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Atlas

um vaivém cheio de coisas a ir e outras a querer voltar outras que não têm a certeza se foram ou se deviam ter ido outras que estão tão longe que mal as vejo e outras que não vejo e talvez nunca tenha visto umas que ficam e ficam e ficam ainda que já tenham ido e outras que nunca existiram fora deste vaivém de coisas a ir e outras a querer voltar.

vou
fico
saio
chego
parto
carrego
peso
chego
abro
deixo aberto
para
ir
ando
corro
páro
cheguei?
nunca.
nunca chego
nunca parto
está tudo às costas
está pesado

Atlas (em grego: Άτλας), também chamado Atlante, na mitologia grega, é um dos titãs condenado por Zeus a sustentar os céus para sempre.

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Vegemite e Amor

Tinha-me acontecido tudo naquele dia, de tal forma forma que aquele dia passou a ser conhecido, por mim pelo menos, por Aquele Dia. Quando penso na forma como Aquele Dia ficou imprimido na minha memória lembro-me sempre da maquineta daquelas com fitas de colar com letras de imprensa que usava para escrever o meu nome nos cadernos, nos brinquedos, nas prateleiras, na cabeceira da cama, a maquineta com que escrevi o teu nome e o meu por baixo da secretária onde fazia os trabalhos de casa e estudava o mapa plastificado que a cobria, os meus dedos sonhando com viagens em roteiros por países longínquos e desconhecidos. As letras ainda estão coladas debaixo da secretária e Aquele Dia está colado na minha memória.

Acordei da cama que era demasiado alta para o meu tamanho e saltei para o chão para que os gremlins que lá viviam debaixo não me agarrassem as canelas, corri para a casa de banho e fiz o meu xixi matinal sentado porque sempre joguei pelo seguro e como vivia numa casa quase só com mulheres nunca aprendi verdadeiramente a fazer xixi de pé sem pingar um bocado para fora. Já estava gente acordada em casa, fui introduzido na rotina matinal que era costume naquele tempo e zarpámos em direcção à escola.

Entrei na sala, vi-te pela primeira vez e tentei sem sucesso recolher o meu coração que tinha passado para o estado líquido e descia velozmente em direcção aos intestinos onde se transformou em milhares de pequenas borboletas azuis que me faziam cócegas nas paredes do abdómen enquanto tentavam alegremente encontrar uma saída. Acabaram por encontrar e soltei uma gás audível que fez toda a gente rir e me fez fugir para o exterior com vergonha não do som ou do riso mas de te enfrentar de cara vermelha e assumir logo naquele momento o meu amor eterno por ti. Diziam que eras a miúda mais feia da escola e no entanto eu amava-te, com o teu cabelo ruivo, nariz batatudo, sem dentes da frente e os olhos mais azuis e doces que alguma vez tinha visto em toda a minha curta vida. Corri para trás do poço que havia no meio do recreio e três dos rapazes vieram atrás de mim a gozar e a rir. Sem pensar, o meu primeiro acto verdadeiramente violento traduziu-se naquela pedra que atirei e acertou em cheio na cabeça de um deles que imediatamente foi ao chão a gritar e a espernear com dores. O rapaz acabou por ir para o hospital levar dois pontos e eu fiquei obviamente de castigo na salinha perto da entrada onde guardávamos as lancheiras com o almoço e o lanche do dia, o meu cérebro a batalhar entre o completamente chocado com a minha incompreensível violência e completamente apaixonado cheio de vontade de voltar a banhar-me na admirável luz da tua presença. Percebi mais tarde que o amor tem a capacidade extraordinária de nos destabilizar ao ponto de não nos reconhecermos e de incompreendermos repentinamente o mundo à nossa volta.

Entretanto o cheiro da comida das lancheiras começou intrometer-se nos meus pensamentos e distraídamente comecei a abrir as lacheiras uma por uma e a picar qualquer coisa que me matasse a fome e fosse diferente das sandes com vegemite e do aipo com manteiga de amendoim que todos os dias recheavam a minha lancheira. Não é que não gostasse da minha comida mas variar e descobrir novos sabores é sempre positivo para o palato e para a alma. Embora na altura ainda não desconfiasse, o amor abre o apetite, ou pelo menos dá vontade de comer e sentir o corpo a libertar aquela seratotina para compensar o desgaste emocional da paixão juvenil. A porta abriu-se e surgiu a inevitável pergunta gritada O que é que tu estás a fazer ao que tive de responder calmamente com o mais inocente olhar de gato das botas que consegui engendrar, Estou a comer. Novo castigo, desta vez sentado ao lado da educadora para ficar debaixo de olho, sem poder participar nas atividades do grupo. Achavam eles que era um castigo, para mim era um sonho, poder olhar para ti aquele tempo todo sem os entraves de exercícios de apredizagem para me distraírem.

Passado algum tempo a educadora deve ter percebido que o castigo não estava a surtir o efeito de arrependimento e remorso desejado e colocou nas minhas mãos o trabalho minucioso de agrafar conjuntos de documentos e fichas para entregar aos pais, uma óbvia receita para o trágico acontecimento que se segiu. Depois do grito, do sangue e de ter de usar um alicate para retirar o agrafo do polegar magoado, o meu corpo caíu numa espécie de letargia, exausto e assoberbado pelos acontecimentos do dia. Comecei a sentir a cabeça a andar à roda, senti a quebra de tensão e desmaiei para cima do sofá enquanto esperava pelo copo de água com açúcar que me devolvesse alguma côr e alguma vida. Naquele estado de dormência e turpor pensei em como o amor é como agrafar o polegar: traz dôr, sangue, fraqueza e dormência. Pensamos que nao passa, que é para sempre. E está agrafado.

A minha mãe chegou e enquanto conversava com a professora convenci-me de que nada daquilo valia a pena, nem o amor nem o resto e estava prestes a levantar-me para abraçar a minha mãe quando te aproximaste de mim e com o teu melhor sorriso desdentado perguntaste se me ia mascarar amanhã para a festa da escola. Sorri com fraqueza e disse que não sabia. Ainda hoje guardo a nossa fotografia, de mão dada, eu vestido de Batman e tu de princesa do xabá ambos com um sorriso de orelha a orelha e eu cheio de amor, agrafo no dedo e feliz.

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A alma devia ser um órgão

A alma devia ser um órgão

Como é o coração ou o fígado

A alma é ser

Precisa de mais espaço

A alma pesa pouco

Quando na verdade

A alma pesa muito.

A alma quer ser órgão

Não toca

A alma grita.

A alma

Precisa de um medico

Eu e tu

À vez

Os Almologistas.

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Crónica

O funeral pré-covid – uma visão

Nunca fui uma pessoa muito dada a funerais, por isso consigo lembrar-me ao detalhe daqueles a que fui. Sei exatamente o tipo de gente que flutuava em cada um e a energia de cada espaço. Foram quase todos no mesmo local o que me permite fazer uma avaliação quase académica da coisa. Num funeral em que o morto é muito amado e pobre, há um peso abismal no que diz respeito às emoções. Há muitas flores, muitos abraços, muito choro, muitos amigos que passam lá só para dizer um adeus e outros, que ficam a vigiar o caixão, enquanto os parentes vão comer qualquer coisa. E isto só varia consoante a idade ou a popularidade do morto. Nestes funerais nem temos tempo de olhar para ninguém, quanto mais avaliar se vão de preto, roxo ou cor de rosa. E, de vez em quando, aparece a vizinha, mirrada e linguaruda, que tem a lata de se aproximar dos parentes mais próximos e dizer: “Pois, é a vida! Mas olhe! Está com muito bom aspeto!”, como se fosse importante chegar ao céu bem-trajado e com a maquiagem composta. Depois do velório há toda uma procissão até ao cemitério, quais peregrinos no treze de maio, para ter a certeza que o morto fica bem, que o deixamos cuidado e bem embrulhado em sete palmos de terra, longe dos perigos da vida.

Já no funeral dum rico ou de uma figura proeminente da terra, a fila à volta da capela mortuária tem qualquer coisa de muralha da China, apresentando a cada passada os advogados engravatados, de fato preto, qualquer coisa de italiano e bem passado, que até batem continência ao chegar ao caixão; as madames que vêm arejar os visons (que ainda não são falsos porque foram comprados nos bons tempos da UE, e já estão há mais de trinta anos a conviver com as traças, fariam falta às traças); os pobres todos que foram ajudados pelo morto, e que se sentem na obrigação de vir dizer um adeus ao senhor Dr.; os inimigos do morto, que vêm ter a certeza que ele morreu mesmo, e o resto da sociedade da terra que vem mostrar que conhecia o morto e mostrar-se. 

O funeral dum rico é um drink ao fim da tarde, em que todos conversam e se mostram embora na realidade ninguém queira saber do morto. Uns trazem coroas enormes, os pobres umas rosas, pobre que é pobre não vai passar a vergonha de não levar um raminho, e os ricos não levam nada, ou são frugais ou mandam fazer o arranjo à florista mais cara dos arredores, que o vai lá entregar em mão. No fundo, só estão ali para uma reunião de negócios, para um networking. E o que falta sempre no funeral dum rico ou figura proeminente é sentimento, emoção, mas nunca falta conversa: sobre o Sr. Dr, sobre o que vamos fazer ao almoço, sobre como ganhar uns trocos. Quando acaba o velório vão, quais carneirinhos, encher a igreja para a missa e depois dispersam mal podem. Afinal o morto vai ser cremado e bom tom é regressarem a suas casas. Os poucos familiares diretos que acompanham o morto até ao crematório foram os únicos que choraram e mesmo dentre estes contam-se pelos dedos aqueles a quem o morto fará falta. As cinzas, no regresso, ficam em cima da lareira a vigiar os vivos porque, no fundo, no fundo, ninguém sabe o que lhes há-de fazer. O funeral alternativo, de enterro tradicional no cemitério, resume-se a uma fila de uns quantos gatos pingados, a distâncias bem contabilizadas, de nariz no ar, mortos que a coisa acabe para voltarem às suas vidinhas. Porque um funeral é sempre um incómodo na vida diária.

Os ricos e os pobres são muito diferentes no funeral, tanto no que levam vestido, como no sítio onde vão deitados, como na cerimónia que tiveram, como no povo que deixam. Só não são diferentes no local que os vai receber, e isso é que é importante.

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Poema Todas

Água Sara

O navio corta a água.

A água estremece, divaga, solta a espuma para sarar a ferida. E espera que esta se dissipe.

O tempo ajuda a ferida a sarar, que o rasgo afunde e que a água volte. 

Até passar o próximo navio.  

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Todos os Pássaros

Tomara eu poder ter a sensação de descobrir o mundo p’la primeira vez todos os dias.

Tomara eu que os meus olhos se enchessem de verde azul a cada respiração.

Tomara eu conhecer todas as cores só por ver as flores que vão passando.

Tomara eu saber a melodia só de ouvir os pássaros cantar.

Tomara eu que tudo tivesse o sabor de gotas a cair na água.

Tomara eu que tudo se sentisse como o carinho do vento na pele.

Tomara eu que a temperatura do coração se medisse p’los raios do sol.

Tomara eu respirar o voar das montanhas.

Tomara eu que cada passo fosse leve como o flutuar.

Tomara eu a cada esquina

conseguir respirar.

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Conto

Vozes VS Eu

Quero contar um conto que seja muito interessante, mas tudo o que me aparecem são personagens miseráveis que como numa roda louca aparecem. Cada uma com o seu problema e todas me gritam aos ouvidos:

  • Quero que me ouças e me fales.
  • Dança comigo como se não houvesse amanhã.
  • Mergulha no mesmo mar que eu, como sereia, banho-me aqui, todos os dias. 

E assim continuam a falar coisas sem fim, como se eu conseguisse reportar todas as suas vozes.  E como não consigo, perco-me em algumas, vendo imagens sem fim de suas vidas. Ou pelo menos as vidas que consigo ver em apenas uma frase. 

Alguém que me pede para ouvir, é alguém que não tem ninguém para falar e por isso empresto o meu ouvido, empresto também a minha alma para que possa sentir-se em casa. E assim, prossigo a ouvir as palavras de alguém que me quer despejar coisas como: tenho caspa e não sei como resolver. Às vezes é nítido, que tudo o que precisa é de falar. Outras, é possível confundir com necessidades que soa a necessidades reais. “Tenho fome e não tenho como comer.”. É nesta altura que me levanto e pego nas chaves de casa para correr a um supermercado e colecionar no carrinho de compras tudo o que esta mulher, esta voz feminina, sopra ao meu ouvido. O pior é que quando chego à porta não sei onde me dirigir, porque não sei se de facto esta mulher existe. Sei apenas que me grita ao ouvido. Acabo por trazer as compras para casa, etiqueto como: mulher desesperada. 

Por outro lado ouço tantas vezes aquela que me pede para dançar com ela, e como não sei do que gosta ela, vejo vezes sem conta, a minha lista de música e escolho para ela umas 7 músicas. Músicas que oiço em loop o dia todo, mas que escolho para que cada um dos dias da semana se possa cantar uma diferente. De facto, se esta mulher tiver o mesmo problema que eu, irá ouvir tudo, de uma vez só. Sou viciada em consumos musicais. Continuo, no entanto, a ouvi-la a pedir para que eu dance com ela, e por isso faço-lhe esse favor e danço.

Em jeitos envergonhados, ao ver o mar na minha frente vou despindo a roupa até nada sobrar, faço-o sem perceber se está alguém a ver. Contudo, no final, acabo por olhar ao meu redor para confirmar se estou a ser vigiada. Nada. Ninguém. Então falo, como se alguém me estive a ouvir, danço até entrar no mar e mergulho desejando ser uma sereia. 

Sou alguém que vive entre o mundo das vozes e o mundo da consciência, onde tudo é tão mau que chego a implorar para que essas vozes voltem, estranho que sejam sempre vozes de mulheres e que por incrível que pareça eu quase diria que sou eu. Porém, sou alguém tão consciente e normal que nunca me permitiria ser essas mulheres que querem ser ouvidas, ou aquelas que dançam como se não houvesse amanhã, muito menos aquelas que mergulham no mar para nadar como sereias. Afinal: sereias, dizem que não existem. 

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Poema

Lugar

Não estás, nunca, no lugar que sou

Vejo-te nos meus passados

Aqueles que vou desfolhando

Não és senão uma mancha de ontens esfarrapados

E manhãs sem luz na janela

Não estás nunca no lugar que sou,

Não agora, talvez nunca.

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Traição Mata

Vamos falar de traição. Vamos falar de traição porque é do que me apetece falar. Sendo que a verdade é que basta pronunciar a palavra traição que já oiço as vossas cabeças a murmurar: lençóis, esquinas, encontros, segredos, sensualidade, excitação e por aí fora até formular algumas cenas de sexo tórrido e insuportável de negar ao ponto de se ver repetido vezes sem conta, caso contrário, quase nem poderia contar como “traição”. Uma boa história de traição deste tipo acrescenta ainda amor à mistura, ou pelo menos a palavra, dúvidas, incertezas, muita loucura e respirações completamente ofegantes que deixam o cérebro bloqueado por excesso de oxigénio. 

Eu diria que traição está completamente relacionado com esta mesma falta de ar, mais concretamente oxigénio. Num mundo onde o oxigénio é o suporte de vida para o Ser Humano é, também por isso, que a falta dele nos leva à morte. A morte nem sempre é essa literal, afinal de contas, é preciso estar vivo para morrer, e o problema é que estar vivo é completamente diferente do que poderá ser para outra pessoa e isso leva-me à traição. 

Viver é para mim um êxtase tal que me inibe de consumir qualquer tipo de droga ou vício, porque a alegria é o tal êxtase contínuo e inebriante onde a morte não tem espaço. Com morte, posso mesmo dizer: vícios de qualquer tipo. Posso considerar que no momento em que alguém me vê a consumir chocolate todos os dias, vinho todos os dias, doces todos os dias, ou qualquer tipo de açúcar ou álcool em forma continuada e rotineira, nesse momento, posso dizer-vos estou a morrer. Porém, calma, se ainda circular ar em mim, é possível salvar-me desse estado catatónico que me leva à rotura de mim mesma. Posso assegurar-vos, contudo, que já não há oxigénio suficiente no meu cérebro e que estou a ser bloqueada. Como está isto tudo relacionado com traição? Fácil, o uso indevido da informação pessoal que partilho com alguém (segredos), a falta de lealdade na construção de um trabalho alterando o lado em que se está constantemente ou mesmo minar as minhas ações naquilo que chamo de dias (podendo ir para além desde tempo circunscrito) é espetar em mim uma faca virtual – como os abraços que damos atualmente – uma faca que me faz esvair e consumir vícios. Mesmo que os meus não sejam considerados pesados são demasiado pesados para mim. Ao ponto de afetar a permanência de oxigénio no sangue e consequentemente no cérebro. Vamos então falar de traição: a traição mata. No meu caso, ainda posso suportar a tal do sexo tórrido, sendo que a outra, aquela que retira a alegria do meu corpo e me vicia, com excesso de dióxido de carbono e ausência de oxigénio, essa? Mata mesmo.

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Nós em Nós

Não entendo

apenas sinto

Procurei-te onde não me achava

Achei-te 

como num plágio de mim 

Achei-me

como num plágio de ti.