No nosso coração o que ouvimos Nos olhos o que sentimos Nos ouvidos O que lemos Na alma Com várias portas da frente, que tem código das traseiras que se trepa da cave que é pequena e rastejamos Por onde se entra? Não há portas Arrombamos e deitamos abaixo Ficam as janelas Espreitamos Saltamos Somos. Contenta-te contigo Atenta-te a ti Ao amor que não deve ser gratuito Ao amor que não se agradece Ao amor que não me pertence Onde te falo com o meu silencio E toco-te com a nossa distância Choro-te Por ti Por nós Por quem não sou Por quem não podemos ser Contento-me contigo Atento-me a ti Amo-te Agradeço-te Nós em nós Não entendo apenas sinto Procurei-te onde não me achava Achei-te como num plágio de mim Achei-me como num plágio de ti. Sentes os meus olhos? Se os sentires Poderás ver bem o meu coração Cheiras os meus olhos? Se os cheirares Poderás cheirar a Primavera. Ouves os meus olhos? Se os ouvires Poderás ouvir o mar Vês os meus olhos? Se os olhares Poderás ver o amarelo.

Perdi a cabeça. Podia ter enlouquecido, perdido o controlo, deixado de saber quem sou, onde estou e todas essas derradeiras questões existenciais. Podia ter perdido o emprego, um comboio, a carteira, as chaves de casa ou do carro, um amor que julgava eterno ou até um cão que me era querido. Podia ter perdido o apetite, a energia, a vontade, a memória, a paciência, a fé, a coragem… Mas perdi a cabeça.
Soltou-se fisicamente do meu corpo. Não sei precisar o tempo que perdi à procura de alguém que se fingisse especialista capaz de ajudar nestes casos de cabeças perdidas. Salvou-me uma costureira. Encarregou-se de me encher de nagalhos no pescoço para que a cabeça ficasse amarrada a mim e não me fugisse mais. Chamam-me enforcado, tal é a malha de nagalhos em nós cegos. Eu próprio já lhes perdi a conta.
Tudo começou com uma dor na coluna. Trepou-me vértebra por vértebra e, assim que pôde, agarrou-se ao meu pescoço. Entrou pescoço adentro e esticou-se até o distender. Milímetro a milímetro, senti-os todos. Já o pescoço se via mais alto quando a dor, que julgava terminar ali, me sobe cabeça a cima. Trepou até à ponta da coluna e desaguou no que pareceu ser o centro do meu cérebro. Aí, desatou numa correria desenfreada, como quem faz do crânio uma esfera da morte – aquelas estruturas esféricas metálicas onde motas correm a altas velocidades, não sei bem se a fugir da morte, se a correrem atrás dela. A dor correu então pelo crânio e atropelou sem piedade toda e cada partícula de osso a uma velocidade que duvido ser sequer mensurável. Arrancou depois sem aviso e foi como se me tivesse atravessado a testa, esmigalhando toda a estrutura óssea que a constitui. Saiu de rompante, mas nem por isso deu espaço ao alívio. Foi como se me rebentasse a cabeça num ápice agudo e voltasse para pisar a cratera que me abriu. Nesse momento desejei não ter cabeça, quis oferecê-la à dor. Não sei se me levou a mal e quis ir ou se a levaram. Sei apenas que se foi.
Não é surpreendente que o meu corpo me desobedeça. Sou pouco coordenado, lento e desajeitado. Nunca encontrei especial habilidade para o desporto e quando a cabeça se soltou revivi a minha curta experiência no volley. Senti-me de novo a correr timidamente, em círculos e sem critério. Jogava sempre de mãos no ar, mas a bola nunca lhes tocou. Tinha a intenção, mas faltava-me intuição. A cabeça-balão soltou-se acelerada como um balão largado ainda sem nó e, tal como a bola, não sei deixava agarrar. Já era tosco quando era inteiro e a divisão não me beneficiou.
Primeiro, é preciso algum tempo para reaprender a controlar o corpo sem o comando. Refiro-me à cabeça que, quando se liberta do corpo, renuncia à responsabilidade sobre o que nele acontece. É necessário um nível de destreza quase olímpico para almejar tocar-lhe. Agarrá-la parece coisa do divino. Depois de vaguear como quem corre, começa eventualmente a abrandar. Mas neste ponto da expedição, parece transformar-se num balão de hélio e aponta ao céu como destino. No caso, ao teto. A minha casa é alta e não sou bom trepador. Um pequeno toque, por muito cauteloso que seja, pode atirar a cabeça para outro canto. Tentei de tudo, até reconduzi-la com o auxílio de um cabo de vassoura. Foi medianamente eficaz, mas altamente desconfortável. Quando finalmente a recuperei, sentei-me no sofá com ela ao colo. A visão continua do lado da cabeça. Olhei atentamente para o meu pescoço meio desfeito com quase tanto asco como entusiasmo. O que podia exigir de mim? Tinha acabado de perder a cabeça. Lembro-me de tudo e sei precisamente como aconteceu, mas isso não me junta a cabeça ao corpo, nem explica porque é que ela se foi.
Recorri ao meu psicanalista. Respeito o homem e o seu trabalho, mas desde que lhe contei tudo sobre como perdi a cabeça, o pescoço do senhor ganhou dois centímetros e quarenta e dois milímetros. Foi este o cumprimento preciso que o meu pescoço viu crescer numa primeira fase, que antecipava o momento em que ela se soltou de mim sem permissão. Não digo sem aviso porque o sinal estava lá. Não soube interpretar e a ciência não estava ainda preparada.
Dou por mim nas sessões de terapia a alertar o psicanalista de que estão prestes a rebentar. Não as águas, mas as costuras invisíveis que lhe seguram a cabeça. O homem ri. Mas ri dois centímetros e quarenta e dois milímetros mais acima do que ria antes. Com a precisão que olho me concede, tenho registado o crescimento do pescoço do doutor nos últimos meses. Se o caso dele se manifestar da mesma forma que o meu – como tem sido – faltam-lhe apenas sete milímetros para atingir a expansão que o meu pescoço tinha à data da separação. Pelas minhas contas, a cabeça vai descolar pescoço-pista fora às 15h56 de quinta-feira.
Ofereci-lhe nagalhos, mas não os quis. Deu-os ao cão para brincar. Sempre que ouço as unhas grossas do cão arranhar o chão flutuante do consultório, imagino o momento em que a cabeça do doutor levanta voo e se transforma num brinquedo. Será que vai chiar, como os brinquedos coloridos insuflados que o cão costuma trazer alegremente entre os dentinhos afiados? Chamo-lhe cão porque não sei o nome. O doutor recusa-se a dizer-me como se chama. Diz-me que é uma informação muito pessoal e não podemos criar laços. Nem criar laços, nem trocar nagalhos, e a cabeça que se vá. Já nem é por ele, que parece quase curioso por experienciar esta perda, é por mim. Podendo escolher, preferia um psicanalista inteiro. Como posso esperar que o doutor me resolva o problema do qual o próprio sofre em negação? Ninguém pede a um coxo para lhe ensinar a correr.
Estou mais determinado a encontrar possíveis motivos para tudo isto do que o psicanalista. É esforçado, mas peca pela falta de criatividade. Gere as minhas deambulações, mas não contribui especialmente para elas.
Comecei por baixo na escala da insanidade. Primeira opção: a culpa é minha. Sempre sofri com dores de cabeça. Desde que me lembro de a sentir, ela doía com alguma frequência. As crianças não estão preparadas para sofrer tanto e eu rogava pragas ao universo por me fazer sentir assim. A minha mãe caminhava sobre joanetes disformes que lhe causavam uma dor tão aguda que chegava a chorar. Dizia com frequência que preferia cortar os pés a sentir aquilo. Não fosse mimetizar uma arte das crianças, eu próprio considerei que cortar a cabeça podia ser a solução para o meu mal. Disse, pensei e senti que queria não ter cabeça. Talvez me tenha amaldiçoado. Ainda assim, parece-me coisa pouca para tamanho circo.
A necessidade de perceber o porquê foi perdendo intensidade com a clara falta de respostas. O psicanalista apresentou-me uma tese que me roubou vontade de mergulhar tão fundo porque, pasmem-se, a culpa também era minha. Atirou-me à cara um episódio trágico. Tinha quatro anos quando decapitei o Sebastião, um peixe dourado que exigia responsabilidade que eu ainda não possuía. Numa manhã fria e sem vigia parental, encontrei-o a boiar e tentei reanimá-lo. Quis fechar-lhe os olhos como se vê fazer na televisão, mas não havia pálpebras que os tapassem. Os olhos ainda brilhantes e desproporcionais provocaram-me desconforto tal que, com força desmedida e num impulso que ainda hoje não compreendo, separei acidentalmente o corpo da cabeça. A imagem da cabeça do Sebastião na minha mão direita e o resto do corpo na mão esquerda assombraram-me em pesadelos recorrentes durante anos. O psicanalista diz que a culpa que guardo pode ser a causa da desintegração do meu corpo, o que me permitiu concluir que não preciso assim TANTO de uma razão. Culpa há muita e acho desnecessário chafurdar.
Escolhi ver os nagalhos que me seguram a cabeça como uma piada – ainda que palerma – sobre a minha distração crónica. Ouvi mais vezes do que seria tolerável “só não perdes a cabeça porque está agarrada”, facto que vim a comprovar pouco depois da primeira tentativa de a segurar. Percebi a piada, não ri e queria o corpo antigo de volta, por favor. Obrigado.
Confirmei a precariedade do primeiro kit de nagalhos pouco depois de o instalar. Corto o cabelo na barbearia do senhor Zeca há mais de dezoito anos. A idade já lhe pesa na vista, os óculos deslizam nariz abaixo e, nos últimos cortes, a navalha deixou um rasto trágico, parecia guiada por uma toupeira.
O senhor Zeca começa sempre de baixo para cima e sempre atrás, onde o pescoço se cobre com os primeiros cabelos. Precisamente o local onde a dor se fixou antes de invadir o interior do meu crânio até sair num ápice pela minha testa. O senhor Zeca é um bom homem, mas é céptico. Pedi-lhe que tivesse cuidado, não fosse dar-me cabo do sistema sem querer. Incrédulo, repetiu várias vezes que era “impossível”, mas que eu era “muito engraçado”. Mesmo estando a ver todos os nagalhos, não acreditava. Explicar que tenho a cabeça presa ao corpo por pequenos cordelinhos tem tanto de insano como de exaustivo. Mas também não posso não explicar.
O senhor Zeca não acreditava, nem aceitava a minha explicação. Já me contento quando acenam e me chamam maluquinho com os olhos. Mas a reação do senhor Zeca custou-me. Conhece-me há anos, esperava outra postura. Ouvi-lo descredibilizar o meu problema e a minha dor daquela forma, fez nascer em mim revolta. Ponderei, durante dois segundos, desfazer todos os nós e soltar a cabeça à frente dos seus olhos só para lhe mostrar que não tinha graça nenhuma. Levei a mão a um dos nagalhos centrais mas, felizmente, apesar de solta, a cabeça preserva algum juízo e soube acalmar-me a tempo. Não tenho especial prazer em traumatizar idosos.
O senhor Zeca percebeu que me arreliou. Olhou-me pelo espelho e mostrou-se mais cuidadoso. Notei pela sua conversa que estava a tentar avaliar o meu estado e diagnosticar-me uma qualquer loucura que justificasse os preparos em que me apresentei. Entre cortes, desviava o olhar dos nagalhos. Vi-lhe o esforço, vi a tentativa de olhar para eles como quem não os vê. Sem sucesso, retomou o corte de olhar fixo no espelho, sempre nos meus olhos refletidos no espelho e nunca no meu pescoço, nunca nos nagalhos! Percebi que sairia com o pior corte até ali testemunhado, mas antes isso que uma guedelha a tapar-me os olhos. Tentei explicar-lhe que a minha vida estava tão boa ou tão má como habitualmente. Jurei que nada tinha a ver com enforcamento. “Queres morrer?”, perguntou-me, preocupado. Hesitei, mas respondi “às vezes”. O senhor Zeca afastou a navalha da minha cabeça, inclinou-se para trás e observou-me mais atento. Ri e perguntei “quem nunca quis?”. Relaxou, mas não totalmente. Antes de retomar, tentou convencer-me a deixar crescer o cabelo. “Disfarça os nagalhos, se não os quiseres tirar”, propôs-me quase como quem pergunta. “Não os posso tirar”, disse-lhe, menos paciente. “Um dia vais poder”, respondeu-me com um olhar esperançoso e uma palmadinha quente e condescendente nas costas. Julga-me louco. “Acho que o senhor Zeca não está a perceber… Se os desapertar, ela vai-se”, apontei para a minha cabeça. Não me respondeu.
Vi-o concentrar-se no meu pescoço, levou a mão direita à bata e sacou de uma pequena tesoura. Ouvi o corte. Senti o corte. Foram-se três nagalhos e a minha nuca começou a elevar-se, como um verdadeiro balão com corda solta para voar. Suspirei aborrecido e tentei servir-me do espelho para agarrar a cabeça e atar de novo os nagalhos. O senhor Zeca, de tão aterrorizado, parecia congelado. Pálido, recupera apenas o suficiente para dar três passos acelerados para trás. De mãos na cabeça, olhei-o e dei-lhe alguns minutos para se recompor. As pálpebras do homem continuavam a desafiar a física e abriam mais e mais. “É verdade”, disse o homem entre gaguejos. Confirmei-lhe o que via e pedi ajuda para voltar a amarrar a cabeça ao corpo. Cedeu hesitante, quase enojado, mas sobretudo arrependido. Larguei a cabeça quando ele a agarrou. O senhor Zeca sentiu a força da cabeça-balão e, talvez assustado, largou-a bruscamente. A nuca voltou a virar-se para o céu e o movimento fez soltar mais uns quantos nagalhos. “Ela flutua!”, exclama mais entusiasmado. Para lá dos meus pés, só conseguia ver a minha vida a andar para trás. Consegui amarrar a cabeça, mas continuo à procura de um barbeiro… O senhor Zeca não me apanha lá que não tente cortar uns quantos nagalhos para me exibir aos outros clientes como um número de circo incluído no serviço.
Talvez tenha enlouquecido, perdido o controlo, deixado de saber quem sou, onde estou e todas essas derradeiras questões existenciais. Talvez tenha perdido o emprego, um comboio, a carteira, as chaves de casa ou do carro, um amor que julgava eterno ou até um cão que me era querido. Talvez tenha perdido tudo e isso me tenha levado a perder a cabeça. Não sou louco, sou um decapitado que respira e procura um barbeiro. A cabeça fez-se balão, mas nem assim deixou de doer.
Não eram Margaridas
Conduzimos para fora da lei
Naquele teu dia de anos.
A quarenta minutos da cidade,
Não tínhamos de ser bons,
Não tínhamos de ser maus,
Nem sequer tínhamos de saber de nada.
Ninguém tinha de saber de nada.
Dei-me por feliz por termos chegado até ali.
O tempo deu-nos permissão,
E nós demos-lhe propósito,
Onde, encontrados num campo de margaridas,
Não tínhamos de ser bons,
Não tínhamos de ser maus,
Nem sequer tínhamos de saber as nossas canções.
Ninguém sabia que eram nossas as canções.
E eu dei-me por feliz por ter chegado até ali.
próxima paragem: sítio nenhum
o tempo passa cada vez mais depressa. sinto-o aumentar a velocidade cada vez mais à medida que vou crescendo, como um comboio ao arrancar. os dias continuam a ter 24 horas, mas nenhuma delas pode ser passada sentada debaixo de uma árvore a ler um livro ou a ouvir os pássaros porque isso seria uma “perda de tempo”. o que é ganhar tempo, então? será “ganhar tempo” passar os dias a trabalhar para ganhar dinheiro para depois gastá-lo no tempo? aquela semana do ano em que estamos de “férias” e passamos as “férias” a pensar “passam tão rápido”.
universo dentro de universos sobre universos sem universo mas
cheios de nada.
não passa disso,
Tempo.
não passa cá para fora está
preso.
preso e preso a ser-se si mesmo
só o sentimos na pele quando vivemos muito ou não vivemos de todo. quando o contamos minuto a minuto enquanto aguardamos a nossa liberdade, ou quando estamos tão livres que ele já passou.
(tentemos) fazer disto um bom sítio de viagem
como quando vamos a caminho de algum lugar e fazemos do lugar onde estamos o mais confortável do comboio
ou do autocarro
ou
cá dentro percebem
deve ser esse o propósito
não ir a lugar nenhum e ainda assim
estar no lugar mais confortável deste comboio
Poesia em 14 Lugares Concretos
Os lugares são
a geografia da solidão.
São lugares comuns a casa a cama.
(Manuel António Pina)
I FALÉSIA DE PORTO CÔVO Neste sentimento que me tem na vertigem de cair em nós Gasto os beijos que não se gastam e salto aqui neste ter não ter onde não tenho chão só queda livre Confio que há um oceano para nos receber Mergulhamos Mergulhámos na inigualável sensação de medo Salva-me o cheiro e o calor do naufrágio em que juntos inventamos um mundo II CALÇADA DA RUA DA MADALENA A pergunta é quando Não só esperar até ser Esforço de quebrar Imóvel permaneço E tropeço E caio Na terra de ninguém III SALA DE PINTURA NAS BELAS-ARTES Sinto como facadas cada vez que de longe me queres falar Queres falar-me e não o fazes porque não mereço O beijo que não me dás As mãos que não me tocam no corpo O sorriso que não me ofereces porque não mereço Aqui me fico no meu canto esquivo Esquissos os teus desenhos Pinturas no vazio Dedos que trabalham sem destino Pensamentos com destino em mim São esses os que guardo Os pensamentos Porque é o que tenho teu Acarinho essa solidão Porque foi o que me deixaste Com ternura e amor IV PRAIA DA CRUZ QUEBRADA Quando tudo parece nada Quero nada Navego ao sabor amargo da ausência Sonho os dedos cabelos Sonho a Vertigem queda Sonho o espesso vazio do sangue quente Quero tudo V RODOVIÁRIA DE SETE RIOS Um terço da vida toda é feita disto Do que sentes agora O resto é chegar ou partir Pegar ou largar Esquecer Lembrar VI FOYER DO TEATRO NACIONAL (AFORISMO) Há quem padeça de teatro estético, de teatro físico, teatro da palavra, teatro clássico, teatro político, há quem padeça de teatro biográfico ou autobiográfico. Mas há um teatro de que todo o actor padece. O teatro auto-inflingido VII CARRO Estradas em contramão CARRO (2) Olhos na estrada do mendigo A viagem é em contramão Perco sempre aquilo que digo No contorno suave da tua mão VIII À PORTA DE CASA (DEPOIS DE A FECHAR) Estar contigo é lembrar-me às vezes da minha desilusão-própria Namoro o exaspero Desconfio da porta de casa Silencio a palavra-pensamento Salto para o vazio Olvidando desatar o nó E morro (des)abraçado IX CASA DE BANHO (REFLEXO/REFLEXÃO) Sou bastante asseado Considero-me uma pessoa bastante asseada Gostaria de ser uma Pessoa Asseada também Uma Pessoa Asseada e uma pessoa asseada CASA DE BANHO (CHÃO) Onan morreu Dos escombros Renasci Jamais só Contigo Ininterrupto Orgasmo eterno Cego Surdo Mudo Mas eterno X SALA DE ESTAR Suspeitei das sobras dos sussurros assustados Dos dissimulados serões de sofá Salvei as sinopses das emoções passadas Das futuras não sei se as há A chaleira vai chiado mas não gosto de chá Sem saber acendi um cigarro E sabendo o que sei dos assuntos sensíveis Distraí-me mortalhando o passado Ainda ontem indigente fui inventar o epitáfio Para inscrever sobre um túmulo nosso: Aqui jazem os restos mortais de um amor Não deixem que morra o vosso. XI SOFÁ Rezo e quero Espero também Ativamente Busco incessantemente O comando da televisão XII CAMA DE CASAL O frio que está hoje vem de dentro para fora, como um grito CAMA DE CASAL (2) Ah! pudesse eu estar de quarentena CAMA DE CASAL (3) Eu sou em ti tanto Que sou mais eu em ti E entretanto quando só me sinto No labirinto de me encontrar entre tantos outros eus Tu que sabes bem e sabes tão bem vens por mim vens para mim desembocas a tua boca na minha encontras o que eu procuro soltas-te para me agarrar E na madrugada da vida toda nus de tudo e juntos Os meus olhos pelos teus veem o meu corpo pelo teu transpira respira suspira Só porque é assim Só Porque sim Só Porque é verdade Só Mas só contigo XIII VARANDA DO QUINTO ESQUERDO Gostava que fosses mais gorda Para ocupares o espaço todo Do meu abraço VARANDA DO QUINTO ESQUERDO (2) Sou mulher em permanente parir de mim Amo como quem respira Fujo pela janela para um momentâneo ar Mulher é muito mais Tanto mais que a poesia Tanto E mais XIV COZINHA Entonteço e então teço o teu estômago nos meus intestinos, e a alma na lapela COZINHA (2) Como como quem come Oh, que inovação Que rasgo de lucidez Que epifania esclarecedora Que tranquilidade desceu sobre mim com este conhecimento! Tristes aqueles que comem como quem vive Ou como quem faz amor Ou como quem acede a uma dimensão superior Ou como quem! quem! quem! Como os da raça canina. Como e como sabe bem comer delicio-me na alimentação Nutro o corpo Sacio o espírito Mas sempre no espírito de quem come Pois quem come como eu como (que é como quem come) Come, apenas Que é como se deve comer
Palavras à solta
A construção do texto seguinte é baseada na utilização de palavras previamente escolhidas de forma aleatória.
Eram 5h00 da tarde quando o escocês da perna de titânio entrou porta adentro. Podia jurar que uma manada de elefantes, a viajar em benzodiazepinas, tinha acabado de chegar. Pousou três garrafas em cima da mesa. Whisky, vodka e limoncello, perfeitamente alinhadas. Pegou numa bola de ténis, que trouxera com ele, e decidiu que era tão boa altura como qualquer outra para jogar bowling. Caíram as três. Duas partiram e, como se não estivesse bonita a confusão, ele foi apanhar a terceira garrafa e cortou o indicador numa daquelas veias que quase nos dá banho. Senti-me num western do Tarantino, prestes a ganhar o prémio de motion picture com mais sangue. Os moços que estavam no jogo continuaram como se tivessem recebido um email da EDP e sobrou para mim levá-lo à Urgência. Sobra sempre. Se o futuro do mundo dependesse de uma descoberta qualquer, relacionada com as células estaminais, também seria eu a ter de as ir colher. É.
Um coração humano bate em média entre 60 a 70 vezes por minuto. Para o ser humano que vive em média 80 anos chegamos a quase 3 mil milhões. Ou se preferirem 3 000 000 000 de batidas. São muitos zeros. Acrescentemos a esta equação que durante muito tempo suspeitou-se que os corações tinham um número limitado de batidas. Neil Armstrong, o primeiro humano a pisar a Lua, foi metido nesta discussão ao ser-lhe atribuída uma frase (entretanto desmentida) onde dizia que “Acredito que cada ser humano tem um número finito de batidas. Por esta razão não pretendo desperdiçá-las a correr ou a fazer exercícios”. Para todos e todas que já pensavam em cortar nas horas de exercício para não gastar as vossas batidas, podem esquecer este argumento pois há muito que foi desacreditado.
O coração é na verdade um órgão fascinante. É dos poucos órgãos que podemos sentir com as nossas mãos. Dizemos que bate, mas também que dói, que aperta, que aguenta, que se remenda, que pode ser embalado, que acelera, que se entrega, que late, que se maltrata, que se abre e eventualmente que se parte. Acontece-lhe de quase tudo e tem até um dia onde é rei e senhor das montras e aparece em tudo o que é lugar. No entanto a sua função básica é o garante da vida. Ao bater, alimenta as células e oxigena o corpo. O dos humanos, mas não só.
Recentemente lembrei-me de um coração do qual poucos esperavam muita coisa. Trata-se de Laika, a cadela condenada a ser o primeiro ser vivo no Espaço. Laika foi escolhida (com uma substituta), entre os cães de rua de Moscovo e foi-lhe dado um bilhete de ida na Sputnik 2. Durante vários meses foi preparada para a viagem que lhe levaria à órbita terrestre, mas poucos acreditavam que sobreviveria a fase inicial do voo. Com a instalação de diversos sensores no seu corpo, Laika foi colocada no espaço exímio da cápsula que lhe foi reservado e que lhe serviria de transporte. Ali ficou 3 dias para se habituar.
No dia da partida os cuidadores despediram-se dela. Durante a fase da descolagem, o som dos reatores e a pressão assustaram-na de tal forma que o seu ritmo cardíaco triplicou. Contra todas as expetativas Laika sobreviveu. Uma vez em órbita, estima-se que Laika tenha sobrevivido durante 103 minutos e completado entre 5 a 6 das 2570 órbitas que a Sputnik 2 completou nos seus 5 meses de missão. Após a órbita número 4 a temperatura no interior da cápsula atingiu os 32 graus e a vida tornou-se praticamente insustentável.
O coração da Laika não utilizou todas as suas batidas durante a sua estadia na Sputnik 2, ainda assim conseguiu latir mais forte que os reatores de uma cápsula espacial.
Papagaio Amarelo
Alice vivia sozinha, mas nem por isso alguma vez se sentiu sozinha. Grande parte deve-se à sua vizinha Papagaio Amarelo, assim a trata Alice, de forma carinhosa, claro. Papagaio Amarelo vive no prédio laranja em frente ao apartamento de Alice, entre elas há um jardim, muito bem arranjado e verde, graças à relva, árvores e arvoredos, com bancos que permite alguns dos habitantes partilhar algumas palavras em momentos de descanso. Muito embora este jardim não seja exclusivo destes habitantes, é um jardim rodeado de prédios e apenas ruas estreitas e com chão em terra ou paralelos bem mal amanhados, por isso normalmente só mesmo os habitantes sabem deste jardim maravilha, no centro de uma cidade agitada. O jardim parece um autêntico paraíso, mais do que isso, é uma mini floresta encantada entre prédios, talvez só tenha sobrevivido sobre os tempos porque aqueles prédios se ergueram ao seu redor. Há uma árvore centenária bem no centro que é o ponto de referência para todos aqueles que conhecem o jardim. Por ser o centro é como o sol dos prédios envoltos.
Papagaio Amarelo, vive no prédio laranja bem em frente de Alice e gosta de comunicar todos os dias as notícias mais importantes do dia, é como o noticiário, ela gosta também de as repetir 3 vezes, não vá alguém ter apanhado o noticiário a meio. 9h da manhã e Alice pega no café, senta na sua varanda respirando fundo e sentindo na pele os primeiros raios do dia na pele. Papagaio Amarelo: “Aviso Amarelo para os habitantes. Vão sentir-se ventos fortes e chuvas intensas. Repito. Aviso Amarelo.” Quando ela disse repito não estava de facto a repetir, estava só na primeira leva desta notícia. Alice, sentia o sol a brilhar e aquecer a pele, portanto não levou o aviso amarelo feito pelo Papagaio Amarelo muito a sério. Bom, mas ainda não vos contei porque é esta vizinha apelidada de Papagaio Amarelo, já todos percebemos que ela repete as notícias 3 vezes e muito provavelmente ouve-as na rádio ou televisão logo pela manhã, depois a meio do dia e finalmente à noite. Ela tem outro aspeto característico: pinta o cabelo de amarelo, por isso, Alice vê um ponto amarelo, ao fundo, de uma varanda alta que espalha as notícias.
Desta feita, era o aviso amarelo, mas Alice até quase se engasgava com o café de tanto rir sobre este tal aviso amarelo. Alice acabou por limpar o café que verteu e foi para o computador, onde está o dia todo, ela passava o dia inteiro no computador a trabalhar. Ainda assim, sempre que alguém lhe ligava para o que quer que fosse, ela parecia nunca estar a trabalhar, sempre teve tempo para os amigos, os pedidos de ajuda e para tudo o que eventualmente aparecesse. Alice tinha apenas um hábito: ir até ao jardim paraíso, junto da árvore ler um pouco depois do almoço. Era quando ouvia as notícias da Papagaio Amarelo que fechava o livro e voltava para o computador.
Anoiteceu, e com a noite chegaram as nuvens e com elas, a chuva, a chuva virou trovoada e esta desligou a corrente elétrica. Todos os prédios que habitualmente iluminavam com a luz de cada casa o jardim central apagaram-se e assim ficou todo o jardim às escuras. No dia seguinte, o jardim estava revolto, ramos partidos, poças de lama e tudo desorganizado. Porém, não era só o jardim que estava em pântanos, eram 9h e Alice não foi até à varanda, a Papagaio Amarelo não espalhou as notícias e todo esse dia pareceu uma continuidade da noite.
No dia seguinte, Alice foi até à varanda colocar as coisas no lugar, arrumar tudo o que o vento levou e a chuva destruiu. 9h e nada ouviu, meio do dia e já nem lhe apeteceu ler, fim do dia e sentia como que não conseguisse fechar os olhos e dormir.
Outro dia ainda e pelas 9h da manhã Alice não quis levantar da cama, mas Papagaio Amarelo começou com as suas habituais notícias, suspensas depois do tal “aviso amarelo”. Alice subitamente sorriu, e como se uma nova vida tivesse nascido nela, levantou da cama, foi buscar o café e sentou na varanda.
Papagaio Amarelo: “A luz voltou a minha casa, já vos posso dar mais notícias.”.
Aconteceu-me nessa noite ter uma insónia, pois são raras as vezes que não durmo que nem uma pedra. Poderia enumerar as razões que me mantinham acordado, mas pensar nelas propositadamente iria manter-me ainda mais acordado. Assumi a minha insónia, levantei-me, vesti o roupão. Da mochila, tirei o maço de tabaco. Abri a janela da marquise da cozinha já de cigarro na mão e, nesse preciso momento, observei a coisa mais estranha que alguma vez vira. No parque-infantil – este encontra-se no jardim que serve de vista à marquise – estavam dois homens, ambos de tronco nu, a olharem-se intensamente enquanto andavam em círculo. O diâmetro do círculo ficava menor a cada volta que os homens davam. Estavam cada vez mais próximos, já a um braço de distância. Não se ouvia nada. Apenas era visível a sua respiração, quase animalesca. As suas cabeças curvavam-se para a frente, a qualquer momento poderiam se cabecear ou beijar. Um deles, não era possível distinguí-los, agarrou o outro pelo pescoço e levou-o ao encontro do seu joelho arqueado. Foi aí que ouvi um primeiro som, um gemido alto de dor, que me fez fechar os olhos por breves segundos; quando os abri, estava deitado no chão a recuperar o que acabara de levar uma joelhada; levantou-se, limpou o nariz ensanguentado com o braço e demonstrou-se de novo pronto. Estavam novamente perto, muito perto, um do outro. Alguns segundos depois, o ensanguentado vai, de punho cerrado, à garganta do outro, que a agarra enquanto tosse e respira como um asmático. O ensanguentado nem esperou pela recuperação do outro, não percebi como mas imobilizou-o rapidamente no chão com um joelho no chão e outro na caixa torácica do imobilizado, que continuava a tossir. O sangue que continuava a jorrar do nariz do imobilizador caía sobre a cara do outro. Ficaram-se naquelas posições e eu, que sustentava a respiração há algum tempo, voltei à minha realidade, percebi que tinha um cigarro na mão que não acendi. Peguei no isqueiro que já cabia dentro do maço e acendi. A chama do isqueiro chamou a atenção da visão periférica do imobilizador que agora olhava na minha direção, e eu, em pânico, fechei a janela da marquise, não querendo terminar sem camisa a lutar num parque-infantil.
Curiosamente, nessa semana, não consegui dormir bem uma única noite; acabava por me levantar várias vezes durante a noite e ir até à marquise fumar um cigarro enquanto observava o parque-infantil. Continuo sem saber o que me manteve acordado nessa semana: se os meus problemas ou o daqueles dois homens.
O Homem Mealheiro
Ouço em mim, nos passos que dou, o dinheiro que tenho a chocalhar. Ou o que não tenho, porque ouço o que não chocalha também. Ouço o vazio que ele deixa, o eco que preenche o vazio que esse dinheiro – o que não tenho – ocupa. O que há é tão pouco que se conta em meia dúzia de moedas que dançam corpo acima corpo abaixo. Como pedras num adufe, ameaçam rasgar-me a pele. Se rasgarem, que desenho farão na minha pele? São ferrugentas, encardidas e gastas. Gastaram-se a trabalhar.
Sou como um mealheiro quebrado, o tostão entra na ranhura sobre a minha cabeça e, antes mesmo de pestanejar, está a escapar-me pela planta do pé. Mesmo que o pise, não é meu. O dinheiro que ganho não chega a ser meu – não chega a ser eu. Não somos o dinheiro que temos, dizem sempre, mas o que temos tem poder sobre o que somos.
Penso tanto no dinheiro que não tenho que o ouço sempre chocalhar. Queria o silêncio porque silêncio seriam notas. O silêncio seria o conforto de uma casa que não tenho. Canta um Bernardo que passou a vida a trabalhar para fazer nada e o homem tem razão. Trabalhamos não para poupar ou viver mais confortavelmente, mas para manter seis tostões corpo acima corpo abaixo, conscientes de que nos vão fugindo dos pés, por isso, enchemos a cabeça.
Ouvem? Chocalho para cima, chocalho para baixo. Outra e outra vez. Não fosse a pele um cobertor que abafa a cantiga das moedas, pareceria eu uma pandeireta?
Jurei colar os pés ao chão para segurar os tostões, mas parado não lhes dou uso nem lhes arranjo companhia. Viver é gastar: o dinheiro, o corpo, a vida, o mundo – é gastar tudo o que somos e tudo o que nos rodeia. Gastar as pessoas, até.
A palavra gastar soa a ato irresponsável, como se fosse um capricho ou ímpeto obscuro tão forte como o de um vício. Vestiram-na de má fé e tornou-se depreciativa. Gastar é coisa da ralé, os ricos investem. Prefiro a palavra dar a gastar. Isso sim é coisa de ralé, os ricos pouco dão. Dar dinheiro a negócios, prazeres, lazeres. Dar o corpo a negócios, prazeres, lazeres – às pessoas, ao mundo, a manifestos, dar o corpo ao que quisermos. Dar a vida à morte, negociar a duração dos negócios, prazeres e lazeres, negociar a validade. Dar a vida à morte porque lhe estamos prometidos. Dar vida às pessoas, aos sítios e aos negócios, prazeres e lazeres a que a dedicamos. Dar mundo a quem conhecemos entre negócios, prazeres e lazeres. Dar mundo ao mundo que seremos mais um filho seu, mais ossadas para o cimentar. Mais uma dádiva. Damos mais do que gastamos. Gastar pressupõe – deixem-me teorizar – uma escolha, uma certa luxúria ou desejo cru de querer ter. Eu quero gastar isto naquilo porque eu sou assim e quero ter, posso ter. Damos a vida porque a temos e sabemos não ser só nossa. Aprendo que o dinheiro também não. Nem o mundo ou mesmo o corpo.
A relação que temos com o dinheiro é de possessão. Resta esclarecer se somos nós que o possuímos ou ele a nós. Se eu for, de facto, um mealheiro, posso só guardá-lo, sem que ele me pertença. O poder está do lado dele. Não precisa que o guarde, existe por si e há sempre alguém que lhe deita a mão. Já eu, se mealheiro, preciso dele para justificar a minha existência. Se homem, dependo dele para sustentar a minha existência. O dinheiro pode sempre mais.
Cresci na dinastia do dinheiro, onde as vidas se fazem em prol do rei. A veneração era tal que penso em dinheiro desde que penso em ser. Desde que sou. Lembro-me de olhar desiludido para as minhas mãos pequenas, gordas e quase sempre sujas, porque não lhes chegava um tostão. Trabalhar, ganhar, poupar, perder, precisar, pedir, gastar, querer. Todos querem dinheiro. Tenham muito ou pouco, quer-se sempre dinheiro. E eu quis dinheiro assim que a vontade me nasceu. Corpo pequeno, ossos quase moles, sentia pouco mais do que fome e sono, mas nasceu-me a vontade e gritou: dinheiro. Com a vontade veio a angústia, porque querer nunca vem só. Querer é fácil na medida em que nos é inato. Nem todos quereriam nascer, mas, nascendo, quer-se tudo. Até os que não queriam nascer passam a querer não ter nascido. Como querer não é necessariamente poder, quando não se pode, quer-se não querer.
A ânsia de querer existe porque nos satisfaz almejar. A inundação de vontade ajuda o sangue a fluir corpo acima, corpo abaixo – como as moedas. Mas querer sem poder tira o encanto à inundação e transforma-a numa corrente forte e agressiva que nos cansa por dentro.
Era ainda um garoto com jardineiras de pano e, antes de sentir a porrada que é querer e não ter, encontrei uma moeda no chão. Fiel à dinastia que nos governa, apanhei-a com os meus dedos gordos e imprecisos, apertei-a com a força que tinha e senti o que é concretizar o querer. As mãos finalmente encontraram um tostão. A vontade gritou-me que o guardasse, mas as jardineiras de pano não tinham bolso e eu não era – ainda – um mealheiro. Comi a moeda. A única, até ver, que não me escapou do corpo pela planta do pé.
Talvez tenha sido esse o dia em que o meu corpo, a par com o que já ia na minha cabeça, se transformou num mealheiro. Terá sido nesse dia que se começou a esculpir na parte superior do meu crânio – a que se dá à lua, ao sol, ao trono alto do rei dinheiro cuja sombra nos cobre a todos – a ranhura do mealheiro que sou.
Levantei-me trôpego e depressa ouvi baixinho o que viria a ser o chocalhar da moeda. Não era ainda um chocalhar corpo acima, corpo a baixo, a cada passo curto e desengonçado. Chocalhou a medo e enterrou-se no estômago por algum tempo. Ouvi ali, pela primeira vez, o primeiro tempo do compasso que me persegue. A planta do pé estaria ainda intacta. Julgo que não teria o tamanho suficiente para se deixar fazer ponto de fuga. Hoje há mais margem para fugirem do que para me chegarem. Perco-as a cada passo.
O chocalhar substituiu a pulsação. Quando se ouve menos, sinto a vida a ir-se com as moedas. Instala-se cansaço tamanho que nem a vontade que me grita “dinheiro” chega para o empurrar para longe. O corpo que quis forrar-se delas, talvez até fundir-se com elas, tornou-se um mero mealheiro.
Sou um mealheiro na dinastia do dinheiro. Já não visto jardineiras de pano, as moedas esmurram as paredes doridas do mealheiro estafado. Queria ser o homem moeda e sou o homem mealheiro. Entre o chocalhar irregular e a ânsia da vontade a gritar mais alto do que eu, sussurro exausto: quero não querer dinheiro.