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Crónica

Agnosticismo à parte

Fossemos todos este Papa e muito fumo branco iria sair de todas as casas.

O Papa Francisco passou a ser um dos meus grandes heróis. Destemido, corajoso, determinado a lutar contra uma instituição milenar cuja história está marcada pela violação dos direitos humanos, sendo eles homofóbicos, assédio sexual ou pelos direitos das mulheres.

O Papa Francisco tem chamado a atenção para o papel das mulheres na vida eclesial. “As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir totalmente”.

Com o Sumo Pontífice o número de mulheres em cargos de liderança no Vaticano aumentou 70%, no entanto a igreja não confere ordenação sacerdotal às mulheres e o Papa defende esta posição “as mulheres na Igreja têm de ser valorizadas, não clericalizadas “.

Para o Papa Francisco somos todos filhos de Deus, para Maria José, somos todos pessoas com os mesmos direitos. A diferença nas crenças de Maria José e o Papa Francisco é apenas uma, Maria José era agnóstica.

Apesar de ter tido uma educação católica e por esse motivo ter sido batizada, optou por não batizar a filha, deixando para ela essa decisão quando um dia achasse que o devesse ser ou se sentisse um chamamento.

Não sendo católica, não casou nem tinha vontade de o voltar a fazer pela igreja.

A Maria José é casada. Não tendo nenhum papel que o comprove, mas é casada com José Maria. Até os nomes casam. Está tudo certo.

Podiam ter casado há mais de vinte anos, mas quis a vida, ou quiseram os dois ir por desígnios distintos.

O amor, começou com música na inauguração de um festival de cinema. 

Música, cinema, amor e vinte anos de conversa para pôr em dia. 

Chamam-se um ao outro por Zé, mas isto só pode ser feito dentro de casa, uma vez que o Zé tem mais irmãos chamados José Jorge e José Francisco. 

Quando se casaram prometeram muito um ao outro, ambos tinham heranças do passado pesadas, e sabiam que o caminho por vezes iria ser difícil. Queriam os dois amor e ser amados, as diferenças entre os dois à primeira vista eram grandes, mas quem vê como o principezinho “o essencial só se vê bem com o coração”, e o coração deles estava cheio de valores, ideais, romances e muito amor.

Falavam sobre as suas diferenças, e chegavam à conclusão que ainda bem que existiam, assim podiam não só aprender mutuamente, como respeitarem-se e não se aborrecerem.

A Maria José achava que era uma pintura e que o José Maria era o seu quadro, onde quando a pintura queria ser mais do que já era, lá estava a moldura para balizar e deixar assim, bem, como ele achava.

Ao contrário de Maria José, José Maria era católico e a vontade dele era um dia poderem casar pela igreja. Foi durante uma conversa sobre este assunto, que Maria José lhe relembrou as palavravas do Papa Francisco onde defendia a união civil sobre os homossexuais e que apesar dos dois serem heterossexuais, que razão poderia existir para terem um casamento religioso onde há ainda regras para diferenciar o amor.

O amor acontece de maneiras diferentes, mostra-se de maneiras diferentes e comporta-se de maneiras diferentes, como no amor da Zé e do Zé.

Assim, como acontece quando se partilha uma vida, partilham-se ideias diferentes. A diferença é a forma como se partilham as diferenças, os desagradados ou como se resolve um conflito.

A Zé, não tem jeito para confrontos e quando se sente acusada ou desvalorizada, foge.

O Zé, não tem problemas com confrontos e não foge.

A Zé fugiu, a sua cabeça estava tão cheia de dor e o seu coração cheio de amor que achou que o melhor seria fugir.

Passaram-se meses e o único sentimento que se apoderava dela era o desespero. Um desespero que começava em primeiro lugar sobre o amor que tinha por ela, seguido do amor da vida dela. Pensou na herança que carregava ser tão forte que nunca iria conseguir ser feliz. Pensou na herança pesada do Zé e sentia saudades. Saudades dos pormenores que de facto são por maiores. Estava a morrer de amor, e lembrou-se do Papa. Pensou em escrever-lhe uma carta a perguntar se ele algum dia soube o que é sentir que se pode morrer de e por amor? Não o fez, achou que além de dar muito trabalho escrever a sua Santidade e não saber as regras nem a língua em que escrever, o tempo que demoraria em ter uma resposta iria ser em vão. Mas pensou que só o facto de se ter lembrado do Papa poderia ser o tal chamamento. Não o chamamento para a fé cristã, mas para a fé no amor.

Em vez de escrever ao Papa, escreveu a carta ao Zé. No envelope estava escrito “De: Zé Para: Zé”, na carta vários gritos de amor e saudade.

De uma forma célere, tinha a resposta do Zé no mesmo envelope. Na carta, duas frases “Isto poderá ser o que nós quisermos. Amo-te.”

Como em qualquer instituição religiosa, em casa, nas casas, as premissas deveriam ser sempre as mesmas. Respeito, comunicação e amor. Aceitarmo-nos a nós e aceitarmos quem está connosco. Sermos e deixarmos ser. 

Na nossa casa, hoje, sai fumo branco pela chaminé.

Na nossa casa, como dizia o poeta: “ que seja eterno enquanto dure”, e para os Zés que dure eternamente.

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O Homem Mealheiro

Ouço em mim, nos passos que dou, o dinheiro que tenho a chocalhar. Ou o que não tenho, porque ouço o que não chocalha também. Ouço o vazio que ele deixa, o eco que preenche o vazio que esse dinheiro – o que não tenho – ocupa. O que há é tão pouco que se conta em meia dúzia de moedas que dançam corpo acima corpo abaixo. Como pedras num adufe, ameaçam rasgar-me a pele. Se rasgarem, que desenho farão na minha pele? São ferrugentas, encardidas e gastas. Gastaram-se a trabalhar.

Sou como um mealheiro quebrado, o tostão entra na ranhura sobre a minha cabeça e, antes mesmo de pestanejar, está a escapar-me pela planta do pé. Mesmo que o pise, não é meu. O dinheiro que ganho não chega a ser meu – não chega a ser eu. Não somos o dinheiro que temos, dizem sempre, mas o que temos tem poder sobre o que somos.

Penso tanto no dinheiro que não tenho que o ouço sempre chocalhar. Queria o silêncio porque silêncio seriam notas. O silêncio seria o conforto de uma casa que não tenho. Canta um Bernardo que passou a vida a trabalhar para fazer nada e o homem tem razão. Trabalhamos não para poupar ou viver mais confortavelmente, mas para manter seis tostões corpo acima corpo abaixo, conscientes de que nos vão fugindo dos pés, por isso, enchemos a cabeça.

Ouvem? Chocalho para cima, chocalho para baixo. Outra e outra vez. Não fosse a pele um cobertor que abafa a cantiga das moedas, pareceria eu uma pandeireta?

Jurei colar os pés ao chão para segurar os tostões, mas parado não lhes dou uso nem lhes arranjo companhia. Viver é gastar: o dinheiro, o corpo, a vida, o mundo – é gastar tudo o que somos e tudo o que nos rodeia. Gastar as pessoas, até.

A palavra gastar soa a ato irresponsável, como se fosse um capricho ou ímpeto obscuro tão forte como o de um vício. Vestiram-na de má fé e tornou-se depreciativa. Gastar é coisa da ralé, os ricos investem. Prefiro a palavra dar a gastar. Isso sim é coisa de ralé, os ricos pouco dão. Dar dinheiro a negócios, prazeres, lazeres. Dar o corpo a negócios, prazeres, lazeres – às pessoas, ao mundo, a manifestos, dar o corpo ao que quisermos. Dar a vida à morte, negociar a duração dos negócios, prazeres e lazeres, negociar a validade. Dar a vida à morte porque lhe estamos prometidos. Dar vida às pessoas, aos sítios e aos negócios, prazeres e lazeres a que a dedicamos. Dar mundo a quem conhecemos entre negócios, prazeres e lazeres. Dar mundo ao mundo que seremos mais um filho seu, mais ossadas para o cimentar. Mais uma dádiva. Damos mais do que gastamos. Gastar pressupõe – deixem-me teorizar – uma escolha, uma certa luxúria ou desejo cru de querer ter. Eu quero gastar isto naquilo porque eu sou assim e quero ter, posso ter. Damos a vida porque a temos e sabemos não ser só nossa. Aprendo que o dinheiro também não. Nem o mundo ou mesmo o corpo.

A relação que temos com o dinheiro é de possessão. Resta esclarecer se somos nós que o possuímos ou ele a nós. Se eu for, de facto, um mealheiro, posso só guardá-lo, sem que ele me pertença. O poder está do lado dele. Não precisa que o guarde, existe por si e há sempre alguém que lhe deita a mão. Já eu, se mealheiro, preciso dele para justificar a minha existência. Se homem, dependo dele para sustentar a minha existência. O dinheiro pode sempre mais.

Cresci na dinastia do dinheiro, onde as vidas se fazem em prol do rei. A veneração era tal que penso em dinheiro desde que penso em ser. Desde que sou. Lembro-me de olhar desiludido para as minhas mãos pequenas, gordas e quase sempre sujas, porque não lhes chegava um tostão. Trabalhar, ganhar, poupar, perder, precisar, pedir, gastar, querer. Todos querem dinheiro. Tenham muito ou pouco, quer-se sempre dinheiro. E eu quis dinheiro assim que a vontade me nasceu. Corpo pequeno, ossos quase moles, sentia pouco mais do que fome e sono, mas nasceu-me a vontade e gritou: dinheiro. Com a vontade veio a angústia, porque querer nunca vem só. Querer é fácil na medida em que nos é inato. Nem todos quereriam nascer, mas, nascendo, quer-se tudo. Até os que não queriam nascer passam a querer não ter nascido. Como querer não é necessariamente poder, quando não se pode, quer-se não querer.

A ânsia de querer existe porque nos satisfaz almejar. A inundação de vontade ajuda o sangue a fluir corpo acima, corpo abaixo – como as moedas. Mas querer sem poder tira o encanto à inundação e transforma-a numa corrente forte e agressiva que nos cansa por dentro.

Era ainda um garoto com jardineiras de pano e, antes de sentir a porrada que é querer e não ter, encontrei uma moeda no chão. Fiel à dinastia que nos governa, apanhei-a com os meus dedos gordos e imprecisos, apertei-a com a força que tinha e senti o que é concretizar o querer. As mãos finalmente encontraram um tostão. A vontade gritou-me que o guardasse, mas as jardineiras de pano não tinham bolso e eu não era – ainda – um mealheiro. Comi a moeda. A única, até ver, que não me escapou do corpo pela planta do pé.

Talvez tenha sido esse o dia em que o meu corpo, a par com o que já ia na minha cabeça, se transformou num mealheiro. Terá sido nesse dia que se começou a esculpir na parte superior do meu crânio – a que se dá à lua, ao sol, ao trono alto do rei dinheiro cuja sombra nos cobre a todos – a ranhura do mealheiro que sou.

Levantei-me trôpego e depressa ouvi baixinho o que viria a ser o chocalhar da moeda. Não era ainda um chocalhar corpo acima, corpo a baixo, a cada passo curto e desengonçado. Chocalhou a medo e enterrou-se no estômago por algum tempo. Ouvi ali, pela primeira vez, o primeiro tempo do compasso que me persegue. A planta do pé estaria ainda intacta. Julgo que não teria o tamanho suficiente para se deixar fazer ponto de fuga. Hoje há mais margem para fugirem do que para me chegarem. Perco-as a cada passo.

O chocalhar substituiu a pulsação. Quando se ouve menos, sinto a vida a ir-se com as moedas. Instala-se cansaço tamanho que nem a vontade que me grita “dinheiro” chega para o empurrar para longe. O corpo que quis forrar-se delas, talvez até fundir-se com elas, tornou-se um mero mealheiro.

Sou um mealheiro na dinastia do dinheiro. Já não visto jardineiras de pano, as moedas esmurram as paredes doridas do mealheiro estafado. Queria ser o homem moeda e sou o homem mealheiro. Entre o chocalhar irregular e a ânsia da vontade a gritar mais alto do que eu, sussurro exausto: quero não querer dinheiro.

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Sobre a Cidade

Não quero falar de mim. Em mim não há nada de novo há quase um ano e, pelo andar da coisa, não há-de haver tão cedo. Ou talvez haja e eu é que não dei pela sua criação. Não é fácil distinguir os dias quando passam sempre da mesma forma. Sentado à varanda deste nono andar, com a cidade linda por baixo de mim. É difícil olhar para dentro quando temos uma vista tão bonita à nossa frente.


Ao contrário de mim, na cidade vejo que tudo se passa ao mesmo tempo. As ambulâncias servem de autocarros para os doentes e condenados, enquanto vizinhos e vizinhas sacodem tapetes para a roupa estendida uns dos outros, alegando distração. Ao contrário de mim, nunca há aborrecimento na cidade. As ruas são varridas do seu mau cheiro, enquanto a poluição e os perfumes da vaidade se espreguiçam com grande vontade, cada um para cada canto distinto. Ao contrário de mim, a cidade não se deita na cama a folhear três livros de uma vez, sem efetivamente ler nenhum. Ao contrário de mim, a cidade não esconde o seu caos em roupa que já devia ter ido para lavar e comida que nunca devia ter sido desejada. De todos os modos, não é de mim que quero falar.


Quero falar da cidade tão bonita neste crepúsculo vermelho e azul. Com as luzinhas desfocadas que vejo da janela por limpar, algumas a tilintar dentro das casas e outras nas estradas quase vazias. Parece tão quieta e resolvida. Ao vê-la assim, quase não consigo acreditar que também ela está empestada. Minada de vermes e guerras e vermes que querem guerras – adoeceu. Quero olhar para a doença pelos olhos de Rilke e pensar que será através dela que nos livraremos do que temos de podre. Mas como é que é possível acreditar nisso quando o que está podre é tão violento e barulhento?


A cidade é bonita mas às vezes parece que me entra pela janela dentro com os seus gritos. Acorda-me e abana-me a dizer que não está nada bem, que tem macacos a invadir-lhe as entranhas que berram porque querem berrar e não porque têm algo a dizer. Trepam-lhe as paredes dos prédios e declaram conquista nos topos dos edifícios, fazendo-se ouvir mais alto que as sirenes. São macacos porque não têm humanidade. Encontraram o grande prazer que é olhar para um espelho e nunca mais o largaram. Agora querem mandar na cidade e ela, que sempre mandou em mim, pede-me ajuda. Eu ajudá-la-ia, se pudesse. Se também eu não tivesse doente, de olhos presos à maquina que me fizeram sentir que tinha obrigação de ter. Apita, treme, canta, mostra-me coisas, tudo para me tirar os olhos da cidade. Desculpem, eu sei que não era de mim que ia falar, mas são efeitos colaterais desta doença. Não sou como os macacos que se agarraram aos espelhos, mas parece que às vezes também só me vejo a mim à frente.


A cidade é bonita mas às vezes parece que não me quer como eu a quero a ela. Não sei se é da sua doença, mas olha cada vez menos para mim com ternura. As vizinhas e vizinhos não sacodem migalhas para a roupa estendida dos outros por distração, mas porque no seu espelho bonito não vêem o problema. As suas barrigas não encolhem, nem as suas camas ficam mais pequenas quando incomodam os outros. Mas eu, se não estivesse no nono andar – que é também o último do prédio – não ficaria contente com migalhas de pão no meu estendal. Da mesma forma que não fico contente quando poluem a minha vista sobre a cidade com espelhos voltados de costas para mim e apitos telefónicos que não dizem nada de todo. É como se me tornasse podre por dentro, com macacos nas minhas veias a mandar o lixo para o chão. Com ambulâncias dentro de mim a tentar salvar-me os orgãos, desviando-se de calhaus e encostas que caem sabe Deus de onde. Foi assim que me tiraram o silêncio da cidade – as ambulâncias gritam, os macacos gritam e até os calhaus gritam – todos ao mesmo tempo. É difícil olhar para dentro com uma cidade bonita à minha frente, mas não é difícil ouvir-me gritar no mesmo tom que ela. Um uníssono doloroso, talvez até engraçado e desajeitado.


E eu sei que não era de mim que ia falar. Era da cidade, mas às vezes é difícil perceber onde acaba um e começa o outro. Quando os dois ruímos e nos vendemos. E nos castigamos . E nos cegamos. Talvez em prol de coisa nenhuma, apenas por estarmos doentes com esta mania de sobreviver a qualquer custo, mesmo que seja deitados juntos nesta cama de hospital, com macacos, ambulâncias, migalhas, calhaus e poluição a misturar os limites de um e de outro.


No fim de contas, não sei sobre qual dos dois foi este texto.

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Atlas

um vaivém cheio de coisas a ir e outras a querer voltar outras que não têm a certeza se foram ou se deviam ter ido outras que estão tão longe que mal as vejo e outras que não vejo e talvez nunca tenha visto umas que ficam e ficam e ficam ainda que já tenham ido e outras que nunca existiram fora deste vaivém de coisas a ir e outras a querer voltar.

vou
fico
saio
chego
parto
carrego
peso
chego
abro
deixo aberto
para
ir
ando
corro
páro
cheguei?
nunca.
nunca chego
nunca parto
está tudo às costas
está pesado

Atlas (em grego: Άτλας), também chamado Atlante, na mitologia grega, é um dos titãs condenado por Zeus a sustentar os céus para sempre.

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Vegemite e Amor

Tinha-me acontecido tudo naquele dia, de tal forma forma que aquele dia passou a ser conhecido, por mim pelo menos, por Aquele Dia. Quando penso na forma como Aquele Dia ficou imprimido na minha memória lembro-me sempre da maquineta daquelas com fitas de colar com letras de imprensa que usava para escrever o meu nome nos cadernos, nos brinquedos, nas prateleiras, na cabeceira da cama, a maquineta com que escrevi o teu nome e o meu por baixo da secretária onde fazia os trabalhos de casa e estudava o mapa plastificado que a cobria, os meus dedos sonhando com viagens em roteiros por países longínquos e desconhecidos. As letras ainda estão coladas debaixo da secretária e Aquele Dia está colado na minha memória.

Acordei da cama que era demasiado alta para o meu tamanho e saltei para o chão para que os gremlins que lá viviam debaixo não me agarrassem as canelas, corri para a casa de banho e fiz o meu xixi matinal sentado porque sempre joguei pelo seguro e como vivia numa casa quase só com mulheres nunca aprendi verdadeiramente a fazer xixi de pé sem pingar um bocado para fora. Já estava gente acordada em casa, fui introduzido na rotina matinal que era costume naquele tempo e zarpámos em direcção à escola.

Entrei na sala, vi-te pela primeira vez e tentei sem sucesso recolher o meu coração que tinha passado para o estado líquido e descia velozmente em direcção aos intestinos onde se transformou em milhares de pequenas borboletas azuis que me faziam cócegas nas paredes do abdómen enquanto tentavam alegremente encontrar uma saída. Acabaram por encontrar e soltei uma gás audível que fez toda a gente rir e me fez fugir para o exterior com vergonha não do som ou do riso mas de te enfrentar de cara vermelha e assumir logo naquele momento o meu amor eterno por ti. Diziam que eras a miúda mais feia da escola e no entanto eu amava-te, com o teu cabelo ruivo, nariz batatudo, sem dentes da frente e os olhos mais azuis e doces que alguma vez tinha visto em toda a minha curta vida. Corri para trás do poço que havia no meio do recreio e três dos rapazes vieram atrás de mim a gozar e a rir. Sem pensar, o meu primeiro acto verdadeiramente violento traduziu-se naquela pedra que atirei e acertou em cheio na cabeça de um deles que imediatamente foi ao chão a gritar e a espernear com dores. O rapaz acabou por ir para o hospital levar dois pontos e eu fiquei obviamente de castigo na salinha perto da entrada onde guardávamos as lancheiras com o almoço e o lanche do dia, o meu cérebro a batalhar entre o completamente chocado com a minha incompreensível violência e completamente apaixonado cheio de vontade de voltar a banhar-me na admirável luz da tua presença. Percebi mais tarde que o amor tem a capacidade extraordinária de nos destabilizar ao ponto de não nos reconhecermos e de incompreendermos repentinamente o mundo à nossa volta.

Entretanto o cheiro da comida das lancheiras começou intrometer-se nos meus pensamentos e distraídamente comecei a abrir as lacheiras uma por uma e a picar qualquer coisa que me matasse a fome e fosse diferente das sandes com vegemite e do aipo com manteiga de amendoim que todos os dias recheavam a minha lancheira. Não é que não gostasse da minha comida mas variar e descobrir novos sabores é sempre positivo para o palato e para a alma. Embora na altura ainda não desconfiasse, o amor abre o apetite, ou pelo menos dá vontade de comer e sentir o corpo a libertar aquela seratotina para compensar o desgaste emocional da paixão juvenil. A porta abriu-se e surgiu a inevitável pergunta gritada O que é que tu estás a fazer ao que tive de responder calmamente com o mais inocente olhar de gato das botas que consegui engendrar, Estou a comer. Novo castigo, desta vez sentado ao lado da educadora para ficar debaixo de olho, sem poder participar nas atividades do grupo. Achavam eles que era um castigo, para mim era um sonho, poder olhar para ti aquele tempo todo sem os entraves de exercícios de apredizagem para me distraírem.

Passado algum tempo a educadora deve ter percebido que o castigo não estava a surtir o efeito de arrependimento e remorso desejado e colocou nas minhas mãos o trabalho minucioso de agrafar conjuntos de documentos e fichas para entregar aos pais, uma óbvia receita para o trágico acontecimento que se segiu. Depois do grito, do sangue e de ter de usar um alicate para retirar o agrafo do polegar magoado, o meu corpo caíu numa espécie de letargia, exausto e assoberbado pelos acontecimentos do dia. Comecei a sentir a cabeça a andar à roda, senti a quebra de tensão e desmaiei para cima do sofá enquanto esperava pelo copo de água com açúcar que me devolvesse alguma côr e alguma vida. Naquele estado de dormência e turpor pensei em como o amor é como agrafar o polegar: traz dôr, sangue, fraqueza e dormência. Pensamos que nao passa, que é para sempre. E está agrafado.

A minha mãe chegou e enquanto conversava com a professora convenci-me de que nada daquilo valia a pena, nem o amor nem o resto e estava prestes a levantar-me para abraçar a minha mãe quando te aproximaste de mim e com o teu melhor sorriso desdentado perguntaste se me ia mascarar amanhã para a festa da escola. Sorri com fraqueza e disse que não sabia. Ainda hoje guardo a nossa fotografia, de mão dada, eu vestido de Batman e tu de princesa do xabá ambos com um sorriso de orelha a orelha e eu cheio de amor, agrafo no dedo e feliz.

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A alma devia ser um órgão

A alma devia ser um órgão

Como é o coração ou o fígado

A alma é ser

Precisa de mais espaço

A alma pesa pouco

Quando na verdade

A alma pesa muito.

A alma quer ser órgão

Não toca

A alma grita.

A alma

Precisa de um medico

Eu e tu

À vez

Os Almologistas.

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Crónica

O funeral pré-covid – uma visão

Nunca fui uma pessoa muito dada a funerais, por isso consigo lembrar-me ao detalhe daqueles a que fui. Sei exatamente o tipo de gente que flutuava em cada um e a energia de cada espaço. Foram quase todos no mesmo local o que me permite fazer uma avaliação quase académica da coisa. Num funeral em que o morto é muito amado e pobre, há um peso abismal no que diz respeito às emoções. Há muitas flores, muitos abraços, muito choro, muitos amigos que passam lá só para dizer um adeus e outros, que ficam a vigiar o caixão, enquanto os parentes vão comer qualquer coisa. E isto só varia consoante a idade ou a popularidade do morto. Nestes funerais nem temos tempo de olhar para ninguém, quanto mais avaliar se vão de preto, roxo ou cor de rosa. E, de vez em quando, aparece a vizinha, mirrada e linguaruda, que tem a lata de se aproximar dos parentes mais próximos e dizer: “Pois, é a vida! Mas olhe! Está com muito bom aspeto!”, como se fosse importante chegar ao céu bem-trajado e com a maquiagem composta. Depois do velório há toda uma procissão até ao cemitério, quais peregrinos no treze de maio, para ter a certeza que o morto fica bem, que o deixamos cuidado e bem embrulhado em sete palmos de terra, longe dos perigos da vida.

Já no funeral dum rico ou de uma figura proeminente da terra, a fila à volta da capela mortuária tem qualquer coisa de muralha da China, apresentando a cada passada os advogados engravatados, de fato preto, qualquer coisa de italiano e bem passado, que até batem continência ao chegar ao caixão; as madames que vêm arejar os visons (que ainda não são falsos porque foram comprados nos bons tempos da UE, e já estão há mais de trinta anos a conviver com as traças, fariam falta às traças); os pobres todos que foram ajudados pelo morto, e que se sentem na obrigação de vir dizer um adeus ao senhor Dr.; os inimigos do morto, que vêm ter a certeza que ele morreu mesmo, e o resto da sociedade da terra que vem mostrar que conhecia o morto e mostrar-se. 

O funeral dum rico é um drink ao fim da tarde, em que todos conversam e se mostram embora na realidade ninguém queira saber do morto. Uns trazem coroas enormes, os pobres umas rosas, pobre que é pobre não vai passar a vergonha de não levar um raminho, e os ricos não levam nada, ou são frugais ou mandam fazer o arranjo à florista mais cara dos arredores, que o vai lá entregar em mão. No fundo, só estão ali para uma reunião de negócios, para um networking. E o que falta sempre no funeral dum rico ou figura proeminente é sentimento, emoção, mas nunca falta conversa: sobre o Sr. Dr, sobre o que vamos fazer ao almoço, sobre como ganhar uns trocos. Quando acaba o velório vão, quais carneirinhos, encher a igreja para a missa e depois dispersam mal podem. Afinal o morto vai ser cremado e bom tom é regressarem a suas casas. Os poucos familiares diretos que acompanham o morto até ao crematório foram os únicos que choraram e mesmo dentre estes contam-se pelos dedos aqueles a quem o morto fará falta. As cinzas, no regresso, ficam em cima da lareira a vigiar os vivos porque, no fundo, no fundo, ninguém sabe o que lhes há-de fazer. O funeral alternativo, de enterro tradicional no cemitério, resume-se a uma fila de uns quantos gatos pingados, a distâncias bem contabilizadas, de nariz no ar, mortos que a coisa acabe para voltarem às suas vidinhas. Porque um funeral é sempre um incómodo na vida diária.

Os ricos e os pobres são muito diferentes no funeral, tanto no que levam vestido, como no sítio onde vão deitados, como na cerimónia que tiveram, como no povo que deixam. Só não são diferentes no local que os vai receber, e isso é que é importante.

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Poema Todas

Água Sara

O navio corta a água.

A água estremece, divaga, solta a espuma para sarar a ferida. E espera que esta se dissipe.

O tempo ajuda a ferida a sarar, que o rasgo afunde e que a água volte. 

Até passar o próximo navio.  

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Todas

Todos os Pássaros

Tomara eu poder ter a sensação de descobrir o mundo p’la primeira vez todos os dias.

Tomara eu que os meus olhos se enchessem de verde azul a cada respiração.

Tomara eu conhecer todas as cores só por ver as flores que vão passando.

Tomara eu saber a melodia só de ouvir os pássaros cantar.

Tomara eu que tudo tivesse o sabor de gotas a cair na água.

Tomara eu que tudo se sentisse como o carinho do vento na pele.

Tomara eu que a temperatura do coração se medisse p’los raios do sol.

Tomara eu respirar o voar das montanhas.

Tomara eu que cada passo fosse leve como o flutuar.

Tomara eu a cada esquina

conseguir respirar.

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Conto

Vozes VS Eu

Quero contar um conto que seja muito interessante, mas tudo o que me aparecem são personagens miseráveis que como numa roda louca aparecem. Cada uma com o seu problema e todas me gritam aos ouvidos:

  • Quero que me ouças e me fales.
  • Dança comigo como se não houvesse amanhã.
  • Mergulha no mesmo mar que eu, como sereia, banho-me aqui, todos os dias. 

E assim continuam a falar coisas sem fim, como se eu conseguisse reportar todas as suas vozes.  E como não consigo, perco-me em algumas, vendo imagens sem fim de suas vidas. Ou pelo menos as vidas que consigo ver em apenas uma frase. 

Alguém que me pede para ouvir, é alguém que não tem ninguém para falar e por isso empresto o meu ouvido, empresto também a minha alma para que possa sentir-se em casa. E assim, prossigo a ouvir as palavras de alguém que me quer despejar coisas como: tenho caspa e não sei como resolver. Às vezes é nítido, que tudo o que precisa é de falar. Outras, é possível confundir com necessidades que soa a necessidades reais. “Tenho fome e não tenho como comer.”. É nesta altura que me levanto e pego nas chaves de casa para correr a um supermercado e colecionar no carrinho de compras tudo o que esta mulher, esta voz feminina, sopra ao meu ouvido. O pior é que quando chego à porta não sei onde me dirigir, porque não sei se de facto esta mulher existe. Sei apenas que me grita ao ouvido. Acabo por trazer as compras para casa, etiqueto como: mulher desesperada. 

Por outro lado ouço tantas vezes aquela que me pede para dançar com ela, e como não sei do que gosta ela, vejo vezes sem conta, a minha lista de música e escolho para ela umas 7 músicas. Músicas que oiço em loop o dia todo, mas que escolho para que cada um dos dias da semana se possa cantar uma diferente. De facto, se esta mulher tiver o mesmo problema que eu, irá ouvir tudo, de uma vez só. Sou viciada em consumos musicais. Continuo, no entanto, a ouvi-la a pedir para que eu dance com ela, e por isso faço-lhe esse favor e danço.

Em jeitos envergonhados, ao ver o mar na minha frente vou despindo a roupa até nada sobrar, faço-o sem perceber se está alguém a ver. Contudo, no final, acabo por olhar ao meu redor para confirmar se estou a ser vigiada. Nada. Ninguém. Então falo, como se alguém me estive a ouvir, danço até entrar no mar e mergulho desejando ser uma sereia. 

Sou alguém que vive entre o mundo das vozes e o mundo da consciência, onde tudo é tão mau que chego a implorar para que essas vozes voltem, estranho que sejam sempre vozes de mulheres e que por incrível que pareça eu quase diria que sou eu. Porém, sou alguém tão consciente e normal que nunca me permitiria ser essas mulheres que querem ser ouvidas, ou aquelas que dançam como se não houvesse amanhã, muito menos aquelas que mergulham no mar para nadar como sereias. Afinal: sereias, dizem que não existem.