novo castigo, desta vez sentado ao lado da educadora para ficar debaixo de olho, sem poder participar nas atividades do grupo. Achavam eles que era um castigo, para mim era um sonho, poder olhar para ti aquele tempo todo sem os entraves de exercícios de apredizagem para me distraírem.

Passado algum tempo a educadora deve ter percebido que o castigo não estava a surtir o efeito de arrependimento e remorso desejado e colocou nas minhas mãos o trabalho minucioso de agrafar conjuntos de documentos e fichas para entregar aos pais, uma óbvia receita para o trágico acontecimento que se segiu. Depois do grito, do sangue e de ter de usar um alicate para retirar o agrafo do polegar magoado, o meu corpo caíu numa espécie de letargia, exausto e assoberbado pelos acontecimentos do dia. Comecei a sentir a cabeça a andar à roda, senti a quebra de tensão e desmaiei para cima do sofá enquanto esperava pelo copo de água com açúcar que me devolvesse alguma côr e alguma vida. Naquele estado de dormência e turpor pensei em como o amor é como agrafar o polegar: traz dôr, sangue, fraqueza e dormência. Pensamos que nao passa, que é para sempre. E está agrafado.

A minha mãe chegou e enquanto conversava com a professora convenci-me de que nada daquilo valia a pena, nem o amor nem o resto e estava prestes a levantar-me para abraçar a minha mãe quando te aproximaste de mim e com o teu melhor sorriso desdentado perguntaste se me ia mascarar amanhã para a festa da escola. Sorri com fraqueza e disse que não sabia. Ainda hoje guardo a nossa fotografia, de mão dada, eu vestido de Batman e tu de princesa do xabá ambos com um sorriso de orelha a orelha e eu cheio de amor, agrafo no dedo e feliz.